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segunda-feira, 16 de março de 2026

CONHECER MELHOR...

Uma verdadeira personagem de romance é aquela de quem o leitor sabe ou julga saber tudo o que fez e o que vai fazer, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Conhecemos melhor Madame Bovary, Ana Karénine ou Rastignac que a nossa mulher, a nossa filha ou o nosso irmão.

Roger Vailland

domingo, 15 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Os Escritores e a Literatura

Madeleine Chapsal

Entrevistas

Tradução: Serafim Ferreira e Armando Pereira da Silva

Capa: Homero Amaro

Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 1967

Se o escritor não se encontra ligado aos problemas da sua época, nada tem a contar. Mesmo que queira, não se pode encerrar numa torre de marfim. Não existe qualquer torre de marfim. O homem que se fecha, não poderá contar-se a si mesmo indefinidamente e, como não fará nada, terá muito pouco para dizer de si próprio… De outro modo, reflecte-se eternamente a si mesmo, reflectindo-se. O escritor, como homem, está necessariamente comprometido com qualquer coisa, mesmo quando não acredita.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

NESTE DIA


Roger Vailland deixou mais de duas mil páginas inéditas: esboços de romances, de novelas, ou de peças de teatro, notas para ensaios, e também correspondência e diário íntimo. Estas páginas estão reunidas em dois volumes, edição das Publicações Europa-América - «Eis Vailland visto de dentro nos seus diversos tempos…», coloca a editora na capa do 1º volume de Escritos Íntimos:

Neste dia, do ano de 1943, troam pela Europa os canhões e Vailland escreve:

sábado, 29 de março de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


 Hoje, quem nos autografa o poema é João José Cochofel.

46º Aniversário é o volume nº 20 da Colecção Poetas de Hoje editada pela Portugália.

A Urbano Tavares Rodrigues calhou o prefácio do livro sobre a poesia de Cochofel.

«Como Roger Vailland, a cujo ouvido a palavra patrão ressoava sempre como afronta à sua dignidade de homem, o autor de 48º Aniversário se rebela contra os hábitos e estereótipos de servidão, contra a imagem lôbrega de um povode negro trajado, mudo e vencido, mas dá-se conta, ao mesmo tempo, com honrada noção dos seus limites, daquilo que lhe assiste ou para que é fadado. Nada repugna mais ao poeta João José Cochofel do que adornar-se com penachos faustosos, qualquer que seja a cor dessas galas.

                                   Homem que sou

                                   no cárcere que é o nosso,

                                   sei o que sou,

                                   dou o sangue que posso.»

 

Cochofel, como autógrafo escolheu, do livro, um poema de Rondó:

 

Canta, ó amargura,

grito fértil do tempo.

Canta sem cessar

pela noite dentro

 

Não fere os ouvidos,

cantiguinha mansa.

Rói na clausura

a alface da esperança.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

AMIGOS PENSADOS: JOSÉ CARDOSO PIRES

Ao Zé Cardoso peço uma miúda
com um toque de chiado ou de grandella,
às nove e duas pernas da manhã,
que, como o peixe, tesa de frescura,
tenha perdido a escama de donzela,
mas não venha falar-me do Vailland…

Alexandre O’Neill, poema encontrado em Alexandre O’Neill-Uma Biografia Literária.

sábado, 2 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                                      Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Anos 50, 60, por aí fora.

Em algumas terras do interior deste país à beira-mar plantado, poderia ler-se certos avisos:

«É proibida a mendicidade».

Esta semana a Cáritas alertou que a pobreza em Portugal pode ser ainda mais elevada do que o consta das estatísticas nacionais. Segundo a instituição revela, em 2022, 17% dos portugueses estavam no limiar da pobreza.

Ricos e Pobres. Pobres e Ricos.

Há alguns meses, uma velhota, a sair de um pequeno mercado na Rua Morais Soares, desabafava para si própria.

«Há mais gente a pedir que a trabalhar!»

Lidia Jorge numa entrevista ao Público:

«A pobreza entre nós é um escandalo. É a questão mais urgente em Portuga.»

Roger Vailland em Cabra-Cega:

Na verdade qualquer amizade é, por definição, impossível entre o rico e o pobre; o primeiro suspeitará sempre que o segundo é um crava e este que o rico é egoísta e avaro. Se houvesse verdadeira amizade, o rico não seria rico ou o pobre não seria pobre.

Jurei a mim mesmo, de uma vez por todas, não ser delicado para com os ricos. É uma promessa difícil de cumprir, porque é agradável ser-se louvado pelos poderosos.

Rodrigo deixa Marat a monologar».

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                                                  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                          João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Pequena viagem por alguns livros que retratam a vida sombria que os portugueses viviam antes do 25 de Abril:

1.

«Entre 1904 e 1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado.» 

Roger Vailland em A Lei

2.

«Não há mais que silêncio em toda esta cidade. Silêncio e fome. Acabo de percorrer toda a Rua do Ouro e a Rua Augusta e reparei que ninguém falava. As pessoas cruzam-se em silêncio, e mesmo que se conheçam não se cumprimentam.»

Reynaldo Arenas em O Mundo Alucinante

3.

«Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele. Mas tudo pode desfazer-se dum momento para o outro. Sei o que fui, sei ainda o que sou. Mas tal não contribui em nada para o que serei. Um só gesto e os outros vêm ao museu onde estamos embalsamados, arrancam-nos o rótulo, não querem mais saber de nós, dizem que traímos. O que fomos? O que ainda ontem fomos? Os gestos que fizemos? Não. Não querem saber, Podem ter sido gestos da mais espantosa pureza, que em nada contribuem para que os outros nos perdoem. Pelo contrário. Esses gestos, pela sua própria beleza, mais ainda nos condenam, mais ainda nos enterram.»

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

4.

«Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»

Mário Sacramento em Carta-Testamento 

5. 

«Nesse mesmo dia o Tinoco deu ordem à mulher-pide que não me deixasse ir à casa de banho enquanto eu não falasse e que as minhas necessidades eram feitas ali mesmo na frente deles e limpas com a minha roupa.

Foi-me novamente perguntado de não falava. Garantiram-me que ia ficar nua e que depois iam entrar os cavalheiros e sair as senhoras. Perante a minha negativa a pide Madalena começou aos pontapés e a bater-me enquanto me despia. Surge então um pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu levantar a cabeça. Tinha alucinações, não conseguia manter-me de pé.

Maria da Conceição Matos Abrantes

6

Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.»

Egito Gonçalves em Notícias do Bloqueio

7.

Como hei-de amar serenamente com tantos amigos na prisão.

Fernando Assis Pacheco

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO

Manuel Alberto Valente, na crónica que publica no Expresso, dedicou uma das últimas (27 de Janeiro) a recordar autores esquecidos.

A crónica começa assim: «O tempo, esse grande escultor, como lhe chamou Yourcenar, é muitas vezes ingrato com certos autores: depois de um período de fama e reconhecimento, aira-os para o caixote do lixo da História.»

E passa a citar Altino do Tojal com os seus «Putos», Américo Guerreiro de Sousa, ManuelFerreira.

Lembra também alguns autores esquecidos que estão a ser republicados como Maria Ondina Braga (Imprensa Nacional), Maria Judite de Carvalho (Minotauro) e lembra ainda A Cidade das Flores de Augusto Abelaira, que há muito se encontrava esgotado.

Mas o interessante da crónica é que Manuel Alberto Valente lembra que o fenómeno do esquecimento de escritores não é apenas português, mania muito nossa, e conta:

«Há alguns anos, conversando na Feira de Frankfurt com uma jovem editora francesa, contei-lhe quão importante havia sido para a minha geração um autor como Roger Vailland. Olhou-me espantada, e confessou que não só não havia lido, como nem sequer conhecia o nome. E era editora… O tempo pode ser um grande escultor, mas também muitas vezes, o barro com que esculpe desfaz-se e é arrastado pelo vento.»

Por Roger Vailland sei bem do que fala o Manuel Alberto Valente.

Reconto a história já aqui deixada em Junho de 2013:

 «Por um antigo Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma importante empresa.

 Sandes de isca para um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.

 Eis senão quando, num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.

 Boca-comentário mandada para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...

 Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:

 Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”».

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

POSTAIS SEM SELO

- Há o lobo – diz Duc. – O lobo é soberano, o cão não é soberano. Abdicou da soberania a favor do dono.

Roger Vailland em Fim de Semana

sexta-feira, 24 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Um dia se saberá das razões que levaram, na manhã de 16 de Março de 1974, que uma coluna militar saísse do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Raínha, em direcção a Lisboa.

Considerando os respectivos interesses, são possíveis duas hipóteses:

a)      Tentativa de os spinolistas se apropriarem da liderança do Movimento das Forças Armadas.
b)      Tentativa de os spinolistas serem afastados do processo em curso.

Um país triste, miserável, inculto, militares cansados de uma guerra que durava há 13 anos e em que morreram cerca de 10 mil portugueses, e uns bons milhares não facilmente contabilizáveis ficaram estropiados e outros acordam a meio das noites. Raro existir um português que não tivesse um familiar, um amigo morto nessa guerra.
 
era um tempo com barcos por dentro dos sonhos
era um tempo com meninos por dentro dos olhos
era um tempo de saber dos homens as mãos
era um tempo de saber das fontes as sedes
era um tempo de cais de lenços de raivas

tempo de espera,
tempo de qualquer tempo
tempo de contratempo
tempo de ser o tempo de o tempo nos  revisitar

Em Março de 1974, Marcelo Caetano, numa mensagem estranha, aos seus ministros, deixa implícito que só as grandes patentes militares do regime se deixavam corromper, lembrava:

«Cuidado com os capitães, o perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.»

Marcelo Caetano, no seu Depoimento, escreve que o episódio das Caldas da Raínha não devia ter sido subestimado.

Não se percebe bem a observação na medida em que, linhas à frente, escreve que «… a revolução veio efectivamente de surpresa.»

A 24 de Abril, ao fim da tarde Marcelo Caetano, falava ao telefone com um dos seus ministros e comentava os rumores sobre um levantamento militar iminente:

«Isso é mais um boato desgastante», garantia.

Para o dia 25, os serviços de Meteorologia previam: Céu pouco nublado, por vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e aguaceiros.
Na noite de 24 de Abril, no Coliseu, representava-se La Traviata de Giuseppe Verdi

A sala estava completamente cheia e a reportagem do Diário de Notícias, do dia seguinte, dava conta que no meio das ovações vibrantes e intermináveis, cravos foram lançados das frisas.

A reportagem do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações intermináveis, cravos tinham sido lançados das frisas.

Regressando a suas casas, a maioria daqueles espectadores desconheciam que esse começo de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro qualquer.

Estava a chegar o Dia de Todas as Surpresas.

Se outros caminhos não o tivessem desviado, Otelo Saraiva de Carvalho teria um dos espectadores da representação da Traviata.

Otelo diz à mulher que chegou a hora, e se ela, no rádio, ouvir os sinais, é porque tudo está acorrer bem.

A mulher pergunta-lhe o que acontecerá se não ouvir os sinais.

Otelo responde-lhe:

Então, não sei ainda o que me poderá acontecer. Presumo que serei demitido, entregue à PIDE, passado a civil e vá aboborar por uns anos largos em Caxias ou, quem sabe, faça uma viagem só com bilhete de ida para o Tarrafal. Uma coisa te garanto: nunca mais farei guerra nenhuma no Ultramar.

No livro Alvorada de Abril, onde conta esta história, adianta:

«O gracejo final fora chocho. Tinha a sensação de que o panorama se apresentava negro. Tentei dar-lhe uma pincelada de cor:
- Mas não te apoquentes com nada disso nem tenhas pensamentos desse género. Porque eu tenho a certeza de que, em poucas horas, ganharemos esta guerra. Dominamos quase todas as unidades do País, a malta está com uma gana formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa. É canja!
Ela quis também dar ao ambiente um pequeno toque de humor:
- Queres então dizer com isso que amanhã não vamos à ópera?
Tinha-me esquecido completamente do assunto. Comprara bilhetes para a Traviata, que se cantava na noite de 24 no Coliseu dos Recreios, aproveitando o preço mais baixo que nos era facultado através da Secção de Actividades Culturais e Recreativas da Academia Militar.
- Olha, guarda-os para recordação. É claro que não vamos.
Com o permanente espírito de economia caseira retorquiu:
- Leva-os antes contigo e procura entregá-los amanhã na Academia. Pode ser que devolvam o dinheiro.
- Não vou fazer isso. Entregá-los agora depois de tanto os ter pedido, dizendo que já não me interessa, pode levantar qualquer suspeita. Paciência. Outra vez virá. Além disso, já vimos a Traviata do alto do galinheiro do São Carlos.
Ainda hoje tenho comigo esses bilhetes. No sobrescrito timbrado da Academia Militar dentro do qual mos entregaram, minha mulher inscreveria mais tarde a frase: "Faltámos por motivo imprevisto".»

Naturalmente, a música que vos escolhi, é um trecho do 1º acto da Traviata: «E strano, e strano...Follie, follie...Sempre Libera», interpretado por Maria Calas.



Há quarenta e seis anos, por esta hora, findava mais um dia do nosso cinzento quotidiano.

No seu romance A Lei, Roger Vailland escreve:

«Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado.»

Legenda: Um Coliseu cheio para na noite de 24 de Abril de 1984 assistir à representação da Traviata. Fotografia do Diário de Notícias.

quinta-feira, 14 de março de 2019

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O filme de Joseph Losey estreou em Portugal a 15 de Julho de 1983 no Cinema Hollywood, antes chamou-se ABCine, duas salas no Centro Comercial Alvalade, que ainda existe mas agora sem qualquer sala de cinema.

O filme apenas o vi a 28 de Janeiro de 2002 numa sessão na Cinemateca.

Esta é Folha da Cinemateca em que o excelente homem de cinema, Manuel Cintra Ferreira, escreve sobre o filme de Losey.



Há livros que na visão ligeira que deles faço, concluo que não poderão dar um filme. Nesse ponto estão os romances de Roger Vailland, e adianto desde já «A Truta.»

Mas isso é o pobre de mim a pensar.

Losey não se fez rogado e avançou.

O filme não me entusiasmou e, apesar de o livro não ser daquela colheita Vailland em que aprendi a gostar, inclino-me mais para o livro.

Há quem declare que Roger Vailland é um autor datado.

Não vou por aí.

Recordo as conversas de então: «um assalariado, seja qual for o salário, ganha sempre um pouco menos do que precisa» e para que não houvesse qualquer dúvida, acrescentava-se: regra segundo São Roger Vailland. 

Roger Vailland esteve três vezes em Portugal.

As duas primeiras em reportagem; a terceira como membro da Resistência à ocupação da França pelos exércitos de Hitler,

Sobre o olhar pelo país em «A Lei», inventa o verbo «portugalizar».

«Entre 1904 e 1914, entre os seus vinte e trinta anos, viajara nas férias universitárias por toda a Europa a fim de rematar a educação, segundo o desejo do pai. Voltando certo Verão de Londres para em Valência embarcar rumo a Nápoles, demorou-se alguns dias em Portugal. Fizera a si mesmo mil perguntas sobre o declínio desta nação cujo Império se alargara a todo o globo. Conheceu escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os ingleses; homens de negócios que liquidavam as feitorias do Brasil e viviam de rendas exíguas nas cidades da província, sem qualquer objectivo. Concluiu que a pior das desgraças era nascer português. Em Lisboa e pela primeira vez na vida travara encontro com um povo que se tinha desinteressado.»

Na nota introdutória a «Esboço Para um Retrato do Verdadeiro Libertino», Vitor Silva Tavares anota:

«Prazer; jogo; razão; liberdade – eis a infraestrutura geométrica do retrato do libertino segundo Vailland.»

Pegando em «A Roda da Fortuna» saco estas passagens:

«Mesmo no Inverno dormia nua. Bastava-lhe um pouco de álcool para não sentir frio.»

«Gozar a vida – disse Milan – é como um ofício, tem de se aprender. Mas é talvez preciso começar muito cedo».

«- Continua a pensar que a sua mãe não tinha razão? – perguntou Helena
- Cada vez mais – diz Roberta – É muito menos humilhante dobrar a espinha ante as injúrias da nossa mãe, mesmo que seja prostituta, do que passar uma única noite com um homem que não amamos.
- Mas podia trabalhar, diz Helena.
-Não – diz Roberta – Fazer um trabalho que não agrada é tão humilhante como dormir com um homem que nos repugna.»

«Minha filha, nunca se deve dizer a um homem que o enganámos. Mesmo que aceitasse a tua infidelidade, mesmo que a encorajasse, o que é certo é dez anos mais tarde se serviria da tua confissão como de uma arma contra ti. Nega mesmo a evidência. Foi a única coisa razoável que me ensinou a minha abominável mãe»

domingo, 22 de julho de 2018

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Roger Vailland é um escritor datado, mas marcou muita gente nos anos 60/70.

Passados todos estes anos, ainda me confesso um leitor agradado de São Roger Vailland.

Vailland teve uma passagem curta pelo Partido Comunista Francês.

No 2º volume de Escritos Íntimos dá conta desse findar de caminho militante com o Partido.

Recorde-se:

«5 de Junho de 1956

Regresso de Moscovo.

À minha chegada, quinze dias antes, a estátua em pé de Estaline estava ainda no hall do aeroporto. No dia da minha partida, continuava lá, mas coberta com um resguardo branco. Em breve a vão retirar. Os homens da construção civil fixá-la-ão com nós corredios e puxarão a talha.
Cheguei a amar os tiques da sua linguagem. Colocava as primeiras pedras de um raciocínio, depois dizia «prossigamos»; adorei isso. Mas ao regressar a casa, foi bem preciso retirar o seu retrato da parede, por cima da minha secretária; deixá-lo, seria ter tomado partido contra aqueles que, lá, prosseguem a construção do mundo que ele começou a edificar, e a favor daqueles que, aqui ou algures, aspiram à tirania.
Nunca mais colocarei o retrato de um homem nas paredes da minha casa.
No canto da biblioteca reservado aos historiadores da Revolução Francesa tirei também as duas grandes gravuras da época, intituladas Jornada de 21 de Janeiro de 1793, Jornada do 16 de Outubro de 1793; vê-se aí o carrasco mostrar à multidão a cabeça de Capet, um outro carrasco erguer o cutelo da guilhotina, enquanto os auxiliares mandam subir para o cadafalso Maria Antonieta. A multidão aplaude. Convencional, teria votado pela morte de Luis XVI e pela de Maria Antonieta; quero com isto dizer que hoje ainda, em circunstâncias análogas, votaria a morte. Mas Meyerhold que amo, que amava, foi fuzilado, em execução de um julgamento injusto, ditado por Estaline, que eu amava. Nunca mais poderei alegrar-me por o sangue ser vertido, mesmo o dos meus inimigos, excepto se for por mim mesmo, em combate leal.»

Lendo Vailland percebem-se as razões por que Salazar, a PIDE e a censura, perseguiram, ou tentassem perseguir, quem o  lia, para além de outros.

Mas saber que a Fundação Calouste Gulbenkian – a mando salazarista? – também atentasse contra as nossas leituras e ideias é algo que, de modo algum, deixa a reputação gulbenkiana no limiar das ruas da amargura.

Tinha um Conselho de Leitura e, em Janeiro de 1963, para análise de Fim de Semana de Roger Vailland foi escolhido o escritor e filósofo António Quadros, nada mais, nada menos que, filho de António Ferro, braço direito de Salazar e da escritor Fernanda de Castro.

Muitos já esqueceram, mas é depura higiene, física e intelectual, não esquecer o quanto a minha geração, juntamente com outras, estas gerações foi rigorosamente vigiada.

Mas, como escreveu Carlos de Oliveira:


Por mera curiosidade – e não só! - fica o registo da «leitura» de António Quadros:

«Género: romance
Valor: Bom
Intenção: recreativa
Acessibilidade Fácil
Idade leitores: Mais de 21 anos de sólida formação moral e intelectual
Aceitável, apenas para reservas
Livros do Brasil: 35$00
Preço: 35$00
Assunto e outras observações: O tema é típico de R. Vailland: a mulher, para conservar o marido, escritor célebre, tem como processo garantir-lhe inteiramente a liberdade, e, até, favorecer as suas conquistas. O escritor precisa, de quando em quando, do que chama “uma festa”… Depois, regressa a casa, onde a mulher, além de compreensiva, é confidente das aventuras do marido.
O livro seria normalmente de recusar, mas não há dúvida de que tem um alto nível literário. Superior até a outros de Vailland, escritor muito representativo. Por isso, consideramo-lo aceitável para reservas e para adultos de sólida formação.

domingo, 13 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Helena pormenorizou tudo o que ia comprar com seus vinte mil francos: sapatos de camurça com sola de crepe, pneus para a bicicleta – era razoável – um álbum de reproduções a cores das telas de Gauguin. Ou então renunciar aos sapatos e ao álbum e comprar um aparelho de rádio; aos domingos ouviria os concertos.


Roger Vailland em A Roda da Fortuna

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O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

RECADOS


Da nota introdutória de Vitor Silva Tavares, também tradutor e editor de Esboço Para Um Retrato do Verdadeiro Libertino de Roger Vailland:

Aqui temos, brevemente enunciado, todo o percurso da obra que ora se apresenta ao leitor português – obra  exemplarmente reveladora da exactidão mental e formal de um dos mais legítimos herdeiros dos grandes libertinos do séc. XVIII, tanto pela audaciosa “austeridade” das relações amorosas como pelo empenhamento político vincadamente progressista.

sábado, 5 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Declaro-lhe solenemente que a felicidade é possível. Chegámos ao fundo da noite, é também o fim da noite. As horas que precedem a madrugada são as mais dolorosas. Sente-se frio e um sabor a sujo na boca, o sabor do desgosto, o «tempo do desprezo», o tempo do sangue vertido sem glória… Mas não se pode dormir na hora que precede a madrugada. Os que tiverem adormecido durante a noite da vergonha não conhecerão o dia da glória…

Roger Vailland

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A ETERNA QUESTÃO


Começou ontem a Volta à França.

Trata-se da sua 100ª edição e nada melhor para comemorar o acontecimento que o norte-americano Lance Armstrong, despojado dos sete títulos conquistados na Volta à França, numa entrevista ao Le Monde, considerar impossível ganhar o Tour sem recorrer ao dopping.

Roger Vailland escreveu que não se ganha a Volta a França sozinho e Joaquim Agostinho, sem papas na língua disse um dia,  que não se sobe o Tourmalet  a comer bifes e a beber Água do Luso.

O antigo ciclista belga Eddy Merckx, que venceu a Volta a França por cinco vezes,  numa entrevista ao Parisien Dimanche, contestou as palavras de  Armstrong e garantiu que se pode ganhar o Tour sem recurso ao dopping.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

PERGUNTAS DE ALGIBEIRA


Por um antigo Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma importante empresa.

Sandes de isca para um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.

Eis senão quando, num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.

Boca-comentário para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...

Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:

Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”

Uma cadeia de hotéis do Reino Unido realizou, há escassas semanas, um inquérito a dois mil alunos do ensino secundário para testar conhecimento histórico e encontrou dados surpreendentes. A maioria dos alunos, entre os 11 e os 16 anos, baralhou as personagens históricas e contemporâneas e fez associações erradas.

Segundo o jornal The Independent, que divulgou os dados deste inquérito, a maior parte dos adolescentes colocou  Delia Smith (apresentadora de programas de culinária), Jerry Hall (modelo) e Camila, duquesa da Cornualha e mulher do herdeiro da coroa britânica Carlos, na lista de mulheres de Henrique VIII.

Os inquiridos não souberam dizer que países estiveram envolvidos na II Guerra Mundial e consideraram que Rod Stewart (cantor), Bruce Forsyth (actor) e Alan Sugar (empresário) foram primeiros-ministros durante esse conflito.

Quando foi pedido que identificassem William Shakespeare, uma grande percentagem de inquiridos disse tratar-se de um apresentador da BBC.

 Já Nick Knowles, apresentador, foi identificado pelo menos por um aluno como construtor das pirâmides e  Anne Frank, a adolescente judia que morreu no Holocausto, foi identificada como apresentadora de um talk-show americano, a Peste Negra como  um grupo rock.

Legenda: aguarela de Roque Gameiro.

sábado, 30 de junho de 2012

DIAS DE FESTA


A partir de hoje, com partida de Liége, na Bélgica, e chegada a Paris no dia 22 de Julho, começa a 99ª edição da Volta à França em Bicicleta.

Tirando o futebol, muito pouca coisa me leva a ficar grudado a olhar para a televisão.
Abro excepção para o Torneio de Ténis de Roland Garros, a Volta à França e, quando o Ayrton Senna ainda andava por cá, as corridas de Fórmula 1.

A partir de hoje, arranjo lugar cativo para olhar as reportagens transmitidas pelo Eurosport.

Apesar de toda a complicadíssima trama da dopagem que, nos últimos anos, tem envolvido o ciclismo, a Volta à França é sempre um acontecimento transcendente.

Novamente os vastos e lindíssimos campos de girassóis, os trabalhadores agrícolas que, momentaneamente, abandonam os trabalhos e vêm até à estrada ver afesta do Tour.

Os motivos alegóricos feitos para saudar a etapa que passa por aldeias e cidades.

Roger Vailland dizia que não se ganha a Volta a França sozinho, Joaquim Agostinho disse um dia,  que não se sobem os Alpes e os Pirinéus a beber água do luso e a comer bifes.

Todos os anos o Tour acaba por disputar-se na ressaca de uma série de ciclistas que admitiram a utilização de substâncias dopantes. Não vale a pena tapar o sol com uma peneira mas, apesar disso, a festa acontece, e milhares guardam os seus dias de férias para, em caravanas e outros transportes, acompanharem o tour.

Há alturas na vida em que me lembro de ti, Charly Gaul.
A quem chamavam o “Anjo da Montanha”.
De bicicleta nunca subi o Tourmalet,
mas dei muitas vezes a volta à serra
e parava sempre em Almoçageme
para beber um laranjada na Pensão do Sisudo.
E que será feito de ti, Charly Gaul,
herói da minha adolescência com bicicletas
no sítio dos olhos?
Para mim nem Federico Bahamontes (de Toledo)
nem o francês Anquetil
nem mesmo o meu amigo José Manuel Fuente
conseguiram alpinar aos cornos da Lua porta com porta
com o teu coração luxemburguês.
Onde estarão agora esses pedias? Serás pedreiro?,
manga-de-alpaca?,  vendedor de triciclos?,
fulano detal?, uma charrua ambulante?
Que será feito de ti?, anjo da montanha
dessas minhas tardes ventosas de Verão
quando descia às Arcadas para beber o “Mundo Desportivo”
(eram quatro rins) e saber como pedalavas a vida
Subindo a Volta à França.
Olha esta febre, Cahrly Gaul:
vejo cada vez menos a fugir do pelotão.
E podes dormir de rosa na boca:
se fosse possível voltares às bicicletas
continuarias a subir sozinho o Tourmalet.

Fernando Grade em O Vinho dos Mortos, Edições MIC, Maio de 1977.     

segunda-feira, 26 de março de 2012

JANELA DO DIA


1.

A sétima edição do encontro internacional Literatura em Viagem, que deveria realizar-se entre os dias 21 e 24 de Abril, em Matosinhos, está suspensa e poderá mesmo vir a ser cancelada se até ao final do mês o Governo não regulamentar a Lei 8/2012 (a chamada “lei do compromisso”), que impede as autarquias de assumirem qualquer nova despesa que exceda os fundos disponíveis no curto prazo.

A organização do encontro já tinha assegurado a participação de cerca de meia centenas de escritores de dez países diferentes, entre os quais se contam os franceses Olivier Rolin e Laurent Gaudé, o belga Bernard Quiriny, o norte-americano Philip Graham, a italiana Romana Petri, o sueco Henrik Nilsson, a chinesa Xinran ou os portugueses Paulo Castilho e Maria Teresa Horta. As viagens estavam pré-reservadas, bem como a estada dos autores em Matosinhos, o que não deixará de representar também algum prejuízo para as empresas que iam prestar estes serviços.

2.

O governo decidiu não publicar ou comentar a quantidade de pessoas presentes nas greves e manifestações.

Um lacaio do patronato não concordou e hoje bolsou umas atoardas que os jornalismos ouviram e reproduziram.

Há gente que, quando nasce desprezível, cedo nunca perde o tique:

Numa conferência de imprensa em Lisboa, o secretário geral da UGT garantiu que nenhum dos seus sindicatos aderiu à greve geral da passada quinta-feira e convocada pela CGTP.
Apesar das críticas à outra confederação de sindicatos, Proença disse ter esperanças de que as duas centrais procurem uma unidade de ação futura para prosseguir objetivos comuns.

3.

Cavaco Silva lamentou hoje, profundamente, que dois fotojornalistas, na quinta-feira, no Chiado, tenham sido barbaramente agredidos pela polícia.

Penso que é importante que todos saibamos, que o povo português saiba bem tudo aquilo que aconteceu nos distúrbios que ocorreram no Chiado.

O povo português ficou a saber do que realmente se passou, na Ponte 25 de Abril, era Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro e Dias Loureiro seu ministro da Administração Interna?


Legenda: capa de António Domingues para Borobudur, Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas de Roger Vailland, Prelo Editora, Lisboa 1961