domingo, 22 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Maria de Lourdes Modesto morreu a 19 de Julho de 2022.
Na
crónica que publicou no Expresso de 29 de Julho de 2022, João Paulo
Martins, no ponto 2 da sua crónica sobre o Verão e os seus vinhos, não quis
deixar de homenagear «a grande senhora da nossa gastronomia»:
1. Em época de canícula as bebidas
frescas são as que nos sabem melhor. Apesar de eu ser grande apreciador de
Espumantes/Champanhes, tenho que reconhecer que o calor excessivo obriga os
enófilos a uma certa contenção no consumo. A primeira razão é que não se
combate a sede com vinho mas sim com água e, no Verão, com muita água mesmo,
para evitar desidratações que, dizem os médicos, nos podem afectar
terrivelmente sem darmos por isso. Por isso, pelo sim pelo não, vamos assumir,
no mínimo, meio litro de manhã e outro tanto à tarde. Não só não custa nada
como nos tira a sede. E é sem sede que podemos melhor apreciar o vinho,
sobretudo a acompanhar a refeição, como é nossa tradição em Portugal.
Convenhamos que há outras bebidas refrescantes como a limonada, à qual
deveremos juntar muito pouco (ou nada, mesmo) de açúcar. Se tiver uma Bimby
fará uma limonada em três tempos sem qualquer dificuldade. O Verão é também
associado com long drinks, como o gin tónico. Esta é, por excelência, a bebida
do fim de tarde após regressar da praia. Pode também escolher um Porto tónico
ou um menos falado mas também muito bom, Porto rosé com muita hortelã e água
tónica. O moscatel também se presta a vários cocktails. No caso dos brancos e
rosés é indispensável ter um balde de gelo perto da mesa porque o vinho
aquecerá num instante; use também o mesmo balde de gelo para refrescar o tinto
que isso do tinto à temperatura ambiente já era…E o generoso do final da refeição
também agradece se for servido fresco.
2. Não quero deixar de prestar aqui a minha homenagem a Maria de Lourdes Modesto, uma grande senhora da nossa gastronomia (termo que lhe era caro e ficava muito irritada quando se falava em «gastronomia e vinhos», já que, defendia ela, gastronomia, por si, já inclui os dois temas. Conversadora, sempre muito crítica em relação ao que via, ouvia e provava, sempre a refilar com os menus degustação porque, argumentava, «chego ao fim e não me recordo do que comi, tal foi a quantidade de coisinhas que me serviram…». Gostava de ralhar com os Chefes mas a verdade é que todos tinham por ela um especial carinho. E, em visitas (várias) com direito a chá e bolinhos na sua casa do Estoril, troquei com ela livros e receitas, eu sempre a aprender, claro, e ela sempre muito disponível para conversar e trocar ideias. São pessoas assim que fazem o nosso percurso de cozinheiros amadores, que nos inspiram e nos dão vontade de continuar a eterna descoberta de um novo sabor, uma nova combinação, um ingrediente-surpresa ou um twist, como agora é uso dizer-se. Ela era apreciadora de vinhos e fazia questão de ter os guias que iam saindo, sempre atenta às sugestões que lhe chegavam. E eu, que me recordo dela na televisão nos anos 60, sou um felizardo por ter tido a oportunidade de estar perto de tão ilustre personagem da nossa história recente. Comer bem e saber comer será a melhor homenagem que lhe podemos fazer.
domingo, 25 de janeiro de 2026
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Leia-se a newsletter que a jornalista Bárbara Reis publicou no Público de 14 de Janeiro:
«Os
12 jornalistas que estão há seis meses a fazer a revista Visão a
partir de casa querem comprar o título, que vai ser vendido em leilão, e
precisam de 200 mil euros. Em sete dias, conseguiram 55% do objectivo.
Liguei ao Fernando Alves, rei da palavra e que no início dos anos 1980 ajudou a
fundar a TSF como cooperativa de jornalistas, e disse-lhe o nome da campanha de
angariação de fundos da Visão: MIL.
– Mil?
–
Movimento Imprensa Livre.
–
Belo nome. Eles são uns heróis. Estes 12 são mais de mil.»
Lembrando
esse trabalho dificílimo que os resistentes jornalistas da Visão estão a
realizar, para não deixarem morrer a revista, comprei-a no dia 8 de Janeiro.
Em
homenagem ao trabalho dos jornalistas, recortei o trabalho do chefe Luís de
Jesus e adianto a minha «receita», mesmo minha, para Camarões à Brás.
Ingredientes
Azeite
Cebolas
Alhos
Pimento
vermelho
Camarões
Cozidos
Farinheira
Ovos
Batatas
Queijo
picado
Coentros
Azeitonas
Refogo
em azeite cebolas , em boa quantidade, até ficarem translúcidas, juntamente com alhos picados.
Junto
pimento vermelho cortado aos bocadinhos, 1 farinheira sem pele e desfeita, as gambas , não
muito grandes, já cozidas, que se vendem em qualquer grande superfície, batatas, cortadas em palha, fritas e envolvo tudo em ovos mexidos com queijo ralado,
deixando-os cremosos, nunca secos.
Finalizo com folhas de coentros espalhadas pelo petisco e azeitonas.
Dicas:
Nunca
uso batatas fritas palha de pacote.
Não menciono quantidades, deixo o assunto à vontade do freguês.
terça-feira, 18 de novembro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Hoje,
as panelas, as frigideiras, os tachos, fazem uma breve homenagem a José
Quitério que há uns anos, por motivos de doença. Deixou de publicar as suas
excelentes e únicas críticas de gastronomia que publicou no semanário Expresso.
Trata-se
de um recorte (incompleto) encontrado na revista Ler do Inverno de 1989.
Fala
de caldo verde e de Camilo Castelo Branco.
Gosto
de caldo verde - «sábia simbiose entre um caldo de puré de batata, que não
se quer em exagero, e a couve galaga finamente segada e abundante, tudo
espevitado pelo azeite puro e a rodela de salpicão ou de chouriço caseiro»,
José Quitérito dixit
Mas
os mercados de Lisboa, excepção ao de Alvalade e ao 31 de Janeiro, já não
existem e aí se comprava a couve galega cortada à vista do cliente. As
embalagens de caldo verde que hoje se vendem nos supermercados, são um embuste.
Quanto a Camilo, lamentavelmente, não lhe dei a mesma atenção de leitura que dei a Eça de Queiroz.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PAPNELAS
Nunca gostei de «chefs», sejam eles de onde forem, façam lá as «maravilhas» que lhes dê na real gana.
Aprendi
com o José Quitério: sempre gostei de cozinheiros.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Há 100 maneiras
de fazer bacalhau, há 100 maneiras de fazer ensopado de borrego, há 100
maneiras de fazer Sopa da Pedra.
No que à Sopa da
Pedra diz respeito, diga-se que Almeirim a designou como jóia da cidade e todos
os restaurantes a colocam na ementa. Principalmente aos sábados e domingos, é
enorme a romaria para os sabores da sopa.
Reza a lenda que
um frade bateu à porta de um lavrador e este lhe negou a esmola. Com fome, o
frade pediu licença para fazer apenas um “caldinho de pedra”. Apesar da estranheza,
o lavrador acedeu com curiosidade. E assim começou, com uma panela de água a
ferver para cozer uma pedra. Aos poucos o ardiloso frade foi sugerindo
adicionar alguns ingredientes para tornar a sopa mais deliciosa: um pouco de
azeite, de feijão, algumas couves, um naco de toucinho, outro de chouriço e de
outros enchidos. Curiosos, os donos da casa foram dando resposta aos pedidos.
Assim foram cozinhando lentamente todos os ingredientes e o cheiro adivinhava
uma bela refeição. O frade tirou um naco de pão que tinha consigo e comeu-o
regaladamente com a sopa. No fundo do tacho sobrou apenas a pedra. Foi então
que o lavrador, intrigado, perguntou: – Ó senhor frade, então a pedra? – A
pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
Eu tenho uma
receita de sopa de feijão que pouco tem a ver com sopa da pedra. Chamo-lhe a
Sopa do Francisco porque a fiz, sem qualquer tipo de receita, tudo à maluca,
para a festa do nascimento do meu sobrinho neto Francisco.
SOPA DO FRANCISCO
Ingredientes:
Feijão vermelho
Paio do lombo
Chouriça
Farinheira
Chispe e orelha
de porco
Cebolas
Batatas
Cenouras
Nabos
Couve portuguesa
Couve lombarda
Massinha
Azeite
Preparação:
Põe-se o chispe
e a orelha a apanhar sal, no mínimo 12 horas.
Passam-se por
água, para retirar o sal, e cosem-se juntamente com o paio e a chouriça. Quando
cosidos retiram-se.
Põem-se as
cebolas, as batatas, as cenouras, os nabos, na água onde se coseram as carnes e
os enchidos. Quase no fim da cosedura junta-se o feijão. Passa-se tudo muito
bem e juntam-se as couves, a cenoura e o nabo, cortados aos bocadinhos, a
massinha, um fio de azeite e deixam-se coser.
Num tacho põe-se
água a ferver, quando estiver em ebulição, apaga-se o lume e põe-se dentro a
farinheira.
Cortam-se, em
bocadinhos, o chispe desossado, a orelha, o paio, a chouriça e juntam-se às
couves e restantes legumes, instantes antes de estarem cosidos.
Apaga-se o lume
e juntam-se alguns feijões que se reservaram. Também pedacinhos da farinheira a
que, previamente, se retirou a pele.
Normalmente,
para que não se pegue ao fundo, coso a massinha à parte e junto-a quando a sopa
estiver quase pronta.
Rectifica-se o
sal.
Descansa breves
momentos em panela tapada.
Pode-se perfumar com coentros partidos finamente.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
O livro é de Aníbal Falcato Alves.
Num
convívio, em Abril de 1995, de vinhos e petiscos alguém disse que era giro
fazer uma casa de petiscos para a feira de Maio em Estremoz.
Assim
foi e chamaram-lhe Cozinha dos Ganhões.
Ganhão,
dicionariza o livro é «o que trabalha com as juntas de bois,. Aquele que executa
qualquer trabalho.»
«Cada
tasca, cada restaurante, cada cozinheiro, em dias diferentes, apresentaram as
suas especialidades.»
Em
Maio de 1994 publicou-se o livro com o mesmo nome, Apresentação gráfica de
Armando Alves, prefácios de Borges Coelho e Helder Pacheco, receitas alentejanas,
um série de depoimentos com gentes alentejanas a contarem o que foram as suas fomes,
as suas vidas em tempos de ditadura.
Este
é o prefácio de António Borges Coelho:
Legenda: pormenor de uma pintura de Armando Alves que faz parte de Os Comeres dos Ganhões.
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Catarina Pires, hoje jornalista free-lancer, presta um depoimento no livro de Miguel Carvalho: Álvaro Cunhal, Íntimo e Pessoal.
Autora
do livro Cinco Conversas com Álvaro Cunhal, empresta ao livro de Miguel
Carvalho, breves palavras sobre como decorreram essas conversas.
«As
conversas era, normalmente, à tarde. Às vezes
almoçávamos
os dois, de pé, no bar da sede. Uma sopa e mais qualquer coisa. Foi ele quem me
apresentou aos «peixinhos da horta», que eu não fazia a menor ideia do que
fossem.»
Efectivamente
muitos não sabem o que é esse petisco simples que dá pelo nome de peixinhos da
horta.
Saramago
falava que muitas crianças não sabiam que o leite não vem das vacas mas dos
pacotes de leite Tetra Pak que se vendem nos supermercados.
Mas
gosto muito da frase de Catarina Pires:
«Foi
Álvaro cunhal que me apresentou aos peixinhos da horta».
A
minha avó Brígida, a minha sogra Clementina, faziam uns excelentes Peixinhos da
Horta.
A
receita é muito simples.
Ambas
tinham o mesmo procedimento.
Cortavam
as pontas do feijão e tiravam o fio.
Coziam
o feijão em água com sal.
Deixavam
escorrer o feijão, faziam molhos de 2 tiras, envolviam num polme (farinha,
gemas de ovos, um pouco de água) e fritavam em óleo bem quente.
As
tentativas que fiz, poucas, diga-se, não saíram grande coisa. A falha minha,
está no polme, que não pode ser nem demasiado grosso, nem demasiado fino. É uma
questão de mão e elas tinham mesmo mão.
Na
Internet encontram suficientes receitas. Escolhi os Peixinhos da Horta da Clara
de Sousa, excelente apresentadora e jornalista da SIC:
Ingredientes:
- 500 g de feijão-verde
- 100 g de farinha
- 1 ovo
- 125 ml de água
- 1 colher de chá de
bicarbonato de sódio
- 1 esguicho de vinagre
de vinho branco ou sidra
- sal e pimenta q.b.
- óleo ou azeite para
fritar
Confecção:
1. Coloque uma panela com água
e sal ao lume.
2. Lave o feijão verde, retire
o fio e corte-o ao meio no sentido do comprimento e ao meio no sentido da
largura, para ter pedaços mais pequenos.
3. Mergulhe o feijão-verde na
água a ferver e cozinhe durante 7 minutos, só até ficar al dente. Passado
esse tempo escorra imediatamente e mergulhe o escorredor onde estão as vagens
em água com gelo para arrefecer rapidamente.
4. Enquanto o feijão-verde
coze faça o polme misturando a farinha, o ovo, o bicarbonato e sal e pimenta a
gosto. Junte a água, metade de cada vez e bata para ter um polme sem grumos,
denso mais fluído.
5. Na hora de fritar junte um
esguicho de vinagre ao polme e bata para envolver.
6. Passe as vagens pelo polme
e frite em óleo ou azeite bem quente.
7. Escorra sobre papel de
cozinha e sirva com maionese e gomos de limão.
sábado, 11 de outubro de 2025
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
A
história é simples.
Filhos:
havia um rapaz, chegou uma rapariga.
Eu
saia às 5 da tarde do escritório de import-export onde trabalhava, a Aida saia
da loja de trapos, onde trabalhava, às 19,30 horas.
A
conversa foi assim:
- Ou vais buscar os
miúdos à tua mãe, ou vais às compras e passas a fazer as refeições.
Optei
pelas compras e pelas refeições.
Passei
a gostar de ir às compras, aprendi, lentamente, a fazer comidas.
Na
casa, apenas existia um livro Doces e Cozinhados de Isalita, editado pela
Livraria Sá da Costa, 24 ª edição «inteiramente refundida e ampliada, editado
em Setembro de 1972. O livro resulta do trabalho de duas amigas que entenderam
publicar os seus conhecimentos culinários e receitas diversas, as amigas
chamavam-se Maria Isabel de Sousa Campos Henriques e Angela Carvajal y Pinto Leite
Telles da Silva e o nome «Isalita»
resultou da abreviação de Isabel e Angelita.
Tinha
lá quase tudo mas, aos poucos comecei a comprar outros livros de receitas,
hoje, a Biblioteca da Casa, tem para cima de meia centena de livros de receitas
e dicas culinárias.
Pelo
meio há uma frase do jornalista Rodrigues da Silva:
«…em miúdo, atraído pelo cheiros e antegozando os sabores, metia o bedelho na cozinha, minha mãe corria comigo de lá, dizendo-me assim: «Aprende a fazer o refogado, que depois mexes no tacho».
A
minha infância está marcada pela minha avó Brígida na cozinha, a fazer milagres
com o muito pouco dinheiro que havia, o resto era o que a mercearia fiava.
Comidas
muito simples, quase sempre a mesma coisa, o bacalhau era então barato e era a
base de quase tudo, o resto era feijão guisado com ovos escalfados, esparguete
com chouriço e toucinho e apenas a variante de galinha no forno, num único domingo
por mês, o que estava perto do fim do mês, tempo de receber o ordenado.
Isto
vai chamar-se Olhar Panelas, Frigideiras, Tachos… e vai caber tudo e
mais alguma coisa.
Há
uma ternurenta imagem desses tempos, o meu avô Mário, sentado no maple, manta
nos joelhos, com o gato Trafaria, a ver o programa de culinária, a preto e branco,
da Maria de Lourdes Modesto, e eu sentado ao lado.
Um
homem não chora?
E
há uma frase de Jorge Calado lida não lembro onde:
«O primeiro sintoma duma cultura é a culinária. Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és.».
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