Vasco
Granja, em tempos de ditadura, foi um dos que lutaram pela liberdade.
Por
essa luta foi perseguido, esteve preso nas masmorras da PIDE.
O livro, justíssima homenagem no centenário do nascimento de Vasco Granja, foi-me oferecido pelo Rui Ornelas, meu companheiro de luta, a viver no 4º
andar direito.
Eu
moro no 2º andar, também direito
Com
o meu filho mais velho, após o 25 de Abril, assisti aos extraordinários,
únicos, desenhos animados dos países ditos de leste, apresentados na televisão
pelo Vasco Granja.
Como
escreve sua filha Cecília Granja:
«Emergindo do interior
das nossas memórias, parece que o estamos a ver, no pequeno ecrã a preto e
branco, mais tarde a cores, numa qualquer tarde de sábado, aconchegados no sofá
da nossa sala pequeno ecrã a preto e
branco».
Nos
anos 50 Vasco Granja era militante do Partido Comunista Português, participa
nas actividades clandestinas da célula dos partidos, organiza passeios
culturais, convive com as populações camponesas e operárias, pinta palavras de
ordem nos muros das ruas de Lisboa, distribui o jornal Avante e demais
propaganda.
Este pormenor da vida de Vasco Granja, traz-me à memória que, já depois do 25 de Abril, às quintas-feiras, vendia o Avante na Estação de Comboios do Cais do Sodré e não raro me lembrava de O Rival, romance de Roger Vailland:
« Tem entrevista
marcada?
- Não.
- Então faça o favor de
preencher uma ficha.
Mignot escreveu:
NOME: Fréderic Mignot
FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de
Clusot do Partido Comunista Francês.
- Faça a fineza de
esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para
escada.
Mignot teve a impressão
que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho
era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era
apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.
- Mande entrar esse
senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a
bater com força.
«Aí está a iniciativa
misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a
sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o
inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem»,
disse para si mesmo.
Mignot preparara
cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição
para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma
única palavra.
«Então é apenas isto!»
pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé
pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender,
berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse
grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo
contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado
extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas
ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos
dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»
Vasco
Granja, às quartas-feiras no República coordenava o suplemento Bastidores
sobre cinema, banda desenhava, outras secções da cultura.
No
Diário de Lisboa-Juvenil, para além da poesia, do conto, da fotografia,
existia «Panorama», um registo de de recortes de jornal, de livros.
Numa
dessas leituras dos Bastidores, encontrámos o artigo do escritor brasileiro
Rubens F. Lucchetti com o título «As Histórias de Quadradinhos Criam o Hábito
da Leitura» e comentámos:
A
nota provocou uma polémica em que entraram, pela parte dos Bastidores: Vasco
Granja, Lauro António, Vitor Silva Tavares, Jorge Silva Melo e um estudante,
leitor do suplemento, de nome António Armando Costa que, entre outros
disparates, que pouco, ou nada, tinham a ver com o assunto em discussão,
sugeria ao Mário Castrim que nos expulsasse do Juvenil e intimava a que o
tratássemos com dignidade que lhe era devida como universitário!!!
À
parte de quem tinha razão sobre as tais histórias em quadrinhos, depois
misturadas, desnecessariamente, com banda desenhada, eram tempos, apesar de todas as nuvens negras, bem interessantes.
Um gosto muito grande de lembrar Vasco Granja, um nome incontornável na nossa cultura, um lutador pela liberdade e pela Justiça.
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