O
Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.
Não
que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do
Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.
Um
dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em
destaque, o Lp A
Invenção do Amor de Daniel Filipe.
«Em todas as esquinas
da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»
Assim
começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:
«Um cartaz denuncia que
um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e
inventaram o amor com carácter de urgência»
Nos
tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte
de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha,
Minha Gente.
Daniel
Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade.
A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que
denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso
amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis
Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.
Daniel
Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,
privado
de voz durante o período da ditadura.
«Se um homem de repente
interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já
sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo
calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»
Levou
o tempo que teve de levar, mas escaparam.
Por
mais que levantassem os muros.
A
censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O
Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.
Proibido
por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e
moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75,
77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua
índole.”
Um
tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e
proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no
país».
Esta
gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira,
capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da
nossa liberdade.
Quase
meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes
trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que
cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas
não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero,
a cólera.
José
Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso
Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este
maravilhoso, perfeito pedacinho:
«Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

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