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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES


Ah!, os entardeceres!...

Conheceu o Mário-Henrique Leiria na redacção do jornal República e passou a acompanhá-lo em algumas tardes no Bar Expresso, no Largo Trindade Coelho, mesmo ao lado do jornal.

O Mário é um tipo inclassificável, mas espantosamente fascinante.

Claro que poucos o conhecem e muitos menos o leem.

Pois é do Mário-Henrique o mote escolhido para o pôr-do-sol que o Rui Ornelas fotografou. O mote já, largamente, por este Cais foi (re)dito, mas acha-o, simplesmente brilhante e não hesita na sua repetição:

«… encostou-se no parapeito da janela aberta e ficou a olhar o entardecer discreto e melancólico.»

Falando-se de Mário-Henrique Leiria, tirando-se citação de um dos seus contos do Gin-Tonic, entendeu-se voltar a Françoise Hardy, precisamente a um dos seus álbuns a que chamou «Françoise-Gin-Tonic-Hardy», editado em 1980, e, naturalmente a canção seis da Face A que, justamente, Françoise chamou «Gin Tonic».

Dois gin-tonics, um bar de hotel, talvez em Londres, ou Paris, ou Berlim, mesmo Bruxelas, um piano triste palavras algo falsas, desencontradas, paraísos artificiais ditos indefinidos…

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES

Os pôr de sol já andaram por aqui, em palavras e músicas.

Não lembra bem como tudo começou.

Há mais de 50 anos mora numa casa com vista que solta-se da Ponte Sobre o Tejo até ao aeroporto da Portela.

Por um dia, desatou a tirar fotografias de entardeceres com uma fatela máquina comprada em «loja de chineses».

Se não lembra como começaram, também não lembra com acabaram. O começo data de 6 de Junho de 2015, o fim de 7 de Dezembro de 2017, e, apesar de quase dois anos decorridos, há apenas 18 Entardeceres.

Não se sabe nunca que mistérios nos pode trazer um pôr de sol.

Se formos mais concretos, lembraremos sempre o que Chaplin em «Luzes da Cidade» diz: «A elegante melancolia do Crepúsculo.»

E ele agora volta aos pôr-do-sol porque, num golpe quase de mágica, descobriu que Rui  Ornelas, vizinho do 4º andar deste prédio com 51 anos, diariamente, nos finais do dia, tira fotografias, belíssimas fotografias, que nada, mesmo nada, têm a ver com as da sua máquina de «loja de chineses».

Aberto o pano para estes novos  entardeceres, neste primeiro de Agosto, primeiro de Inverno, lembra Françoise Hardy que há um mês, mais alguns dias, nos deixou e lembra-a na canção «Dis Lui Non», que um velho e querido amigo, o Pedro Freitas Branco, considera uma das melhores canções da década de 60.


segunda-feira, 8 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO


A maioria das pessoas deseja que a eutanásia seja legalizada.

Françoise Hardy, numa carta, antes de morrer, ao presidente Macron

segunda-feira, 24 de junho de 2024

TOUS LES GARÇONS, NÃO É BOB DYLAN?

“Não há amores felizes”, canta com uma estóica e tão bela resignação Françoise Hardy. Mas será que pode haver “desamores felizes”? Os amores de Françoise, cinco contadinhos pelos dedos de uma mão, jura ela, foram todos infelizes, estradas acidentadas a desaguar na solidão. Foi na nostalgia de um desamor que Françoise Hardy se consolou, até há poucos dias, até ao dia da sua morte.

Bob Dylan foi esse “desamor feliz”. Lembro que ninguém conhecia Françoise. Vivia, em Paris, não longe do Pigalle, na rua du Aumale, a mesma onde, por menos de um ano, no século XIX, vivera Richard Wagner. Deve ter ficado por ali um acorde da “Cavalgada das Valquírias” à espera, um século depois, de entrar pelo ouvido da pequena Françoise. Ela dormia no quarto com a irmã esquizofrénica, na sala do mirrado apartamento, a mãe, solteira, contabilista pobre e tão infeliz, que tirava prazer de fazer infeliz a filha, capaz de lhe dizer que tinha umas pernas tão magras que lhe ficariam em Guimarães com elas para facas, soubesse Françoise onde era Guimarães.

Interessa é que era Hardy uma menina e começou a cantar. Em 1962, na noite em que a televisão francesa se esgadanhava para analisar os resultados do referendo sobre a eleição por sufrágio universal do presidente da república, sei lá se foi De Gaulle que pediu, aparece num intervalo a menina Françoise e da boca dela ouviu-se uma coisinha moderníssima, a canção que ela escreveu e chamou “Tous les garçons et les filles”. Os ouvidos de França desabrocharam. Escusado será dizer que no dia seguinte, todos os “garçons” e todas as “filles” entoavam, dançavam e se derretiam em tristeza com a encantada jeremiada daquela canção. E derreteu-se a Alemanha, a Inglaterra, a Espanha, e eu em Angola, “la main dans la main”, também.

Do outro lado do Atlântico, soprada pelo vento, chegou às mãos do ainda principiante Bob Dylan, a fotografia de Hardy. Olhou para aqueles ossos a quererem furar as maçãs do rosto, para os seios pequenos, para a cintilante mini-saia e apaixonou-se. E eu, colonialíssimo, em Angola também.

Como eu, Dylan só vira uma fotografia. Como eu, escreveu cartas a essa fotografia, chorou e suspirou nesse tempo em que os tempos tanto mudavam.  Mas eu não canto nem tenho talentos. Bob Dylan, sim. Já Françoise filmava com Hollywood e veio Dylan cantar a Paris, onde também Amália cantou, sala mítica, ao Olympia.

Françoise veio vê-lo. E Dylan, a acústica uma boa merda, falhou. Ao intervalo, recusou voltar ao palco, a não ser que a desconhecida Françoise viesse ao camarim consolar o seu derrotado ego. Ela veio. E tiremos, com a ajuda de Einstein, esses 10 minutos íntimos da fita newtoniana do tempo. No final do espectáculo, Dylan levou Hardy, Johnny Hallyday e mais uma mão cheia de franceses para a soberba delícia que era então o hotel Georges V. De olhos fixados em Hardy, deixou-os a todos menos ela, e na sua suite de americano cantou “Just Like a Woman” e “I Want You” à raptada miúda da rua du Aumale, ali perto do Pigalle.

Se isto não é uma declaração de amor, o que é uma declaração de amor? E eis a minha inquietação:  um tipo do Chega, um tipo do Bloco de Esquerda poderão ainda compreender a gentileza, a doçura, a angústia amorosa que está por trás de tudo isto?

Nada aconteceu, confessa com ternura Françoise, a não ser terem ficado a olhar-se num puríssimo sol, lá, si. Nunca mais se viram, mas Dylan escreveu esta dedicatória num LP: “A Françoise na margem do Sena, sombra gigante de Notre Dame.”

Sim, já houve amor. E que, lá do céu, Françoise continue a ser o “soleil” que tanta falta nos faz.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

quinta-feira, 13 de junho de 2024

TOUS LES GARÇONS ET LES FILLES


O devagar depressa dos tempos.

Esta capa de Françoise Hardy está no blogue dos guedelhudos, blogue dos guedelhudos, parvamente desaparecido porque o Luís entendeu que o Facebook é bem mais útil!...

Não nos conseguiu dizer dessa utilidade. Ou por outra, murmurou qualquer coisinha que, pouco ou nada, esclareceu.


DISQUES VOGUE/ARNALDO TRINDADE - VAT 15001 - edição portuguesa

Uma voz fresca, ajustada, moderna, compondo ela mesmo as suas canções, Françoise Hardy agradar-vos-á!

Entendendo Françoise Hardy entende-se a juventude e os seus problemas amorosos.

Sereis transportados a um outro mundo de delicadeza, de ritmo e de juventude.

Viva Françoise Hardy!

(texto apócrifo na contracapa do disco)

Nota do Editor:

Nota do Editor:

O Luís Pinheiro de Almeida adquiriu este disco no dia 21 de Dezembro de 1963 e o Pedro de Freitas Branco comentou: «A minha musa dos anos 60... e "Dis Lui Non" uma das melhores canções da década!!!»

Como nem todos tocam piano e falam francês, alguém, num comentário no Público na notícia da morte de Hardy, colocou uma tradução de Tous les Garçons e les Filles:

«Todos os rapazes e raparigas da minha idade passeiam na rua dois a dois e sabem bem o que significa ser feliz. E de olhos nos olhos e de mãos dadas avançam enamorados e sem receio do dia seguinte. Mas eu vagueio sozinha pelas ruas, triste no meu coração porque ninguém me ama. Os meus dias e as minhas noites são em tudo iguais sem alegrias e cheias de aborrecimento. Ninguém me murmura ao ouvido "Amo-te". Todos os rapazes e as raparigas da minha idade fazem juntos projetos para o futuro. Eles sabem muito bem o que significa amar. Oh, quando é que o sol brilhará para mim? Como eles e elas conhecerei eu em breve o que é o amor? Como eles pergunto-me quando chegará o dia em que o meu coração será feliz sem medo do dia seguinte sem a alma triste, o dia em que também eu terei alguém que me ame.»

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PARA AlÉM DO ARCO-ÍRIS


 VOGUE  - LD 600-30


Face 1

Tous Les Garçons Et Les Filles – Ça A Raté – La Fille Avec Toi – Oh, Oh Chéri – Le Temps de L’ Amour – Il Est Tout Pour Moi

Face 2

On Se Plait – Ton Meilleur Ami – J’Ai Jeté Mon Coeur – Il Est Parti Un Jour – Je Suis D’Accord – C’est A L’Amour Auquel Je Pense

Françoise Hardy é acompanhada por Roger Samyn e a sua orquestra.

Acalenta um velho sonho, com o seu quê de kitsch: possuir uma casa, como manda o raio da sapatilha, em que as paredes de uma das salas seria toda forrada com capas de LPs.

Claro que uma das capas a colocar na tal parede, será esta de Françoise Hardy.

Guarda a ideia de dizer para dentro de si mesmo, que com Hardy o único estado de espírito possível será ouvi-la, ouvi-la, ouvi-la e ascender ao espaço do sublime.

Durante muitos dias, longos dias que se tornaram parte da uma vida, ouviu este disco, em que a contemplação da capa fazia parte de um ritual, esta coisa de estarmos vivos.

Estão a olhar a capa mas ele, qual voz off, narra:

A Françoise Hardy está com uma chapéu-de-chuva, inevitavelmente de Cherbourgo,  os cabelos ao vento e olha-nos com uma expressão que nos deixa para lá do arco-íris.

Tem uma ponta de gosto em dizer que a Françoise Hardy é rapariga do seu tempo, apenas um ano, e escassos meses, mais velha. 

Quando a ouviu pela vez primeira, uma voz doce capaz de tudo, um charme juvenil que ninguém mais teve, num EP da Vogue onde morava Tous les garçons et les Filles, que o emocionou até aos limites da ternura.

Desde esse único momento, os tempos, fossem dias de Outono com chuva a bater nas janelas, ou dias brilhantes de Verão, ou as grandes noites de Inverno, passaram a ser tempos de glória.

Tempos em que os dias nasciam e findavam de uma outra maneira.

Perdoem-lhe este ar de louvação com o seu quê de nítido exagero.

Acontece, mas não é caso único de espantamento.

Bob Dylan, quando em 1966 deu um concerto no Olympia de Paris, quis conhecê-la, mas antes já  a tinha feito deslizar num longo poema a que chamou Some Other Kinds of Songs que escarrapachou na contra capa de Another Side of Bob Dylan.

Françoise Hardy nas margens do Sena, Notre Dame em fundo, estudantes da Sorbonne em bicicletas, namorados, livros velhos, barcos, pescadores, olhares espantados de turistas…

NÃO HÁ NINGUÉM COMO FRANÇOISE


Este é o título que João Gobern deu a um texto, sobre Françoise Hardy, publicado no Diário de Notícias de 28 de Abril de 2018:

«Dar de caras com Personne d"Autre - 28.º disco, se forem levadas em conta as edições em França, de uma carreira que nasceu há bem mais de meio século para embalar namorados ("tous les garçons et les filles de mon âge se promènent dans la rue deux par deux") e que com o tempo passou a comover tantas gerações - vale uma primeira vitória.

Tudo indicava que L"Amour Fou, lançado em 2012 e sendo já o quinto manifesto público da cantora e autora nos anos 2000, estaria condenado a assumir o papel de último testemunho. Basta recordar o que dizia Françoise: "Creio ter chegado ao ponto em que a inspiração não me visita com a frequência indispensável. Teria de acontecer algo de verdadeiramente inesperado, quase insólito, que me levasse a regressar aos estúdios. E também que houvesse um forte sopro de energia, que me permitisse ultrapassar os problemas de saúde que me afligem nestes tempos mais chegados."

Hardy lutou durante dez anos contra um cancro no sistema linfático, cuja remissão "total" só foi anunciada - pelo filho, Thomas Dutronc, músico, produtor e exímio guitarrista - em fevereiro de 2016. Como se não bastasse, uma queda, brutal e caseira, deixou-a quase sem possibilidades de andar e obrigou-a um internamento prolongado, de quase meio ano, numa clínica especializada. Estamos, afinal, perante um daqueles casos em que a contradição se saúda, porque Hardy voltou em pleno às gravações, e em que o milagre pessoal tem ótimas consequências para o universo dos melómanos.

Françoise Hardy, agora com 74 anos, acabaria por gravar o seu primeiro disco em 1962, beneficiando então de uma ajuda involuntária da política: a 18 de outubro desse ano, a França vai às urnas para referendar a eleição, por sufrágio direto e universal, do presidente da República. Na emissão televisiva, um dos intervalos musicais para amenizar a espera por um veredicto é entregue a Françoise Hardy e a Tous Les Garçons et Les Filles. No dia seguinte, pode falar-se em dois grandes vencedores do serão: Charles De Gaulle e Françoise Hardy, cujo disco chegará - antes do fim do ano - a meio milhão de exemplares vendidos.

No ano seguinte, a brisa do êxito tornou-se vendaval: Françoise foi capa da revista Paris Match, representou o Mónaco no Festival da Eurovisão, foi chamada por Roger Vadim para o cinema (Castelo na Suécia valeu como estreia, sendo presença assídua até 1967) e tomou conta do Olympia parisiense, nas suas primeiras grandes apresentações em palco.

Daí em diante, a história é (re)conhecida. Depreende-se que Hardy teve tempo, talento e técnica para cantar tudo, incluindo Victor Hugo e Louis Aragon. Entre os seus próximos, francófonos, vai de Django Reinhardt a Charles Trenet, passando por Georges Brassens, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg, Georges Moustaki, Jacques Dutronc (o amor da sua vida, de quem está separada, mas não divorciada, desde 1988), Michel Jonasz, Gabriel Yared, Catherine Lara, Etienne Roda-Gil, Michel Fugain, Daniel Gérard, Alain Souchon, Etienne Daho, Arthur H., Calogero, Jean-Louis Murat, Jacques Higelin, Julien Doré ou Benjamin Biolay.

Atenta ao que se passa noutros quadrantes, também gravou - na língua original ou em adaptações para francês - originais de Paul Anka, Burt Bacharach, Leiber & Stoller, Goffin & King, Buddy Holly, Everly Brothers, Tim Hardin, Phil Ochs, Buffy Sainte-Marie, Neil Young, Randy Newman, Ray Davies e Perry Blake, sem esquecer os brasileiros Jobim, Chico Buarque e Taiguara, o espanhol José María Caño e o italiano Adriano Celentano. Com tudo isto, é legítimo e rigoroso dizer que Françoise se canta sobretudo a si mesma.

Isso mesmo volta a provar-se em Personne d"Autre, disco de elegância extrema (desde o primeiro momento, em que uma guitarra atmosférica resume, de imediato, o ambiente do disco), de uma melancolia aconchegante, que Françoise Hardy define como "adequada" para uma mulher da sua idade. As palavras - que a cantora raramente cede a terceiros - falam-nos, com a propriedade de quem viveu mas sem a soberba de quem só tem certezas para mostrar, de cumplicidade, de perda, de sublimação, de envelhecimento, da mudança nas alegrias (por oposição aos êxtases), dos entusiasmos que não desaparecem com a maturidade.

Nas doze canções, a "velha senhora" continua a mostrar olho clínico, ao acolher uma canção da moderna La Grande Sophie e ao transformar um original do obscuro grupo finlandês Poets Of The Fall. Mas até esses "sinais exteriores" entroncam perfeitamente na linha condutora de um álbum em que a voz não perde frescura e capacidade de - sempre sem esforço - nos arrebatar.

Depois, há outra vez a sinceridade desta "primeira-dama", sem nada a perder: ela confessou que parte das canções (como o tema-título ou Train Spécial) corresponde à sua narrativa do que viveu com Jacques Dutronc. Capaz de continuar a inspirar muitas gerações de vozes femininas da francofonia, de Zaz a Pomme, de Olivia Ruiz a Jenifer, de Joyce Jonathan a Louane, Personne d"Autre vale como um arremedo de biografia (e Hardy conseguiu um enorme sucesso com as suas memórias, em Le Desespoir des Singes, livro de 2008) e como um testemunho que pode perdurar. Soa a despedida, é certo. Mas, com Françoise Hardy, nunca se sabe. E fossem todas assim...

FRANÇOISE HARDY (1944-2024)

Aos80 anos, morreu Françoise Hardy.

Em Dezembro de 2023, com um cancro no sistema linfático e um cancro na faringe, escreveu uma carta aberta a Emmanuel Macron, publicada no jornal La Tribune Dimanche, na qual lança um apelo para que a eutanásia seja legalizada em França:

«A maioria das pessoas deseja que a eutanásia seja legalizada. Esperamos que permita que muitos doentes franceses possam pôr fim ao seu sofrimento quando sabem que não há alívio possível.» 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

QUANDO SE SABE QUE NÃO HÁ ALÍVIO POSSÍVEL...


 «A cantora e compositora francesa Françoise Hardy escreveu uma carta aberta a Emmanuel Macron, na qual lança um apelo para que a eutanásia seja legalizada em França. Submetida a dezenas de tratamentos de radioterapia nas últimas duas décadas, a artista de 79 anos tem um cancro no sistema linfático e um cancro na faringe. Não é a primeira vez que Hardy se pronuncia sobre a morte medicamente assistida.

“A maioria das pessoas deseja que a eutanásia seja legalizada”, escreve na carta publicada no jornal La Tribune Dimanche, reabrindo a discussão sobre a legalização da morte medicamente assistida naquele país. “Esperamos que permita que os franceses muitos doentes possam pôr fim ao seu sofrimento quando sabem que não há alívio possível”, apela. A voz de “Tous les Garçons et les Filles” dá o exemplo da sua mãe, que sofria da doença de Charcot-Marie-Tooth, uma patologia rara que afecta os nervos motores e os sensitivos, e que não tem cura. “Graças a dois médicos corajosos e compreensivos, ela não teve que testemunhar o fim de uma doença incurável”, escreve.»

Vicente Ribeiro no Público de hoje.

Legenda: Françoise Hardy

sábado, 4 de junho de 2022

EU VOU P'RÁ MARACANGALHA, EU VOU...

 

Com este novo texto é que eu tenho a perfeita sensação de ir estoirar com toda a vossa benevolência e paciência...

Mas que querem...  

 Deixei-me deslizar pelos rios da memória e agora não quero voltar atrás. 

 Poderia cortar muita coisa, mas não me apetece... 


 “Preserve your memories

They’re all that’s left you!”

(Paul Simon)

 

Às vezes, quando o Verão se aproxima e o calor aperta, acontece virem-me à memória os tempos de Paço d’Arcos.

Com os meus pais e os meus irmãos, ia para Paço d’Arcos três meses por ano, de Julho a Setembro.

A Família começou a ir por minha causa, contou-me um dia a minha Mãe. Com poucos meses de idade comecei a sofrer de otites nos ouvidos, levei uma série de fortes injeções e os meus pais chegaram a temer que viesse a sofrer danos irreparáveis de audição. E foi o Dr. Nobre Leitão, que então me tratou, quem aconselhou aos meus pais uma ida para as praias da Linha, que seriam ideais para eu apanhar todo o iodo de que necessitava para uma mais rápida recuperação. E Paço d’Arcos era a praia que mais próxima estava de Lisboa, o que permitiria ao meu Pai fazer o vaivém diário sem grandes problemas.

Fui para Paço d’Arcos com um ano de idade e na última vez que para lá fomos eu teria os meus 8 ou 9 anos, pelo que teremos passado quase uma década por aquelas bandas.


Não sei porque deixámos de ir. Talvez que a vida pessoal e escolar dos meus irmãos, 7, 8 e 9 anos mais velhos do que eu, já não se compadecesse com uma tão prolongada ausência de Lisboa… Talvez que as viagens diárias se estivessem a tornar demasiado desgastantes para o meu Pai, já a caminho dos  55 anos…. Pela minha Mãe não deve ter sido, certamente, porque ela apreciava a fuga à rotina que esses três meses lhe proporcionavam…   

Os meus irmãos falam-me de outras casas, mas eu recordo-me, apenas, de duas: uma que ficava mesmo defronte do Mercado, num velho prédio que já não existe; e outra um pouco mais afastada do centro, mas que ainda hoje existe e é o edifício onde se encontra o restaurante italiano “Pátio Antico”.

Dos tempos de Paço d’Arcos tenho memórias dispersas, embora as que tenho sejam muito vivas.

Os meus irmãos, muito mais velhos do que eu, como já vos disse, não me ligavam patavina, e quando me ligavam era para me pregarem alguma partida ou para me impingirem namoradas, coisa que não era nada do agrado de um miúdo tímido e ligeiramente introvertido, como era o meu caso.

Mas quando a minha prima Lena nos vinha visitar e passar uma temporada connosco, o caso mudava de figura e eu passava a ser o centro das atenções. Para ela, pelo menos…

Ela era como que nossa irmã mais velha, porque viveu durante muitos anos em nossa casa. 


Depois licenciou-se em Letras e tornou-se numa jovem professora que, em anos diferentes, fora destacada para liceus nos dois extremos do País, uns anos em Bragança e outros em Faro.

O dia-a-dia dessas férias era rotineiro: praia de manhã e, para mim, sesta obrigatória após o almoço e depois brincadeira no jardim, enquanto a minha Mãe se sentava na esplanada a fazer “tricot” na companhia das amigas.

Mas recordo a canseira que era a ida e, sobretudo,  o regresso da praia, e de nesse trajeto diário passarmos junto a uma janela de r/c que tinha um papagaio com quem os meus irmãos gostavam de  meter conversa, e também junto de um outro r/c ou cave, numa das transversais do jardim, que tinha à janela grandes recipientes de batatas fritas a arrefecer ao ar livre, que os meus irmãos às vezes roubavam às escondidas da minha Mãe, que ia sempre à frente, fazendo-as passar de mão para mão, tão quentes elas estavam.

Da praia propriamente dita não recordo grande coisa, para além do trivial dos banhos e das brincadeiras na areia. O que melhor recordo era a ansiedade que todos, pequeno e crescidos, tínhamos em relação à chegada da mulher dos bolos, porque nem sempre estava garantida a Bola de Berlim ou o pacote de batatas fritas. Dependia sempre muito do estado de humor da nossa Mãe…!

Tirando dois acontecimentos especiais, que propositadamente guardarei para o fim, o facto mais notável que recordo na praia de Paço d’Arcos foi o de um carro que estava estacionado por cima das pequenas arribas que ficavam defronte das rochas se ter destravado e ficado pendurado, com as duas rodas dianteiras suspensas no precipício. Parece que, por milagre, não caiu, e o assunto até foi tema de notícia de jornal nos dias seguintes, segundo me lembro de ter ouvido dizer.  Mas foi um enorme arraial e toda a gente desatou a correr pela praia fora até ao local do acidente.

Mas tenho algumas memórias cinéfilas em Paço d’Arcos, uma delas absolutamente maravilhosa.

No pequeno largo que fica num dos extremos do jardim havia um Cinema onde os meus irmãos iam com muita frequência e onde eu nunca ia… Mas uma vez fui mesmo, talvez porque os meus pais estivessem ocupados nalgum jantar e aos meus irmãos não tivesse restado outra solução senão levarem o miúdo com eles…

O Cinema estava cheio de bombeiros, que ficavam de pé encostados à parede, porque - imagino agora eu - havendo um quartel na vizinhança talvez que eles estivessem autorizados a entrar “à borla”, desde que não ocupassem qualquer cadeira.

Era um filme com o Pat Boone (e se o fixei foi porque a minha irmã Rosa Maria, apaixonadíssima por ele, deve ter andado vários dias a falar disso…), que muitos anos mais tarde me dei ao trabalho de identificar. Chama-se, no original, “All Hands on Deck”e é de 1961, o que bate certo com a minha memória. 

Se o filme se tivesse estreado nesse mesmo ano eu teria 7 anos; se o foi no ano seguinte, o que me parece mais provável, eu teria 8 anos. Em ambos os casos, uma grande dificuldade para ler as legendas com a rapidez necessária e, consequentemente, para perceber bem tudo o que se passava no ecrã…   

O filme decorria numa base naval americana situada não sabia bem onde, na qual estavam estacionados vários navios e soldados da Marinha, e o Pat Boone era um deles. A determinada altura soava um alarme de alerta de ataque (imaginava eu…) e os soldados começavam a correr como doidos de um lado para o outro…

O estranho é que, no interior do Cinema, os bombeiros também começaram a correr e, por uns largos segundos, eu senti-me como se estivesse dentro de algo semelhante à “Rosa Purpura do Cairo”, do Woody Allen, com personagens a saírem a correr do ecrã para a sala, e vice-versa…

A explicação só me foi dada no final: parece que, por uma incrível coincidência, a sirene dos bombeiros de Paço d’ Arcos soou quase em simultâneo com a do filme, obrigando os bombeiros a sair do cinema a correr e provocando, para um miúdo de 7 ou 8 anos, uma confusão dos diabos com as correrias no ecrã e as correrias fora dele…

Inesquecível...! Lembro-me como se tivesse acabado de acontecer.

Hoje sei que não era um filme de guerra, mas mais uma daquelas comédias patetas realizadas pelo rotineiro Norman Taurog, que se passa nas docas de Long Beach, na Califórnia, e que o tal alarme fazia parte de um exercício de simulacro de abandono do navio (coisa que na altura nem fazia a mais pequena ideia do que era…) e que o Pat Boone tinha tanto jeito para representar como eu para tocar violino…  

Mudando de tema, lembro-me também que em Paço d’Arcos me sucedeu uma coisa que podia muito bem ter abalado, em definitivo, a minha confiança nas mulheres…

Como permanecíamos lá até finais de Setembro, apanhávamos a chegada do Outono e, por vezes, a de um tempo um pouco mais frio e desagradável que nos afastava da praia e nos obrigava a ficar na esplanada do Lima, mesmo no meio do jardim (ainda por lá anda, embora com algumas alterações…). E com o frio começavam a chegar ao jardim os primeiros vendedores ambulantes de castanhas assadas.

Acontece que, por essa altura, eu tinha aquilo a que os meus irmãos chamavam uma “namorada”, que num desses dias de frio e de mau tempo resolveu insistir comigo para lhe comprar um pacote de castanhas. Perante a minha afirmação de que não tinha dinheiro, a pequena não esteve com meias medidas e disparou: “Se não tens dinheiro, vai pedir à tua mãe que te dê…”

Ora se eu não pedia dinheiro à minha Mãe para comprar “chupas” e rebuçados, de que gostava muito mais, nunca na vida lhe iria pedir para comprar castanhas para uma “namorada”… “Se não pedires, não brinco mais contigo…”, acrescentou ela. E nesse preciso momento perdi a “namorada” e a vontade de vir a ter qualquer outra nos tempos mais próximos…

Outras coisas de que me lembro bem em Paço d’Arcos…? 

De uma vez ter ido dar um passeio de barco à volta do Bugio, com os meus irmãos e a minha prima Lena.

De haver umas garraiadas ali para as bandas de Porto Salvo, onde o meu irmão Zé Carlos, fugindo desesperadamente à frente de um pequeno bezerro, perdeu de vez a oportunidade de impressionar a Família e de lhe mostrar que tinha todas as condições para seguir as pegadas do pai e se afirmar como um grande aspirante a toureiro…

De por vezes um circo descer à vila e ficar instalado ali bem perto da estreita rua principal, num extenso descampado onde hoje foram abertas largas avenidas e erguidos grandes arranha-céus. E é claro que a chegado do circo era motivo de grande agitação para a pequenada.

Também as tardes e noites de jogos de Hóquei em Patins nos provocavam algum alvoroço, embora não me lembre de ter assistido a esses jogos muitas vezes. A maior parte delas ficava a espreitar de fora pelo gradeamento, que não deixava que se visse grande coisa   

E ainda, é claro, a chegada das Festas da vila em Setembro, quando o jardim se enchia de luz e cor com as pequenas pistas de carrinhos, os carroceis e as barraquinhas de farturas e de algodão doce.


Falei-vos da memória do Cinema e só me resta, para terminar, falar-vos, igualmente, da memória da Música. Mas, para isso, teremos de regressar à praia.

Naqueles tempos era habitual ouvir-se uma voz de altifalante em toda a praia, alertando para qualquer coisa: crianças que se perdiam dos seus pais, pais que perdiam as suas crianças, recém-chegados à praia que pretendiam localizar uma determinada pessoa, em tempos onde ainda não havia recurso a telemóveis, objetos que se perdiam ou que se encontravam na praia, eu sei lá mais quê…

Eu passava os dias a brincar na areia ou junto ao mar e, como é natural, nunca ligava nenhuma a essas mensagens.

Mas uma bela tarde vejo a minha prima Lena vir a correr na minha direção a dizer-me: “Luís Miguel (ou Luisinho, já não sei bem…), estão a chamar-te à cabine de som”…

Chamam-me à cabine de som…? Mas por que raio me chamam à cabine de som, pensei eu…? Só pode ser mais uma brincadeira dos meus irmãos…

Mas, enquanto pensava, ouvi de novo o altifalante a gritar, e agora sem sombra de dúvidas, “Atenção, chamam à cabine de som o menino Luís Miguel Mira”.

Intrigado, lá fui, e ao chegar à esplanada dei com o meu pai encostado ao gradeamento, calças cinzentas, camisa branca aberta no pescoço e, pelos ombros, aquele blusão ligeiro cor de café com leite que ele às vezes usava, quando se vestia de forma mais ligeira.

Para perceberem o meu espanto e o extraordinário da cena, o meu pai nunca, mas mesmo nunca, ia à praia e, muito menos, aparecia assim de surpresa a meio de uma tarde. Ele trabalhava no escritório todos os dias, incluindo sábados e domingos de manhã, e só depois disso regressava para passar o resto do dia connosco, quase sempre com um almoço fora e um passeio de carro até Sintra ou até Cascais, mas nunca na praia.

Um dos motivos que justificavam a fobia do meu pai em relação às praias era o fato da pele dele ser branca, demasiado branca, e quando apanhava um pouco mais de sol ficava, de imediato, muito vermelha. Era o que lhe acontecia nas tardes de touros, não obstante todo o cuidado que tomava.

Mas, naquela tarde, tudo fora previamente combinado, é claro, e o meu pai só se dignara aparecer na praia porque nessa noite, talvez para comemorar a chegada da minha prima Lena ou qualquer outra coisa, jantaríamos todos ao ar livre na esplanada. E é aqui que surgirá a música, mas já lá iremos… 

Às vezes dou comigo a pensar: porque será que todas as memórias que tenho da música na minha infância estão relacionadas com o Verão e – iria jurá-lo… - com noites de luar…? Porque será que não me consigo recordar de uma só canção que possa relacionar com o vento, a chuva, o mau tempo…?

Foi numa dessas noites de calor que os meus irmãos saíram de casa e vieram apanhar o fresquinho para uma fonte circular que havia no Mercado Geral de Gados e eu ouvi, pensando que o som vinha da janela da nossa casa (hoje percebo que seria impossível e que ele deveria vir de qualquer rádio ou gravador portátil…) o Pat Boone a cantar “A Wonderful Time Up There”….

Foi num fim de tarde de Verão, aí pelos meus 10 anos, que saí do cinema (Roma…? Aviz…?) enamorado pela Marisol, depois de a ver pular e cantar em “Tômbula”:


“La vida es una tômbula, tom tom tômbola

La vida es una tômbola, tom tom tômbula 

De luce y de color, de color

De luce y de color, de color

E todos en la tômbola, tom tom tômbola

E todos en la tômbola, tom tom tômbula

Encuentran  el amor, el amor”

(não sei se é bem assim, mas é assim que me lembro e é assim que vai ficar…)

E foi numa noite de luar de Agosto, em Sines, já com uns 12 ou 13 anos, que me apaixonei, desta vez a sério, pela Françoise Hardy, que, tal como eu o faço agora neste apeadeiro da vida, também na altura tinha decidido apanhar o comboio das recordações:


”Quand je me tourne vers mês souvenirs

Je revoi la maison où j’ai grandi

Il me revient des tas de choses

……………………………………………..

Je reviendrai un jour, un beau matin

Parmi vos rires

Oui, je prendrai un jour le premier train

Du souvenir” 

Poderia ser uma memória agradável para uma criança ela poder contar:  Estávamos na Quinta da Tala. Era Inverno e lá fora fazia um frio de rachar. O vento fazia bater as persianas das janelas, mas no nosso salão estava uma temperatura agradável e a lenha crepitava na lareira enquanto nós ouvíamos… nada!  Nem uma só memória de música dos dias frios de Outono e de Inverno…

Mas nesse dia da vinda do meu pai à praia esperava-me uma noite especial. 

Naquele tempo, por debaixo da reentrância do passeio onde hoje estão aquelas grandes letras luminosas a dizer PAÇO DE ARCOS, havia a tal esplanada de que já vos falei, com um terraço sobre a praia, onde nós, por vezes, ficávamos a jantar.

A um canto do terraço havia uma máquina na qual se metia uma moeda e se escolhia uma música, que depois começava a tocar. É claro que era uma “Jukebox”, mas eu nunca tinha antes visto nenhuma igual, quanto mais conhecer-lhe o nome em inglês…

Essa máquina fascinava-me.

Eu ficava à espera que alguém viesse meter uma moeda e depois colava os olhos ao grande vidro e ficava ali como que encantado a ver o mecanismo em movimento com uma sucessão de pequenos discos em rotação até que, finalmente, saísse aquele que fora escolhido.

A máquina estava quase sempre em funcionamento e muitas músicas se ouviam, umas após outras, nessas noites de esplanada.

Mas uma delas parecia ter um efeito muito especial na assistência. Toda a gente se levantava (enfim, quase toda porque nunca me lembro de ter visto os meus pais nesta cena…) e formava-se um pequeno comboio de pessoas com as mãos nas costas umas das outras, que ia avançando, às voltas, de uma ponta à outra da esplanada.

E lembro-me que a minha prima Lena me chamou nessa noite para me juntar aos “crescidos” e eu também por lá andei, às voltas, deliciado com o que me estava a acontecer.

É claro que nunca mais me esqueci dessa música, embora só muitos anos mais tarde viesse a saber que quem a compôs e a cantava era um Senhor chamado Dorival Caymmi, de quem ainda hoje tenho alguns discos de vinil na minha coleção.

A ccanção – já o perceberam – chama-se “Maracangalha” e a letra, muito simples, é a seguinte:  

Eu vou prá Maracangalha
Eu vou!
Eu vou de liforme branco
Eu vou!
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou!
Eu vou convidar Anália
Eu vou!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só!
Eu vou só!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só!
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou!...

Eu vou só!... 


A canção é de 1957, pelo que, se estivéssemos no final dos anos 50, em ainda nem 7 anos teria.

Na minha memória, apenas duas falhas em relação à letra original da canção: eu dizia “Nalha”, em vez de “Anália” e, talvez por não saber o que isso era, saltava o “liforme branco” e passava diretamente ao “chapéu de palha”…

E até hoje nunca soube – nem quis saber… - se Maracangalha era um lugar que existia mesmo, ou se se tratava de algum local idílico imaginado, como aquela Pasárgada para onde Manuel Bandeira também gostava muito de ir…

Eu adorava todas essas noites vividas na esplanada da praia, mas esta nunca mais a esqueci e ficou dentro de mim de uma forma muito especial.

A noite, a música, o mar lá ao fundo, os meus pais, os meus irmãos e a minha prima Lena em amena confraternização, tudo isso parecia encher o meu pequeno coração de uma transbordante Felicidade… 

Que saudades dessas noites de Paço d’Arcos…!

Qua saudades do barulho das pequenas ondas a morrerem no areal e da lua espelhada sobre o mar..!

Que saudades de todos quantos já partiram…! Os meus Pais, a minha irmã Rosa Maria, o meu irmão Zé Carlos, a minha prima Lena…

E que saudades dessa fabulosa noite em que, em fila indiana e de corpo a balançar, eu fui para a Maracangalha…! 

Texto de Luís Miguel Mira

terça-feira, 19 de maio de 2020

CONVERSANDO


Somerset Maugham colocou no seu romance O Mundo é Pequeno esta epígrafe:

«É, pois curta a vida do homem e estreito o canto da terra onde ele vive.»

Não tem indicação de autor, e até poderá ser do próprio Somerset Maugham.

Os governantes vão-nos dizendo que, aos poucos, podemos regressar aos nossos quotidianos.

Mas há tantas limitações!...

Não consigo ver como se pode viver assim…

E há o medo… sobretudo o medo…

O Jorge Silva Melo, como só ele sabe escrever (o texto completo pode encontrá-lo em Coffeepaste), mostra-nos as dificuldades que há nestas tentativa de viver… normalmente…

«Os teatros podem abrir daqui por uns dias, sim.

Mas serão teatros?

Ou só umas fachadas a fingir que vivemos “normalmente”?

Pode haver teatros se não há cidade? E a cidade – que nestes últimos anos de cruzeiros à porta morria da desenfreada especulação e se desertificava – não foi isso que morreu?

Pode haver cidade se não houver abraços?

Vivi a minha adolescência numa cidade – Lisboa – onde era proibido beijarmo-nos na rua. E sonhava com Paris onde os “os rapazes e raparigas da minha idade / caminhavam a dois e dois/ e sabiam o que era ser feliz / e de olhos nos olhos, de mão na mão / não tinham medo do amanhã”, tão linda a Françoise Hardy.

Pode haver rua, pode haver cidade, pode haver teatro se tivermos – como temos – medo?»

quinta-feira, 3 de maio de 2018

ETECETERA


Há muito que os políticos estão descredibilizados.

Hélas!

Uma série desses ditos, tem feito tudo para que os cidadãos não lhes tenham respeito, neles terem deixado de acreditar.

Por uns – e eles são tantos! – pagam outros.

Sempre assim foi e não há volta a dar.

O último triste exemplo dá pelo nome de Manuel Pinho ex-ministro da economia de um governo de José Sócrates.

Entre outras variantes, Manuel Pinho é suspeito de ter recebido 15 mil euros mensais dessa coisa tenebrosa que dava pelo nome de Grupo Espírito Santo, ao mesmo tempo que recebia o respectivo vencimento ministerial.

A comunicação social estranha que Manuel Pinho ainda não tenha dito nada sobre tão escabroso caso.

Mas dizer o quê?

Que é tudo mentira?

Que não passa de mais uma cabala jornalística?

Manuel Pinho iniciou funções de ministro da Economia em Março de 2005 e, a partir de Outubro do ano seguinte, passou a acumular com as retribuições deste cargo público uma quantia mensal de 14 963,94 euros paga pelo Grupo Espírito Santo. A informação de tais transferências, de um saco azul do GES para uma sociedade offshore de Manuel Pinho no Panamá, acaba de ser incorporada no inquérito-crime onde são investigadas decisões do ex-ministro que custaram ao Estado e valeram à EDP 1,2 mil milhões de euros.

Manuel Pinho acabou por pedir a demissão de ministro quando, na Assembleia da República, num episódio lamentável, desenhou com as mãos, um par de cornos ao deputado comunista Bernardino Soares.

Uma atitude miserável, desprezível que agora talvez se perceba melhor: o homem queria sair da governação, não sabia bem como e resolveu-se pela ordinarice.
Recorde-se que Manuel Pinho foi administrador executivo do Banco Espírito Santo  de 1994 a 2005. Próximo de Ricardo Salgado e membro da Comissão Executiva do BES, era igualmente administrador de outras sociedades do GES até tomar posse como ministro.

«Em 10 de Março de 2005, cessei a minha relação profissional com o BES/GES, uma vez que aceitei o convite para integrar o XVII Governo.»

Terá , agora, que prestar contas.

Mais um processo que terá eventual resolução lá para as calendas gregas.

UMA RAPARIGA DO MEU TEMPO

Françoise Hardy, aos 74 anos, lançou o seu 2º disco, Personne d’Autre
«com a elegância e melancolia habituais», escreveu João Gobern no Diário de Noticias:

Disse em tempos:

«Creio ter chegado ao ponto em que a inspiração não me visita com a frequência indispensável. Teria de acontecer algo de verdadeiramente inesperado, quase insólito, que me levasse a regressar aos estúdios. E também que houvesse um forte sopro de energia, que me permitisse ultrapassar os problemas de saúde que me afligem nestes tempos mais chegados.»

Mas são águas passadas.

Regressa como nunca.

O que levou João Gobern  a desabafar:

«Não há ninguém como Françoise.»

Assino por baixo.


Legenda: o artigo de Pedro Adão e Silva foi publicado no Expresso de 28 de Abril de 2018.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

FRANÇOISE HARDY


Esteve sempre nas canções dos primeiros amores de todos os rapazes e raparigas da sua idade, de outras idades, toda uma multidão que hoje é convocada para cantar congratulações pelas 70 primaveras de Françoise Hardy.

Caramba! como o tempo voa!...

A idade da inocência ou o que não se consegue explicar porque não há palavras e porque tempos daqueles, de tão vividos, matéria indefinível de sonhos, não se podem explicar.

Escreveu o Manuel António Pina:

… eu estou velho para tudo, aproximo-me a grande velocidade de tudo e nunca mais serei o mesmo nem serei diferente.




Há sempre um ou outro filho que pergunta:

- Ouve lá então é esta a música de que tanto falas?..

A resposta gaguejante :

- Não, não é esta, é a que ouvi quando tinha 18 anos!...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

17 DE JANEIRO DE 2007



Neste dia, há quatro anos, uma quarta-feira, nasceu a Maria.

Nos céus, a Lua estava em quarto crescente e encaminhava-se para a fase nova que ocorreu no dia 19 pelas 04,01. O sol nasceu às 07:43 e o ocaso registou-se às 17:37. No porto de Lisboa, a preia-mar verificou-se às 01:42 e 14:09 e a baixa-mar às 07:44 e 19:57.

O “Borda d’Água” colocava a caracteres negros que 17 de Janeiro era um “Dia Auspicioso” e informava que durante o mês de Janeiro se devem plantar girassóis nos jardins, que se podem colher as violetas, os amores perfeitos, as camélias, os jacintos, as túlipas e dizia também: “Procura a virtude desde Janeiro e viverás com ela o ano inteiro.”

O “Público” deste dia trazia na 1ª página que os radares em Lisboa detectavam três mil condutores por dia em excesso de velocidade, que em Carcavelos deverá ser construído o novo “El Corte Inglês”, e que os portugueses poderiam ter que suportar novos custos na electricidade.

Nas notícias do país destaque para a condenação a seis anos de cadeia do sargento Gomes, pai adoptivo que sequestrou uma criança que se encontrava em paradeiro desconhecido. O psicólogo Luís Villas-Boas” comentava que a decisão era um “absurdo jurídico, esta menina é uma vítima anunciada. Arrancá-la a quem lhe deu biberão e mudou as fraldas é quase um rapto emocional.”
Cavaco Silva prosseguia a sua viagem oficial à Índia, No noticiário internacional o destaque ia para um duplo atentado em Bagdad que matou 70 alunos e professores de uma universidade,

Nas páginas de Desporto sabia-se que os 40º centigrados, registados em Melbourne, levaram ao cancelamento de vários jogos do “Open da Austrália” em ténis. Antes da interrupção dos jogos, a russa Maria Sharapova quase derreteu ao sol.

O Canal 1 da RTP, às 23,20 H, na sua “Lotação Esgotada” passava “Desejos finais” um “thriller” de Phil Joanou com Richard Gere, uma simplesmente incandescente Kim Basinger e a não menos insinuante Uma Thurman.

Nas páginas interiores ficava a saber-se que o Partido Socialista iria gastar 598 mil euros na campanha eleitoral do referendo sobre o Aborto e que os adeptos do “Não” os gastos chegam aos 635 mil euros.

Título da pág. 18: “Ninguém explica por que é que o 112 parou em três distritos.” E ficava a saber-se que Ana Gomes acusava Luís Amado de travar investigações aos voos da CIA. Passados quatro anos, sabe-se o porquê.

O título de 1ª página do “Diário de Notícias” revelava que os novos impressos da Declaração de IRS não obrigam à declaração de compra de bens imóveis acima dos 250 mil euros.

Nas páginas interiores o “Diário de Notícias”, citando o “El País” informava que Fidel de Castro sofreu uma grave infecção intestinal e que já fora submetido a três operações e o que o seu estado é considerado “muito grave”. O médico espanhol que observou Fidel de Castro, dizia que a informação era infundada. O clínico tinha razão: passados quatro anos Fidel de Castro mantém-se vivo.

De 18 a 21 de Janeiro iria decorrer a 16ª Feira do Fumeiro e do Presunto do Barroso.

A Companhia de Teatro de Coimbra Camaleão-Associação Cultural”, levava à cena, no Teatro da Comuna, em Lisboa, duas peças do poeta norte-americano Russell Edson:“As Crianças” e “Os que Rastejam”.

A RTP revelava a lista dos dez Grandes Portugueses que iriam ser defendidos por diversas personalidades num programa com o mesmo nome.

Carlos Pereira Santos, em “A Bola”, indignava-se por dessa lista não constar Eusébio – “Alguém extasiou mais a nação do que Eusébio?”

Em Paris,neste mesmo dia, mas 63 anos antes, nascia Françoise Hardy.

Os jornais diários custavam 90 cêntimos.