Uma verdadeira
personagem de romance é aquela de quem o leitor sabe ou julga saber tudo o que
fez e o que vai fazer, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Conhecemos
melhor Madame Bovary, Ana Karénine ou Rastignac que a nossa mulher, a nossa
filha ou o nosso irmão.
Tradução:
Serafim Ferreira e Armando Pereira da Silva
Capa: Homero
Amaro
Publicações Dom
Quixote, Lisboa Abril de 1967
Se o escritor não se encontra ligado aos problemas da
sua época, nada tem a contar. Mesmo que queira, não se pode encerrar numa torre de
marfim. Não existe qualquer torre de marfim. O homem que se fecha, não poderá
contar-se a si mesmo indefinidamente e, como não fará nada, terá muito pouco
para dizer de si próprio… De outro modo, reflecte-se eternamente a si mesmo,
reflectindo-se. O escritor, como homem, está necessariamente comprometido com
qualquer coisa, mesmo quando não acredita.
Roger Vailland deixou mais de duas mil páginas
inéditas: esboços de romances, de novelas, ou de peças de teatro, notas para
ensaios, e também correspondência e diário íntimo. Estas páginas estão reunidas
em dois volumes, edição das Publicações Europa-América - «Eis Vailland visto de dentro nos seus diversos tempos…», coloca a
editora na capa do 1º volume de Escritos Íntimos:
Neste dia, do ano de 1943, troam pela Europa os
canhões e Vailland escreve:
Hoje,
quem nos autografa o poema é João José Cochofel.
46º
Aniversário é o volume nº 20 da Colecção Poetas de Hoje editada pela
Portugália.
A
Urbano Tavares Rodrigues calhou o prefácio do livro sobre a poesia de Cochofel.
«Como Roger Vailland, a
cujo ouvido a palavra patrão ressoava sempre como afronta à sua dignidade de
homem, o autor de 48º Aniversário se rebela contra os hábitos e estereótipos de
servidão, contra a imagem lôbrega de um povode negro trajado, mudo e vencido,
mas dá-se conta, ao mesmo tempo, com honrada noção dos seus limites, daquilo
que lhe assiste ou para que é fadado. Nada repugna mais ao poeta João José
Cochofel do que adornar-se com penachos faustosos, qualquer que seja a cor
dessas galas.
Homem que
sou
no cárcere
que é o nosso,
sei o que
sou,
dou o sangue
que posso.»
Cochofel,
como autógrafo escolheu, do livro, um poema de Rondó:
Ao Zé Cardoso
peço uma miúda
com um toque de chiado ou de grandella,
às nove e duas pernas da manhã,
que, como o peixe, tesa de frescura,
tenha perdido a escama de donzela,
mas não venha falar-me do Vailland…
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Anos 50, 60, por aí fora.
Em algumas terras do interior deste país à
beira-mar plantado, poderia ler-se certos avisos:
«É proibida a mendicidade».
Esta semana a Cáritas alertou que a pobreza
em Portugal pode ser ainda mais elevada do que o consta das estatísticas nacionais. Segundo
a instituição revela, em 2022, 17% dos portugueses estavam no limiar da
pobreza.
Ricos e Pobres. Pobres e Ricos.
Há alguns meses, uma velhota, a sair de um
pequeno mercado na Rua Morais Soares, desabafava para si própria.
«Há mais gente a pedir que a trabalhar!»
Lidia Jorge numa entrevista ao Público:
«A pobreza entre nós é um escandalo. É a questão mais urgente em Portuga.»
Roger Vailland em Cabra-Cega:
Na verdade
qualquer amizade é, por definição, impossível entre o rico e o pobre; o
primeiro suspeitará sempre que o segundo é um crava e este que o rico é egoísta
e avaro. Se houvesse verdadeira amizade, o rico não seria rico ou o pobre não
seria pobre.
Jurei a mim mesmo,
de uma vez por todas, não ser delicado
para com os ricos. É uma promessa difícil de cumprir, porque é agradável
ser-se louvado pelos poderosos.
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Pequena viagem por alguns livros que retratam a vida sombria que os
portugueses viviam antes do 25 de Abril:
1.
«Entre 1904 e
1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante
as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do
seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para
Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre
o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha
conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que
governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus
estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de
província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades
nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com
um povo que se tinha desinteressado.»
Roger Vailland em A Lei
2.
«Não há mais
que silêncio em toda esta cidade. Silêncio e fome. Acabo de percorrer toda a
Rua do Ouro e a Rua Augusta e reparei que ninguém falava. As pessoas cruzam-se
em silêncio, e mesmo que se conheçam não se cumprimentam.»
Reynaldo Arenas em O Mundo Alucinante
3.
«Estamos
catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num
frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo
puseram-no os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele.
Mas tudo pode desfazer-se dum momento para o outro. Sei o que fui, sei ainda o
que sou. Mas tal não contribui em nada para o que serei. Um só gesto e os
outros vêm ao museu onde estamos embalsamados, arrancam-nos o rótulo, não
querem mais saber de nós, dizem que traímos. O que fomos? O que ainda ontem
fomos? Os gestos que fizemos? Não. Não querem saber, Podem ter sido gestos da
mais espantosa pureza, que em nada contribuem para que os outros nos perdoem.
Pelo contrário. Esses gestos, pela sua própria beleza, mais ainda nos condenam,
mais ainda nos enterram.»
Augusto Abelaira em A Cidade das Flores
4.
«Nasci e vivi
num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu
espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas,
económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse
sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do
homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para
me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus
Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não
o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo,
mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos
pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós,
os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»
Mário Sacramento em Carta-Testamento
5.
«Nesse mesmo
dia o Tinoco deu ordem à mulher-pide que não me deixasse ir à casa de banho
enquanto eu não falasse e que as minhas necessidades eram feitas ali mesmo na
frente deles e limpas com a minha roupa.
Foi-me
novamente perguntado de não falava. Garantiram-me que ia ficar nua e que depois
iam entrar os cavalheiros e sair as senhoras. Perante a minha negativa a pide
Madalena começou aos pontapés e a bater-me enquanto me despia. Surge então um
pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu
levantar a cabeça. Tinha alucinações, não conseguia manter-me de pé.
Maria da
Conceição Matos Abrantes
6
Diz-lhes que
se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os
víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.»
Egito Gonçalves em Notícias do Bloqueio
7.
Como hei-de
amar serenamente com tantos amigos na prisão.
Manuel Alberto
Valente, na crónica que publica no Expresso,
dedicou uma das últimas (27 de Janeiro) a recordar autores esquecidos.
A crónica começa
assim: «O tempo, esse grande escultor,
como lhe chamou Yourcenar, é muitas vezes ingrato com certos autores: depois de
um período de fama e reconhecimento, aira-os para o caixote do lixo da
História.»
Lembra também
alguns autores esquecidos que estão a ser republicados como Maria Ondina Braga
(Imprensa Nacional), Maria Judite de Carvalho (Minotauro) e lembra ainda A Cidade das Flores de Augusto Abelaira,
que há muito se encontrava esgotado.
Mas o interessante da
crónica é que Manuel Alberto Valente lembra que o fenómeno
do esquecimento de escritores não é apenas português, mania muito nossa, e conta:
«Há alguns anos, conversando na Feira de Frankfurt com uma jovem
editora francesa, contei-lhe quão importante havia sido para a minha geração um
autor como Roger Vailland. Olhou-me espantada, e confessou que não só não havia
lido, como nem sequer conhecia o nome. E era editora… O tempo pode ser um
grande escultor, mas também muitas vezes, o barro com que esculpe desfaz-se e é
arrastado pelo vento.»
Por Roger Vailland
sei bem do que fala o Manuel Alberto Valente.
Reconto a história já
aqui deixada em Junho de 2013:
«Por um antigo
Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma
pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros,
o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma
importante empresa.
Sandes de isca para
um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.
Eis senão quando,
num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de
questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin
du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e
cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.
Boca-comentário mandada
para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...
Corria o ano de
2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:
Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que
vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”».
Um dia se saberá
das razões que levaram, na manhã de 16 de Março de 1974, que uma coluna militar
saísse do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Raínha, em direcção a
Lisboa.
Considerando os
respectivos interesses, são possíveis duas hipóteses:
a)Tentativa de os spinolistas se apropriarem da
liderança do Movimento das Forças Armadas.
b)Tentativa de os spinolistas serem afastados do
processo em curso.
Um país triste,
miserável, inculto, militares cansados de uma guerra que durava há 13 anos e em
que morreram cerca de 10 mil portugueses, e uns bons milhares não facilmente
contabilizáveis ficaram estropiados e outros acordam a meio das noites. Raro
existir um português que não tivesse um familiar, um amigo morto nessa guerra.
era um tempo com barcos por dentro dos sonhos
era um tempo com meninos por dentro dos olhos
era um tempo de saber dos homens as mãos
era um tempo de saber das fontes as sedes
era um tempo de cais de lenços de raivas
tempo de espera,
tempo de qualquer tempo
tempo de contratempo
tempo de ser o tempo de o tempo nosrevisitar
Em Março de 1974,
Marcelo Caetano, numa mensagem estranha, aos seus ministros, deixa implícito que
só as grandes patentes militares do regime se deixavam corromper, lembrava:
«Cuidado com os capitães, o perigo vem deles,
pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.»
Marcelo Caetano,
no seu Depoimento, escreve que o
episódio das Caldas da Raínha não devia ter sido subestimado.
Não se percebe
bem a observação na medida em que, linhas à frente, escreve que «… a revolução veio efectivamente de
surpresa.»
A 24 de Abril, ao
fim da tarde Marcelo Caetano, falava ao telefone com um dos seus ministros e
comentava os rumores sobre um levantamento militar iminente:
«Isso é mais um boato desgastante», garantia.
Para o dia 25, os serviços de Meteorologia previam: Céu pouco nublado,
por vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e
aguaceiros.
Na noite de 24 de Abril, no Coliseu, representava-se La Traviata
de Giuseppe Verdi
A sala estava completamente cheia e a reportagem do Diário de Notícias,
do dia seguinte, dava conta que no meio das ovações vibrantes e intermináveis,
cravos foram lançados das frisas.
A reportagem
do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações
intermináveis, cravos tinham sido lançados das frisas.
Regressando a
suas casas, a maioria daqueles espectadores desconheciam que esse começo
de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro
qualquer.
Estava a chegar o
Dia de Todas as Surpresas.
Se outros
caminhos não o tivessem desviado, Otelo Saraiva de Carvalho teria um dos
espectadores da representação da Traviata.
Otelo diz à mulher que chegou a hora, e se ela, no rádio, ouvir os sinais, é
porque tudo está acorrer bem.
A mulher pergunta-lhe o que acontecerá se não ouvir os sinais.
Otelo responde-lhe:
Então, não sei ainda o que me poderá acontecer. Presumo que serei demitido,
entregue à PIDE, passado a civil e vá aboborar por uns anos largos em Caxias
ou, quem sabe, faça uma viagem só com bilhete de ida para o Tarrafal. Uma coisa
te garanto: nunca mais farei guerra nenhuma no Ultramar.
No livro Alvorada de Abril, onde
conta esta história, adianta:
«O gracejo final fora chocho. Tinha a sensação de que o panorama se apresentava
negro. Tentei dar-lhe uma pincelada de cor:
- Mas não te apoquentes com nada disso nem tenhas pensamentos desse género.
Porque eu tenho a certeza de que, em poucas horas, ganharemos esta guerra.
Dominamos quase todas as unidades do País, a malta está com uma gana
formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa. É canja!
Ela quis também dar ao ambiente um pequeno toque de humor:
- Queres então dizer com isso que amanhã não vamos à ópera?
Tinha-me esquecido completamente do assunto. Comprara bilhetes para a Traviata,
que se cantava na noite de 24 no Coliseu dos Recreios, aproveitando o preço
mais baixo que nos era facultado através da Secção de Actividades Culturais e
Recreativas da Academia Militar.
- Olha, guarda-os para recordação. É claro que não vamos.
Com o permanente espírito de economia caseira retorquiu:
- Leva-os antes contigo e procura entregá-los amanhã na Academia. Pode ser que
devolvam o dinheiro.
- Não vou fazer isso. Entregá-los agora depois de tanto os ter pedido, dizendo
que já não me interessa, pode levantar qualquer suspeita. Paciência. Outra vez
virá. Além disso, já vimos a Traviata do alto do galinheiro do São Carlos.
Ainda hoje tenho comigo esses bilhetes. No sobrescrito timbrado da Academia
Militar dentro do qual mos entregaram, minha mulher inscreveria mais tarde a
frase: "Faltámos por motivo imprevisto".»
Naturalmente, a música que vos escolhi, é um trecho do 1º acto da
Traviata: «E
strano, e strano...Follie, follie...Sempre Libera»,
interpretado por Maria Calas.
Há quarenta e seis anos, por esta hora, findava
mais um dia do nosso cinzento quotidiano.
«Um
Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles,
tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o
declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha
conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que
governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus
estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de
província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades
nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com
um povo que se tinha desinteressado.»
Legenda: Um Coliseu cheio para na noite de 24 de Abril de 1984 assistir
à representação da Traviata. Fotografia do Diário de Notícias.
O filme de
Joseph Losey estreou em Portugal a 15 de Julho de 1983 no Cinema Hollywood,
antes chamou-se ABCine, duas salas no Centro Comercial Alvalade, que ainda
existe mas agora sem qualquer sala de cinema.
O filme apenas o
vi a 28 de Janeiro de 2002 numa sessão na Cinemateca.
Esta é Folha da
Cinemateca em que o excelente homem de cinema, Manuel Cintra Ferreira, escreve
sobre o filme de Losey.
Há livros que na
visão ligeira que deles faço, concluo que não poderão dar um filme. Nesse ponto
estão os romances de Roger Vailland, e adianto desde já «A Truta.»
Mas isso é o
pobre de mim a pensar.
Losey não se fez
rogado e avançou.
O filme não me
entusiasmou e, apesar de o livro não ser daquela colheita Vailland em que
aprendi a gostar, inclino-me mais para o livro.
Há quem declare
que Roger Vailland é um autor datado.
Não vou por aí.
Recordo as
conversas de então: «um assalariado, seja qual for o salário, ganha sempre
um pouco menos do que precisa» e para que não houvesse qualquer dúvida, acrescentava-se:
regra segundo São Roger Vailland.
Roger Vailland
esteve três vezes em Portugal.
As duas
primeiras em reportagem; a terceira como membro da Resistência à ocupação da
França pelos exércitos de Hitler,
Sobre o olhar
pelo país em «A Lei», inventa o verbo «portugalizar».
«Entre 1904 e
1914, entre os seus vinte e trinta anos, viajara nas férias universitárias por
toda a Europa a fim de rematar a educação, segundo o desejo do pai. Voltando
certo Verão de Londres para em Valência embarcar rumo a Nápoles, demorou-se
alguns dias em Portugal. Fizera a si mesmo mil perguntas sobre o declínio desta
nação cujo Império se alargara a todo o globo. Conheceu escritores que não
escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os ingleses;
homens de negócios que liquidavam as feitorias do Brasil e viviam de rendas
exíguas nas cidades da província, sem qualquer objectivo. Concluiu que a pior
das desgraças era nascer português. Em Lisboa e pela primeira vez na vida
travara encontro com um povo que se tinha desinteressado.»
«Mesmo no Inverno dormia nua. Bastava-lhe um pouco de álcool para não sentir
frio.»
«Gozar a vida – disse Milan – é como um ofício, tem de se aprender. Mas é talvez
preciso começar muito cedo».
«- Continua a pensar que a sua mãe não tinha razão? – perguntou Helena
- Cada vez mais – diz Roberta – É muito menos humilhante dobrar a espinha ante
as injúrias da nossa mãe, mesmo que seja prostituta, do que passar uma única
noite com um homem que não amamos.
- Mas podia trabalhar, diz Helena.
-Não – diz Roberta – Fazer um trabalho que não agrada é tão humilhante como
dormir com um homem que nos repugna.»
«Minha filha, nunca se deve dizer a um homem que o enganámos. Mesmo que
aceitasse a tua infidelidade, mesmo que a encorajasse, o que é certo é dez anos
mais tarde se serviria da tua confissão como de uma arma contra ti. Nega mesmo
a evidência. Foi a única coisa razoável que me ensinou a minha abominável mãe»
Roger Vailland é um
escritor datado, mas marcou muita gente nos anos 60/70.
Passados todos estes
anos, ainda me confesso um leitor agradado de São Roger Vailland.
Vailland teve uma
passagem curta pelo Partido Comunista Francês.
No 2º volume de Escritos Íntimosdá conta desse findar
de caminho militante com o Partido.
Recorde-se:
«5 de Junho de 1956
Regresso de Moscovo.
À minha chegada, quinze dias antes, a estátua em pé de
Estaline estava ainda no hall do aeroporto. No dia da minha partida, continuava
lá, mas coberta com um resguardo branco. Em breve a vão retirar. Os homens da
construção civil fixá-la-ão com nós corredios e puxarão a talha.
Cheguei a amar os tiques da sua linguagem. Colocava as
primeiras pedras de um raciocínio, depois dizia «prossigamos»; adorei isso. Mas
ao regressar a casa, foi bem preciso retirar o seu retrato da parede, por cima
da minha secretária; deixá-lo, seria ter tomado partido contra aqueles que, lá,
prosseguem a construção do mundo que ele começou a edificar, e a favor daqueles
que, aqui ou algures, aspiram à tirania.
Nunca mais colocarei o retrato de um homem nas paredes
da minha casa.
No canto da biblioteca reservado aos historiadores da
Revolução Francesa tirei também as duas grandes gravuras da época, intituladas
Jornada de 21 de Janeiro de 1793, Jornada do 16 de Outubro de 1793; vê-se aí o
carrasco mostrar à multidão a cabeça de Capet, um outro carrasco erguer o
cutelo da guilhotina, enquanto os auxiliares mandam subir para o cadafalso
Maria Antonieta. A multidão aplaude. Convencional, teria votado pela morte de
Luis XVI e pela de Maria Antonieta; quero com isto dizer que hoje ainda, em
circunstâncias análogas, votaria a morte. Mas Meyerhold que amo, que amava, foi
fuzilado, em execução de um julgamento injusto, ditado por Estaline, que eu
amava. Nunca mais poderei alegrar-me por o sangue ser vertido, mesmo o dos meus
inimigos, excepto se for por mim mesmo, em combate leal.»
Lendo Vailland
percebem-se as razões por que Salazar, a PIDE e a censura, perseguiram, ou
tentassem perseguir, quem o lia, para além de outros.
Mas saber que a Fundação
Calouste Gulbenkian – a mando salazarista? – também atentasse contra as nossas
leituras e ideias é algo que, de modo algum, deixa a reputação gulbenkiana no
limiar das ruas da amargura.
Tinha um Conselho de
Leitura e, em Janeiro de 1963, para análise de Fim de Semana de Roger Vailland foi escolhido o escritor e filósofo
António Quadros, nada mais, nada menos que, filho de António Ferro, braço
direito de Salazar e da escritor Fernanda de Castro.
Muitos já esqueceram,
mas é depura higiene, física e intelectual, não esquecer o quanto a minha
geração, juntamente com outras, estas gerações foi rigorosamente vigiada.
Por mera curiosidade
– e não só! - fica o registo da «leitura» de António Quadros:
«Género: romance
Valor: Bom
Intenção: recreativa
Acessibilidade Fácil
Idade leitores: Mais de 21 anos de sólida formação moral e intelectual
Aceitável, apenas para reservas
Livros do Brasil: 35$00
Preço: 35$00
Assunto e outras observações: O tema é típico de R. Vailland: a mulher,
para conservar o marido, escritor célebre, tem como processo garantir-lhe
inteiramente a liberdade, e, até, favorecer as suas conquistas. O escritor
precisa, de quando em quando, do que chama “uma festa”… Depois, regressa a
casa, onde a mulher, além de compreensiva, é confidente das aventuras do
marido.
O livro seria normalmente de recusar, mas não há dúvida de que tem um
alto nível literário. Superior até a outros de Vailland, escritor muito representativo.
Por isso, consideramo-lo aceitável para reservas e para adultos de sólida
formação.
Helena pormenorizou tudo o que ia comprar com seus
vinte mil francos: sapatos de camurça com sola de crepe, pneus para a bicicleta
– era razoável – um álbum de reproduções a cores das telas de Gauguin. Ou então
renunciar aos sapatos e ao álbum e comprar um aparelho de rádio; aos domingos
ouviria os concertos.
O aparelho de
rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e
boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias,
nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o
espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas:
estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola
a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à
minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido,
quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há
uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro
não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos.
Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver
muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te? Paul Auster emSmoke
A recordação mais antiga que tenho é a de um
rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot
Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia,
e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era
um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio,
olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a
mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e
ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa
ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado
ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro.
Raul Solnado
em Infância de Sarah Adamopoulos
A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena”
contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me
deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira):
vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não
perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao
desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois
ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de
bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de
folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.
José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns
Aqui temos, brevemente enunciado, todo o
percurso da obra que ora se apresenta ao leitor português – obra exemplarmente reveladora da exactidão mental e formal de um dos mais legítimos herdeiros dos grandes
libertinos do séc. XVIII, tanto pela audaciosa “austeridade” das relações
amorosas como pelo empenhamento político vincadamente progressista.
Declaro-lhe solenemente que a felicidade é
possível. Chegámos ao fundo da noite, é também o fim da noite. As horas que
precedem a madrugada são as mais dolorosas. Sente-se frio e um sabor a sujo na
boca, o sabor do desgosto, o «tempo do desprezo», o tempo do sangue vertido sem
glória… Mas não se pode dormir na hora que precede a madrugada. Os que tiverem
adormecido durante a noite da vergonha não conhecerão o dia da glória…
Trata-se da sua 100ª edição e nada melhor para
comemorar o acontecimento que o norte-americano
Lance Armstrong, despojado dos sete títulos conquistados na Volta à França, numa
entrevista ao Le Monde, considerar impossível ganhar o Tour sem recorrer ao dopping.
Roger Vailland escreveu que
não se ganha a Volta a França sozinho e Joaquim Agostinho, sem papas na língua
disse um dia, que não se sobe o Tourmalet a comer bifes
e a beber Água do Luso.
O antigo ciclista belga
Eddy Merckx, que venceu a Volta a França por cinco vezes, numa entrevista ao Parisien Dimanche, contestou as palavras de Armstrong e garantiu que se pode ganhar o Tour sem recurso ao dopping.
Por um antigo Verão,
quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata
aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o
Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma
importante empresa.
Sandes de isca para um
lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.
Eis senão quando, num
assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de
questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin
du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e
cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.
Boca-comentário para o lado:
ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...
Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos
numa entrevista ao Público, dizia:
Há tempos estive em França
e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai
fazer agora 100 anos!”
Uma cadeia de hotéis do Reino Unido realizou, há
escassas semanas, um inquérito a dois mil alunos do ensino secundário para
testar conhecimento histórico e encontrou dados surpreendentes. A maioria dos
alunos, entre os 11 e os 16 anos, baralhou as personagens históricas e
contemporâneas e fez associações erradas.
Segundo o jornal The Independent, que divulgou os dados deste inquérito, a
maior parte dos adolescentes colocou Delia Smith (apresentadora de
programas de culinária), Jerry Hall (modelo) e Camila, duquesa da Cornualha e
mulher do herdeiro da coroa britânica Carlos, na lista de mulheres de Henrique
VIII.
Os inquiridos não souberam dizer que países
estiveram envolvidos na II Guerra Mundial e consideraram que Rod Stewart
(cantor), Bruce Forsyth (actor) e Alan Sugar (empresário) foram
primeiros-ministros durante esse conflito.
Quando foi pedido que identificassem William
Shakespeare, uma grande percentagem de inquiridos disse tratar-se de um
apresentador da BBC.
Já Nick Knowles, apresentador, foi identificado pelo menos
por um aluno como construtor das pirâmides e
Anne Frank, a adolescente judia que morreu no Holocausto, foi
identificada como apresentadora de um talk-show americano, a
Peste Negra como um grupo rock.
A partir de hoje, com partida de Liége, na Bélgica, e chegada a Paris no dia 22 de Julho, começa a 99ª edição da Volta à França em Bicicleta.
Tirando o futebol, muito pouca coisa me leva a ficar grudado a olhar para a televisão.
Abro excepção para o Torneio de Ténis de Roland Garros, a Volta à França e, quando o Ayrton Senna ainda andava por cá, as corridas de Fórmula 1.
A partir de hoje, arranjo lugar cativo para olhar as reportagens transmitidas pelo Eurosport.
Apesar de toda a complicadíssima trama da dopagem que, nos últimos anos, tem envolvido o ciclismo, a Volta à França é sempre um acontecimento transcendente.
Novamente os vastos e lindíssimos campos de girassóis, os trabalhadores agrícolas que, momentaneamente, abandonam os trabalhos e vêm até à estrada ver afesta do Tour.
Os motivos alegóricos feitos para saudar a etapa que passa por aldeias e cidades.
Roger Vailland dizia que não se ganha a Volta a França sozinho, Joaquim Agostinho disse um dia, que não se sobem os Alpes e os Pirinéus a beber água do luso e a comer bifes.
Todos os anos o Tour acaba por disputar-se na ressaca de uma série de ciclistas que admitiram a utilização de substâncias dopantes. Não vale a pena tapar o sol com uma peneira mas, apesar disso, a festa acontece, e milhares guardam os seus dias de férias para, em caravanas e outros transportes, acompanharem o tour.
Há alturas na vida em que me lembro de ti, Charly Gaul.
A quem chamavam o “Anjo da Montanha”.
De bicicleta nunca subi o Tourmalet,
mas dei muitas vezes a volta à serra
e parava sempre em Almoçageme
para beber um laranjada na Pensão do Sisudo.
E que será feito de ti, Charly Gaul,
herói da minha adolescência com bicicletas
no sítio dos olhos?
Para mim nem Federico Bahamontes (de Toledo)
nem o francês Anquetil
nem mesmo o meu amigo José Manuel Fuente
conseguiram alpinar aos cornos da Lua porta com porta
com o teu coração luxemburguês.
Onde estarão agora esses pedias? Serás pedreiro?,
manga-de-alpaca?, vendedor de triciclos?,
fulano detal?, uma charrua ambulante?
Que será feito de ti?, anjo da montanha
dessas minhas tardes ventosas de Verão
quando descia às Arcadas para beber o “Mundo Desportivo”
(eram quatro rins) e saber como pedalavas a vida
Subindo a Volta à França.
Olha esta febre, Cahrly Gaul:
vejo cada vez menos a fugir do pelotão.
E podes dormir de rosa na boca:
se fosse possível voltares às bicicletas
continuarias a subir sozinho o Tourmalet.
Fernando Grade em O Vinho dos Mortos, Edições MIC, Maio de 1977.
A sétima edição do encontro internacional Literatura em Viagem, que deveria realizar-se entre os dias 21 e 24 de Abril, em Matosinhos, está suspensa e poderá mesmo vir a ser cancelada se até ao final do mês o Governo não regulamentar a Lei 8/2012 (a chamada “lei do compromisso”), que impede as autarquias de assumirem qualquer nova despesa que exceda os fundos disponíveis no curto prazo.
A organização do encontro já tinha assegurado a participação de cerca de meia centenas de escritores de dez países diferentes, entre os quais se contam os franceses Olivier Rolin e Laurent Gaudé, o belga Bernard Quiriny, o norte-americano Philip Graham, a italiana Romana Petri, o sueco Henrik Nilsson, a chinesa Xinran ou os portugueses Paulo Castilho e Maria Teresa Horta. As viagens estavam pré-reservadas, bem como a estada dos autores em Matosinhos, o que não deixará de representar também algum prejuízo para as empresas que iam prestar estes serviços.
2.
O governo decidiu não publicar ou comentar a quantidade de pessoas presentes nas greves e manifestações.
Um lacaio do patronato não concordou e hoje bolsou umas atoardas que os jornalismos ouviram e reproduziram.
Há gente que, quando nasce desprezível, cedo nunca perde o tique:
Numa conferência de imprensa em Lisboa, o secretário geral da UGT garantiu que nenhum dos seus sindicatos aderiu à greve geral da passada quinta-feira e convocada pela CGTP.
Apesar das críticas à outra confederação de sindicatos, Proença disse ter esperanças de que as duas centrais procurem uma unidade de ação futura para prosseguir objetivos comuns.
3.
Cavaco Silva lamentou hoje, profundamente, que dois fotojornalistas, na quinta-feira, no Chiado, tenham sido barbaramente agredidos pela polícia.
Penso que é importante que todos saibamos, que o povo português saiba bem tudo aquilo que aconteceu nos distúrbios que ocorreram no Chiado.
O povo português ficou a saber do que realmente se passou, na Ponte 25 de Abril, era Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro e Dias Loureiro seu ministro da Administração Interna?
Legenda: capa de António Domingues para Borobudur, Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas de Roger Vailland, Prelo Editora, Lisboa 1961