Conheceu o
Mário-Henrique Leiria na redacção do jornal República e passou
a acompanhá-lo em algumas tardes no Bar Expresso, no Largo
Trindade Coelho, mesmo ao lado do jornal.
O Mário é um
tipo inclassificável, mas espantosamente fascinante.
Claro que
poucos o conhecem e muitos menos o leem.
Pois é do
Mário-Henrique o mote escolhido para o pôr-do-sol que o Rui Ornelas fotografou.
O mote já, largamente, por este Cais foi (re)dito, mas acha-o, simplesmente
brilhante e não hesita na sua repetição:
«… encostou-se no parapeito da janela
aberta e ficou a olhar o entardecer discreto e melancólico.»
Falando-se de
Mário-Henrique Leiria, tirando-se citação de um dos seus contos do Gin-Tonic,
entendeu-se voltar a Françoise Hardy, precisamente a um dos seus álbuns a que
chamou «Françoise-Gin-Tonic-Hardy», editado em 1980, e, naturalmente a canção
seis da Face A que, justamente, Françoise chamou «Gin Tonic».
Dois
gin-tonics, um bar de hotel, talvez em Londres, ou Paris, ou Berlim, mesmo
Bruxelas, um piano triste palavras algo falsas, desencontradas, paraísos
artificiais ditos indefinidos…
Os pôr de sol
já andaram por aqui, em palavras e músicas.
Não lembra
bem como tudo começou.
Há mais de 50
anos mora numa casa com vista que solta-se da Ponte Sobre o Tejo até ao
aeroporto da Portela.
Por um dia,
desatou a tirar fotografias de entardeceres com uma fatela máquina comprada em
«loja de chineses».
Se não lembra
como começaram, também não lembra com acabaram. O começo data de 6 de Junho de
2015, o fim de 7 de Dezembro de 2017, e, apesar de quase dois anos decorridos,
há apenas 18 Entardeceres.
Não se sabe
nunca que mistérios nos pode trazer um pôr de sol.
Se formos
mais concretos, lembraremos sempre o que Chaplin em «Luzes da
Cidade» diz: «A elegante melancolia do Crepúsculo.»
E ele agora
volta aos pôr-do-sol porque, num golpe quase de mágica, descobriu que Rui
Ornelas, vizinho do 4º andar deste prédio com 51 anos, diariamente, nos
finais do dia, tira fotografias, belíssimas fotografias, que nada, mesmo nada,
têm a ver com as da sua máquina de «loja de chineses».
Aberto o pano
para estes novos entardeceres, neste primeiro de Agosto, primeiro de
Inverno, lembra Françoise Hardy que há um mês, mais alguns dias, nos deixou e lembra-a na
canção «Dis Lui Non», que um velho e querido amigo, o Pedro
Freitas Branco, considera uma das melhores canções da década de 60.
“Não há amores
felizes”, canta com uma estóica e tão bela resignação Françoise Hardy. Mas será
que pode haver “desamores felizes”? Os amores de Françoise, cinco contadinhos
pelos dedos de uma mão, jura ela, foram todos infelizes, estradas acidentadas a
desaguar na solidão. Foi na nostalgia de um desamor que Françoise Hardy se
consolou, até há poucos dias, até ao dia da sua morte.
Bob Dylan foi esse
“desamor feliz”. Lembro que ninguém conhecia Françoise. Vivia, em Paris, não
longe do Pigalle, na rua du Aumale, a mesma onde, por menos de um ano, no
século XIX, vivera Richard Wagner. Deve ter ficado por ali um acorde da
“Cavalgada das Valquírias” à espera, um século depois, de entrar pelo ouvido da
pequena Françoise. Ela dormia no quarto com a irmã esquizofrénica, na sala do
mirrado apartamento, a mãe, solteira, contabilista pobre e tão infeliz, que
tirava prazer de fazer infeliz a filha, capaz de lhe dizer que tinha umas
pernas tão magras que lhe ficariam em Guimarães com elas para facas, soubesse
Françoise onde era Guimarães.
Interessa é que era
Hardy uma menina e começou a cantar. Em 1962, na noite em que a televisão
francesa se esgadanhava para analisar os resultados do referendo sobre a
eleição por sufrágio universal do presidente da república, sei lá se foi De
Gaulle que pediu, aparece num intervalo a menina Françoise e da boca dela
ouviu-se uma coisinha moderníssima, a canção que ela escreveu e chamou “Tous
les garçons et les filles”. Os ouvidos de França desabrocharam. Escusado será
dizer que no dia seguinte, todos os “garçons” e todas as “filles” entoavam,
dançavam e se derretiam em tristeza com a encantada jeremiada daquela canção. E
derreteu-se a Alemanha, a Inglaterra, a Espanha, e eu em Angola, “la main dans
la main”, também.
Do outro lado do
Atlântico, soprada pelo vento, chegou às mãos do ainda principiante Bob Dylan,
a fotografia de Hardy. Olhou para aqueles ossos a quererem furar as maçãs do
rosto, para os seios pequenos, para a cintilante mini-saia e apaixonou-se. E
eu, colonialíssimo, em Angola também.
Como eu, Dylan só vira
uma fotografia. Como eu, escreveu cartas a essa fotografia, chorou e suspirou
nesse tempo em que os tempos tanto mudavam. Mas eu não canto nem tenho
talentos. Bob Dylan, sim. Já Françoise filmava com Hollywood e veio Dylan cantar
a Paris, onde também Amália cantou, sala mítica, ao Olympia.
Françoise veio vê-lo. E
Dylan, a acústica uma boa merda, falhou. Ao intervalo, recusou voltar ao palco,
a não ser que a desconhecida Françoise viesse ao camarim consolar o seu
derrotado ego. Ela veio. E tiremos, com a ajuda de Einstein, esses 10 minutos
íntimos da fita newtoniana do tempo. No final do espectáculo, Dylan levou
Hardy, Johnny Hallyday e mais uma mão cheia de franceses para a soberba delícia
que era então o hotel Georges V. De olhos fixados em Hardy, deixou-os a todos
menos ela, e na sua suite de americano cantou “Just Like a Woman” e “I Want
You” à raptada miúda da rua du Aumale, ali perto do Pigalle.
Se isto não é uma
declaração de amor, o que é uma declaração de amor? E eis a minha inquietação:
um tipo do Chega, um tipo do Bloco de Esquerda poderão ainda compreender
a gentileza, a doçura, a angústia amorosa que está por trás de tudo isto?
Nada aconteceu,
confessa com ternura Françoise, a não ser terem ficado a olhar-se num puríssimo
sol, lá, si. Nunca mais se viram, mas Dylan escreveu esta dedicatória num LP:
“A Françoise na margem do Sena, sombra gigante de Notre Dame.”
Sim, já houve amor. E
que, lá do céu, Françoise continue a ser o “soleil” que tanta falta nos faz.
Esta capa de Françoise
Hardy está no blogue dos guedelhudos, blogue dos guedelhudos, parvamente desaparecido porque o Luís
entendeu que o Facebook é bem mais útil!...
Não nos conseguiu dizer
dessa utilidade. Ou por outra, murmurou qualquer coisinha que, pouco ou nada,
esclareceu.
DISQUES VOGUE/ARNALDO TRINDADE - VAT 15001 - edição portuguesa
Uma voz fresca, ajustada, moderna,
compondo ela mesmo as suas canções, Françoise Hardy agradar-vos-á!
Entendendo Françoise Hardy entende-se a juventude e os seus problemas amorosos.
Sereis transportados a um outro mundo de delicadeza, de ritmo e de juventude.
Viva Françoise Hardy!
(texto apócrifo na contracapa do disco)
Nota do Editor:
Nota do Editor:
O Luís Pinheiro de Almeida
adquiriu este disco no dia 21 de Dezembro de 1963 e o Pedro de Freitas Branco
comentou: «A minha musa dos anos 60... e
"Dis Lui Non" uma das melhores canções da década!!!»
Como nem todos tocam piano
e falam francês, alguém, num comentário no Público
na notícia da morte de Hardy, colocou uma tradução de Tous les Garçons e les Filles:
«Todos os rapazes e raparigas da minha idade passeiam
na rua dois a dois e sabem bem o que significa ser feliz. E de olhos nos olhos
e de mãos dadas avançam enamorados e sem receio do dia seguinte. Mas eu vagueio
sozinha pelas ruas, triste no meu coração porque ninguém me ama. Os meus dias e
as minhas noites são em tudo iguais sem alegrias e cheias de aborrecimento.
Ninguém me murmura ao ouvido "Amo-te". Todos os rapazes e as
raparigas da minha idade fazem juntos projetos para o futuro. Eles sabem muito
bem o que significa amar. Oh, quando é que o sol brilhará para mim? Como eles e
elas conhecerei eu em breve o que é o amor? Como eles pergunto-me quando
chegará o dia em que o meu coração será feliz sem medo do dia seguinte sem a
alma triste, o dia em que também eu terei alguém que me ame.»
Tous Les Garçons Et Les Filles – Ça A Raté – La Fille Avec Toi – Oh, Oh Chéri –
Le Temps de L’ Amour – Il Est Tout Pour Moi
Face 2
On Se Plait – Ton Meilleur Ami – J’Ai Jeté Mon Coeur – Il Est Parti Un Jour –
Je Suis D’Accord – C’est A L’Amour Auquel Je Pense
Françoise Hardy é acompanhada por Roger Samyn e a sua orquestra.
Acalenta um velho sonho, com o seu quê de kitsch: possuir uma casa, como manda o raio da sapatilha, em que
as paredes de uma das salas seria toda forrada com capas de LPs.
Claro que uma das capas a colocar na tal parede, será esta de Françoise
Hardy.
Guarda a ideia de dizer para dentro de si mesmo, que com Hardy o único estado
de espírito possível será ouvi-la, ouvi-la, ouvi-la e ascender ao espaço do
sublime.
Durante muitos dias, longos dias que se tornaram parte da uma vida, ouviu este
disco, em que a contemplação da capa fazia parte de um ritual, esta coisa de
estarmos vivos.
Estão a olhar a capa mas ele, qual voz off, narra:
A Françoise Hardy está com uma
chapéu-de-chuva, inevitavelmente de Cherbourgo, os cabelos ao vento e
olha-nos com uma expressão que nos deixa para lá do arco-íris.
Tem uma ponta de gosto em dizer que a Françoise Hardy é rapariga do seu
tempo, apenas um ano, e escassos meses, mais velha.
Quando a ouviu pela vez primeira, uma voz doce capaz de tudo, um charme juvenil
que ninguém mais teve, num EP da
Vogue onde morava Tous les
garçons et les Filles, que o emocionou até aos limites da ternura.
Desde esse único momento, os tempos, fossem dias de Outono com chuva a bater
nas janelas, ou dias brilhantes de Verão, ou as grandes noites de Inverno,
passaram a ser tempos de glória.
Tempos em que os dias nasciam e findavam de uma outra maneira.
Perdoem-lhe este ar de louvação com o seu quê de nítido exagero.
Acontece, mas não é caso único de espantamento.
Bob Dylan, quando em 1966 deu um concerto no Olympia de Paris, quis conhecê-la, mas antes já a
tinha feito deslizar num longo poema a que chamou Some Other Kinds of Songs que escarrapachou na contra capa
de Another Side of Bob Dylan.
Françoise Hardy nas margens do Sena, Notre Dame em fundo, estudantes da
Sorbonne em bicicletas, namorados, livros velhos, barcos, pescadores, olhares
espantados de turistas…
Este é o título que João
Gobern deu a um texto, sobre Françoise Hardy, publicado no Diário de Notícias de 28 de Abril de 2018:
«Dar de caras
com Personne d"Autre -
28.º disco, se forem levadas em conta as edições em França, de uma carreira que
nasceu há bem mais de meio século para embalar namorados ("tous les garçons
et les filles de mon âge se promènent dans la rue deux par deux") e que
com o tempo passou a comover tantas gerações - vale uma primeira vitória.
Tudo indicava
que L"Amour Fou,
lançado em 2012 e sendo já o quinto manifesto público da cantora e autora nos
anos 2000, estaria condenado a assumir o papel de último testemunho. Basta
recordar o que dizia Françoise: "Creio ter chegado ao ponto em que a
inspiração não me visita com a frequência indispensável. Teria de acontecer
algo de verdadeiramente inesperado, quase insólito, que me levasse a regressar
aos estúdios. E também que houvesse um forte sopro de energia, que me
permitisse ultrapassar os problemas de saúde que me afligem nestes tempos mais
chegados."
Hardy lutou durante
dez anos contra um cancro no sistema linfático, cuja remissão "total"
só foi anunciada - pelo filho, Thomas Dutronc, músico, produtor e exímio
guitarrista - em fevereiro de 2016. Como se não bastasse, uma queda, brutal e caseira,
deixou-a quase sem possibilidades de andar e obrigou-a um internamento
prolongado, de quase meio ano, numa clínica especializada. Estamos, afinal,
perante um daqueles casos em que a contradição se saúda, porque Hardy voltou em
pleno às gravações, e em que o milagre pessoal tem ótimas consequências para o
universo dos melómanos.
Françoise Hardy,
agora com 74 anos, acabaria por gravar o seu primeiro disco em 1962,
beneficiando então de uma ajuda involuntária da política: a 18 de outubro desse
ano, a França vai às urnas para referendar a eleição, por sufrágio direto e
universal, do presidente da República. Na emissão televisiva, um dos intervalos
musicais para amenizar a espera por um veredicto é entregue a Françoise Hardy e
a Tous Les Garçons et Les Filles.
No dia seguinte, pode falar-se em dois grandes vencedores do serão: Charles De
Gaulle e Françoise Hardy, cujo disco chegará - antes do fim do ano - a meio
milhão de exemplares vendidos.
No ano seguinte, a
brisa do êxito tornou-se vendaval: Françoise foi capa da revista Paris Match, representou o Mónaco no
Festival da Eurovisão, foi chamada por Roger Vadim para o cinema (Castelo na
Suécia valeu como estreia, sendo presença assídua até 1967) e tomou conta do
Olympia parisiense, nas suas primeiras grandes apresentações em palco.
Daí em diante, a
história é (re)conhecida. Depreende-se que Hardy teve tempo, talento e técnica
para cantar tudo, incluindo Victor Hugo e Louis Aragon. Entre os seus próximos,
francófonos, vai de Django Reinhardt a Charles Trenet, passando por Georges
Brassens, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg, Georges Moustaki, Jacques Dutronc
(o amor da sua vida, de quem está separada, mas não divorciada, desde 1988),
Michel Jonasz, Gabriel Yared, Catherine Lara, Etienne Roda-Gil, Michel Fugain,
Daniel Gérard, Alain Souchon, Etienne Daho, Arthur H., Calogero, Jean-Louis
Murat, Jacques Higelin, Julien Doré ou Benjamin Biolay.
Atenta ao que se
passa noutros quadrantes, também gravou - na língua original ou em adaptações
para francês - originais de Paul Anka, Burt Bacharach, Leiber & Stoller,
Goffin & King, Buddy Holly, Everly Brothers, Tim Hardin, Phil Ochs, Buffy
Sainte-Marie, Neil Young, Randy Newman, Ray Davies e Perry Blake, sem esquecer
os brasileiros Jobim, Chico Buarque e Taiguara, o espanhol José María Caño e o
italiano Adriano Celentano. Com tudo isto, é legítimo e rigoroso dizer que
Françoise se canta sobretudo a si mesma.
Isso mesmo volta a
provar-se em Personne
d"Autre, disco de elegância extrema (desde o primeiro momento, em
que uma guitarra atmosférica resume, de imediato, o ambiente do disco), de uma
melancolia aconchegante, que Françoise Hardy define como "adequada"
para uma mulher da sua idade. As palavras - que a cantora raramente cede a
terceiros - falam-nos, com a propriedade de quem viveu mas sem a soberba de
quem só tem certezas para mostrar, de cumplicidade, de perda, de sublimação, de
envelhecimento, da mudança nas alegrias (por oposição aos êxtases), dos
entusiasmos que não desaparecem com a maturidade.
Nas doze canções, a
"velha senhora" continua a mostrar olho clínico, ao acolher uma
canção da moderna La Grande Sophie e ao transformar um original do obscuro
grupo finlandês Poets Of The Fall. Mas até esses "sinais exteriores"
entroncam perfeitamente na linha condutora de um álbum em que a voz não perde
frescura e capacidade de - sempre sem esforço - nos arrebatar.
Depois, há outra
vez a sinceridade desta "primeira-dama", sem nada a perder: ela
confessou que parte das canções (como o tema-título ou Train Spécial)
corresponde à sua narrativa do que viveu com Jacques Dutronc. Capaz de
continuar a inspirar muitas gerações de vozes femininas da francofonia, de Zaz
a Pomme, de Olivia Ruiz a Jenifer, de Joyce Jonathan a Louane, Personne d"Autre vale como
um arremedo de biografia (e Hardy conseguiu um enorme sucesso com as suas
memórias, em Le Desespoir des
Singes, livro de 2008) e como um testemunho que pode perdurar. Soa a
despedida, é certo. Mas, com Françoise Hardy, nunca se sabe. E fossem todas
assim...
Em
Dezembro de 2023, com um cancro no sistema linfático e um cancro na faringe, escreveu
uma carta aberta a Emmanuel Macron, publicada no jornal La Tribune Dimanche, na
qual lança um apelo para que a eutanásia seja legalizada em França:
«A maioria das pessoas
deseja que a eutanásia seja legalizada. Esperamos que permita que muitos
doentes franceses possam pôr fim ao seu sofrimento quando sabem que não há
alívio possível.»
«A cantora e
compositora francesa Françoise Hardy escreveu uma carta aberta a Emmanuel
Macron, na qual lança um apelo para que a eutanásia seja legalizada em França.
Submetida a dezenas de tratamentos de radioterapia nas últimas duas décadas, a
artista de 79 anos tem um cancro no sistema linfático e um cancro na faringe.
Não é a primeira vez que Hardy se pronuncia sobre a morte medicamente
assistida.“A maioria das pessoas deseja que a eutanásia seja legalizada”, escreve na
carta publicada no jornal La Tribune Dimanche, reabrindo a discussão sobre a
legalização da morte medicamente assistida naquele país. “Esperamos que permita
que os franceses muitos doentes possam pôr fim ao seu sofrimento quando sabem
que não há alívio possível”, apela. A voz de “Tous les Garçons et les Filles”
dá o exemplo da sua mãe, que sofria da doença de Charcot-Marie-Tooth, uma
patologia rara que afecta os nervos motores e os sensitivos, e que não tem
cura. “Graças a dois médicos corajosos e compreensivos, ela não teve que
testemunhar o fim de uma doença incurável”, escreve.»
Com este novo texto é que eu tenho a perfeita
sensação de ir estoirar com toda a vossa benevolência e paciência...
Mas que querem...
Deixei-me deslizar pelos rios da memória e
agora não quero voltar atrás.
Poderia cortar muita coisa, mas não me apetece...
“Preserve your
memories
They’re all
that’s left you!”
(Paul Simon)
Às vezes, quando o Verão se aproxima e o calor aperta, acontece
virem-me à memória os tempos de Paço d’Arcos.
Com os meus pais e os meus irmãos, ia para Paço d’Arcos três meses por
ano, de Julho a Setembro.
A Família começou a ir por minha causa, contou-me um dia a minha Mãe.
Com poucos meses de idade comecei a sofrer de otites nos ouvidos, levei uma
série de fortes injeções e os meus pais chegaram a temer que viesse a sofrer
danos irreparáveis de audição. E foi o Dr. Nobre Leitão, que então me tratou,
quem aconselhou aos meus pais uma ida para as praias da Linha, que seriam
ideais para eu apanhar todo o iodo de que necessitava para uma mais rápida
recuperação. E Paço d’Arcos era a praia que mais próxima estava de Lisboa, o
que permitiria ao meu Pai fazer o vaivém diário sem grandes problemas.
Fui para Paço d’Arcos com um ano de idade e na última vez que para lá
fomos eu teria os meus 8 ou 9 anos, pelo que teremos passado quase uma década
por aquelas bandas.
Não sei porque deixámos de ir. Talvez que a vida pessoal e escolar dos
meus irmãos, 7, 8 e 9 anos mais velhos do que eu, já não se compadecesse com
uma tão prolongada ausência de Lisboa… Talvez que as viagens diárias se
estivessem a tornar demasiado desgastantes para o meu Pai, já a caminho
dos 55 anos…. Pela minha Mãe não deve ter sido, certamente, porque ela
apreciava a fuga à rotina que esses três meses lhe
proporcionavam…
Os meus irmãos falam-me de outras casas, mas eu recordo-me, apenas, de
duas: uma que ficava mesmo defronte do Mercado, num velho prédio que já não
existe; e outra um pouco mais afastada do centro, mas que ainda hoje existe e é
o edifício onde se encontra o restaurante italiano “Pátio Antico”.
Dos tempos de Paço d’Arcos tenho memórias dispersas, embora as que
tenho sejam muito vivas.
Os meus irmãos, muito mais velhos do que eu, como já vos disse, não me
ligavam patavina, e quando me ligavam era para me pregarem alguma partida ou
para me impingirem namoradas, coisa que não era nada do agrado de um miúdo
tímido e ligeiramente introvertido, como era o meu caso.
Mas quando a minha prima Lena nos vinha visitar e passar uma temporada
connosco, o caso mudava de figura e eu passava a ser o centro das atenções.
Para ela, pelo menos…
Ela era como que nossa irmã mais velha, porque viveu durante muitos
anos em nossa casa.
Depois licenciou-se em Letras e tornou-se numa jovem professora que, em
anos diferentes, fora destacada para liceus nos dois extremos do País, uns anos
em Bragança e outros em Faro.
O dia-a-dia dessas férias era rotineiro: praia de manhã e, para mim,
sesta obrigatória após o almoço e depois brincadeira no jardim, enquanto a
minha Mãe se sentava na esplanada a fazer “tricot” na companhia das amigas.
Mas recordo a canseira que era a ida e, sobretudo, o regresso da
praia, e de nesse trajeto diário passarmos junto a uma janela de r/c que tinha
um papagaio com quem os meus irmãos gostavam de meter conversa, e também
junto de um outro r/c ou cave, numa das transversais do jardim, que tinha à
janela grandes recipientes de batatas fritas a arrefecer ao ar livre, que os
meus irmãos às vezes roubavam às escondidas da minha Mãe, que ia sempre à
frente, fazendo-as passar de mão para mão, tão quentes elas estavam.
Da praia propriamente dita não recordo grande coisa, para além do
trivial dos banhos e das brincadeiras na areia. O que melhor recordo era a
ansiedade que todos, pequeno e crescidos, tínhamos em relação à chegada da
mulher dos bolos, porque nem sempre estava garantida a Bola de Berlim ou o
pacote de batatas fritas. Dependia sempre muito do estado de humor da nossa
Mãe…!
Tirando dois acontecimentos especiais, que propositadamente guardarei
para o fim, o facto mais notável que recordo na praia de Paço d’Arcos foi o de
um carro que estava estacionado por cima das pequenas arribas que ficavam
defronte das rochas se ter destravado e ficado pendurado, com as duas rodas
dianteiras suspensas no precipício. Parece que, por milagre, não caiu, e o
assunto até foi tema de notícia de jornal nos dias seguintes, segundo me lembro
de ter ouvido dizer. Mas foi um enorme arraial e toda a gente desatou a
correr pela praia fora até ao local do acidente.
Mas tenho algumas memórias cinéfilas em Paço d’Arcos, uma delas
absolutamente maravilhosa.
No pequeno largo que fica num dos extremos do jardim havia um Cinema
onde os meus irmãos iam com muita frequência e onde eu nunca ia… Mas uma vez
fui mesmo, talvez porque os meus pais estivessem ocupados nalgum jantar e aos
meus irmãos não tivesse restado outra solução senão levarem o miúdo com eles…
O Cinema estava cheio de bombeiros, que ficavam de pé encostados à
parede, porque - imagino agora eu - havendo um quartel na vizinhança talvez que
eles estivessem autorizados a entrar “à borla”, desde que não ocupassem
qualquer cadeira.
Era um filme com o Pat Boone (e se o fixei foi porque a minha irmã Rosa
Maria, apaixonadíssima por ele, deve ter andado vários dias a falar disso…),
que muitos anos mais tarde me dei ao trabalho de identificar. Chama-se, no
original, “All Hands on Deck”e é de 1961, o que bate certo com a minha
memória.
Se o filme se tivesse estreado nesse mesmo ano eu teria 7 anos; se o
foi no ano seguinte, o que me parece mais provável, eu teria 8 anos. Em ambos
os casos, uma grande dificuldade para ler as legendas com a rapidez necessária
e, consequentemente, para perceber bem tudo o que se passava no
ecrã…
O filme decorria numa base naval americana situada não sabia bem onde,
na qual estavam estacionados vários navios e soldados da Marinha, e o Pat Boone
era um deles. A determinada altura soava um alarme de alerta de ataque
(imaginava eu…) e os soldados começavam a correr como doidos de um lado para o
outro…
O estranho é que, no interior do Cinema, os bombeiros também começaram
a correr e, por uns largos segundos, eu senti-me como se estivesse dentro de
algo semelhante à “Rosa Purpura do Cairo”, do Woody Allen, com personagens a
saírem a correr do ecrã para a sala, e vice-versa…
A explicação só me foi dada no final: parece que, por uma incrível
coincidência, a sirene dos bombeiros de Paço d’ Arcos soou quase em simultâneo
com a do filme, obrigando os bombeiros a sair do cinema a correr e provocando,
para um miúdo de 7 ou 8 anos, uma confusão dos diabos com as correrias no ecrã
e as correrias fora dele…
Inesquecível...! Lembro-me como se tivesse acabado de acontecer.
Hoje sei que não era um filme de guerra, mas mais uma daquelas comédias
patetas realizadas pelo rotineiro Norman Taurog, que se passa nas docas de Long
Beach, na Califórnia, e que o tal alarme fazia parte de um exercício de
simulacro de abandono do navio (coisa que na altura nem fazia a mais pequena
ideia do que era…) e que o Pat Boone tinha tanto jeito para representar como eu
para tocar violino…
Mudando de tema, lembro-me também que em Paço d’Arcos me sucedeu uma
coisa que podia muito bem ter abalado, em definitivo, a minha confiança nas
mulheres…
Como permanecíamos lá até finais de Setembro, apanhávamos a chegada do
Outono e, por vezes, a de um tempo um pouco mais frio e desagradável que nos
afastava da praia e nos obrigava a ficar na esplanada do Lima, mesmo no meio do
jardim (ainda por lá anda, embora com algumas alterações…). E com o frio
começavam a chegar ao jardim os primeiros vendedores ambulantes de castanhas
assadas.
Acontece que, por essa altura, eu tinha aquilo a que os meus irmãos
chamavam uma “namorada”, que num desses dias de frio e de mau tempo resolveu
insistir comigo para lhe comprar um pacote de castanhas. Perante a minha
afirmação de que não tinha dinheiro, a pequena não esteve com meias medidas e
disparou: “Se não tens dinheiro, vai pedir à tua mãe que te dê…”
Ora se eu não pedia dinheiro à minha Mãe para comprar “chupas” e
rebuçados, de que gostava muito mais, nunca na vida lhe iria pedir para comprar
castanhas para uma “namorada”… “Se não pedires, não brinco mais contigo…”, acrescentou
ela. E nesse preciso momento perdi a “namorada” e a vontade de vir a ter
qualquer outra nos tempos mais próximos…
Outras coisas de que me lembro bem em Paço d’Arcos…?
De uma vez ter ido dar um passeio de barco à volta do Bugio, com os
meus irmãos e a minha prima Lena.
De haver umas garraiadas ali para as bandas de Porto Salvo, onde o meu
irmão Zé Carlos, fugindo desesperadamente à frente de um pequeno bezerro,
perdeu de vez a oportunidade de impressionar a Família e de lhe mostrar que
tinha todas as condições para seguir as pegadas do pai e se afirmar como um
grande aspirante a toureiro…
De por vezes um circo descer à vila e ficar instalado ali bem perto da
estreita rua principal, num extenso descampado onde hoje foram abertas largas
avenidas e erguidos grandes arranha-céus. E é claro que a chegado do circo era
motivo de grande agitação para a pequenada.
Também as tardes e noites de jogos de Hóquei em Patins nos provocavam
algum alvoroço, embora não me lembre de ter assistido a esses jogos muitas
vezes. A maior parte delas ficava a espreitar de fora pelo gradeamento, que não
deixava que se visse grande coisa
E ainda, é claro, a chegada das Festas da vila em Setembro, quando o
jardim se enchia de luz e cor com as pequenas pistas de carrinhos, os carroceis
e as barraquinhas de farturas e de algodão doce.
Falei-vos da memória do Cinema e só me resta, para terminar, falar-vos,
igualmente, da memória da Música. Mas, para isso, teremos de regressar à praia.
Naqueles tempos era habitual ouvir-se uma voz de altifalante em toda a
praia, alertando para qualquer coisa: crianças que se perdiam dos seus pais,
pais que perdiam as suas crianças, recém-chegados à praia que pretendiam
localizar uma determinada pessoa, em tempos onde ainda não havia recurso a
telemóveis, objetos que se perdiam ou que se encontravam na praia, eu sei lá mais
quê…
Eu passava os dias a brincar na areia ou junto ao mar e, como é
natural, nunca ligava nenhuma a essas mensagens.
Mas uma bela tarde vejo a minha prima Lena vir a correr na minha
direção a dizer-me: “Luís Miguel (ou Luisinho, já não sei bem…), estão a
chamar-te à cabine de som”…
Chamam-me à cabine de som…? Mas por que raio me chamam à cabine de som,
pensei eu…? Só pode ser mais uma brincadeira dos meus irmãos…
Mas, enquanto pensava, ouvi de novo o altifalante a gritar, e agora sem
sombra de dúvidas, “Atenção, chamam à cabine de som o menino Luís Miguel Mira”.
Intrigado, lá fui, e ao chegar à esplanada dei com o meu pai encostado
ao gradeamento, calças cinzentas, camisa branca aberta no pescoço e, pelos
ombros, aquele blusão ligeiro cor de café com leite que ele às vezes usava,
quando se vestia de forma mais ligeira.
Para perceberem o meu espanto e o extraordinário da cena, o meu pai
nunca, mas mesmo nunca, ia à praia e, muito menos, aparecia assim de surpresa a
meio de uma tarde. Ele trabalhava no escritório todos os dias, incluindo
sábados e domingos de manhã, e só depois disso regressava para passar o resto
do dia connosco, quase sempre com um almoço fora e um passeio de carro até
Sintra ou até Cascais, mas nunca na praia.
Um dos motivos que justificavam a fobia do meu pai em relação às praias
era o fato da pele dele ser branca, demasiado branca, e quando apanhava um
pouco mais de sol ficava, de imediato, muito vermelha. Era o que lhe acontecia
nas tardes de touros, não obstante todo o cuidado que tomava.
Mas, naquela tarde, tudo fora previamente combinado, é claro, e o meu
pai só se dignara aparecer na praia porque nessa noite, talvez para comemorar a
chegada da minha prima Lena ou qualquer outra coisa, jantaríamos todos ao ar
livre na esplanada. E é aqui que surgirá a música, mas já lá iremos…
Às vezes dou comigo a pensar: porque será que todas as memórias que
tenho da música na minha infância estão relacionadas com o Verão e – iria
jurá-lo… - com noites de luar…? Porque será que não me consigo recordar de uma
só canção que possa relacionar com o vento, a chuva, o mau tempo…?
Foi numa dessas noites de calor que os meus irmãos saíram de casa e
vieram apanhar o fresquinho para uma fonte circular que havia no Mercado Geral
de Gados e eu ouvi, pensando que o som vinha da janela da nossa casa (hoje
percebo que seria impossível e que ele deveria vir de qualquer rádio ou
gravador portátil…) o Pat Boone a cantar “A Wonderful Time Up There”….
Foi num fim de tarde de Verão, aí pelos meus 10 anos, que saí do cinema
(Roma…? Aviz…?) enamorado pela Marisol, depois de a ver pular e cantar em
“Tômbula”:
“La vida es una tômbula, tom tom tômbola
La vida es una tômbola, tom tom tômbula
De luce y de color, de color
De luce y de color, de color
E todos en la tômbola, tom tom tômbola
E todos en la tômbola, tom tom tômbula
Encuentran el amor, el amor”
(não sei se é bem assim, mas é assim que me lembro e é assim que vai
ficar…)
E foi numa noite de luar de Agosto, em Sines, já com uns 12 ou 13 anos,
que me apaixonei, desta vez a sério, pela Françoise Hardy, que, tal como eu o
faço agora neste apeadeiro da vida, também na altura tinha decidido apanhar o
comboio das recordações:
”Quand je me tourne vers mês souvenirs
Je revoi la maison où j’ai grandi
Il me revient des tas de choses
……………………………………………..
Je reviendrai un jour, un beau matin
Parmi vos rires
Oui, je prendrai un jour le premier train
Du souvenir”
Poderia ser uma memória agradável para uma criança ela poder
contar: Estávamos na Quinta da Tala. Era Inverno e lá fora fazia um frio
de rachar. O vento fazia bater as persianas das janelas, mas no nosso salão
estava uma temperatura agradável e a lenha crepitava na lareira enquanto nós
ouvíamos… nada! Nem uma só memória de música dos dias frios de Outono e
de Inverno…
Mas nesse dia da vinda do meu pai à praia esperava-me uma noite
especial.
Naquele tempo, por debaixo da reentrância do passeio onde hoje estão
aquelas grandes letras luminosas a dizer PAÇO DE ARCOS, havia a tal esplanada
de que já vos falei, com um terraço sobre a praia, onde nós, por vezes,
ficávamos a jantar.
A um canto do terraço havia uma máquina na qual se metia uma moeda e se
escolhia uma música, que depois começava a tocar. É claro que era uma
“Jukebox”, mas eu nunca tinha antes visto nenhuma igual, quanto mais
conhecer-lhe o nome em inglês…
Essa máquina fascinava-me.
Eu ficava à espera que alguém viesse meter uma moeda e depois colava os
olhos ao grande vidro e ficava ali como que encantado a ver o mecanismo em
movimento com uma sucessão de pequenos discos em rotação até que, finalmente,
saísse aquele que fora escolhido.
A máquina estava quase sempre em funcionamento e muitas músicas se
ouviam, umas após outras, nessas noites de esplanada.
Mas uma delas parecia ter um efeito muito especial na assistência. Toda
a gente se levantava (enfim, quase toda porque nunca me lembro de ter visto os
meus pais nesta cena…) e formava-se um pequeno comboio de pessoas com as mãos
nas costas umas das outras, que ia avançando, às voltas, de uma ponta à outra
da esplanada.
E lembro-me que a minha prima Lena me chamou nessa noite para me juntar
aos “crescidos” e eu também por lá andei, às voltas, deliciado com o que me
estava a acontecer.
É claro que nunca mais me esqueci dessa música, embora só muitos anos
mais tarde viesse a saber que quem a compôs e a cantava era um Senhor chamado
Dorival Caymmi, de quem ainda hoje tenho alguns discos de vinil na minha
coleção.
A ccanção – já o perceberam – chama-se “Maracangalha” e a letra, muito
simples, é a seguinte:
Eu vou prá Maracangalha
Eu vou!
Eu vou de liforme branco
Eu vou!
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou!
Eu vou convidar Anália
Eu vou!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só!
Eu vou só!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só!
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou!...
Eu vou só!...
A canção é de 1957, pelo que, se estivéssemos no final dos anos 50, em
ainda nem 7 anos teria.
Na minha memória, apenas duas falhas em relação à letra original da
canção: eu dizia “Nalha”, em vez de “Anália” e, talvez por não saber o que isso
era, saltava o “liforme branco” e passava diretamente ao “chapéu de palha”…
E até hoje nunca soube – nem quis saber… - se Maracangalha era um lugar
que existia mesmo, ou se se tratava de algum local idílico imaginado, como
aquela Pasárgada para onde Manuel Bandeira também gostava muito de ir…
Eu adorava todas essas noites vividas na esplanada da praia, mas esta
nunca mais a esqueci e ficou dentro de mim de uma forma muito especial.
A noite, a música, o mar lá ao fundo, os meus pais, os meus irmãos e a
minha prima Lena em amena confraternização, tudo isso parecia encher o meu
pequeno coração de uma transbordante Felicidade…
Que saudades dessas noites de Paço d’Arcos…!
Qua saudades do barulho das pequenas ondas a morrerem no areal e da lua
espelhada sobre o mar..!
Que saudades de todos quantos já partiram…! Os meus Pais, a minha irmã
Rosa Maria, o meu irmão Zé Carlos, a minha prima Lena…
E que saudades dessa fabulosa noite em que, em fila indiana e de corpo
a balançar, eu fui para a Maracangalha…!
Somerset
Maugham colocou no seu romance O Mundo é Pequeno esta epígrafe:
«É, pois curta a vida do homem e
estreito o canto da terra onde ele vive.» Não tem indicação de autor, e até poderá ser do próprio Somerset Maugham.
Os
governantes vão-nos dizendo que, aos poucos, podemos regressar aos nossos
quotidianos.
Mas há tantas
limitações!...
Não consigo
ver como se pode viver assim…
E há o medo…
sobretudo o medo…
O Jorge Silva
Melo, como só ele sabe escrever (o texto completo pode encontrá-lo em Coffeepaste),mostra-nos as dificuldades
que há nestas tentativa de viver… normalmente…
«Os teatros podem abrir daqui por uns
dias, sim.
Mas serão teatros?
Ou só umas fachadas a fingir que vivemos
“normalmente”?
Pode haver teatros se não há cidade? E a
cidade – que nestes últimos anos de cruzeiros à porta morria da desenfreada
especulação e se desertificava – não foi isso que morreu?
Pode haver cidade se não houver abraços?
Vivi a minha adolescência numa cidade –
Lisboa – onde era proibido beijarmo-nos na rua. E sonhava com Paris onde os “os
rapazes e raparigas da minha idade / caminhavam a dois e dois/ e sabiam o que
era ser feliz / e de olhos nos olhos, de mão na mão / não tinham medo do
amanhã”, tão linda a Françoise Hardy.
Pode haver rua, pode haver cidade, pode
haver teatro se tivermos – como temos – medo?»
Há muito que os
políticos estão descredibilizados.
Hélas!
Uma série desses
ditos, tem feito tudo para que os cidadãos não lhes tenham respeito, neles
terem deixado de acreditar.
Por uns – e eles são
tantos! – pagam outros.
Sempre assim foi e não
há volta a dar.
O último triste exemplo
dá pelo nome de Manuel Pinho ex-ministro da economia de um governo de José
Sócrates.
Entre outras
variantes, Manuel Pinho é suspeito de ter recebido 15 mil euros mensais dessa
coisa tenebrosa que dava pelo nome de Grupo Espírito Santo, ao mesmo tempo que
recebia o respectivo vencimento ministerial.
A comunicação social
estranha que Manuel Pinho ainda não tenha dito nada sobre tão escabroso caso.
Mas dizer o quê?
Que é tudo mentira?
Que não passa de mais
uma cabala jornalística?
Manuel Pinho iniciou funções de ministro da Economia em Março de 2005
e, a partir de Outubro do ano seguinte, passou a acumular com as retribuições
deste cargo público uma quantia mensal de 14 963,94 euros paga pelo Grupo
Espírito Santo. A informação de tais transferências, de um saco azul do GES
para uma sociedade offshore de Manuel Pinho no Panamá, acaba de ser incorporada
no inquérito-crime onde são investigadas decisões do ex-ministro que custaram
ao Estado e valeram à EDP 1,2 mil milhões de euros.
Manuel Pinho
acabou por pedir a demissão de ministro quando, na Assembleia da República, num
episódio lamentável, desenhou com as mãos, um par de cornos ao deputado
comunista Bernardino Soares.
Uma atitude
miserável, desprezível que agora talvez se perceba melhor: o homem queria sair
da governação, não sabia bem como e resolveu-se pela ordinarice.
Recorde-se que Manuel Pinho foi administrador executivo do
Banco Espírito Santode 1994 a 2005. Próximo
de Ricardo Salgado e membro da Comissão Executiva do BES, era igualmente
administrador de outras sociedades do GES até tomar posse como ministro.
«Em 10 de Março de 2005, cessei
a minha relação profissional com o BES/GES, uma vez que aceitei o
convite para integrar o XVII Governo.»
Terá , agora, que
prestar contas.
Mais um processo que
terá eventual resolução lá para as calendas gregas.
UMA RAPARIGA DO MEU
TEMPO
Françoise Hardy, aos
74 anos, lançou o seu 2º disco, Personne
d’Autre
«Creio ter chegado ao ponto em que a inspiração não me visita com a frequência
indispensável. Teria de acontecer algo de verdadeiramente inesperado, quase
insólito, que me levasse a regressar aos estúdios. E também que houvesse um
forte sopro de energia, que me permitisse ultrapassar os problemas de saúde que
me afligem nestes tempos mais chegados.»
Mas são águas passadas.
Regressa como nunca.
O que levou João Gobern a desabafar:
«Não há ninguém como Françoise.»
Assino por baixo.
Legenda: o artigo de
Pedro Adão e Silva foi publicado no Expresso
de 28 de Abril de 2018.
Esteve sempre nas canções dos primeiros amores de todos os rapazes e raparigas da sua idade, de outras idades, toda uma multidão que hoje é convocada para cantar congratulações pelas 70 primaveras de Françoise Hardy. Caramba! como o tempo voa!... A idade da inocência ou o que não se consegue explicar porque não há palavras e porque tempos daqueles, de tão vividos, matéria indefinível de sonhos, não se podem explicar. Escreveu o Manuel António Pina: … eu estou velho para tudo, aproximo-me a grande velocidade de tudo e nunca mais serei o mesmo nem serei diferente.
Há sempre um ou outro filho que pergunta: - Ouve lá então é esta a música de que tanto falas?.. A resposta gaguejante : - Não, não é esta, é a que ouvi quando tinha 18 anos!...
Neste dia, há quatro anos, uma quarta-feira, nasceu a Maria.
Nos céus, a Lua estava em quarto crescente e encaminhava-se para a fase nova que ocorreu no dia 19 pelas 04,01. O sol nasceu às 07:43 e o ocaso registou-se às 17:37. No porto de Lisboa, a preia-mar verificou-se às 01:42 e 14:09 e a baixa-mar às 07:44 e 19:57.
O “Borda d’Água” colocava a caracteres negros que 17 de Janeiro era um “Dia Auspicioso” e informava que durante o mês de Janeiro se devem plantar girassóis nos jardins, que se podem colher as violetas, os amores perfeitos, as camélias, os jacintos, as túlipas e dizia também: “Procura a virtude desde Janeiro e viverás com ela o ano inteiro.”
O “Público” deste dia trazia na 1ª página que os radares em Lisboa detectavam três mil condutores por dia em excesso de velocidade, que em Carcavelos deverá ser construído o novo “El Corte Inglês”, e que os portugueses poderiam ter que suportar novos custos na electricidade.
Nas notícias do país destaque para a condenação a seis anos de cadeia do sargento Gomes, pai adoptivo que sequestrou uma criança que se encontrava em paradeiro desconhecido. O psicólogo Luís Villas-Boas” comentava que a decisão era um “absurdo jurídico, esta menina é uma vítima anunciada. Arrancá-la a quem lhe deu biberão e mudou as fraldas é quase um rapto emocional.”
Cavaco Silva prosseguia a sua viagem oficial à Índia, No noticiário internacional o destaque ia para um duplo atentado em Bagdad que matou 70 alunos e professores de uma universidade,
Nas páginas de Desporto sabia-se que os 40º centigrados, registados em Melbourne, levaram ao cancelamento de vários jogos do “Open da Austrália”em ténis. Antes da interrupção dos jogos, a russa Maria Sharapova quase derreteu ao sol.
O Canal 1 da RTP, às 23,20 H, na sua “Lotação Esgotada” passava “Desejos finais” um “thriller” de Phil Joanou com Richard Gere, uma simplesmente incandescente Kim Basinger e a não menos insinuante Uma Thurman.
Nas páginas interiores ficava a saber-se que o Partido Socialista iria gastar 598 mil euros na campanha eleitoral do referendo sobre o Aborto e que os adeptos do “Não” os gastos chegam aos 635 mil euros.
Título da pág. 18: “Ninguém explica por que é que o 112 parou em três distritos.” E ficava a saber-se que Ana Gomes acusava Luís Amado de travar investigações aos voos da CIA. Passados quatro anos, sabe-se o porquê.
O título de 1ª página do “Diário de Notícias” revelava que os novos impressos da Declaração de IRS não obrigam à declaração de compra de bens imóveis acima dos 250 mil euros.
Nas páginas interiores o “Diário de Notícias”, citando o “El País” informava que Fidel de Castro sofreu uma grave infecção intestinal e que já fora submetido a três operações e o que o seu estado é considerado “muito grave”. O médico espanhol que observou Fidel de Castro, dizia que a informação era infundada. O clínico tinha razão: passados quatro anos Fidel de Castro mantém-se vivo.
De 18 a 21 de Janeiro iria decorrer a 16ª Feira do Fumeiro e do Presunto do Barroso.
A Companhia de Teatro de Coimbra Camaleão-Associação Cultural”, levava à cena, no Teatro da Comuna, em Lisboa, duas peças do poeta norte-americano Russell Edson:“As Crianças” e “Os que Rastejam”.
A RTP revelava a lista dos dez Grandes Portugueses que iriam ser defendidos por diversas personalidades num programa com o mesmo nome. Carlos Pereira Santos, em “A Bola”, indignava-se por dessa lista não constar Eusébio – “Alguém extasiou mais a nação do que Eusébio?”
Em Paris,neste mesmo dia, mas 63 anos antes, nascia Françoise Hardy.