Mostrar mensagens com a etiqueta David Mourão-Ferreira Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Mourão-Ferreira Poemas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 2 de setembro de 2025

E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão Ferreira

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

INTERIOR

É bom ouvir de noite uma trompa de caça

Despir muito depressa a túnica da Lua

E descobrir o amor no forro de uma casa

onde apenas vibrava a memória da chuva

 

Depois de arrebatar o corpo da amada

ao ritmo infernal de um batuque de guerra

é bom permanecer na mesa de montagem

misturando Anfião  Vivaldi  Apollinaire

 

É bom lançar ao fogo um velho dicionário

É bom o crepitar das palavras antigas

Adivinhar quais são as que por fim renascem

e que sabem voar ao saírem das cinzas

 

É bom pedir perdão ao som de uma sonata

Segredar num soneto a ária do remorso

É bom recomeçar com música de jazz

Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo

 

David Mourão-Ferreira de Do Tempo ao Coração em Obra Poética

sexta-feira, 15 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Somos, ou fomos, o país dos três efes?

Futebol, fado e fé.

Os três pilares com que Salazar construiu o Estado Novo.

Ainda hoje, quando se pretende referir que os portugueses pouco ou nada se interessam por assuntos da sociedade em que vivem, assuntos do mundo, os três efes vêm à baila.

A viagem de hoje passa pelo fado e quando de fado se  fala,  sobe à mesa do nome de Amália Rodrigues.

Para mim, o nome de Amália torna-se referência pela descoberta que dela fez o músico Alain Oulman.

O álbum Com que Voz marca essa diferença, quase genial.

Essa mesma voz, os poetas que canta, a música de Oulman.

O álbum «Busto» marca o início da colaboração com Alain Oulman. Chama-se assim pela estatueta de Amália na capa, da autoria de Joaquim Valente, fotografia de Nuno Calvet.

No disco há um poema de David Mourão-Ferreira Abandono, também conhecido como Fado de Peniche,  inspirado na fuga de Álvaro, juntamente com outros camaradas , do Forte de Peniche:

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar

Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar

Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria

Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar

Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento
Ao menos ouves o mar

Ao menos ouves o vento
Ao menos ouves o mar

Amália Rodrigues é uma voz única, uma personagem deveras interessante.

Numa longa entrevista com o escritor Manuel da Fonseca, este diz-lhe:

«Li sobre o Fado, as origens, as consequências, a aceitação de um povo de índole vencida. Li uma data de coisas: já há muitos anos e, agora, uns bocados. As classes sociais intelectuais do nosso país atiraram sempre com o Fado para trás, nunca o quiseram. Era um estigma de um povo, era uma forma de recuo, uma forma negativa de cultura de um povo. A partir de certa altura, esses mesmos, pertencentes a essa classe, foram ter consigo e acharam que você representava essa tal forma negativa. Em resumo, vou-lhe dizer as coisas de um modo surreal: nem mil Secretariados de Propaganda, a trabalharem durante mil anos, arranjavam um produto que lhes foi parar às mãos, que é você».

Durante a sua vida deram-na como salazarista, mas poucos sabiam que ajudava, não só monetariamente, os perseguidos e presos políticos.

Quando Salazar, em coma, no Hospital da Cruz Vermelha, aguardava o tempo de morrer, Amália Rodrigues enviou-lhe um cesto de rosas e umas quadras:

Ponha-se bem depressa

Meu querido presidente

Depressa, que essa cabeça

Não merece estar doente.

 

Não sei de regulamentos

E se isto é má criação

Perdoe o procedimento

E aceite a intenção.

A censura proibiu, fosse onde fosse, a publicação destas quadras,

Em Junho de 1972, numa entrevista a Guilherme de Melo, publicada no «Notícias de Lourenço Marques», Amália disse:

«Já tenho uma idade e já cheguei a uma altura da minha vida como mulher e da minha carreira como artista em que não precisos de me agarrar às «direitas» para subir ou às «esquerdas» para me evidenciar.»

Mário Sacramento no seu Diário, entrada datad de 6 de Junho de 1968 que surge a propósito de um Congresso de Radiologia, realizado na Aula Magna da Reitoria de Lisboa:

«Às tantas, mas no salão, cantou a Amália. Se bem que deteste o fado, emocionou-me. Tem nervo, tem arte – é da raça dos eleitos. Transforma em oiro o metal mais vil. Toda de negro, como manda a praxe, mas com um cinturão de oiro, a maior beleza do seu rosto está na tensão que imprime à jugular, quando canta. Nenhum outro excesso. A boca é duma sensualidade incrível – toda a boca e não o lábio inferior apenas. Alguns dentes mais escuros ou deteriorados sublinham a sua verdade. Gaforina de leoa. Simplicidade sem embustes. E muito, muito carvão nos olhos, ora extinto, ora em labaredas.».

Jorge Calado:

«Se é verdade que comecei por achar o fado harmoniosamente pobre, a minha admiração por Amália nunca deixou de crescer. Aliás, dizia-se que o que ela cantava não era fado… Com coração independente, violava as regras todas e seguia em frente.»

domingo, 24 de dezembro de 2023

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


 Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

David Mourão-Ferreira em Natal...Natais

terça-feira, 28 de março de 2023

PARAÍSO

Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota…

Crepite, em derredor, o mar de Agosto…

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão Ferreira

sábado, 24 de dezembro de 2022

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


 Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Ladaínha dos Próximos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

 

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira em Obra Poética

domingo, 10 de outubro de 2021

ILHA

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

PRELÚDIO DE NATAL


Tudo principiava

pela cúmplice neblina

que vinha perfumada

de lenha e tangerinas

 

Só depois se rasgava

a primeira cortina

E dispersa e dourada

no palco das vitrinas

 

a festa começava

entre odor a resina

a gosto a noz-moscada

de paisagens alpinas

 

E a multidão passava

E a chuva era tão fina

que parecia filtrada

de taças clandestinas

 

Finalmente chegava

triunfal    em surdina

a noite convocada

em todas as esquinas

 

Mas não se derramava

Como tinta-da-china

Na cidade acordada

já se ouviam matinas

 

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

quarta-feira, 20 de maio de 2020

PRAIA DO PARAÍSO


Era a primeira vez que nus os nossos corpos
Apesar da penumbra á vontade se olhavam
 
Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros
 
Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa
 
E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas
 
Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

quarta-feira, 13 de maio de 2020

OS AMANTES DO TEJO


COLUMBIA ESRF 1034 - edição francesa

Lado 1

Barco Negro (Mãe Preta)
Solidão (Canção do Mar)

Lado 2

Fallaste Corazon
Lisboa Não Sejas Francesa

Apenas Barco Negro e Solidão fazem parte da banda sonora de Os Amantes do Tejo.

Barco Negro é uma versão, com poema de David Mourão-Ferreira, de Mãe Preta, que foi escrita em 1954 por Piratini para uma música de Caco Velho.

Uma forte referência ao racismo, «enquanto a chibata batia em seu amor mãe preta embalava o filho branco do sinhô», canção que Salazar proibiu que fosse passada na rádio.

Este é o poema e, mais abaixo se reproduz o vídeo em que a canção é interpretada pela fadista portuguesa Maria da Conceição:

Velha encarquilhada
carapinha branca
gandola de renda
caindo na anca
embalando o berço
do filho do sinhô
que há pouco tempo
a sinhá ganhou
era assim que mãe preta fazia
criava todo branco
com muita alegria
enquanto na senzala
seu bem apanhava
mãe preta mais uma lágrima enxugava
mãe preta, mãe preta,
mãe preta, mãe preta
enquanto a chibata
batia em seu amor
mãe preta embalava
o filho branco do sinhô.


Este é o poema de David-Mourão-Ferreira, cantado por Amália no filme e reproduzido em O Qu’é Que Vai no Piolho. 

Aqui, ficamos com a interessante versão de Ney Matogrosso:          


De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.


Resta-nos abordar Solidão.

Esta é a letra:

Solidão de quem tremeu
A tentação do céu
E dos encantos, o que o céu me deu
Serei bem eu
Sob este véu de pranto


Sem saber se choro algum pecado
A tremer, imploro o céu fechado
Triste amor, o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonado, e não me abandonei
Por mim, ninguém
Já se detém na estrada

A Canção do Mar tem música de Ferrer Trindade e letra de Frederico de Brito e é o tema musical do filme. 

Amália canta-a com o título Solidão.

O autor da letra será também David Mourão-Ferreira, mas não encontrei o garante dessa autoria.

Na contra capa do EP, o assunto é tratado a pontapé.

A autoria das versões de Barco Negro e Solidão é atribuída a D. J. Ferreira.

Curiosamente os Pink Martini, que gravaram Solidão no seu álbum Je Dis Oui!, registam David Mourão-Ferreira como autor da letra.

Por mera curiosidade deixo-vos também a interpretação que Chavela Vargas fez para Solidão.

Diga-se, por fim, que Canção do Mar, junta-se a Coimbra e Lisboa Antiga como os trechos da música portuguesa mais divulgados no estrangeiro, ao ponto de o CD, que contém a versão de Canção do Mar da Dulce Pontes, aparecer nas mãos de Richard Gere no filme A Raiz do Medo e o pormenor foi um pedido do actor.


terça-feira, 12 de maio de 2020

HERANÇA


Ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
e desejar que estejas a morrer;
fechar a porta à minha própria infância;
amigos, conhecidos, nem os ver;

quebrar nas mãos o aro da esperança;
mas de mim para mim depois dizer:
«Calma! Quem nada espera tudo alcança...»;
e guardar o revólver; e beber,

a sós, o vinho que na taça baste
a recompor-te, viva, na distância:
isto foi, como herança, o que deixaste.

E ainda o mais que não te quis dizer:
ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
e desejar ser eu quem vai morrer...

David-Mourão Ferreira de Infinito Pessoal em Obra Poética

terça-feira, 24 de março de 2020

E POR VEZES...


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos    E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

Legenda. Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

quarta-feira, 2 de maio de 2018

TESTAMENTO


                                   Have you built your ship of
                                   dead. O have you?
                                   O built your ship of dead, for
                                   you will need it.

                                                    D. H. LAURENCE


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra
Adeus ó pombas
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ningas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis
Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras
Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade
Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

Legenda: fotografia da revista Colóquio-Letras da Fundação Gulbenkian

sábado, 6 de janeiro de 2018

PRELÚDIO DE NATAL


Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.


David Mourão-Ferreira em Antologia Poética

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
(dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)

Selecção, Prefácio e Notas de Natália Correia
Ilustrações de Cruzeiro Seixas
Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa, 1966

Re(li)gata

Quando em lugar de feltro é de barro de Outubro
o calor interior das coxas habitadas
Quando a língua é um barco avançando no escuro
de um canal de Corinto entre pardas escarpas
Quando o cheiro do Mar se desdobra em veludo
Quando rompe na boca o mistério das algas
Quando em baixo o teu pé a triturar-me o surdo
perímetro do sexo encontra a madrugada
Quando mais se aproxima a náutica do culto
Quando mais o altar se mostra navegável
Quando mais eu descubro e    restauro    e misturo
na crista litoral de súbito ampliada
o ritual do grito o ritual do cuspo
e vês que ninguém mais merece esta homenagem
é que enfim te possuo    é que enfim te reduzo
a uma luva    uma esponja    uma deusa    uma nave


David Mourão-Ferreira