quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


Uma Época no Inferno

Jean-Arthur Rimbaud

Versão Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos

Colecção Documento Humanos nº 9

Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1960

Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.

Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. E injuriei-a.

Armei-me contra a justiça.

Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda do meu tesoiro?

Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!

E chamei os carrascos para morder, na agonia, a corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do crime. E preguei boas partidas à loucura.

E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.

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