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segunda-feira, 27 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Não tenho uma religião, um partido, um clube, uma escola literária, não sou de associações, mas de convívios, não sou de exclusões, mas de acrescento, tudo o que existe deve ser compreendido, pois faz da natureza, por mais estranho e diferente que possa parecer.

Natália Correia

Colaboração de Sara Santos

domingo, 2 de junho de 2024

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Dizem as diversas fábulas que, durante largos dias, finais dos anos 60, Natália Correia andou às voltas por Lisboa para encontrar um sítio onde pudesse concretizar um dos seus muitos sonhos: um bar-tertuliano estilo belle époque dos cafés de Paris onde acontecessem beberes, comeres, poesia, música e muita cavaqueira.

No Largo da Graça, junto à Vila Sousa, vila operária, que ao contrário da Vila Berta não mereceu os cuidados do escriba José Cardoso Pires, no seu Livro de Bordo, Livro de Bordo, encontrou uma velha carvoaria e entusiasmou-se.

Chamou-lhe O Botequim.

Por ali, antes e depois de 25 de Abril, passou toda, ou quase toda, a intelectualidade, portuguesa, gente interessante, nem toda, também políticos, militares, que dissertavam sobre cultura, política e muita má-língua.

Melo Antunes pelas suas ideias progressistas teve vários bates-boca com Natália.

José Saramago também teve direito a uma natalice.

Segundo Joaquim Vieira, no seu mal-amanhado livro no seu mal-amanhado livro sobre o Nobel português, conta:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá tido com Saramago a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Dacosta como testemunha: »A Natália falava da “desterritorialização” da literatura em Portugal, de autores que escolhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao Saramago, a propósito disso: "E tu também enveredaste por esse processo, porque queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.”»

 A um canto do bar havia um piano e por aquele tempo gente vária andava com uma viola a tiracolo. Bebia-se do fino, teceram loas ao Rosbife da casa, também ouvi dizer que por lá se comia um razoável Bacalhau à Brás.

Quando, após a sua morte, O Botequim deixou de ser da Natália Correia, ainda funcionou uns meses como bar mas, como faltava a presença real da Diva, acabou por fechar.

A Associação José Afonso chegou a sediar-se por ali e num São Martinho, no pátio central da Vila Sousa,  organizou uma castanhada, comeram-se bifanas e entremeadas, beberam-se fartos  packs de tintol.

Este menú de um café francês, datado de 1911, que encima o paleio, foi, nesse findar de tarde, por lá encontrado.

quinta-feira, 21 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


            Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Abrimos a viagem de hoje com José Mário Branco e a recordação do seu primeiro LP.

Mudam-se os Tempos Mudam-se as vontades

Arranjos e direcção Musical José Mário Branco
Capa de Armando Alves e José Rodrigues
Gravação em 8 pistas no “Strawberry Studio” no Chateau d’ Hérouville.
Editado em 1971.

Lado 1


Abertura – Gare d’Austerlitz
Cantiga para pedir dois tostões – Sérgio Godinho/J.M. Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra – Sérgio Godinho/J.M. Branco
O Charlatão – Sérgio Godinho
Queixa das Jovens Almas Censuradas – Natália Correia/ J.M. Branco

Lado 2


Nevoeiro – José Mário Branco
Mariazinha – José Mário Branco
Casa Comigo Marta – Sérgio Godinho/J. M. Branco
Perfilados de Medo – Alexandre O’ Neill/J.M. Branco
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões/J.M. Branco e Jean Sommer

Bob Dylan já nos avisara que os tempos estavam a mudar.
Foi quando chegou José Mário, pela pena de um tal Luís de Camões, a dizer-nos que todo o mundo é composto de mudança. As vontades também. As vontades de José Mário Branco na luta contra o medo.

Só alguém possuído de uma fina sensibilidade, decide colocar, como faixa primeira do seu primeiro disco, o som da chegada de comboios na Gare d’Austerlitz, vozes, ranger de rodas nos carris, um acordeão em fundo, marcando vincadamente as vidas dos que saiam de um país cinzento em busca de uma qualquer nesga de sol.

 Havia também os que, a monte, saltavam fronteiras correndo todos os perigos.

 Muitos encontraram a morte.

 Miguel Torga, no seu Diário, lembra o aviltamento humano desses portugueses que se aventuraram e, na maior parte dos casos ficavam nas mãos de gente sem escrúpulos.

«- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”»

As «peles», adianta Torga, eram os emigrantes clandestinos. 

 Este álbum de José Mário Branco, é uma peça admirável.

Nas badanas do disco escreveu José Duarte:

«primeiro em afirmações definitivas

num jornal cor de rosa

depois em cantigas do amigo dom dinis

a seguir com canções

em circuito concêntrico

por fim numa esplanada de paris

assim conheci josé mário branco

estamos perante um mural sonoro

do Portugal das últimas gerações

um mural onde as cores

são a mordacidade a caricatura

uma simbologia transparente

com tipos populares uma grande romaria

viva e em movimento

um mural onde os temas são a emigração

e o regresso

as guerras e os senhores

a juventude e as prendas

a esperança sem futuro

o medo e os fantasmas

o tempo e as novidade

tal como em perfilados de medo

a linha quebrada de sons electrónicos

é uma interferência uma ameaça

na arquitectura vertical e obstinada

do arranjo do medo

assim esta obra combate uma tradição

onde a palavra é o som mais inteligível

assim se encerra a fase confusa

da nova música portuguesa

assim se inaugura uma época nova

onde também cantar bem e compor melhor

serão condições a exigir a canção útil

da afinação da palavra

à desafinação das cordas

à percussão das peles e teclas

à imaginação nos arranjos

à criação melódica à vocalização justa

aqui o circo foi desmantelado

com todas as ferramentas do som»

E nos tempos confusos e cinzentos, que, hoje, o nosso quotidiano enfrenta recordemos Natália Correia e o poema da Queixa das Almas Jovens Censuradas que deu uma enorme canção do José Mário que faz parte deste belo e histórico LP:


«Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céul
evado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Os jornais publicavam uma  uma nota da Secretaria de Estado da Informação e Turismo:

“Noticiaram alguns jornais estrangeiros terem sido presos cerca de 200 oficiais implicados na insubordinação verificada no Regimento de Infantaria 5.
A este propósito, esclarece um informador oficial do Departamento da Defesa Nacional que esse número não corresponde à realidade, visto terem sido detidos 33 oficiais cujas responsabilidades estão a ser averiguadas pelas autoridades militares competentes.”


Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros, de visita ao Rio de Janeiro, disse, numa conferência de imprensa, que a recente sublevação de alguns oficiais subalternos fora um acto isolado que não obteve eco favorável entre a maioria dos militares portugueses. Afirmou também que não há divergências de qualquer espécie entre os membros do seu governo relativamente às questões nacionais. O levantamento de uma unidade militar teve somente motivos de carácter profissional.

Na Assembleia Nacional  o ultra-salazarista-conselheiro Albino dos Reis, 86 anos de idade avisava:

«É indispensável que a espinha dorsal de um País, que são as suas Forças Armadas, se mantenham bem firmes. Se um dia as forças da dissolução conseguirem fazer quebrar essa espinha, desviá-la por qualquer forma, ai de nós, meus amigos, o que será feito deste país.»

sábado, 6 de janeiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


A harpa do vento e os meus dedos de ventania compuseram uma canção da mais fantástica alegria.

Natália Correia

domingo, 17 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


É Natal. No fundo dói-me sempre esta alegria que me ensinaram a assentir pelo nascimento de um menino gasto pela sua teimosia em vir ao mundo para ser crucificado. Todos os Natais me pergunto: Será este ano que a luz da criança solestical –O Natale  Solis Invicti – prevalecerá sobre a noite do Calvário? Será desta vez que o menino Jesus em veloz corrida divina vai escapar à moral crucificante da sua história? Não o deixam. O peditório para o seu sangue derramado por nós é um preceito indispensável à convicção de que a nossa felicidade não é deste mundo. E assim celebramos o nascimento de Jesus determinado pelos cálculos funestos dos primeiros cristãos: o dia da sua conceição fixado de acordo com o dia da sua morte e este caindo no equinócio da Primavera no qual fora criado o mundo. Por conseguinte: o Advento concebido a partir da criação do mundo crucificado. O selo das trevas no nascimento do deus menino. Era certamente no negrume desta efeméride sombria que a minha tia Hortência, crivada de cilícios sob o vestido pardo, alicorava o suco do ananás para a «mijinha do menino Jesus» que bebíamos no Natal.

Natália Correia em Não Percas a Rosa

Legenda: Pietá de Michelangelo

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

FOLHAS DE LIVROS CAINDO...


Precisei de consultar O Mapa Cor de Rosa da Maria Velho da Costa e Não Percas a Rosa da Natália Correia e ambos, quando os abri, desfizeram-se em pequenos blocos por que as colas utilizadas pelas tipografias, escolhidas pelas Publicações Dom Quixote, eram de má qualidade e as páginas descolaram das lombadas.

Outros livros existem na Biblioteca da Casa que enfermam do mesmo problema.

É uma pena, mas não adianta chorar por cima de leite derramado, mas algumas editoras, apesar dos preços que aplicam, continuam a tratar pessimamente os livros.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

NATÁLIA: 100 ANOS

Sabe-se que não somos adeptos do registo de efemérides de nascimentos e mortes de personalidades. Mas têm acontecido.

Hoje, por exemplo, com a publicação do poema A Defesa do Poeta, marcamos o nascimento, há 100 anos, de Natália Correia.

O poema foi escrito enquanto decorria o processo de julgamento de Natália Correia, e outros autores, pela publicação, em tempos salazarentos, da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Natália queria que o poema fosse lido numa das sessões do julgamento mas o seu advogado, Manuel João da Palma Carlos, aconselhou-a a que não o fizesse.

Recordemos o que então se passou: 

O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.



O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

Segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

A POESIA É PARA COMER


Final de uma das crónicas de Manuel Alberto Valente no Expresso:

«A poesia é para comer, gritava a grande Natália, agora centenária. Ajudem pois a alimentar-se aqueles que, como ela, vivem da paixão e do sonho.»

quarta-feira, 1 de março de 2023

O FECHAR SOS TAIPAIS


E voltamos à questão do aborto.

No Público de 26 de Fevereiro, a jornalista Ana Sá Lopes escreve um artigo de opinião: «ISTO DO ABORTO É UMA ESPÈCIE DE ILEGALIZAÇÃO NO SNS, NÃO É?:

«É proibido, mas faz-se.” A frase de Marcelo Rebelo de Sousa, opositor à legalização do aborto nos idos 98, e depois convertido à realidade jurídica no segundo referendo, deu um dos mais geniais sketches do grupo Gato Fedorento. Foi um “bit” tão marcante que alguns comentadores políticos acharam que o humor tinha tido, desta vez, genuína influência na vitória do “sim” no segundo referendo.

 Sou desse tempo, do “é proibido, mas pode-se fazer”. Era preciso primeiro arranjar um contacto; havia “senhoras” — habitualmente enfermeiras, mas também algumas médicas e não vou falar das possibilidades mais repugnantes — que aceitavam pagamentos a prestações. Havia clínicas de luxo em Benfica, Lisboa; havia marquises pobres em Benfica, Lisboa. Em todas as cidades algumas tabuletas revelavam casas onde vivia ou “exercia” uma “parteira diplomada”.

 A reportagem de Fernanda Câncio no Diário de Notícias da semana passada deu um retrato chocante — e confesso que para mim totalmente desconhecido — da realidade do que é conseguir fazer um aborto legal e gratuito no Serviço Nacional de Saúde. Na verdade, a forma como as mulheres são tratadas demonstra que o que se está a passar agora é uma ilegalização, não por força de políticos republicanos dos Estados Unidos que são contra o aborto, mas por incapacidade do sistema e por “estar-se nas tintas”. O resultado é o mesmo: se não se consegue abortar legalmente, não vale a pena achar que somos assim tão diferentes dos estados americanos que ilegalizaram a interrupção voluntária da gravidez. Aqui, não é proibido, mas não se faz.»

 

À PARTE

1.

O ministro da Saúde , Manuel Pizarro, declarou que irá resolver o problema em “meia dúzia de semanas”.

O senhor ministro é um homem optimista. Para bem do problema que seja apenas isso!

2.

Lá muito para trás, em 22 de Outubro de 1981, D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa, disse aos jornalistas:

 «Quem liberalizar o aborto terá de se haver com a igreja!»

E o bispo de Viseu, em 1 de Junho de 1988 aquando do referendo sobre a lei do Aborto, disse:

«Quem votar "sim" deve sair da Igreja!» 

3.

Também lembrar Natália Correia e a resposta poética a um deputado do CDS:

 


4.

 Alguns recortes dos anos 80:


5.

O poema «Crescei e multiplicai-vos», que encima o texto é da autoria do poeta e pintor espanhol Carlos San Roman e foi traduzido por Urbano Tavares Rodrigues.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


Domingo de Carnaval.

 Vergílio Ferreira:

 Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

 Há uma cena genial em A Família Addams quando perguntam à Wednsday se não vai mascarada ao baile e ela responde que já está mascarada:

 Estou mascarada de psicopata. Os psicopatas parecem pessoas normais.

 Por ele,  que nunca foi de carnavais, gostava um dia de ir ao Carnaval de Nova Orleães.

 Os taipais são os do Kioske.

 Correm, ao findar do dia, depois de lida, apenas o que entendeu ler, a imensa tralha que se aloja no vazio da internet.

1. 

Francisco Louçã em entrevista: «Para o Partido Socialista, o Chega é o Euromilhões».

2.

Advogado acusado de cobrar 60 mil euros por processo fictício.

O Marque Mendes disse hoje na SIC, que os maiores beneficiários com o projecto habitacional de António Costa, serão os advogados!

3.

Duas casas devolutas, em espaços contíguos, arderam durante a madrugada deste domingo, na freguesia de São Victor, em Braga.

4.

Um grupo de católicos portugueses está a organizar uma vigília de oração contra abusos sexuais na Igreja Católica.

De acordo com a divulgação feita nas redes sociais, o evento vai decorrer em todo o país na próxima quarta-feira, dia 22 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas.

5.

«Fui segunda-feira à Gulbenkian ouvir o relatório da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

Tirei quatro conclusões básicas: há cem sacerdotes no activo que têm de ser imediatamente expulsos das sacristias e altares e colégios e seminários e grupos de escuteiros; há 25 acusações ainda não prescritas, agora enviadas ao Ministério Público, que deverão ser investigadas e, caso se provem, severamente punidas com prisão; a Igreja terá, como noutros países, de pagar despesas médicas de acompanhamento psicológico e indemnizações às vítimas; por último, é essencial que haja um pedido de desculpas formal, ecuménico, irreversível e genuíno, dos bispos portugueses e do Papa, durante as cerimónias da Jornada Mundial da Juventude, no Trancão.»

Rui Cardoso Martins, da crónica no Jornal de Notícias

6.

O preço que os trabalhadores terão de pagar por uma refeição nas cantinas dos organismos e serviços públicos vai aumentar 80 cêntimos, passando dos actuais 4,10 euros para 4,90 euros.

7.

Ainda é possível, passados que são 13 dias sobre a tragédia encontrar pessoas com vida entre os escombros que, segundo números recentes, provocaram mais de 40.000 mortos.

8.

O primeiro-ministro português mostrou-se este domingo confiante na reeleição de António Vitorino, em alguns tempos o partido solicitou-lhe auxílio, «não há festa nem festança onde não apareça a Dono Constança» e ele assobiou para o lado, para a Organização Internacional para as Migrações, salientando que todos os líderes africanos com quem falou em Adis Abeba apoiam a manutenção de António Vitorino.

9. 

A biografia de Natália Correia que será publicada em Março pela Contraponto tem 700 páginas e levou seis anos a ser escrita, notícia revelada ao final da tarde desta sexta-feira no Correntes d’Escritas, o festival literário da Póvoa de Varzim.

10.

Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que a posição do PCP sobre a condecoração do Presidente ucraniano com a Ordem da Liberdade “é coerente” com aquilo que o partido defende desde o inicio da guerra.

11.

Dados oficiais demonstram que cerca de 57 milhões de toneladas de comida são desperdiçados na União Europeia  todos os anos, o equivalente a 127 quilogramas por habitante. São cerca de 130 milhões de euros que vão, literalmente, para o lixo, quando milhares de europeus não têm acesso a uma refeição completa.

Neste cenário, números de 2020 mostram que Portugal está acima da média. No quarto país da União Europeia onde mais se deita comida fora, cada português desperdiça em média quase 184 quilogramas de alimentos por ano.

12.

«Os sacrificados funcionários judiciais são peças essenciais para o bom funcionamento da Justiça e a sua greve está a criar um caos. É do mais estrito bom senso que o Ministério da Justiça, rapidamente, chegue a um acordo com os funcionários judiciais.» 

Francisco Teixeira da Mota no Público 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

RELACIONADOS


Contracapa de A Questão Académica de 1907 de Natália Correia.

Este livro, oriundo da Biblioteca do meu pai, terá sido comprado num alfarrabista. Durante muitos anos, na meia tarde dos sábados, havia, mesmo que chovesse, visita aos alfarrabistas.


O livro tem uma dedicatória da escritora, a Carlos Cunha. Uma «homenagem» a um anónimo leitor/admirador da escrita ou da beleza de Natália Correia.

terça-feira, 25 de maio de 2021

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


O jornal Público atingiu níveis de ilegibilidade. Pelo menos para os meus olhos. Virou neo-liberal e de direita.

Mas ainda mantém uns certos laivos de outros bons tempos. É o caso de ter iniciado uma colecção, Censura no Feminino, que reúne 10 obras de autoras portuguesas proibidas pela Censura, publicadas em fac-símile, e custam, cada um, 6,50 euros.

O primeiro volume da colecção foi Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Pelos temas abordados, pela qualidade da escrita, o livro terá de ser, obrigatoriamente, lido por quem nunca o fez e passarão a saber da dimensão política e social que contém. Os tempos eram os da enganosa primavera política de Marcelo Caetano mas ainda hoje retém uma assombrosa actualidade.

«E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»

Segundo Ana Luísa Amaral, foi em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos.

Em Janeiro de 1972 dão a obra como concluída e, em Abril, o livro seria publicado  pelas Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, a publicou na íntegra.

O  pide-censor, a quem a obra foi atribuída para leitura e opinião, não teve dúvidas:

«Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução e processo-crime».

No processo podia ainda ler-se que o livro era pornográfico e a tentório da moral pública.

A Pide invadiu a editora e as livrarias e procedeu à apreensão da obra.

Chamadas à esquadra, as três autoras só não foram imediatamente presas porque Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pagaram uma caução de quinze contos. Maria Isabel Barreno, por sua vez, provou que não tinha posses para isso e, em contrapartida, teve de comparecer uma vez por mês na polícia, para ofício de corpo presente. Posteriormente, David Mourão-Ferreira emprestou-lhe o valor para que também ela pudesse pagar a caução.

O julgamento começou a 25 de Outubro de 1973 e, nos interrogatórios, a acusação tentou por todos os meios saber quem escrevera o quê. Nunca o souberam e, Maria Teresa Horta, a única das autoras que ainda está entre nós, sobre essa autoria,  já disse que levava com ela o segredo.

O julgamento nunca veio a ter um fim.

Em Abril de 1974, um juiz mandava em paz as três Marias. 

Um livro de coragem dentro do cinzentismo ditatorial daqueles dias tão amargos.

Ana Luísa Amaral, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.

«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.

Desço:

macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.

Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»

quarta-feira, 12 de maio de 2021

RELACIONADOS

O jornal Público está a publicar, em edição fac-símile, 10 obras de de autoras portuguesas que a PIDE censurou e proibiu.

O Vinho e a Lira de Natália Correia, distribuído em 6 de Junho de 1966, ao leitor Joaquim Palhares, mereceu a inicial observação de que aos serviços censórios não cabia a função de apreciar literariamente a obra, antes havia que «proteger os portugueses de ideias e expressões eróticas, imorais, algumas expressas em termos escatológicos e insinuações de ordem política com tendência dissolvente, o que é suficiente para se propor a sua proibição e circulação no país.»

A indignação do leitor Palhares, depois de declarar o valor nulo da obra, invoca o desplante da gente que edita este tipo de livros anti-sociais e opina que, a seu ver,  esta gente seria merecedora de uma severa punição.

Este livro, composto por 43 poemas, foi proibido pela PIDE e tornou-se na quarta obra de Natália Correia a ser censurada e proibida.

No dia 30 de Abril saiu Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, no dia 7 de Maio este O Vinho e a Lira de Natália Correia e no dia 14 de Maio Casa Sem Pão de Maria Archer.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

PUNHAIS DE VINGANÇA MIÚDA


28 de Junho de 1966

Apreensão do último livro de versos da Natália Correia: A Lira e o Vinho.

-Porquê – perguntámos, pasmados.

E o Nikias, no Martinho, explicou:

- Não passa de um reflexo do escândalo da publicação da Antologia da Poesia Erótica e Satírica (colectânea organizada e prefaciada pela Natália – o que lhe valeu um processo de ódio na Boa Hora).

Isto é: a Censura já não serve apenas para os imbecis nos contagiarem de estupidez baixa.

Também serve de punhal de vingança miúda.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Vol. I

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

POSTAIS SEM SELO

Creio na flor humilde que se encosta ao muro.

Natália Correia

domingo, 5 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL

O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.

O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2017

sábado, 27 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SARAMAGUEANDO

Se no dia em que sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte nota:

Bravo! seu Saramago.

Não espantam estas palavras de José Saramago.

Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos ossos.

«Que nos importa morrer se não morrermos de rastros?»

Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.

«Posso morrer de fome mas não peço esmola.»

 «Só sei que “para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.

Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao despedimento do Diário de Notícias, à recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.

Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora Estúdios Cor.

Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético, escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.

Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada, mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.

Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro, chama-lhe
 «degenerasda», e conta a história de que, numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga, Pacheco  avança uns pormenores escabrosos e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu o assunto com a Natália».

Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José Saramago.

O contrário, certamente, não aconteceria.

Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente, não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»


Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

Texto publicado em 23 de Julho de 2017

segunda-feira, 13 de abril de 2020

SOCORRENDO-SE APENAS DA MEMÓRIA...


Nunca li o livro de Mário Sacramento « Fernando Pessoa da Hora Absurda», mas aqui podem recordar uma história mirabolante de Luiz Pacheco tirada do seu «Memorando, Mirabolando» e não resisto a republicar este pedacinho desse texto:

«Nunca vi o dr. Mário Sacramento, apenas fotos suas nos jornais. Durante a atribulada edição do livro, que demorou anos [entre 1953 e 1959], apenas nos correspondíamos por carta e ele tanto me remetia o original e provas de Aveiro como do Forte de Caxias, nas muitas perseguições que a PIDE lhe moveu.»
Paulo da Costa Domingos, na Frenesi Loja, acrescenta:

«Consta – o que torna este ensaio acerca da obra de Pessoa uma obra de culto – que o Autor, à falta de livros de apoio na cadeia, o terá redigido socorrendo-se apenas da memória para as citações que justificam o seu raciocínio e o ilustram.»

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 29 de maio de 2019

UM CHAUFFEUR RUSSO E UMA CAPA VERMELHA


Segundo números da Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo, foram proibidas cerca de 3.300 obras pela PIDE.

Sabe-se que o romance de Max du Veuzit, John Chauffeur Russo, foi alvo de apreensão porque deveria ter algo de subversivo, e que o editor e livreiro José Ribeiro teve de ir à António Maria Cardoso explicar porque publicara o livro Isto Anda Tudo Ligado de Eduardo Guerra Carneiro com capa vermelha.

O editor e livreiro Fernando Fernandes disse um dia:

«Quando um editor suspeitava que um determinado livro estava sujeito a ser proibido combinava previamente com as livrarias da sua confiança e o envio de uma determinada quantidade de exemplares, par que no seu armazém ficasse apenas uma quantidade mínima destinada a uma eventual visita da polícia. Logo que a proibição se confirmava, as editoras informavam de imediato as livrarias e estas, por sua vez, tomavam as medidas necessárias, as quais se resumiam a esconder os livros e a avisar os seus clientes em quem podiam confiar. Para isso tinham já os seus lugares secretos só acessíveis a poucos. Mas o medo era uma constante, o medo já enraizado no subconsciente, que se manifestava mais racionalmente sempre que alguém não conhecido entrava porta adentro. Seria um novo cliente ou algum agente da PIDE para nos encomendar?»

Foi com base neste esquema, em que imperavam princípios de respeito e lealdade, que o meu pai com a cumplicidade do Senhor Carvalho, trabalhador da então Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, junto ao edifício onde era o Cinema Eden, conseguiu, entre outros, adquirir a «Antologia de Poesia Portuguesa do Pás Guerra», organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva Tavares, «A Praça da Canção» de Manuel Alegre, editada também pela Ulisseia, e a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e editada pela Afrodite de Fernando Ribeiro de Melo, e que, em Junho de 1969, deu origem a um julgamento por, segundo a acusação,«algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Diga-se que esta Antologia foi, no início deste mês, reeditada pela Ponto de Fuga de Vladimiro Nunes, mantém as ilustrações de Cruzeiro Seixas e também inclui o processo judicial que a sua publicação, no tempo da ditadura, provocou.

Certamente que a encontrarão à venda na Feira do Livro que hoje abriu taipais.