quinta-feira, 14 de março de 2019

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O filme de Joseph Losey estreou em Portugal a 15 de Julho de 1983 no Cinema Hollywood, antes chamou-se ABCine, duas salas no Centro Comercial Alvalade, que ainda existe mas agora sem qualquer sala de cinema.

O filme apenas o vi a 28 de Janeiro de 2002 numa sessão na Cinemateca.

Esta é Folha da Cinemateca em que o excelente homem de cinema, Manuel Cintra Ferreira, escreve sobre o filme de Losey.



Há livros que na visão ligeira que deles faço, concluo que não poderão dar um filme. Nesse ponto estão os romances de Roger Vailland, e adianto desde já «A Truta.»

Mas isso é o pobre de mim a pensar.

Losey não se fez rogado e avançou.

O filme não me entusiasmou e, apesar de o livro não ser daquela colheita Vailland em que aprendi a gostar, inclino-me mais para o livro.

Há quem declare que Roger Vailland é um autor datado.

Não vou por aí.

Recordo as conversas de então: «um assalariado, seja qual for o salário, ganha sempre um pouco menos do que precisa» e para que não houvesse qualquer dúvida, acrescentava-se: regra segundo São Roger Vailland. 

Roger Vailland esteve três vezes em Portugal.

As duas primeiras em reportagem; a terceira como membro da Resistência à ocupação da França pelos exércitos de Hitler,

Sobre o olhar pelo país em «A Lei», inventa o verbo «portugalizar».

«Entre 1904 e 1914, entre os seus vinte e trinta anos, viajara nas férias universitárias por toda a Europa a fim de rematar a educação, segundo o desejo do pai. Voltando certo Verão de Londres para em Valência embarcar rumo a Nápoles, demorou-se alguns dias em Portugal. Fizera a si mesmo mil perguntas sobre o declínio desta nação cujo Império se alargara a todo o globo. Conheceu escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os ingleses; homens de negócios que liquidavam as feitorias do Brasil e viviam de rendas exíguas nas cidades da província, sem qualquer objectivo. Concluiu que a pior das desgraças era nascer português. Em Lisboa e pela primeira vez na vida travara encontro com um povo que se tinha desinteressado.»

Na nota introdutória a «Esboço Para um Retrato do Verdadeiro Libertino», Vitor Silva Tavares anota:

«Prazer; jogo; razão; liberdade – eis a infraestrutura geométrica do retrato do libertino segundo Vailland.»

Pegando em «A Roda da Fortuna» saco estas passagens:

«Mesmo no Inverno dormia nua. Bastava-lhe um pouco de álcool para não sentir frio.»

«Gozar a vida – disse Milan – é como um ofício, tem de se aprender. Mas é talvez preciso começar muito cedo».

«- Continua a pensar que a sua mãe não tinha razão? – perguntou Helena
- Cada vez mais – diz Roberta – É muito menos humilhante dobrar a espinha ante as injúrias da nossa mãe, mesmo que seja prostituta, do que passar uma única noite com um homem que não amamos.
- Mas podia trabalhar, diz Helena.
-Não – diz Roberta – Fazer um trabalho que não agrada é tão humilhante como dormir com um homem que nos repugna.»

«Minha filha, nunca se deve dizer a um homem que o enganámos. Mesmo que aceitasse a tua infidelidade, mesmo que a encorajasse, o que é certo é dez anos mais tarde se serviria da tua confissão como de uma arma contra ti. Nega mesmo a evidência. Foi a única coisa razoável que me ensinou a minha abominável mãe»

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