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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

RETRATOS


«Eu não fazia parte do elenco da peça, estava sentado na coxia da terceira fila, talvez perdido entre dois blues, mas ergui-me da poltrona e galguei os degraus para o proscénio. Chabela Vargas cantava nas minhas veias? O Manuel Freire era a voz da razão, soava Paul Robson no Old Man River. A sala ainda estava iluminada e situei-me logo ali. Mostrei à vontade ao erguer uma perna e pousar a alpargata sobre a caixa do ponto, impedindo que ele iniciasse a leitura murmurada da comédia, a comédia que se encontrava em cartaz. E declarei aos que procuravam sentar-se nas poltronas correspondentes aos seus bilhetes, o meu nome e acrescentei que chegara, havia muito, de uma ilha perdida no Atlântico, e que eu nascera quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo. Falei que estava agora a lançar raízes na ilha, a Ilha do Ogre, mas arrepiei caminho. Um gracioso, num dos camarotes, perguntou em falsete se eu queria dizer que nascera na Madeira em meados de 1945. Aplaudiram-no, mas a mim apetecia-me, como sempre, dizer as coisas de modo mais sinuoso, acrescentando ser filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe.

Assim, entre a realidade quotidiana e as memórias ficcionadas, ou apenas inacreditáveis, montes de livros, férias no Douro, onde os personagens eram escritos por mim sobre as histórias de meu pai, e a figura mítica de um avô, que andava pelos campos em misteriosos trabalhos que eu não entendia muito bem. Ah, e as pessoas, já sentadas nas suas poltronas, impacientavam-se porque, segundo diziam, eu estava a impedir o início da representação. Teria sido muito simples se se erguesse o pano, surgisse o primeiro cenário e os actores começassem a função, naqueles jogos de deixas garantidos pelo homenzinho da caixa sobre a qual eu tinha pousado a alpargata.

Na verdade, eu nem precisava de cenários nem de mais actores ou de que quem quer me sussurrasse os passos da minha vida, que eu me dispusera a contar naqueles momentos. Havia um foco que percorria a sala e, de quando em quando, mas cada vez mais insistentemente, se fixava em mim. Eu calculava que uma certa percentagem do sucesso que ali pudesse ter assentaria no facto dos gordos serem considerados pessoas bem dispostas. A plateia, mulheres e homens de rostos atónitos, era constituída por gente que me parecia demasiado magra. Nas histórias de meu pai havia sempre um frade imponente e eu imaginava-o sentado a uma grande mesa, e eles, bocas abertas, olhos bugalhudos, vendo as suas poderosas mãos agitando talhadas de presunto, coxas de capões assados, côdeas de broa, pernis de porco negro, grandes malgas de vinho tinto, um bródio à antiga! E aquele frade era eu, possivelmente o meu fantasma. Essa era a maneira que tinha de lhes mostrar bem saber como entrar na dimensão por onde andaria, com as mesmas glórias, vícios, vaidades e saberes de sempre. E se um lugar há dentro da minha cabeça, que, cuido como poiso da memória de toda a família, esse é o Quarto dos Santos da casa dos meus avós. Havia aí um oratório, com a Senhora do Campo, milhares de velas de cera, cujo arder empestava até ao corredor, uns diplomas que davam alguns dos avós como terceiros de ordens e de confrarias, centenas de figuras de santos, anjos e arcanjos, suponho quase todos apócrifos, uma espécie de santíssimo exército a vigiar a fé da minha avó e de todas as velhas murmuradeiras nas rezas e jaculatórias ao quotidiano toque das Trindades.

Eu tinha um fascínio por aquilo tudo e, de noite, vinha do meu quarto, espreitar aquela população prodigiosa, que parecia adquirir vida com o tremular das lamparinas eternamente acesas. Havia ainda o gavetão de uma cómoda onde eram guardadas umas esporas douradas, cuja origem ninguém condescendia em contar-me. Numa caixa de velas, era guardado um enorme revólver de espigão, hoje aqui a defender alguma papelada dos ventos do Porto que me devassam o lugar de trabalho.

Vivi em Espinho, onde se passeavam vários fantasmas, o de Amadeo e o de Laranjeira, de um pintor espanhol que tinha uma orelha de cera e uma escritora de romances cor-de-rosa. Como professor, no Colégio de S. Luís, tive o novelista José Marmelo e Silva, uma lição de intelectual que encolhia os ombros à glória efémera. Em segredo, falava-se muito do assassínio de um médico comunista, Ferreira Soares. E ali havia uma feira enorme e cheia de sugestões, que era a minha perdição às segundas, quando escutava romances de cego, a conversa fiada dos vendedores de banha de cobra com a jibóia ao pescoço, transportada numa mala de cartão, cobra que comia coelhos vivos à nossa vista. Um corcunda vestindo de branco, com um tabuleiro ao pescoço, rondava o colégio, expressão sardónica, a guinchar: «Chupa-chupa, caramelo, estica!» Um perfeito do colégio pedia-nos calendários para os trocar por copos de vinho numa taberna ao fundo da rua. E as incursões ao estranho universo do mosteiro de Grijó, em cuja quinta, parte do cenário de um romance de Júlio Dinis, dizia-se, passei a odiar leite quente quando o parvo do moço da vacaria ordenhou umas sujas tetas lançando-me jactos de leite branco, espesso, gorduroso, directamente para a boca escancarada.

De Espinho, de Almendra, mudei-me para o Porto, o que eu aprendia parecia-me que era o arrastar de uma espada do tamanho da que é atribuída a Afonso Henriques e está no Museu de Soares dos Reis. Ganhei mais o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia. Entrei para o Jornal de Noticias, em cujo suplemento literário já colaborava. Fiz a via-sacra dos hospitais, da morgue, dos acidentes, das lixeiras. A primeira grande entrevista foi com o Eugénio de Andrade. Eu já sabia que não levava a melhor com a puta da Censura, mas procurava iludi-la. Comecei a ir a Lisboa, onde conheci alguém que foi decisivo na minha vida de escritor, o Urbano Tavares Rodrigues. Colaborava no República. Em 1966, mando imprimir um livro de prosa poética, O Corredor, capa do Zé Rodrigues. A exemplo não sei de que poeta francês, ainda não sabia do gesto semelhante do Trindade Coelho, queimei a edição toda! Nem um exemplar tenho, só se salvaram quatro páginas de provas. Dois anos depois saiu Natureza Morta Iluminada, uma narrativa, 32 páginas, ilustrada pelo pintor Fernando de Oliveira, meu compadre. Irritei-me muito com um idiota a quem ofereci o livro e, dez dias depois, me disse que andava a lê-lo! Depois, de 1975 a 2003, estive no Diário de Notícias.

Fraternalmente, conto com o António Rebordão Navarro, o Marco, o Méndez Ferrín, o Manuel Maria, a Fedra Santos, o Fernando Lanhas e alguns outros mais. Em relevo tenho dívidas antigas com a Ana Hatherly, mesmo com o Michel Butor, e modernas com o José da Cruz Santos, mais recentes ainda com o Edgar Silva. Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?

Bem, na verdade, há um estranho silêncio no teatro, afinal um dos muitos teatros que arderam sem eu ter dado por ela. Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos tzompantlis e bailei o danzón em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los. Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. E fui vidente em Seide, vi Camilo à janela de sua casa quando lá fui receber o Grande Prémio do Conto por aquele livro Cenas da Vida de um Minotauro. Acenou-me, daí eu ter começado a falar logo com ele, o que levou os presentes – o Zé Manel Mendes, o Navarro, a Cristina Robalo Cordeiro e Aníbal Pinto de Castro – julgaram ser boutade e não era senão uma aparição pagã privada. Por isso, na pedra de Seide apareceu o meu nome.

Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me. Porém, estou encantado noutro nível, pois aos 60 anos, ainda agora cumpridos, continuo apaixonado e não só pela vida. E cá ando, atraído pelos muitos rostos de um universo plural. A História parece que, cada vez me absorve mais, em termos de testemunho e de base para ficção, da Guerra Civil de Espanha aos campos de concentração. Depois, por um bando de pardais que se renova, escrevo para a miudagem. E quando julgava que não tinha mais nada a fazer nessa área, a minha afilhada Francisca, sem se aperceber, contratou-me para eu reaprender a encarar a vida, e a missão está atribuída e não posso esmorecer.

Ah, mas afinal isto não é teatro coisa nenhuma, estou é encafuado no velho  Quarto dos Santos. As lamparinas é que provocam estas visões e a herança das fábulas potencia a memória. E quanto não disse, sem o esconder! De quando em longe, sento-me à mesa com um bom amigo de infância, o Jorge Carvalho, da Quinta do Mocho. Ou com o Zé Ilídio. Ou com os meus primos das duas partes paternas, por um lado a Uli e o Tony, e por outro a tribu dos Trabulos, com as Márcias, o Toneca, a Mariazinha, o Zé Luís, por aí fora. Mas, nestas ladeiras que calcorreio por receita médica, penso muito nos que vão ficando pelo caminho – o Adriano, a Fernanda e o Fernando, a Maria Virgínia, o António Sampaio, o Egito, o Veiga Leitão, o Eugénio, o Companheiro Vasco, o Manuel Maria, o Uxio, tantos outros. Mas também penso na bela maneira de encarar a vida de uns amigos especiais – o patriarca Francisco Mangas, que me ensinou a pescar, o Tony, um primo do fundo dos séculos, e o grande João Cid, pintor, poeta, neto do Manuel, íntimo do António Nobre.

Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o bonhomme que me parece sempre fui.»

José Viale Moutinho

Poderei não ter sido assim, é um arremedo autobiográfico do jornalista e escritor José Viale Moutinho, que nos deixou no dia 22 de Setembro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

JORGE PALMA (1950-2026)


Morte de Jorge Palma aos 76 anos.

Que dizer?

Um tipo sem classificação, mas sujeito às tretas do costume: a música portuguesa, ou Portugal  ficam mais pobres.

Como ele dizia:

«Deixa-me rir!»

Em Setembro de 1973 recusa-se cumprir o serviço militar obrigatório e foge para a Dinamarca:

«Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou!» 

São assim os pássaros rebeldes!

sábado, 5 de setembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ



Dolly Parton morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80 anos.

David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:

 «O mundo era melhor com Dolly Parton».


“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country, mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que, tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.

Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis” (na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e, quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram a perda.

Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que, “se agora aceitasse, estaria a fazer política”.

Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles: dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre, estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência. Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.

Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»

Quando deixei de poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:

 

ADEUS POR UM CASACO

 

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.

Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.

Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.

Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.

Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.

Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.

A minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal vestido.

Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!

O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.

Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.

Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.

Pelo andar da carruagem, débil esperança…

Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»


 

sábado, 11 de julho de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Muitos dos que nos acompanharam na vida, fazendo-a diferente, estão a deixar-nos.

Agora foi Sonny Rollins.



segunda-feira, 20 de abril de 2026

À LUPA

 Conceição Ramos, a “criada de servir” que fundou um sindicato, morreu nesta segunda-feira, confirmaram amigos ao PÚBLICO. A octogenária estaria internada nos cuidados paliativos do Hospital de Chaves há cerca de um mês.

Cansada de ser explorada como “criada”, Conceição Ramos fundou um sindicato.

A ideia de defender os direitos das empregadas domésticas surgiu na Juventude Operária Católica, grupo que Conceição Ramos liderava, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Mais tarde viria a fundar o Sindicato do Serviço Doméstico.

Nasceu em 1941 e, desde então, passou por várias casas, onde acumulou más experiências que não queria ver repetidas com as outras trabalhadoras domésticas. Sabia que eram "milhares a passar o mesmo", como contou ao Público em 2024. 

sábado, 18 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


O compositor, artista plástico e arquiteto José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos.

Pianista, criador de canções como No teu poema, uma lindíssima canção.

 José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou "Perseguição dos dias", o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém “a qualidade dos grandes ‘standards’”, como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.

A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitetura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.

Em 2014, José Luís Tinoco recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espetáculo de homenagem “Os lados do mar – José Luís Tinoco”, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.

"Evito o fácil", dizia sempre José Luís Tinoco. "Não cedo só porque é bonito", garantia. Na música, na pintura, na arquitetura, na vida toda.

 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida


No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.


Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.


Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.


No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano


Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.





quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)


Com 90 anos, feitos no dia de 5 de Março, morreu o jornalista e escritor Mário  Zambujal.

Neste dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa, a evocação dos 90 anos do Zambujal:

«Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).

Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.

Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.

Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).

Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!

Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).

É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.

Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.

Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.

Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…

É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.

Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.

A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandro.

A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…

Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.

Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.

Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.

Ou, se calhar, e isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os fechei no cofre para a herança dos netos.»

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

JOÃO CANIJO (1957-2026)


Repentinamente, aos 68 anos, morreu o cineasta João Canijo.

ANTÓNIO CHAÍNHO

Aos88 anos, morreu o guitarrista António Chaínho.

«Tudo na vida de António Chaínho parece ter sido obra de pequenos “milagres” ou de inexplicáveis acasos. Até mesmo a sua morte, que de mansinho, sem aviso, nos privou da sua presença física no exacto dia em que ele completava 88 anos, nesta terça-feira, 27 de Janeiro, como confirmou o seu agente artístico.»

Do álbum A Guitarra e Outras Mulheres, escolhemos Sombra com a voz de Teresa Salgueiro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

MARIA ALZIRA SEIXO (1941-2026)


Aos84 anos, morreu a ensaísta  Maria AlziraSeixo, profunda estudiosa das obras de José Saramago e António Lobo Antunes.

Legenda: Maria Alzira Seixo, fotografia de Luís Ramos, Público.

domingo, 28 de dezembro de 2025

BRIGITTE BARDOT (1934-2025)


Morreu Brigitte Bardot.

Tinha 95 anos.

Um leitor do Público, ao ler o óbito que Vasco da Câmara fez para o jornal, indignou-se:

«Esta sim, é uma verdadeira notícia falsa. A fake new completa, acabada e indecente. Não posso deixar de manifestar a minha indignação a quem ande a espalhar estas notícias, sem a mínima aderência à realidade. BRIGITTE BARDOT não morreu pela simples razão que "a mulher" nunca morrerá, que "a beleza" é eterna e o sonho do homem não tem fim.».

Ainda no dia 29 de Julho A Lupa lembrava a moça e também uma canção do Zeca Baleiro que diz:

«A saudade

É brigitte bardot

Acenando com a mão

Num filme muito antigo.»

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Chris Rea morreu ontem aos 74 anos.

Foi um dos cantores que participou, em 1980, no single de beneficência Do TheyKnow it’s Christmas do super grupo Band Aid.

Como homenagem, é essa a canção desta manhã.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

ROB REINER (1947-2025)


A morte trágica de Rob Reiner deixou um vazio para o qual não tenho palavras.

Era um realizador de que gostava muito.

Lembro-me de há uns tempos ler uma afirmação do seu pai, que ele amiúde repetia: todas as manhãs o pai lia a secção de obituários do jornal. Se não estivesse lá o seu nome, ia de imediato tomar o pequeno-almoço.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

FRANCISCO PINTO BALSEMÃO (1937-2025)


Aos 88 anos morreu Francisco Pinto Balsemão.

Acima de tudo um jornalista, o Expresso em tempos de ditadura é uma pedrada no charco.