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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

NOCTÍVAGA

Não esperem dos poetas mensagens a horas  
Não esperem dos poetas pedidos de desculpa   
Que não sejam, ao mesmo tempo, declarações de amor  
Com mais anexos do que a declaração de IRS  

Não esperem dos poetas sumo de fruta cortada na hora,   
com bastante gelo, e um relvado bem cortado,  
e umas unhas bem cortadas,   
e um coração bem cortado  

Para escrever poemas, é preciso ter o punhal de Caravaggio  
Encostado à língua: «Nem esperança, nem medo»  

Não esperem de um poeta que vos corte a língua   
O poeta quer ouvir tudo, apesar de tudo, e até de manhã   
Não esperem de um poeta que vos corte o coração  
Não sabe, não foi o poeta que cortou o dele   

Não calem o poeta, nunca calem o poeta   
Não há nada pior do que cortar a língua a um poeta     
Ele não se cala, fica tudo nos livros    

Quando não quiserem mais o poeta, devolvam-no    
Numa caixa forrada a alcatifa dos anos 70    
O poeta gosta da palavra alcatifa, apesar das alergias,    
e tem queda para se magoar a sério    
Cortem-lhe as unhas com os próprios dentes  
e, se não se importam, tirem-lhe o punhal     

Sejam amigos dos poetas     
Mesmo que a coisa fique difícil,     
mesmo que dê vontade de os encher de murros, ou de beijos       

Não esperem de um poeta uma amiga imaginária       

Esperem de um poeta uma cadela imaginária       
a que os vizinhos, por hábito, chamam            
noctívaga.

Filipa Leal

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

OS DIAS SEM SURPRESA

Os dias mais silenciosos são dias magros
como a diet coke, dias em que nem sequer notamos
os navios doentes, navios de quarentena onde,
felizmente, nunca poderíamos ter chegado a entrar,
nunca teríamos chegado a chegar
por não sermos capazes da primeira partida.

Os dias mais silenciosos não são tristes:
são de rejeitar cruzeiros fixos, pasteleiros de máscara
de ferro a fazerem bolos doentes para hóspedes doentes.

O mundo, Drummond, o vasto mundo está horrível
e tudo o que consigo é pedir um copo de branco,
Dona Ermelinda de Freitas, o mais barato na esplanada
cheia de gente espantada com ainda haver sol.

Os dias mais silenciosos têm uma bandeira vertical,
caída de não haver vento, e muita gente 
a andar de bicicleta.

Aos 40 anos, tudo o que desejo são estes dias 
sem surpresa: chegar ao céu, sentar-me,
efectuar o pagamento no acto da entrega.
 


Filipa Leal

segunda-feira, 6 de maio de 2024

REVOLUÇÃO, JÁ?

                              “A poesia está na rua”

                        Sophia, 25 de Abril de 1974


Agora, que já fizemos a revolução

Podemos começar a renovar a habitação?

 

Os professores estão na rua.

Os médicos estão na rua.

Os agricultores estão na rua.

Os polícias estão na rua

(mas não para parar os outros;

estão na rua como os outros lá estão.)

 

Os turistas estão na rua.

Milhões de turistas estão na rua.

Vão parando para tomar café nas agências

imobiliárias, e vão comprando palácios, aqui e ali,

entre um pastel de Belém e uma imperial.

Alguns compram casas com gente lá dentro, e despejam

o lixo e a gente das casas que ficam vazias lá dentro,

mas eles voltam mais cheios lá para fora.

Sentem-se mais vistos.


As pessoas estão na rua

(mas não para passear como os turistas;

Estão como os turistas não estão:

A dormir na rua sem habitação.)

 

Os jovens estão na rua.

Comem o pão que a História amassou,

comem pão de ontem em casa dos pais

e os pais ajudam a pagar o bilhete de avião

para que os filhos de amanhã comam pão de amanhã.

E, sim, alguns jovens felizes estão na rua, também,

mas na rua de Sydney, de Londres ou Paris.

Falam bem inglês e até francês.

Sabem bem dizer saudade em português.

Jantam sushi e alugam apartamentos com aquecimento

central na zona central, mas telefonam muito à família

e o que queriam era poder viver em Portugal.

 

As flores não estão na rua

como no poema de Drummond de 1945.

 

A poesia não está na rua,

como no verso de Sophia de 1974.

 

Agora que já fizemos a revolução,

porque não amassamos o próprio pão

na nossa própria habitação?

 

Filipa Leal


Nota do Editor: este poema de Filipa Leal foi copiado do jornal Público, 6 de Abril de 2024

Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

PORQUE BUSCAMOS NO QUOTIDIANO


Porque buscamos no quotidiano uma estrada
onde se repita o amor e a casa de algum Verão.
Porque a memória tem sinais de trânsito e
às vezes falamos muito e alto quando está
vermelho para recordar, e chamamos os amigos
e de repente fica amarelo sem sabermos como,
e no fim do dia, quando nos deitamos, cai o
verde e tudo avança e as recordações são em
vez do sono, são em vez da vida, são em vez do
verbo. Porque também nós temos montanhas
e rios assinalados e também em nós há
itinerários principais e secundários e ruas que
vão da cabeça aos pés quando a mão desejada
 nos percorre como carro de brincar. Porque
também nós exigimos um novo aeroporto
onde pousar a cabeça, ou pelo menos algumas
 obras no aeroporto onde desajeitadamente
procuramos aterrar. Porque mesmo com
quatro ou vinte auto-estradas continuamos a ter
 o caminho para o tanque onde mergulhávamos
na infância. Porque andamos todos à procura
uns dos outros dentro e fora de quem somos e
parece que nos desencontramos, que paramos
na estação de serviço errada, a 10 km, sempre a
olharmos para o relógio, a 10 km, na direcção uns
dos outros, a 10 km mas na estação de serviço
errada. Porque o limite do corpo é o desenho do
mapa e às vezes apetece rasgar, omitir, estender
 a fronteira, mas para isso há a guerra, porque
imediatamente fora desse limite há outros e
outros países invadidos por nós. Porque no
fundo desejamos apenas ser conquistados.
Porque os países conquistados conseguem
mexer no mapa e não ter culpa. Porque os
países conquistados se reconstroem depois da
guerra e antes do recomeço do amor.

Somos um mapa circular, humano e excessivo.

Filipa Leal, poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna no Expresso.