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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Devemos aceitar a nossa existência tão completamente quanto possível. Tudo, mesmo o inconcebível, deve tornar-se possível. No fundo, a única coragem que nos é pedida é a de fazermos face ao estranho, ao maravilhoso, ao extraordinário que se nos deparar. Custou muito caro à vida que os homens, neste ponto, tivessem sido fracos.

Rainer Maria Rilke

sábado, 10 de agosto de 2024

POSTAIS SEM SELO


 … a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 14 de março de 2022

AMO AS HORAS SOMBRIAS DO MEU SER

Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.

Elas me ensinam que possuo espaço
p'ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rike

Tradução de Ana Hatherly em Rosa do Mundo

sexta-feira, 19 de março de 2021

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Hoje é o Dia do Pai.

Sempre me disseram que esta coisa dos Dias, seja do que for: Pai, Mãe, Mulher, etc., são um negócio. Contudo, as escolas, principalmente nos jardins de infância, cultivam a ideia de os miúdos fazerem desenhos em cartolina, em azulejos, para levar aos pais. Essa parte ainda aceitei, depois, já crescidinhos, tratei de dizer, aos meus filhos, que não contassem comigo para esse folclore.

Importa agora dizer-vos, que o meu pai, por motivos que nunca descortinei claramente, tinha pela cultura alemã uma profunda admiração: o Natal, música clássica, livros (gostava de Goethe, Karl Marx, adorava Rainer Maria Rilke e lamentava que Rilke tivesse nascido em Praga e não numa qualquer cidade alemã) e tudo acabava com  ele a dizer que não havia nada no mundo como os electrodomésticos de marcas alemãs, de carros não falava porque nunca teve carta de condução.


Eu era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, Mein Papa». Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar. O disco partiu-se e alguns anos antes de ele nos deixar, consegui encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém chamado Ilda que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as coisas não terão corrido bem, vendeu o disco e riscou a dedicatória.

Hoje, lembrei-me do meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e chegaram até mim as noites de Verão em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há tanta beleza em tudo o que começa.

Rainer Maria Rilke em Cartas a Um Poeta

quarta-feira, 4 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Um dia, uma opinião faz lei; no dia seguinte, a opinião contrária. As obras de arte são de uma solidão infinita: para as abordar, nada pior do que a crítica. Só o amor pode rendê-las, conservá-las, ser justo para elas.

Rainer Maria Rilke em Cartas a Um Poeta

sábado, 23 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Não quero deixar de o saudar nesta quadra do Natal em que, em plena festa, a sua solidão lhe deve parecer mais dura do que em qualquer outro momento. Se assim for, regozije-se. Ora pense: que seria uma solidão que não fosse uma grande solidão? A solidão é una e, por essência, grande, pesada e difícil de suportar. Quase todos conhecem horas que trocariam de boa vontade pela mais banal e medíocre das convivências, pela aparência do menor acordo com qualquer ser, por mais indigno. Mas talvez essas horas sejam precisamente aquelas em que a solidão se amplifica – e o seu crescimento é dolorosos como a ante Primavera. Mas não se importe. Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isso que é preciso chegar. Estar só – como a criança está só quando as pessoas crescidas se agitam, ocupadas com coisas que lhe parecem grandes e importantes pelo simples facto de preocuparem os adultos e ela nada compreender do que estes fazem.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Poeta

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Poeta

sábado, 7 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Há tanta beleza em tudo o que começa.

 Rainer Maria Rilke Cartas a um Poeta

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O VENTO DE VERÃO


Nem sempre podemos concordar com os escritores que preenchem os nossos dias.

Rainer Maria Rilke escreveu que só o Verão vale a pena.

O Silva da mercearia, onde vivo ainda há mercearias do antigamente, olha os vestidos frescos das freguesas e não resiste a pensar, a dizer?, que bem lhe fica o Verão menina,.

Verão que é o tempo do meu desespero, o de nunca conseguir viver de acordo com os angustiantes dias quentes. 

Acontecia o mesmo ao meu pai que, mal via chegar o Verão, dizia cúmplice: em Setembro voltamos a ser gente.

Nunca me preocupei nada em saber se há gente que tem um Verão melhor do que o meu, pela simples razão de que não gosto do Verão.

O facto de não gostar do Verão, não me cega ao ponto de gostar de quem gosta do Verão. Por exemplo, o poeta Ruy Belo que amava o Verão como ninguém mais: mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Ou Santíssimo Agosto, Agosto Santíssimo, tal como escrevia Jorge Listopad no último JL.

Olhando o caminhar dos dias para o Outono, lembrei-me de uma bonita canção do Frank Sinatra.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

FRAGMENTOS


Possivelmente, Marilyn Monroe fez mais esforços para ler o Ulisses de James Joyce do que muita gente que diz que o leu e nunca acabou, ou sequer começou.

Por mim falo e digo que nunca o acabei e poucos esforços tenho feito para que lhe conheça o meio quanto mais o fim.

Em 1999, o exemplar de Ulisses que pertenceu a Marilyn Monroe, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.

A sua biblioteca era constituída por perto de quinhentos livros.

O já citado Ulisses estava por lá, e tinha por companhia obras de Dostoievesky, Jack Kerouac, Yeats, Samuel Beckett, Tolstoi, Walt Whitman, Rainer Maria Rilke, Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald, John Steinbeck.

Marilyn Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais, poemas, frases, cartas, notas várias.

Os papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua morte.

Parte de todo este material foi publicado em livro, no final do ano passado, nos Estados Unidos. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.

Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.

Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.

Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura,  mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.

Um símbolo sexual torna-se um objecto. Eu detesto ser um objecto disse a actriz.
O escritor António Tabucchi  (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro,  e observa:

No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Nos filmes que Billy Wilder realizou com Marilyn, opinião minha, os melhores dos seus filmes, a actriz fez a cabeça em água a Wilder, mas este sabia o diamante que tinha entre mãos:

Penso que ela é a melhor actriz cómica ligeira que temos no cinema hoje em dia, e qualquer pessoa sabe que a comédia ligeira é o mais difícil dos estilos de representação.

Deus deu-lhe tudo.

Obviamente que Billy Wilder, sabia do que falava.

No diário das filmagens do Let’s Make Love , Marilyn confessava:

De que é que eu tenho medo? Porque é que tenho tanto medo? Porque penso que não sei representar? Sei que sei representar, mas tenho medo. Tenho medo e sei que não devo ter, e não quero ter. Mas tenho.

Em 1948, Tom Kelley fotografou-a nua sobre veludo vermelho, que daria lugar ao celebérrimo calendário das paredes de todas as garagens do mundo.

Quando muitos anos mais tarde, um jornalista perguntou-lhe se ela não se envergonhara da ousadia de ter posado para Tom Kelley, Marilyn respondeu:

Tinha fome!

E, sarcasticamente, não deixou de acrescentar:

Porquê? Não gosta do vermelho?

Sabe-se, ou pensa-se que se sabe, que todos morremos a cada dia que passa.

Mas os dias de Marilyn foram tecendo o suicídio organizado em que a sua morte se transformou.

O tal seu livro dos segredos, o livro de capa vermelha, constituía material demasiado perigoso para que, impavidamente, o clã kennedyano assistisse à possibilidade de se tornar público.

Tenho a certeza de que acabarei louca se continuar a viver neste pesadelo, terá dito a actriz naqueles seus tempos de depressão, que irão culminar na noite em que tomou todos os tubos de comprimidos que tinha e não tinha, tal como sugere Ruy Belo no poema que dedicou à sua morte.

Poderá perguntar-se:

Tomou?

domingo, 27 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELO



Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas.

Rainer Maria Rilke