quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CANÇÃO A MEIA VOZ

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

Cabral do Nascimento 

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