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domingo, 1 de dezembro de 2024

OLHARES

«Quando penso no ofício do actor volta-me o medo das duas da tarde, no Teatro da Trindade com o Senhor Gutkin. Mais depressa andaria numa montanha-russa no escuro do que quereria fazer a assombrada visita ao interior de um actor.

A questão é mesmo essa: será que se pode ver um actor por dentro? Como se faz? Sobe-se uma escada, abre-se-lhe a boca e olha-se para o escuro que está lá dentro? Quantas mulheres e quantos homens é que estão no quarto escuro, sem janelas, da Greta Garbo? Seria por isso, por estar tão acompanhada, que ela dizia, num filme, o “Grand Hotel”, que queria ficar sozinha, aquele seu célebre “i want to be alone, i just want to be alone”?

Dizem que há uma oficina em que os actores aprendem. Nessa oficina o actor descobre a maneira do corpo pensar por si próprio, acabando na aparência com a tirania da mente.  

Será? Ouvi Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, contar outra história. Laughton terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.”

Charles Laughton, que quando abria a boca se lhe via uma oficina inteira por ali abaixo, percebeu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente como uma criança, mas uma criança cujo corpo pensasse com a inocência animal de um gato.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O QU'È QUE VAI NO PIOLHO?




 Parece que Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper, e com toda a sinceridade, o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.” Charles Laughton, que sabia mais do que nós todo, viu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente, como uma criança que pensa com o corpo, com a inocência animal de um gato.

Manuel S. Fonseca em A Página Negra

domingo, 26 de abril de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS - SAVANNAH, GEORGIA


Existe um preconceito que tende a considerar os americanos um povo  primitivo e pouco iletrado,  que não tem uma relação com a Cultura – assim mesmo, com cê grande – como aquela que nós, europeus, temos.

O que me oferece dizer é que, ao longo de quatro prolongadas viagens que já fiz pelos Estados Unidos da América, nunca me apercebi que a Cultura fosse tratada a pontapé. Bem pelo contrário…

Alguns dos melhores museus do Mundo estão na América, e não apenas em Nova Iorque, Washington, Los Angeles ou São Francisco, mas também em cidades mais pequenas.

O país dispõe de  inúmeras Organizações federais, estaduais e privadas de renome no domínio da Cultura. A “Smithsonian”, por exemplo, é uma das mais prestigiadas a nível mundial

É certo que a América não tem um património cultural de excelência como o da Europa, mas agarram-se com unhas e dentes ao que têm e preservam-no cuidadosamente.

Um exemplo desse património mais antigo que conheço relativamente bem são as velhas Missões espanholas californianas do Séc. XVIII que existem entre San Francisco e San Diego, que vi num excelente estado de conservação.  

Em todos os Estados, grandes casas senhoriais do tempo colonial e dos primórdios da Independência, inseridas nos seus espaços circundantes,  foram preservadas e estão abertas aos visitantes.

Por todo o lado parques temáticos permitem-nos viajar no tempo e conhecer um pouco melhor a Cultura e as condições de vida  das diversas gerações pioneiras, e dos próprios Índios, como vi em Natchez.

No que respeita às chamadas “belezas naturais”, elas são sobejamente conhecidas. São 62 Parques Naturais Nacionais pouco tocados pelo Homem, de uma beleza de cortar a respiração, proporcionando inesquecíveis experiências de harmonia e de comunhão com a Natureza. E se pensarmos nos Parques Estaduais, este número aumenta consideravelmente...

Dir-me-ão que muitos desses espaços parecem ser demasiado destinados ao turismo… E Versailles,  os castelos do Loire, o Louvre, a Tate Gallery ou os Uffizi, não o são também…?   

É verdade que, quando dela necessitamos, temos alguma dificuldade em  encontrar uma boa livraria, mas isso parece um (mau…) ar dos tempos e não algo específico dos Estados Unidos...


As próprias cidades nem sempre são feitas de grandes arranha-céus. Existem verdadeiras “cidades-museu”, como St. Augustine, Charleston, Natchez ou Savannah, para só vos referir aquelas que  mais recentemente visitei. E é um prazer passear pelas  ruas dessas cidades e ver a diversidade de estilos que oferecem ao viajante, em edifícios muito antigos criteriosamente recuperados. Puxando a brasa à minha sardinha, não imaginam a maravilha que é encontrar, em excelente estado de conservação, velhas salas de Cinema centenárias em quase todos os lugares por onde passamos.

Quando paro defronte delas e as olho parecem querer falar comigo e contar-me as suas histórias… O “glamour” que viveram nos tempos áureos, quando o Cinema era belo… As alegrias, as tristezas e os dramas que deram a ver… O que riram, o que choraram, o que cantaram e dançaram, descalços no parque, à chuva ou sobre as nuvens… A excitação da sala cheia e a agonia de vê-la vazia…

Parecem querer contar-me de tudo o que o vento já levou… Dos esplendores na relva, das condessas descalças, de tudo o que o Céu permite, das lendas dos beijos perdidos, dos filhos da noite, dos rebeldes sem causa e de todos os que só Deus sabe quanto amaram...

Mas da  história delas eu nada sei. Quando as vejo  estão quase sempre fechadas e nem as entranhas lhes consigo vislumbrar… Só à noite, quando regresso ao quarto do hotel, posso ir à “net” tentar perceber por onde passei...

Com regularidade irei enviar-vos fotografias de algumas dessas Salas de Cinema, com informações acerca da sua história, nos casos em que as consegui obter.

E vamos começar hoje com o belíssimo “Lucas Theatre”, em Savannah, na Geórgia.

Foi mandado construir por um senhor chamado Arthur Lucas, abastado proprietário de uma grande cadeia de Salas de Teatro, e foi inaugurado, com pompa e circunstância, há quase 100 anos, no dia 26 de Dezembro de 1921. Foi uma sessão dupla,  com a curta “Hard Luck”, com Buster Keaton, e “Camille” como filme principal, com a diva Alla Nazimova e o divo Rudolfo Valentino, realizado por um tal Ray C. Smallwood de que não reza a História.

À sua época, com 1237 lugares sentados,  era o cineteatro mais luxuoso de Savannah e o primeiro a possuir ar condicionado.

Resistiu durante mais de cinco décadas, mas em meados dos anos 70, com o enorme sucesso dos primeiros “blockbusters” e a progressiva passagem do Cinema para as grandes superfícies comerciais com as suas salas “multiplex”, foi obrigada a encerrar as suas portas, tal como sucedeu a muitas outras salas por esse Mundo fora. O último filme que passou foi  “O Exorcista”.

Dez anos mais tarde foi criada uma associação não lucrativa – “The Lucas Theatre of the Arts” - que tinha como objetivo angariar fundos para a recuperação do edifício, o que ainda levaria muitos anos a concretizar.


Mas isto está tudo ligado, e um grande impulso para a recuperação acabou por ser dado por Clint Eastwood ao fazer nessa sala, ainda em obras,  a festa de encerramento das filmagens de “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, de que ainda há bem pouco vos falei,  e ao doar à Associação  os lucros obtidos nesse evento.

A recuperação foi concluída e a nova abertura teve lugar no dia 1 de Dezembro de 2000, com “E Tudo o Vento Levou”, como não podia deixar de ser…

Hoje o “Lucas Theatre” é um espaço multifacetado.

A sua exploração é gerida pelo “Savannah College of Arts and Design”, que fica lá mesmo ao lado, e promove a exibição de teatro clássico e de vanguarda, de eventos musicais variados e, naturalmente, de Cinema, com particular atenção na divulgação dos grandes clássicos do cinema americano. 

É, igualmente, palco de realização de grandes festivais anuais, como o “Savannah Film Fest”, o “Savannah Philharmonic” e o “Savannah Music Festival”.

Reabilitação conseguida com sucesso, portanto, o que nem sempre acontece nestes casos…

Mas não estaríamos em Savannah se não houvesse, pelo meio, uma história de fantasmas…

Há quem garanta que este teatro está assombrado, que se veem estranhas sombras e se ouve bater palmas quando está vazio, e o “Lucas Theatre” é paragem obrigatória do “Ghost City Tours”...

Tudo terá acontecido em 1928, dizem, quando um grupo de “gangsters”, provavelmente porque o proprietário do teatro não lhes pagou a “comissão”, avançou a tiro pelo meio de uma multidão em fila de espera e matou pelas costas o pobre empregado da bilheteira, que procurava fugir, quedando-se o seu fantasma  para sempre nos corredores do teatro.

Parece que os jornais da época não registaram qualquer acontecimento parecido com este, mas já se sabe o que acontece na América quando a lenda se sobrepõe à realidade…

Mas eu gosto desta história…

Apetece-me é acrescentar-lhe outros fantasmas muito meus, aqueles que morreram nas mais belas mortes do Cinema…

Thomas Mitchel, apoiado por Cary Grant, a dar uma última passa no cigarro no “Only Angels Have Wings”…

Louis Jourdan a deixar-se matar em duelo, depois de ter lido a carta de uma desconhecida…

Margaret Sullavan a abrir a janela e a roubar um último sopro de vida em “Three Comrades”…

O soldadinho de “A Time to Love and a Time to Die” a puxar pela última vez da carta que transportava bem junto ao coração e a vê-la fugir por entre as águas... 

Sterling Hayden estendido sobre a relva com que tanto sonhara, com o cavalo a beijar-lhe a face, em “The Asphalt Jungle”

James Mason a entrar no mar e a libertar, de vez, Mrs. Norman Maine, no “A Star is Born”, do Cukor, e Pandora a fazer o mesmo, por amor ao holandês voador…


Aqueles que os próprios fantasmas se encarregaram de vir buscar, como Mrs. Muir, Jeanette Macdonald no “Maytime” e o velho marido nas duas versões de  “Smilin’ Through”...

E como fantasmas não escolhem antigas ou novas vagas, lá estará, também, o Belmondo de “A Bout de Soufle”, qual James Cagney dos tempos modernos, a ser baleado pelas costas e a andar aos esses pela rua fora antes de se estatelar no chão e levar o dedo aos lábios pela última vez, como Bogard…

E também por lá andarão aqueles que morreram de mãos dadas, como os amantes crucificados do Mizoguchi,  Joel McCrea e Virginia Mayo nesse tão belo e tão esquecido “Colorado Territory” ou  Jennifer Jones e Gregory Peck, depois de se destruírem  mutuamente, no “Duel in the Sun”…

E ainda Helen Hayes nos braços de Gary Cooper, no “Farewell to Arms” do Borzage, naquela que hoje me apetece dizer que é a mais bela morte  no Cinema…

E como os anjos também serão admitidos,  não faltará por lá aquele que tão galhardamente ganhou as suas asas ao levar James Stewart a perceber que a Vida é, na verdade, uma coisa Maravilhosa…

Tanta e tão boa gente que nos encantou e emocionou ao longo da Vida lá deve estar… 

Porque talvez que o Cinema não passe disso mesmo: bons fantasmas que povoam o nosso imaginário e nos ajudam a viver…

E é por isso que  me comove sempre tanto ver um velho Cinema ainda vivo...

Texto e fotografais de Luís Miguel Mira

sexta-feira, 10 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório. Como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a norte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti:

John Donne, epígrafe em Por Quem os Sonos Dobram de Ernest Hemingway.

Legenda: Ingrid Bergman e Gary Cooper no filme de Sam Wood Por Quem os Sinos Dobram

domingo, 13 de novembro de 2016

DANTES OS COMBOIOS


Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pelas janelas e os campos que corriam e não eu, foi o cinema que me deu a paixão pelos comboios.

O cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, daqueles que apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que no final não tinha partido e decidira ficar nos braços da sua amada para sempre.

Daqueles que faziam o Gary Cooper olhar vezes sem conta para o relógio da parede, ao lado de uma Grace Kelly de chapelinho de abas com laçarote a prendê-lo ao queixo, esperando a desgraça que devia chegar a meio da tarde.

Daqueles em cujo topo Buster Keaton se passeava, entre túneis e precipícios, a fuligem do carvão empapando-lhe o corpo.

Daqueles onde havia sempre espiões, e freiras disfarçadas, e resistentes a fintarem os nazis, e velhinhas de carrapito que de repente apontavam uma pistola e fugiam com os sacos do tesouro federal.

Daqueles onde, a meio da viagem, surgia um morto que ninguém conseguia explicar.

Daqueles onde um polícia (o mau) perseguia um ladrão (o bom), saltando de carruagem em carruagem, e a gente a torcer na plateia para que a carruagem seguinte se desprendesse do resto do comboio e o ladrão pudesse regenerar-se no colo da rapariga loira, enquanto o polícia caía pela ravina no exacto momento em que o comboio enchia os ares com o seu apito, abafando-lhe os gritos.

Daqueles que nos faziam perceber que uma vida monótona e rasteira se podia redimir por alguns momentos de um breve encontro num pequeno restaurante de uma pequena gare de uma pequena cidade, entre amores clandestinos e silêncios deslumbrados.

Dantes, os comboios eram assim. E as gares. E pequenos restaurantes,  de soalhos a cheirar a sabão e cera, de mesas de ferro e madeira, e melancólicos criados que nos deixavam nas mesas grandes chávenas de chocolate quente, que agarrávamos com ambas as mãos para que o frio passasse depressa. Aí sonhávamos com os nossos heróis do cinema, esperando que chegassem no próximo comboio, por entre nuvens de fumo, muito, muito fumo, que graça poderia ter um comboio sem fumo?, heróis com os olhos do Trevor Howard, por exemplo, e nós claro, de boina vermelha levemente inclinada e o cesto das compras ao lado, que, obviamente, ele iria carregar porque é um cavalheiro, e um cavalheiro leva sempre o saco das nossas compras, e o sobretudo no braço, mas antes disso há o tempo da paixão, que começa e acaba entre um comboio que chega e um comboio que parte, com muitos violinos em música de fundo. E fumo. Nuvens e nuvens de fumo.

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Mas há muito que os comboios deixaram de ser o que eram.

Eléctricos, assépticos, pontuais, demoram três horas de Lisboa ao Porto, têm fax e telemóvel, empregados solícitos que levam ao lugar a bandeja do pequeno-almoço e do jantar com aquela comida plastificada igual à que servem nos aviões. Têm homens de negócios apressados, cada um com o seu computador portátil e a sua pasta de cabedal, aproveitando o tempo de viagem para adiantar a reunião que vão ter mal o comboio chegue, para acabarem o artigo de opinião par o general de referência, para pegarem no telemóvel a pedir que esteja um carro à sua espera na estação, porque não podem perder um minuto.

Rápidos, os comboios já só param nas estações importantes. As pequenas gares desapareceram e, com elas, os pequenos restaurantes de soalhos a cheirara  sabão e cera. Nas novas gares há apenas arremedos de snack-bares, com cadeiras de plástico voltadas para o écran da televisão lá no alto, onde uma loiraça venezuelana de sotaque carioca ameaça «ainda tens de sofrer muito, Abigaíl Gusmán!»

As nuvens de fumo desapareceram também, levando com elas as paixões, os breves encontros, os olhares cúmplices sobre as chávenas de chocolate quente, as bóinas levemente inclinadas, os olhos do Trevor Howard, o sobretudo no braço, o romantismo.

Dantes, os comboios eram o prolongamento dos nossos sonhos. Hoje, são o prolongamento do nosso escritório. E as gares não passam de sala de espera onde eficientes secretárias coordenam entradas e saídas.

Se fosse hoje, o velho Tolstoi teria decerto grande dificuldade para encontrar um digno e solitário lugar de adeus.

Alice Vieira emBica Escaldada

Legenda: fotografia Shorpy Archive

terça-feira, 19 de abril de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Este postal encontrado no baú, faz recordar os anos da adolescência em que não perdia um filme da bela Sarita.
Não vi todos.
Mas os que vi dá para tudo.
Não consigo encontrar a data da estreia de A Dama de Beirute nos cinemas Odeon e Avis, mas vi-o no Lys, com o Mourão, velho amigo já falecido.
E guardo bem o filme Vera Cruz em que Sara Montiel aparece ao lado de dois actores da minha galeria: o Gary Cooper e o Burt Lancaster.
Neste A Dama de Beirute, Sara Montiel canta Perfidia.
Apenas um detalhe: quando se conhece a versão de Nat King Cole tudo o resto sabe a pouco.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Sim, há o famoso diálogo do Johnny Guitar, mas convém lembrar que esse diálogo é, "irmão gémeo", embora  25 anos mais novo, de outro retirado de "O Expresso de Xangai", filme que Joseph von Sternberg realizou em 1932, com interpretação de Marléne Dietrich e Clive Brook, e com cénário do grande Jules Furthman, um dos maiores  das décadas de oiro do cinema americano. E tão "gémeos" são que há autores que dizem que o primeiro é a matriz do segundo, uma maneira delicada de dizer que o segundo é um plágio do primeiro... Mas estão quase todos de acordo em dizer que são os dois diálogos mais belos da história do cinema.

Tudo isto me parece exagerado, porque Nicholas Ray não precisa de plagiar ninguém e há tantos diálogos bonitos em cinema que me parece arriscado identificar os melhores. Se nem sequer em relação aos filmes há consenso nesse aspecto, quanto mais em relação aos diálogos...

Antes de passar à apresentação do diálogo é necessário enquadrar o filme, para quem não o conhece. Tudo (ou quase tudo...) se passa num comboio que faz o  trajecto entre Pequim e Xangai no ano de 1931, em plena guerra civil. Como é habitual neste tipo de filmes, o comboio vai carregado de personagens estranhos e exóticos, a começar por duas senhoras, uma chinesa e outra "branca", que não é difícil associar rapidamente a actividades de boa/má vida... Quando as vê entrar, um padre (figura antipática no começo do filme, mas altamente positiva  no final...) remata logo no início: "Suponho que todos os comboios transportam a sua carga de pecado, mas este comboio leva mais do que a sua conta...!".

A mulher branca é a Marléne, que todos identificam de imediato como sendo "Xangai  Lily" e dizem ter derretido a fortuna a dez  grandes homens de negócio chineses. Da chinesa, nada se diz e nada se vem a saber durante todo o filme, estando-lhe reservado o papel de assassina do "mau do filme" para salvar a sua honra.


Entre os passageiros (militares, homens de negócios, apostadores, ....) está um militar todo vestido de branco (Clive Brook), que saberemos mais tarde tratar-se do capitão Donald Harvey, médico-militar que vai a Xangai operar o Governador-Geral.


A cena em questão passa-se logo no início do filme, sem que nada saibamos dos dois personagens e da sua possível ligação, para além da tal referência à Xangai Lily. Ambos assomam em simultâneo à janela da sua carruagem e deparam um com o outro. A cena é realizada em  plano quase fixo, do exterior do comboio,  apenas com um ou outro corte para nos dar grandes planos do rosto da Marléne. Só  a última "tirada" é filmada num plano inverso, já do interior do comboio.
Como não sabemos nada dos personagens, vamos chamar-lhes apenas Homem (H) e Mulher (M).

Então vamos lá, "camera, action":

H:  Magdalen!
M:  Doutor, há muito tempo que não te via! Não mudaste nada...
H:  Tu mudaste muito...
M:  Achas, Doc...? Importas-te que te chame Doc, ou devo ser mais respeituosa...?
H:   Nunca foste respeituosa e sempre me trataste por Doc...
M:  Pensei que não voltaria a ver-te... Pensaste muito em mim?
H:  Foi há quanto tempo?
M:  Cinco anos e quatro semanas.
H:  Durante cinco anos e quatro semanas, não pensei noutra coisa...
M:  Sempre foste bem educado. Não mudaste nada...
H:  Tu mudaste, Magdalen, mudaste muito...
M:  Estou menos bonita?
H:  Estás mais bonita que nunca...
M:  Mudei em que aspecto...?
H:  Oxalá pudesse descrever...
M:  Mudei de nome...
H:  Casaste...?
M:  Não. Foi preciso mais do que um homem para mudar o meu nome para Xangai Lily...
H:  Então tu é que és a Xangai Lily...?
M:  ... a desacreditada flor branca da China... Ouviste falar de mim? Sempre acreditaste no que ouviste...
H:  E continuo a acreditar. Como vês, não mudei nada. Gostei de te ver, Magdalen...
M:  A sério...!?



"It took more than one man to change my name to Xangai Lily" é uma das tiradas mais emblemáticas de toda a carreira da Marléne...

O filme está cheio de belos diálogos e fabulosos grandes planos de Marléne, iluminada como só Sternberg  (e Rouben Mamoulian também, num único filme...) a soube iluminar nos sete filmes que fizeram juntos.

A história evolui  em estilo de avanço/recuo na relação entre a Magdalen e o Doc, com os equivocos habituais, para acabar em "happy-end", o único entre todos os filmes que fizeram juntos. Não é que eu desgoste de "happy-ends", mas gosto mais dos filmes da Marléne em que ela acaba a perseguir o tenente Gary Cooper, seu amante, pelas dunas do deserto, junto às mulheres de "má fama" (Morroco), ou então quando é pura e simplesmente fuzilada, sem antes deixar de ajeitar o cabelo e puxar as meias de ceda  para cima.(Deshonored)...

Colaboração de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Em “For Whom the Bell Tolls”, a loura e sueca Ingrid Bergmann, na cena em que mais celestes lhe vi os olhos, é uma improvável espanhola, uma improvável camponesa e a mais improvável Maria. Apaixonou-se por Gary Cooper, americano e combatente na Guerra Civil ao lado dos republicanos. Quer, mas não sabe como beijá-lo: “Onde é que se metem os narizes”, diz a escaldar de “coqueterie”. Senhor de um nariz que não se mete onde não é chamado, Cooper roça os lábios pelos lábios dela. “Afinal não se atravessam no caminho, pois não”, e já é ela que o beija, uma, duas vezes. À americana.

Manuel S. Fonseca no suplemento Actual do Expresso, 22 de Outubro de 2011.

Dubley Nichols adaptou o romance de Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram, segundo V.S. Pritchett, o romance mais adulto do escritor, para o filme que, com o mesmo nome, Sam Wood realizou em 1943.

Robert Jordan, alter ego de Hemingway,o americano, ou o inglês como quer Maria que ele seja, é interpretado por Gary Cooper e Maria por Ingrid Bergman.

Fica o diálogo, melhor dito o monólogo, de Maria com Roberto.

Maria fala, Roberto ouve e lmita-se a dizer Maria, ela pergunta se fez mal alguma coisa, ele nada diz e beija-a ardentemente:

- Roberto, eu… não sei beijar, senão beijava-o.
  Para onde vão os narizes? Sempre me perguntei o que fazíamos com o nariz!
  Eles não estorvam, pois não?
  Sempre pensei que iriam estorvar. Veja, consigo fazer.
- Maria…
- Fiz alguma coisa mal?

Agora, o diálogo do livro:

E depois, como num último apelo de esperança:
-Mas eu nunca beijei nenhum homem.
- Beija-me então agora.
- Eu bem queria. Mas não sei. Quando me fizeram coisas, lutei até perder os sentidos. Lutei até…até… que um deles se sentou em cima da minha cabeça… e eu mordi-o… e então amordaçaram-me e prenderam-me os braços atrás da cabeça… e outros abusaram de mim.
- Eu amo-te, Maria – repetiu Jordan – e ninguém te fe nada, ninguém te atingiu, ninguém tocou a minha coelhinha.
- Falas a sério?
- Como nunca.
- E podes amar-me ainda? Sussurrou Maria aconchegando-se a ele.
- E mais ainda.
- Vou tentar beijar-te muito bem.
- Beija-me então.
- Não sei,
- Beija-me simplesmente.
Ela beijou-o na face.
- Não.
- E o que é se faz ao nariz? Sempre me perguntei o que se faria ao nariz?
- Olha, vira um pouco a cabeça. – E as suas bocas juntaram-se. Ela estava unida a ele e a boca entreabriu-se pouco a pouco. E, de súbito, tendo a rapariga apertada contra ele, sentiu-se mais feliz que nunca, com uma felicidade interior ligeira, amorosa, exaltada e sem pensamentos, e sem fadigas, e sem cuidados, tudo delícias e ele murmurou: - minha coelhinha. Minha querida. Minha doce amada.