quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Vasco Granja, em tempos de ditadura, foi um dos que lutaram pela liberdade.

Por essa luta foi perseguido, esteve preso nas masmorras da PIDE.

O livro, justíssima homenagem no centenário do nascimento de Vasco Granja, foi-me oferecido pelo Rui Ornelas, meu companheiro de luta, a viver no 4º andar direito.

Eu moro no 2º andar, também direito

Com o meu filho mais velho, após o 25 de Abril, assisti aos extraordinários, únicos, desenhos animados dos países ditos de leste, apresentados na televisão pelo Vasco Granja.

Como escreve sua filha Cecília Granja:

«Emergindo do interior das nossas memórias, parece que o estamos a ver, no pequeno ecrã a preto e branco, mais tarde a cores, numa qualquer tarde de sábado, aconchegados no sofá da nossa sala pequeno ecrã  a preto e branco».

Nos anos 50 Vasco Granja era militante do Partido Comunista Português, participa nas actividades clandestinas da célula dos partidos, organiza passeios culturais, convive com as populações camponesas e operárias, pinta palavras de ordem nos muros das ruas de Lisboa, distribui o jornal Avante e demais propaganda.

Este pormenor da vida de Vasco Granja, traz-me à memória que, já depois do 25 de Abril, às quintas-feiras, vendia o Avante na Estação de Comboios do Cais do Sodré e não raro me lembrava de O Rival, romance de Roger Vailland:


« Tem entrevista marcada? 

- Não.

- Então faça o favor de preencher uma ficha.

Mignot escreveu:

NOME: Fréderic Mignot

FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.

- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.

Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.

- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.

«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.

Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.

«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

 

Vasco Granja, às quartas-feiras no República coordenava o suplemento Bastidores sobre cinema, banda desenhava, outras secções da cultura.

No Diário de Lisboa-Juvenil, para além da poesia, do conto, da fotografia, existia «Panorama», um registo de de recortes de jornal, de livros.

Numa dessas leituras dos Bastidores, encontrámos o artigo do escritor brasileiro Rubens F. Lucchetti com o título «As Histórias de Quadradinhos Criam o Hábito da Leitura» e comentámos:

A nota provocou uma polémica em que entraram, pela parte dos Bastidores: Vasco Granja, Lauro António, Vitor Silva Tavares, Jorge Silva Melo e um estudante, leitor do suplemento, de nome António Armando Costa que, entre outros disparates, que pouco, ou nada, tinham a ver com o assunto em discussão, sugeria ao Mário Castrim que nos expulsasse do Juvenil e intimava a que o tratássemos com dignidade que lhe era devida como universitário!!!

À parte de quem tinha razão sobre as tais histórias em quadrinhos, depois misturadas, desnecessariamente, com banda desenhada, eram tempos, apesar de todas as nuvens negras, bem interessantes.

Um gosto muito grande de lembrar Vasco Granja, um nome incontornável na nossa cultura, um lutador pela liberdade e pela Justiça.

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