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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

SALAZAR? NÃO CONHEÇO!

19 de Abril de 1967

Soube hoje que o Salazar escreveu pessoalmente ao embaixador de Portugal em França a pedir-lhe que organizasse uma homenagem, ou coisa parecida, à pintora Vieira da Silva (que é agora cidadã francesa em virtude do marido ter adquirido essa nacionalidade, depois de lhe negarem a cidadania portuguesa por ser judeu e apátrida).

O embaixador, claro, rata sabida, mandou consultá-la por portas travessas.

Mas a grande pintora europeia limitou-se a responder:

-Salazar? Quem é? Não conheço. Não é das minhas relações.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II 

sábado, 24 de abril de 2021

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


É, andei por aí. Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem siso assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

Que comemoramos no domingo? Que resta daquele dia?

O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe.

Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

O apagamento de memória é chocante

Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

Terá sido assim há tanto tempo?

A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.


Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.


Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?


Montagem sobre textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Legenda: pintura de Vieira da Silva

sábado, 27 de abril de 2019

OFÍCIO DE EDITOR


Há editores e há editores.

Por norma, são personagens malquistos, há excepçoes, muito poucas, diga-se.

A maior parte são comerciantes sem escrúpulos, enganando os seus autores, pagando miseravelmente, principalmente as traduções

Pela entrevista que Maria Ondina Braga deu à revista Ler, ficámos a saber dos maus tratos que os seus livros, ela própria, mereceram dos editores que lhe calharam em (des)sorte.

«O meu primeiro livro Eu Vim Para Ver a Terra foi um livro que me trouxe grande desgosto: saiu cheio de cortes e gralhas, o editor não me deu para revisão, os caracteres chineses apareceram até ao contrário!
Traduzi durante mais de dezanove anos, quase vinte, e hoje, ao lembrar-me disso, espanto-me. Traduções que me pagavam um ano e dois anos depois de as ter entregado, que, às vezes, uma editora (pelo menos) não me quis pagar. Isto já sem falar do pouquíssimo que pagavam todas. E não recebia nenhuma percentagem nas edições frequentemente sucessivas, nem quando o editor vendia o livro a uma organização editorial.
A minha sorte tem sido bem fraca: editores que não pagam os direitos de autor ou pagam apenas uma mínima parte, não dão à Sociedade Portuguesa de Autores a relação dos livros existentes, houve um que fez edições piratas a há depois os que abrem falência, o autor fica separado da sua obra, como aconteceu com a editora dos meus dois últimos livros, não pagou, o caso foi para contenciosos da SPA, que, por sua vez, também nada resolve. Nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra».

Maria do Rosário Pedreira é editora na Leya:

«Tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que não percebem o que é um livro. Isso é dramático.»

Manuel Alberto Valente é responsável editorial no grupo Porto Editora:

«Há 30 anos, os editores procuravam autores. Com a criação dos grandes grupos editoriais e da chamada indústria editorial, a edição começou a procurar o que o leitor quer ler. E porque o que o leitor quer ler nem sempre é o melhor, o nível da edição baixou.»

Opinião do escritor chileno Luís Sepúlveda:

«Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros conmo se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.»

Numa carta, datada de Paris, 5 de Julho de 1969, António José Saraiva, em carta para Óscar Lopes, referia os problemas que tinha com o editor Francisco Lyon de Castro das Publicações Europa-América:

«Em Outubro de 1965, carta minha de 31, lembrei ao Lyon de Castro que a 8ª edição da História da Literatura (Colecção Saber), então a imprimir, devia levar a minha chancela, segundo o contrato assinado. Respondeu em 4 de Novembro que o «o livro já estava à venda» e por isso não podia ser rubricado.
Em 4 de Abril de 66 o Lyon de Castro noticiava-me que a História da Literatura tinha sido proibida pela Censura.
Em 19 de Maio de 1967, os serviços de contabilidade da Europa-América comunicavam-me, incidentalmente, que a proibição tinha sido levantada, «encontrando-se de novo a obra à venda».

Segundo saraiva houve um longo silêncio de Lyon de Castro. Só volta a escrever em 26 de Agosto de 1968 e não falava da História da Literatura.

Entre esta data e 19 de Março de 1969 Saraiva recebeu 8 cartas do editor e em nenhuma era falada o que se passava com o livro.

«Intrigado com isto perguntei-lhe em carta de 24-3-69 notícias do livro (além de outros assuntos). Em carta de 10 de Abril respondeu quanto a este ponto: «História da Literatura portuguesa; responde-se à parte». Mas na carta não vinha qualquer aparte sobre o assunto.
Em carta de 29 de Abril dizia-me o seguinte: «A libertação do livro determinou um movimento de vendas que nos forçou a uma rápida reedição de 3000 exemplares em Dezembro/68. No Brasil também se sabia que a obra estava proibida e logo que ela foi libertada fizemos uma intensa propaganda o que determinou uma grande procura, a que tivemos de responder rapidamente.»

António José Saraiva conclui que Lyon de Castro não lidou com lisura com ele.

«Só vejo uma solução para o meu problema com o Lyon de Castro: é desligar-me dele. Até hoje foi o único editor intrujão que tive e já fui editado em cinco casas.»

Ainda sobre o editor Francisco Lyon de Castro, recorro ao 9º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, numa  entrada datada de 22 de Junho de 1970:

«O Palma-Ferreira apareceu a certa altura do serão em casa do fafe, nervosíssimo, cheio de notícias e de escândalos imaginários.
- O Namora vai-se embora da Europa-América, o Lyon de Castro é um malandro, roubou-me cinquenta e tal contos. Não me quer pagar os direitos de autor do meu livro As Eleições de Outubro de 1969 com pretexto de que o compilei durante as horas de trabalho na Europa-América… Ora, tínhamos combinado que descontaríamos essas horas no meu ordenado… É um gatuno, etc., etc. »

Num interessante livro a que chamou Olhar de Editor, Serafim Ferreira ergue uma memória em honra e glória de alguns editores: Luiz de Montalvor (Ática), Delfim Guimarães (Guimarães Editores), António Pedro (Confluência), Figueiredo Magalhães, (Ulisseia), Manuel Rodrigues de Oliveira (Cosmos), Manuel Rodrigues (Minerva). Viriato Camilo (Prelo), Luiz Pacheco (Contraponto).

Acrescento Rogério Mendes de Moura, Vitor Silva Tavares, Nelson de Matos, Zeferino Coelho e Fernando Vale e um interessante número de pequenos editores que vão fazendo o seu trabalho de amor aos livro e não  cifrões

Em O Homem dos Comboios, Eric Lomax escreve a abrir:

«Este livro tem uma incomensurável dívida de gratidão com a criatividade e o talento de Neil Belton. O seu inestimável contributo para o texto final excedeu em muito a habitual relação entre autor e editor. Reconheço que sem sua ajuda eu não teria sido capaz de forma final a tudo aquilo sobre que reflecti ao longo dos últimos cinquenta anos.»

Na morte de André Jorge, fundador da Editora Cotovia, disse o escritor Pedro Paixão:

«Se não fosse meu editor eu não publicava nada.»

 Legenda: pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 25 de abril de 2018

REVOLUÇÃO


Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação


Sophia de Mello Breyner Andresen de O Nome das Coisas em Cem Poemas de Sophia

Legenda: pintura de Vieira da Silva

domingo, 8 de outubro de 2017

A SUA POESIA REUNIDA VÊ-SE MELHOR


Carta, datada de 20 de Março de 1961, de Sophia Mello Breyner Andresen, para Jorge de Sena:

Muito obrigada pela Poesia e pelas Andanças do Demónio. A sua poesia reunida vê-se melhor. O livro deu-me uma extraordinária impressão de grandeza. Uma grandeza que é estilo, precisão, exactidão, força, construção e mais ainda testemunho, olhar olhando de frente, inteireza, coragem.
Na Perseguição que você me mandou em 1943 estão sublinhados dois versos do «Andante»:

                «Soube-me sempre a destino a minha vida»
                                                  e
                «As crianças nascem com uma coragem que perdem»

Este último verso está no centro da sua poesia. Em toda ela há como que o testemunho de que o poeta é o homem que não perde a coragem com a qual nasceu.
Li o seu livro com um misto de entusiasmo e aguda tristeza: entusiasmo porque o livro é maravilhoso, tristeza porque mais ainda vejo e penso como aqui quase todos e quase tudo o não mereceram. Esteve aqui há dias a Menez que tinha comprado o seu livro e estava maravilhada. Ela pediu-me que lhe dissesse isto.
Mesmo as pessoas que como ela e como eu já conheciam bem a sua poesia o livro é surpreendente. Tudo cresceu e tomou a sua imagem completa. A sua poesia reunida aparece com uma densidade sem repetição e sem desfalecimento, numa unidade construída ponto contra ponto desde a primeira até à última palavra.
Que esta unidade tenha sido vivida e «existida» é o que me maravilha. Há no livro um espantoso «fazer face» que é o testemunho dum mundo onde a poesia foi a única liberdade e onde o poeta foi chamado a assumir todo o seu destino.
Mandei o seu livro à Maria Helena Vieira da Silva, porque ela o admira muito e é uma das pessoas que eu penso que entenderá toda a grandeza desta Poesia – I.


Legenda: capa de Poesia  I  é tirada de Frenesi Loja

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva

sexta-feira, 4 de julho de 2014

QUOTIDIANOS


A demagogia é a traição cultural da revolução. Porque a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar. Um provérbio africano diz: Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba. Não queremos continuar a suportar a baba dos slogans.
A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.

Sophia  de Mello Breyner Andresen, de um artigo datado de 12 de Julho de 1975, e agora republicado pelo Expresso.

Legenda: pintura de Vieira da Silva

terça-feira, 11 de maio de 2010

À CONSIDERAÇÃO SUPERIOR

"Exm.º Senhor Director-Geral
Informo V. Exª que ontem, dia 25 de Abril de 1974, vários funcionários faltaram ao serviço, invocando ter ocorrido uma revolução no País.
Esclareço que esta revolução não foi autorizada superiormente, não vendo qualquer justificação para as faltas, tanto mais que o serviço se atrasou consideravelmente.
Como na legislação vigente não estão previstas faltas pelo ocorrência de revoluções, submeto o assunto ao alto critério de V. Exª, na certeza de que o mesmo merecerá a atenção devida.
Lisboa, 26 de Abril de 1974
A Bem da Nação
O Chefe da 3ª Secção
Ambrósio Silva "


História de Joaquim Santos da Póvoa de Santo Adrião publicada no "Diário de Notícias", s/d

Legenda: Pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 14 de abril de 2010

NÃO ME PEÇAM RAZÕES

MN - 10 005

Lado 1

Há-de Haver - José Saramago
O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa
Boda Pagã - Francisco Delgado
Canção - Fernando Morgado
O Cavador - Guerra Junqueiro
Pátria - Afonso Duarte
Orfeu Rebelde - Miguel Torga

Lado 2

Carta a Angela - Carlos de Oliveira
A Estrela - Carlos de Oliveira
O Viandante - Carlos de Oliveira
Há Lágrimas Nos Teus Olhos - Carlos de Oliveira
Não me Peçam Razões - José Saramago
Margem Esquerda - Urbano tavares Rodrigues
Dies Irae - Miguel Torga

Todas as músicas são da autoria de Luis Cilia.


Poemas traduzidos para francês por Jorge Reis

O disco tem uma cuidada apresentção gráfica e inclui uma pintura de Helena Vieira da Silva dedicada a Luis Cilia, que também aqui se reproduz.


Editado em 1969.

A propósito deste disco de Luis Cilia, transcrevo o comentário de João Pedro publicado aqui:


"Em relação ao Luis Cília, não posso deixar de partilhar uma história que jamais esquecerei, sendo essa uma das grandes explicações para o "carinho" especial que tenho por Luis Cilia. Abreviando a história, quando uma vez visitar a minha avó, numa casa feita de pedra, no meio das pedras, numa aldeia na Beira Alta, a minha mãe trouxe de lá um disco do Luis Cília " La poesie portugaise Vol. II". Nada de anormal, não fosse a casa da minha avó, não ter electricidade, nem água canalizada, etc... nem a minha avó ter gira-discos (a minha santa avó mal sabia assinar o nome dela). Ainda hoje desconheço como é que o disco lá foi parar, pois a minha avó não viveu o suficiente para mo contar, mas desconfio que talvez um tio meu, quando foi a França o tenha trazido, sabe-se lá porquê. Era muito miúdo na altura e demorei muitos anos até ouvir esse disco, numa fase de maior maturidade. E é ai, que chego ao cerne da questão: a melancolia da voz de luis Cília nesse disco, é a única que consegue retratar de forma fiel a própria melancolia do país em que vivíamos. Os arranjos sublimes, o contrabaixo, violoncelo, aliada à forma sentida como Luis Cilia interpreta cada uma daquelas canções, não têm comparação, na minha opinião, com qualquer outro cantor (Ouvir " O cavador" ; "Carta a Ângela" Boda pagã" " Há lágrimas nos teus olhos", naquela contexto tão especifico, acredito que tocaria necessariamente o coração do ouvinte."

"Não me peçam razões"
"Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou sombras delas
Deste gosto de amar e destruir:
Nos excessos do ser é que amanhece
A cor da Primavera que há-de vir."