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domingo, 14 de junho de 2026

OLHARES

Mário Castrim: o mais brilhante crítico de televisão deste país.

Ainda morava na Rua dos Lusíadas, quase frente à estação da Carris, trabalhava noite dentro, deixava a crítica no puxador da porta, ao lado da saquinha do pão, e era ali que o motorista do Diário de Lisboa a ia buscar, às 7 da manhã.

As suas críticas eram também verdadeiros poemas, ou histórias de encantar.

É o caso deste olhar sobre um documentário sobre antílopes.




quinta-feira, 21 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Não sei, não sei mesmo, se o Nuno Júdice é o autor de uma obra poética decisiva que marca a poesia portuguesa.

Sei apenas que gosto muito da sua poesia.

Sentindo o fim aproximar-se, Nuno Júdice deixou três pastas com poemas, a sua mulher Manuela Júdice e o amigo Ricardo Marques, seleccionam os poemas para o livro em que Nuno trabalhara e a que foi dado o título, escolhido pelo autor em conversa com Ricardo: Primeiro Poema.

«Quando acabo um poema não sei muito bem o que escrevi», disse numa entrevista

Houve uma altura da vida do Diário de Lisboa-Juvenil que deu a louca ao Mário Castrim. Foi quando em estado de pura e avassaladora paixão  pela Alice, decidiu que tinha de deixar a Natália, sua mulher de longos e duros anos. Difícil e dramática decisão. O Mário Castrim até tinha uma capacidade de trabalho alucinante, acima, muito acima, de qualquer média, mas aquilo era demais e a cabeça não dava para tudo: diariamente crítica de televisão no Diário de Lisboa, colaboração diversificada e dispersa por jornais e revistas, colaboração no Rádio Clube Português com histórias para crianças e o Juvenil. Quanto a este terá então pensado que teria de deixar, por uns instantes, a selecção dos textos e poesias a mim e ao Armindo, gente de confiança, como ele dizia. Assim foi.

Mário Castrim fazia a grande triagem e passava o resto da papelada para mim e para o Armindo e, cada um fazia a leitura e selecção da colaboração. Trocávamos impressões e seguia-se a reunião com o Mário Castrim, para o Juvenil da semana seguinte, normalmente no Diário de Lisboa ou na Orion, café e pastelaria com “fabrico próprio” que, para meu grande espanto, não se tornou banco ou loja de trapos, ainda existe no cimo da calçada do Combro, esquina para a rua que vai dar a Santa Catarina, uma das mais belas vistas de Lisboa

Por vezes, Castrim, punha lápis vermelho nas nossas escolhas. O Armindo ficava à beira de um ataque de nervos, eu nem por isso porque entendia que o Mário era o responsável-mor do suplemento. Foi nessas andanças que nos surgiram os poemas do Nuno Júdice e neles já estava quase tudo do que viria a ser um dos poetas marcantes da poesia portuguesa, assim como o Jorge Valdano disse,  que um verdadeiro camisa 10 se nota logo, mesmo que venha mascarado de bailarina sevilhana.

Lembro-me do olhar deliciado do Armindo a ler os poemas do Nuno Júdice, nas mesas da Brasileira,  chávena de café suspensa na mão.

O Armindo deu o “salto” para fugir à guerra colonial, mandou-me um primeiro postal de Grenoble, mas nunca mais, para meu grande lamento, tive notícias do seu exílio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

COMO QUEM REGRESSA AO PAÍS DA SUA INFÂNCIA

Voltamos às pedras deste Cais.

Sim, eu sei: estou a ficar velho.

Como estou velho, repito-me ou apetece-me repetir, e volto a lembrar Mário Castrim.

Foi a grande bússola da crítica de televisão neste nosso país.

Começou a fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio de 1965.

Nos tempos da ditadura, a malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, a primeira pergunta não variava muito: «Já leste o Castrim?»

Quase quarenta anos a fazer crítica de televisão.

Em 1990, Fernando Assis Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor. Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil horas.

A censura, diariamente, esquartejava-lhe a prosa.

Mesmo assim, um dia, entenderam que o homem estava a ir longe de mais e proibiram o «Canal da Crítica»

Proveniente de todos os quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.

Outra coisa não restou às múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.

Quando esse dia chegou, Castrim abriu com um lindíssimo texto.

Foi assim:

«Regresso. Comovido, como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem, regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua infância, ao país do seu país.»

quarta-feira, 16 de julho de 2025

À LUPA


 Leu, com espanto, que Alice Vieira está na Comissão de Honra da candidatura de Marques Mendes à presidência da república.

Desconhece qual o motivo para uma coisa destas ter acontecido.

Mário Castrim, onde quer que esteja, ter-se-á perguntado:

«Mas o que terá passado pela cabeça da moça?»

quarta-feira, 4 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


É mau a gente habituar-se.

Eugène Guillevic

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro.

Mário Castrim chamou-lhe um narrador do quotidiano.

Iremos publicar algumas fotografias de Gageiro que serviram, aqui no Cais, para ilustrar «Postais Sem Selo»

sábado, 31 de maio de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este nº 7 da Colecção que o Público, mensalmente, tem vindo a apresentar, é o catálogo de uma exposição itinerante inaugurada a 26 de Abril de 1975, na Galeria de Arte Moderna, em Lisboa.

O livro abre com uma citação de Mário Castrim:

«Para colher um cravo, desfolhou o nosso povo os pés nos tojos e nos cardos.»

Segue-se um texto introdutório de José Saramago, um outro de Ramiro Correia:

«48 anos de fascismo. 14 anos de guerras coloniais. 32% de analfabetos. 10% de população emigrada. Milhares e milhares de mortos e inválidos de guerra. Índices sanitários dos mais baixos da Europa. Problemas dramáticos de habitação. Economia desastrosa. Prestígio Internacional nulo. Repressão. Tortura. Censura. Corrupção.

Foi neste clima de tragédia que na madrugada de 25 de Abril o M.F.A. e o Povo iniciaram a árdua caminhada para a construção da sociedade socialista em Portugal.

Democratizar. Descolonizar. Desenvolver.»

domingo, 2 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


                                                   «Mãe, estou bem, estou só a esvair-me em sangue»

                                                    - de uma canção de Bob Dylan.

 

Parafraseando o monstro de cabelo alaranjado que ocupa a sala oval, poderíamos dizer:

«Os Estados Unidos nasceram para lixar o Mundo».

Este é um velho single, de tão rodado, nos tempos da ditadura salazarista/marcelista, teve de ser remendado com fita gomada.

Também é um disco da caminhada para o País de Abril.

Quando em Setembro de 1966 o Mário Castrim foi a Roma trouxe-me este disco. Porque vagamente tínhamos falado nisso, esperava que me trouxesse o cartaz de Férias em Roma, Filme de William Whiler, Audrey Hepburn a andar de vespa à pendura do Gregory Peck. Não sendo filme de cabeceira é um filme que estimo.

Mas o cartaz não veio. Chegou este grito contra a guerra do Vietnam, que viajou escondido no meio do saco da rua suja, com o Mário a pensar que os inspectores da Alfândega não iriam lá. Ingenuidades… Mandaram-no despejar o saco, mas não lhe apreenderam o disco.

No cinzento do nosso quotidiano sabíamos das manifestações de protesto que, por todo o mundo, se faziam contra a Guerra do Vietnam. Os anos de brasa da Paz, dos Direitos Humanos, da guerra do Vietnam.

Este disco assinala, em Roma, Março de 1966, uma dessas manifestações de protesto: “A chi chiama per la guerra, rispondiamo no”.

Dizia-se então: estamos todos em guerra contra os Estados Unidos da América.

Em Julho de 1980 Ronald Reagan disse: «O Vietnam não foi uma má experiência, o que foi mau foi termos perdido a guerra.»

Os números de uma guerra nunca são exactos, chega-se a eles às apalpadelas e nunca são definitivos:

- 3 milhões é o número de vietnamitas mortos, incluindo 2 milhões de civis.
- 60 mil americanos perderam a vida.
- as forças americanas utilizaram 15,35 milhões de toneladas de bombas
- foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que foram gastos 675 mil
dólares para exterminar um só guerrilheiro vietcong.

Lyndon Johnson nunca aceitou que uns quantos guerrilheiros comunistas pudessem vencer os Estados Unidos:

«A menos que os Estados Unidos disponham de um poderio aéreo incontestável, estamos sujeitos a qualquer anão amarelo que tenha um canivete».

O presidente Richard Nixon foi um político paranóico, vingativo, volútil, embebedava-se e amiúde batia na mulher. Foi este homem que chegou a considerar a opção nuclear para resolver a guerra do Vietname, como se pode ver neste diálogo, gravado na Casa Branca, com o secretário de estado Henry Kissinger:

Nixon – Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.

Kissinger – Isso julgo seria ir longe demais.

Nixon – A bomba atómica perturba-o? Eu só quero que você pense em termos amplos. A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.

Kissinger – Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.


sexta-feira, 24 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


10 Anos de Teatro e Cinema em Portugal

1974-1984

Carlos Porto e Salvato Teles de Meneses

Capa: Ivone Ralha

Editorial Caminho, Lisboa, Agosto de 1985

 

O repórter perguntava a um velho trabalhador (alentejano) que idade tinha:

Velho – Tenho quatro anos.

Repórter – Como é isso?

Velho- Tenho quatro anos porque são feitos depois do 25 de Abril. Antes disso não conto.

Mário Castrim, Diário de Lisboa.

(Epigrafe colocada por Carlos Porto no início do livro.)

segunda-feira, 20 de maio de 2024

AS PALAVRAS PROÍBIDAS

 


Finais do ano de 2023, o semanário Notícias da Amadora publicou uma série de cadernos registando os actos da censura ditatorial de que o jornal foi vítima.

Fundado em 25 de Outubro de 1958, na sua luta pela Liberdade e pela Democracia, o Notícias da Amadora terá sido o jornal português mais flagelado pelos esbirros salazaristas/marcelistas.

No seu historial, Portugal acusa um passivo de centenas e centenas de anos de Censura, o que significa que o melhor da nossa voz e do nosso pensamento, foi construído sob o medo e a contracultura.

Mário Castrim:

«Porque neste País houve uma censura. Às imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram, destruíram, odiaram, one estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão a defender?

O texto que acima se reproduz, é da autoria de Orlando César, director do Notícias da Amadora e que consta do Caderno nº 16 publicado pelo jornal.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Relembremos o calendário do Mário Viegas quando disse que no dia 2 de Maio de 1974 acabou o seu 25 de Abril.

Ou como, passados alguns poucos anos, ironicamente, Mário Castrim escreveu:

«Cá por mim já foi tempo. Estivemos todos em estado de graça durante a infância da democracia. Era quando os polícias mandavam parar o trânsito para passar o carrinho do bebé. Era quando os responsáveis da GNR vinham à televisão e garantiam que se tinham tornado vegetarianos. Era quando as bandas fardadas abrilhantavam as festas do povo em Belém. Dá quase vontade de dizer que era no tempo em que os animais falavam.»

Ou ainda o sempre jovem poeta José Gomes Ferreira:

«De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.»

Quando houver oportunidade, sem caracter diário, voltaremos aqui para recordar outras passagens dos dias que fizeram o tempo da nossa esperança.

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

CONVERSANDO


 «Na vida há destas coisas, como diz o compadre que todos temos. O programa que João Villaret foi das poucas coisas vivas e populares que aconteceram na Televisão Portuguesa. Passaram-se muitos anos antes que surgisse qualquer coisa que pudesse dar-nos oportunidade de falar de vida e de popularidade».

Mário Castrim, numa crítica de televisão no Diário de Lisboa, Maio de 1969.

João Villaret morreu em Lisboa a 21 de Janeiro de 1961. Tinha 47 anos.

O Cinema São Jorge passou a evocar a sua memória em sessões, à hora do almoço, servindo-se dos discos que João Villaret deixara gravados. Não tenho elementos que permitam dizer quando essas evocações começaram e em que ano terminaram. Esta foi a única a que assisti.

Um foco de luz projectava-se sobre o palco que tinha o pano corrido. Tenho uma vaga ideia de haver também uma cadeira com um ramo de flores, mas não garanto. A minha memória já conheceu melhores dias.

À entrada era fornecida a folha que aqui se pode ver e que dava conta dos poemas e dos autores que iríamos ouvir.

O preço era único e a receita do recital destinava-se à Cruz Vermelha Portuguesa.

Na folha podia, também, ler-se que o Cinema São Jorge registava o “amável patrocínio” dado pelo “Diário Popular” e que o Sistema de Alta Fidelidade fora montado pelos Serviços Técnicos de Valentim de Carvalho.

sábado, 13 de janeiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Maravilhosos os tempos de juventude em que li Jack London.

Nunca esqueci uma frase que li numa crítica, longínqua, de televisão do Mário Castrim no Díário de Lisboa:

«Quem já leu Jack London, fecha os olhos quando aparecem os cãezinhos do circo.»

Ao colocar este livro no Olhar as Capas, fui relendo aqui e ali, e não resisto a transcrever um pedaço, está na página 99, de O Apelo da Selva:

«Este homem salvara-lhe a vida, o que já era qualquer coisa; mas, acima de tudo, ele era o dono ideal. Na sua maioria, os homens  cuidam dos seus cães por um sentido do dever ou por conveniências profissionais; este cuidava dos seus como se seus filhos fossem, e porque não podia deixar de fazê-lo. E mais. Nunca se esquecia de lhes dirigir uma saudação carinhosa ou uma palavra de encorajamento e de, sentado no chão ter com eles longas conversas («conversas fiadas», como ele dizia, sentindo nisso tanto prazer como eles.  Tinha um gesto muito seu de agarrar rudemente a cabeça de Buck entre as mãos e, apoiando a sua cabeça na do cão, abaná-lo para trás e para a frente, enquanto lhe segredava palavras ofensivas, que para Buck eram palavras de amor. Buck não conhecia maior alegria que esse abraço rude e o som das pragas sussurradas, e, a cada balanço para trás e para a frente, parecia que o coração lhe saltava do peito, tão grande era o seu êxtase. E quando, uma vez liberto, de um salto se punha em pé, a expressão risonha, os olhos eloquentes, a garganta vibrante de sons inarticulados e assim se conservava sem se mover, John Thornton, cheio de respeito, exclamava:

- Santo Deus só te falta falar.»

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM


 O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, junto ao Largo do Calvário. rua que hoje tem o seu nome.

O assassinato está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972 letra de António Quadros (pintor), música de José Afonso.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo Amaro. 

No livro Viagens,  o poema Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei, Mário Castrim pormenoriza as últimas palavras, os últimos momentos de vida de José Dias Coelho:

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

Legenda:  A imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.»

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


José Dias Coelho nasceu em Pinhel, Guarda, a 19 de Junho de 1923.

Foi assassinado pela PIDE na Rua da Creche em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1961.

Margarida Tengarrinha, mulher de José Dias Coelho, nasceu em Portimão a 7 de Maio de 1928.

Morreu a 26 de Outubro de 1923.

José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha usariam o que aprenderam sobre as suas artes para falsificar documentos e apoiar a resistência à ditadura.

 

Antes de ser assassinado, José DiasCoelho estivera numa reunião na casa de Mário Castrim que então morava junto à estação da Carris em Santo Amaro, tal como conta num poema que consta do seu livro Viagens:

 

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.


domingo, 22 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Outro Lado da Alegria

João Baião

Capa: Rui Rodrigues

Contraponto, Lisboa, Outubro de 2023

Foi uma adrenalina imensa, uma energia que desconhecia e que me cativou de imediato. De repente, estava dentro da caixa da televisão, tinha conseguido enfiar-me lá dentro!

À época, estava no grupo de teatro com o meu irmão. Num dos ensaios, depois de ter ido ao programa do Júlio Isidro, diz-me um amigo: «Eh pá, tu já viste o Diário de Lisboa? Já viste o que o Mário Castrim diz de ti?» E eu perguntei: «Quem é o Mário Castrim? Ainda hoje me recordo do que escreveu, palavra por palavra. No artigo lia-se:

«Humildemente, peço especial atenção para o segundo rapaz que fez de António Silva nas grandes fitas. Está ali para nascer qualquer coisa – era bom ir ver o quê.»

Colaboração de Aida Santos

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

CONVERSANDO

Hoje, a Leitura recaiu sobre o Diário de Mário Sacramento.

Como também ando a reler o Vergílio Ferreira, lembro que o Vergílio Ferreira gostava pessoalmente de Mário Sacramento, mesmo sabendo em que ideologia velejava. Essa simpatia seria partilhada por Mário Sacramento. A tal ponto que Vergílio Ferreira refere, no 1º volume da sua Conta-Corrente que, numa visita que Mário Sacramento fez a sua casa, este lhe dissera que o incumbia de, após a sua morte, promover a publicação do seu Diário.

Após a leitura do Diário de Mário Sacramento, Vergílio Ferreira escreve:

«Nada diz sobre a sua ideologia. Os comunistas chamam-lhe seu. Mas a mim me disse ele que não era comunista, embora tivesse colaborado intensamente com eles.»

Antes de 25 de Abril, em conversas com Mário Castrim, fiquei sempre com a ideia que Mário Sacramento era militante comunista.

Sem entrar em grandes controvérsias, poderei adiantar que Mário Castrim estava em melhor posição de saber da filiação partidária de Mário Sacramento do que Vergílio Ferreira. Ambos nasceram em Ilhavo: Mário Sacramento no dia 7 de Julho de 1920, Mário Castrim no dia 31 de Julho do mesmo ano e, sempre que vinha a Lisboa, Mário Sacramento encontrava-se com Castrim na redacção do Diário de Lisboa.

Vergílio Ferreira diz que os comunistas chamam-lhe seu, que Mário Sacramento nunca lhe disse que era comunista.

Mário Sacramento morreu a 27 de Março de 1969.

Três dias depois, Mário Castrim publicou, no Diário de Lisboa, esta belíssima crónica de homenagem ao camarada e amigo:

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


30 de Abril de 1974 

Amanhã será o primeiro 1º de Maio em liberdade.

Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.

Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros-de-combate-lanças-tinta-azul.

A mudança ia acontecendo, lenta, lenta, lenta, mas éramos tão poucos.

E onde estava aquele gente que, no amanhã de há 47 anos, encherá as ruas transformando-as num imenso oceano.

Os jornais de 30 de Abril de 1974, nas suas primeiras páginas, apelavam à serenidade do povo português nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Na 1ª página do República podia ler-se: Só a disciplina dos Homens Livres destrói a “disciplina” do medo!». Nas páginas centrais uma outra frase: 

«A disciplina é a arma do Povo contra a opressão.»

Na 1ª página do Diário Popular: «O 1º de Maio é teu: conquistaste-o. Não deixes que possíveis provocadores alterem o dia que será uma festa de todos!»

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

COMPRE HOJE O PÃO DE AMANHÃ

Diversas empresas faziam publicar anúncios de que iriam estar encerradas no 1º de Maio.



2.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

 3. 

Concretamente em Lisboa, populares continuam a perseguir os pides.

 Aparecem os primeiros desmentidos de quem estava a ser acusado de pertencer à Legião, à PIDE/DGS, ou tinham sido informadores da polícia política.

 Alguns eram acusados, por vizinhos, conhecidos, como mera vingança pessoal.

Começavam, por isso, os desmentidos.

 Este podia ler-se em A Capital:

 «O antigo “boxeur” Licinio Sena deslocou-se à nossa redacção, acompanhado do capitão Nuno Santos Silva do Movimento das Forças Armadas, do seu chefe no Tribunal de Contas, onde trabalha, e do seu filho, para nos declarar que não era agente da Pide.»

 Outros optavam pela publicação, como publicidade paga, de anúncios deste teor:




Sobre este tipo de incidentes, o Diário de Notícias, publicava, na 3ª página, uma local que titulou como: Enganos lamentáveis:

No clima de justa euforia em que actualmente se vive na nossa cidade, um dos principais alvos da população – o que, por vezes, gera alguma violência – tem sido a descoberta de elementos da extinta DGS e ainda não detidos.

Mas, se em muitos casos, se verificou que os indivíduos apanhados eram realmente daquela corporação policial, noutros ocorreram enganos que poderiam tornar-se lamentáveis, se não fosse a intervenção das forças militares.»

quarta-feira, 28 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


28 de Abril de 1974

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saiu para as bancas.

Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo, chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal, que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.

Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.

Começam a surgir os primeiros sinais de camaleonismo.

Atente-se no final da sua declaração de princípios:


1.

É  manchete em todos os jornais, a chegada a Lisboa de Mário Soares, bem como a recepção entusiástica que milhares de pessoas prestaram à sua chegada à estação de Santa Apolónia, no regresso do exílio em Paris.

Pela primeira vez os jornais dão conta da pretensão de o 1º de Maio ser decretado feriado nacional. O pedido foi formulado pelo «leader» da C.D.E., Prof. Francisco Pereira de Moura, durante a reunião de ontem com a Junta de Salvação Nacional

Diário Popular noticia que, num avião militar, partem amanhã, com destino ao Funchal a esposa e a filha do ex-presidente da república Américo Tomás.

Desde o dia 25, mais de um milhão de exemplares do Diário Popular têm sido disputados aos ardinas. Ontem, o jornal colocou três tiragens nas bancas.

2.

Fotografia publicada na página 14 de A Capital que mostra o baptismo do novo nome da Ponte sobre o Tejo.

A acção foi levada a cabo por um movimento, espontaneamente formado, denominado 1º Comité de Acção Popular.

3.

Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, ex-director da PIDE-DGS.

4.


Mário Castrim dedica a sua crítica de televisão às imagens da libertação dos presos políticos em Caxias.

Este é o começo da crónica:


segunda-feira, 26 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


26 de Abril de 1974

O segundo dia da nossa vida em liberdade.

Aos poucos, a rotina do quotidiano vai entrando na normalidade.

Caminha-se para os empregos, para as escolas, para as fábricas, são os mesmos passos, os mesmos rostos, mas têm uma outra vivacidade, um outro fulgor.

Os jornais dão todo o destaque aos acontecimentos da data histórica.

Diário de Lisboa é o único que puxa para a primeira página a grande notícia dos dias que vão correndo: a libertação dos presos políticos, a rendição da PIDE/DGS.

No miolo da reportagem uma pergunta óbvia, uma resposta com o seu quê daquilo que, tristemente, mais tarde irá acontecer:

- O que vão fazer aos pides, pergunta o repórter ao comandante dos páras.

- Temos que ter compaixão e humanidade para com eles, respondeu-nos o capitão.

Mário Castrim coloca em título no seu Canal da Crítica: Televisão, alegria do povo.

Mas são de louvor à rádio, as suas primeiras palavras da crónica:


Na página 12, uma notícia que, de modo algum, a censura deixaria passar:

Na página 13, destaque para as primeiras posições dos movimentos de libertação, face aos acontecimentos ocorridos em Portugal:


Em Kinshasa, Holden Roberto recusou-se a fazer quaisquer comentários até que a situação em Portugal evolua.

Aguarda-se uma declaração formal do porta-voz oficial do MPLA.

Não foi possível contactar com responsáveis da Frelimo.

Desde Lusaka, os combatentes dos Movimentos de Libertação nos territórios africanos de Portugal, não se sentem seguros se o golpe militar em Lisboa virá ajudar a luta que travam pela independência total das colónias:


Na página 15 do República a reprodução de uma carta em que o Presidente da Comissão Central pedia explicações ao Director do jornal, Raul Rego, por ter publicado um artigo que fora alvo de cortes da censura:


Na mesma página, uma pequena, mas lamentável, notícia dá conta de que, apesar da intervenção dos militares, não foi possível salvar muitos arquivos e documentos da Censura que o povo lançou à rua e foram destruídos.

Aqueles documentos eram parte importante da nossa história.

Estava lá nesse momento, assisti ao crime, mas como se poderia tê-lo evitado?

Quarenta e oito anos de ódio e repressão sobre um povo, cegam, pesam muito:


Na primeira página do Diário Popular amplo destaque à apresentação da Junta de Salvação Nacional.

Com chamada para a página 12: O Almirante Américo Tomás e o Prof. Marcello Caetano Chegaram à Ilha da Madeira.

Na página 9 foco  para as cinco edições que o Diário Popular publicara no dia anterior.

Tanto o Diário de Notícias, como O Século dão amplo desenvolvimento a tudo o que foi acontecendo no dia em que ditadura caiu.

Em O Século realce para o relato da última sessão da Assembleia Nacional:


Em O Século, a primeira fotografia publicada na imprensa da prisão de três pides, passos iniciais do que vai ficar a ser conhecido como a «caça ao pide.» e durará alguns dias:

Por fim, três curiosos destaques  retirados da 1ª página da Época, jornal oficial do ex-regime, ainda com o nome do ultra Barradas de Oliveira como director:

- Um movimento Militar depõe o Governo.

- O Prof. Marcelo Caetano rendeu-se ao General António de Spínola.

Garantir a sobrevivência da nação como pátria soberana no seu todo  pluricontinental, é um dos compromissos da Junta de Salvação Nacional perante o país segundo a proclamação que o General António de Spínola leu à Nação.