terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

GENTE MINHA, MINHA GENTE

O Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.

Não que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.

Um dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em destaque, o Lp  A Invenção do Amor de Daniel Filipe.

«Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»

Assim começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:

«Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com carácter de urgência»

Nos tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha, Minha Gente.

Daniel Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade. A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.

Daniel Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,

privado de voz durante o período da ditadura.

«Se um homem de repente interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»

Levou o tempo que teve de levar, mas escaparam.

Por mais que levantassem os muros.

A censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.

Proibido por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua índole.”

Um tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no país».

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira, capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero, a cólera.

José Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este maravilhoso, perfeito pedacinho:

 «Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

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