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quarta-feira, 3 de junho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Da pág. 412 do 3º volume da Biografia de Álvaro Cunhal :

Das janelas das celas pouco se via, embora num poema de Borges Coelho se diga que «em dias claros vê-se a Nazaré.»  A presença do mar era uma constante e os poemas escritos pelos presos de Peniche fazem-lhe constante referência, quer como uma metáfora de liberdade, quer como fonte de perturbação, pelo seu ruído regular, do estado de espírito dos presos. A ambivalência de registos é ainda maior quando o texto é escrito por alguém do «exterior», como é o caso do poema de David Mourão Ferreira,

 

Abandono

 

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar

Levaram-te a meio da noite

A treva tudo cobria

Foi de noite numa noite

De todas a mais sombria

Foi de noite, foi de noite

E nunca mais se fez dia.

 

Ai! Dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar

Oiço apenas o silêncio

Que ficou em teu lugar

E ao menos ouves o vento

E ao menos ouves o mar!

 

Este poema, cantado por Amália Rodrigues ficou conhecido como «Fado Peniche», e aqui o mar e o vento são vistos como sinal de vida e esperança.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


O livro é de Aníbal Falcato Alves.

Num convívio, em Abril de 1995, de vinhos e petiscos alguém disse que era giro fazer uma casa de petiscos para a feira de Maio em Estremoz.

Assim foi e chamaram-lhe Cozinha dos Ganhões.

Ganhão, dicionariza o livro é «o que trabalha com as juntas de bois,. Aquele que executa qualquer trabalho.»

«Cada tasca, cada restaurante, cada cozinheiro, em dias diferentes, apresentaram as suas especialidades.»

Em Maio de 1994 publicou-se o livro com o mesmo nome, Apresentação gráfica de Armando Alves, prefácios de Borges Coelho e Helder Pacheco, receitas alentejanas, um série de depoimentos com gentes alentejanas a contarem o que foram as suas fomes, as suas vidas em tempos de ditadura.

Este é o prefácio de António Borges Coelho:


Legenda: pormenor de uma pintura de Armando Alves que faz parte de  Os Comeres dos Ganhões.

sábado, 25 de outubro de 2025

CONVERSANDO

Seguem-se palavras  que António Borges Coelho colocou como Nota de Abertura em Crónicas e Discursos.

No topo deste Conversando está a reprodução dos títulos da Bibliografia de Borges Coelho que se pode ler numa das badanas do livro.

Impressionante, simplesmente.

António Borges Coelho deixou-nos há uma semana. Já o disse, nunca troquei uma palavra com ele.

Foi preso pela PIDE em 1956, quando era funcionário do Partido Comunista. Depois de sair da cadeia, seis anos e meio depois, foi proibido de lecionar até ao 25 de Abril. Após o 25 de Abril, escreveu Pedro Tadeu, «dedicou-se a construir uma narrativa plural e crítica, dando voz aos esquecidos da história oficial – mouros, judeus, camponeses, operários. Foi um dos primeiros professores a estabelecer práticas democráticas nas aulas e na governação académica universitária».

Borges Coelho era um transmontano de Murça. Olham-se as suas diversas fotografias e esse mundo mostra uma serenidade, um gosto de viver, uma simplicidade quase única, um saber para além da normalidade do saber.

Atempadamente a Universidade Portuguesa fez a justiça às suas qualidades de pedagogo, que a universidade da ditadura não só ignorou como perseguiu. Permitiu-lhe que passasse a fazer o que sempre gostou: estudar, ensinar.

António Borges Coelho, enquanto preso político no Forte de Peniche, conheceu bem o som do mar, viveu na Parede, quase junto a um rio que é um mar.

De novo o som o ressoar o mar

De novo o embalo do tumulto mais antigo

E a inteireza de instante primitivo

 

De novo o canto o murmurar o mar

Que se repete intacto e sacral

De novo o limpo e nu clamor primordial

Não consegui saber quais os trechos musicais que Borges Coelho gostava de ouvir. Sei que foi profundo admirador de Fernando Lopes Graça, seu camarada e vizinho de rua na Parede. Mas deixei em Música pela Manhã, a canção matinal que Edward Grieg compôs para a peça de Henrik Ibsen Peer Gynt.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

CONVERSANDO


Agosto de 1965.

O meu pai chega a casa revelando que o Carvalho da Clássica Editora, antes da chegada da PIDE para proibir o livro, conseguiu esconder alguns.

O livro era A Revolução de 1383 de António Borges Coelho. Em 1964 já tinha colocado «Fora do Mercado», também da autoria de António Borges Coelho um livro editado pela Prelo: Raízes da Expansão Portuguesa.

Lê e depois conversamos, disse-me.

Antóbio Borges Coelho abre o livro com uma citação tirada do Emílio de Jean Jacques Rousseau, seguindo-se uma homenagem a Fernão Lopes:

«Os sublevados de 1383 ganharam a sua causa. Se a tivessem perdido, talvez conhecêssemos tão só as maldições do poder.

Assim todo o 1º e boa parte do 2º volumes da Crónica de D. João I são dedicados à narrativa e exaltação da gesta revolucionária.»

Tenho que ir muito longe nas leituras para balizar a primeira vez que vi uma referência a Rio de Onor. Foi em A Revolução de 1383 de António Borges Coelho. 

E hoje não consigo de adiantar os porquês do fascínio.

É na Viagem a Portugal de José Saramago que volto a encontrar Rio Onor. Pelo meio há um poema do Ruy Belo, mas só o li depois da Viagem de Saramago, pertence ao livro A Nau dos Corvos e está na página 326 de Todos os Poemas de Ruy Belo:


O GIRASSOL DE RIO DE ONOR


«Existe juro um girassol em rio de onor

mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for

Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor

à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nuñez

(Amigos que passais em direcção a córdova ou aos cobres de lucena

dai-me notícias desse girassol menos brilhante sol

mas bem mais acessível pelo menos para nós que não temos raízes

mas pomos o que temos sobre a terra)

Reconheci-o logo embora há muitos anos o não visse

além de o conhecer sabia ser ele natural de rio de onor

e lá habitualmente residente

É ele raios o partam disse idênticas as pétalas igual a cor

é ele ó céus é ele sem tirar nem pôr

o meu amigo girassol de rio de onor

(é fácil ter na flor um verdadeiro amigo

se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis)

Era mesmo era ele sem tirar nem pôr

o girassol de rio de onor há tantos anos visto

Mas nós os que lá fomos e por lá passámos

nós é que já não somos quem lá fomos

e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos

que tu ó meu amigo com as tuas

duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio

pequena ponte e diminuto rio

a dois passos dos olhos tão redondos que solares

dessas duas ou três quatro no máximo crianças

(meu deus essas crianças onde é hoje o seu país?)

Viajo  pela espanha mas é este julgo juro o girassol

pois embora não esteja em Portugal

não há ainda julgo plantas nacionais

e além disso aquela terra é meio espanhola

Mas nós que assim passamos pelos campos pelos dias

nós que não temos nem nunca tivemos

coisa pequena como uns palmos de país

pomos tudo  o que somos nestes seres que passamos

e nos fixamos só em certas fotografias que tiramos

Era aquele julgo juro o girassol de há anos

mas nós que como sombras por aqui passamos

porventura seremos os que éramos há anos?

Qual é ao certo o nosso verdadeiro país?

Lanço a pergunta aos verdes campo outonais da andaluzia

mas esta paisagem que tanto me diz

quem sou isso é que ela nem ninguém mo diz»


Mas voltemos A José Saramago:

Mas o viajante reconhece que «Não está bem em si: Afinal chegou a Rio de Onor, tanto o quis e agora nem parece contente. Certas coisas que muito se desejam, não é raro que nos deixem perdidos quando as obtemos.»

Também se encontra confuso. De Rio de Onor, para além do livro comovedor de que atrás fala, Saramago não indica o nome do autor do livro e apenas guarda a generosidade de Daniel São Romão e sua mulher que lhe deram pão e bagaço.

«Afinal de contas, onde está a fronteira? Como se chama este país, aqui? Ainda é Portugal? Já é Espanha? Ou é só Rio de Onor, e nada mais que isso?»

A Rio de Onor chamaram um dia uma das aldeias Maravilhas de Portugal. Ao lado há uma outra aldeia vizinha com o mesmo nome, mas em terras de Espanha. Contudo uma placa lembra:  "Mentalmente somos um só povo.".

E de novo António Borges Coelho:, pág.36 de A Revolução de 1383:


domingo, 19 de outubro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 «Era um homem generoso, bom e bonito, qualidades que, sem prejuízo de deverem ao seu “carácter” e “personalidade”, testemunhavam também a sua forma de experienciar a filosofia da história de que singularmente participou

José Neves no Público de 18 de Outubro

MUSEU DA RESISTÊNCIA E LIBERDADE

Permitam-me que fale em nome das vítimas, particularmente daquelas de que não sabemos o nome nem o grau de sofrimento. Milhares de presos do fascismo lusitano passaram por aqui. Por este Aljube. E por outros locais de tortura e de castigo: Rua do Heroísmo no Porto, Rua António Maria Cardoso em Lisboa, sedes da Pide em Coimbra e noutras cidades, forte de Caxias, fortaleza de Peniche, fortaleza de Angra do Heroísmo, Angola. Timor, Tarrafal. Muitos foram mortos nas prisões e na rua.

O tempo lança um véu de esquecimento sobre a vida dos homens e a dos espaços em que se moveram. E quem sempre viveu em liberdade tem dificuldade em entender que num tempo bem próximo se policiavam e reprimiam as palavras, as organizações e os movimentos dos cidadãos e se varriam as manifestações populares a tiro de metralhadora ou pela ação de homens, fardados e à paisana, de pistola em punho ou no galope dos cavalos com espadas nuas nas mãos.

O processo histórico não segue em linha reta num movimento ascensional até ao paraíso. Balança num vaivém ondular mas nunca no mesmo plano. E se as condições objetivas empurram as vontades para movimentos contraditórios, a memória é indispensável para não cairmos nos mesmo precipícios e para usarmos, tanto quanto nos for possível, a experiência do que correu melhor. Mestra da vida, como diziam os nossos renascentistas e geógrafos, a experiência é um presente carregado de memória.

Hoje, ao institucionalizar o Museu da Resistência no espaço do Aljube, a Câmara de Lisboa dá um alto exemplo de cidadania. O local escolhido está carregado de história antiga e contemporânea. Situa-se no coração da cidade. As suas paredes centenárias ombreiam com outros monumentos que preservam a memória de Lisboa e da nação: a Sé, o Paço a par de São Martinho onde foi morto o conde Andeiro, o mosteiro de Santo Elói aonde veio, em consagração, o corpo do Infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira, o mosteiro de São Vicente de Fora, o castelo de Lisboa. Aqui ao lado, na Sé, ouviram missa, atrás da cortina, com o rei, Pedro Álvares Cabral e Francisco de Almeida antes de navegarem para a Índia.

Ao Aljube chegavam os presos, depois de identificados e examinados nas instalações da Pide na Rua António Maria Cardoso. Aqui ficavam dias, semanas, meses, numa cela pouco maior do que o comprimento e a largura dum homem. Com o bailique levantado, apertado nas altas paredes e vigiado pelo ralo das duas portas, o preso podia dar um passo em frente e outro à retaguarda. O que fazer?

Será esta noite que o guarda aparece no ralo da porta com voz escarninha: prepare-se para ir à polícia! Alta madrugada, era lançado das escadas para dentro da ramona como um fardo. Resistirei durante seis meses de que se alimentavam os presos? Não era certamente do rancho miserável. Alimentavam-se quase só da memória. Trazia-lhe recordações, inimagináveis, da infância, da adolescência, da mulher ou das mulheres amadas, dos camaradas e amigos que queria defender para não caírem no seu mesmo inferno.

De uma das celas podia ver os pombos na rosácea da Sé. Da Sé chegavam os cânticos da Pascoa. Nas paredes corriam as letras sinais a dar ânimo ou notícias. Da rua, vinha o ruído metálico dos elétricos, até ao último, no silêncio da madrugada.

Depois da tortura, na Rua António Maria Cardoso, vencedores e vencidos regressavam às celas com marcas profundas no corpo e no espírito. Sabiam que o combate ainda não terminara, que viriam novas batalhas. E o prémio da vitória poderia ser bebido em anos e anos de sofrimento.

Presos houve que planearam e alcançaram a fuga. Das celas saiu uma noite o operário vidreiro José Moreira para não mais voltar. Atiraram-no do alto duma janela depois de o matarem na tortura. Antes, em liberdade, tinham-lhe perguntado: Se fores preso, que farás? - Farei o que puder.

As sociedades que não preservam a memória não acautelam o seu futuro. Hoje demos um passo decisivo. Bem hajam! Não, não apagarão a memória!

Depoimento do historiador António Borges Coelho no dia em que foi apresentado o projecto – Museu do Aljube-Resistência e Liberdade, que abrirá portas em 1974 ano em que o 25 de Abril faz 40 anos.

sábado, 18 de outubro de 2025

POSTAIS SEM SELO

E apesar de hoje trabalhar e me interrogar mais sobre o passado, vivo no presente. Porque é nele que temos de resolver os problemas, e a grande questão é a que está sempre a fugir. Cada dia, quando chega ao fim, é ele próprio passado.

António Borges Coelho

Legenda:António Borges Coelho, que esteve preso em Peniche, tem um poema, Sou Barco, em que conta:  ouço o fragor da vaga sempre a bater ao fundo, escrevo, leio, penso, passeio neste mundo de seis passos e o mar a bater ao fundo.

ANTÓNIO BORGES COELHO (1928-2025)


Ainda há dias estive a reler alguns dos textos de António Borges Coelho no seu Crónicas e Discursos, ao ponto de ter colocado, aqui, um parágrafo de uma das suas crónicas.

Deixou-nos agora, aos 97 anos.

Uma tristeza imensa.

Legenda: fotografia de Adriano Miranda no Público de 29 de Maio de 2015.

sábado, 11 de outubro de 2025

NESTE DIA


 

Neste Dia, não é bem neste dia, mas um dia qualquer em meados de Junho de 1957, António Borges Coelho, juntamente com outros camaradas, está preso pela PIDE, na Fortaleza de Peniche.

No seu livro, Crónicas e Discursos, António Borges Coelho conta um dos muitos episódios desse terrível, triste quotidiano:

«… todos os dias às cinco horas, desde que não estivessem de castigo, os presos tinham uma hora de convívio no refeitório. Deixavam-nos ler, jogar xadrez, escrever à família, mas conversa só por intermédio do guarda.

- Ó senhor guarda, posso perguntar…

- Pode. Mas nada de falar em política.»

Legenda: pormenor da capa, da autoria de Rui Godinho, de Crónicas e Discursos.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

AO MEU PAI, AOS 2626 PRESOS POLÍTICOS DO FORTE DE PENICHE. PELA MEMÓRIA FUTURA

Um dos nossos mais antigos repórteres fotográficos, o Leonardo Negrão, tem por hábito publicar, a preto e branco no Facebook, imagens dos camaradas de redação, atuais e antigos, em momentos de trabalho ou convívio, numa espécie de álbum digital a que chama “Para memória futura”.

Sabemos que as memórias são diferentes de pessoa para pessoa; o que uma acha relevante, outra pode nem ter notado. Sabemos também que um país tem tantas memórias como cada um dos seus cidadãos, e que há memórias coletivas de determinados grupos de pessoas que partilharam experiências comuns. Todas estas, incluindo as das fotografias do Leonardo, constituem a história e reforçam as raízes de uma nação.

Cada vez que há tentativas de desvalorizar, contrariar ou mesmo apagar algumas dessas memórias, quem as guarda reage, naturalmente, com alguma exaltação. Sejam as daqueles que, por exemplo, viveram na ditadura sem sobressaltos, sejam as dos que nunca viveram de outra forma nessa época senão em sobressalto. Ambas merecem respeito e compreensão, mesmo sabendo que todos fizeram escolhas.

Por tudo isto, quando se olha para os 2626 nomes de ex-presos políticos talhados numa pedra à entrada do Forte de Peniche, antiga cadeia do Estado Novo, transformado em Museu da Resistência e Liberdade, inaugurado neste sábado, e se pensa no que sofreu cada um deles e delas (há duas mulheres, cuja história é contada, nesta edição, pela nossa jornalista Alexandra Tavares-Teles) qualquer silêncio que se pretenda impor sobre as memórias destas pessoas, das suas famílias, é, tão-só, indigno.

Não digo isto porque entre esses 2626 nomes está o do meu pai, nem porque só quase adulta me descobri, em memórias escritas num diário, como a menina de 3 anos que acordava todos à noite com os seus gritos de pesadelos e obrigava todos os que com ela compartilhavam uma casa para filhos de presos políticos a procurar, antes de adormecer, “animais maus” debaixo da sua cama.

Nesse diário, escrito por uma mulher que se tornou depois pedagoga e estudiosa destes traumas dos filhos da ditadura, a interpretação é de que os tais bichos simbolizavam os PIDES que eu tinha visto a irem buscar o meu pai a casa.

Não sei. Sei que os pesadelos não me deixaram muitos anos, mas aprendi a enfrentá-los e a vencê-los. Acredito que outros filhos e pais de presos políticos também o tenham conseguido. A maioria dos nomes registados na tal pedra  à entrada da antiga cadeia - que alguém, que não respeita a memória, queria transformar em hotel - são de portugueses comuns, mas também há cerca de uma centena de estrangeiros, espanhóis principalmente, mas também angolanos, moçambicanos, goeses e até alemães. Todos ali estiveram encarcerados pelo seu pensamento, porque escolheram enfrentar os monstros.

É essa resistência que, individual ou coletiva, jamais deverá ser esquecida - mesmo se há quem, como é caso dos representantes da Iniciativa Liberal na manifestação do 25 de Abril na Avenida da Liberdade, não tenha encontrado nada mais apropriado como palavra de ordem, num dia em que se celebra o fim de um regime que perseguiu, torturou e matou comunistas (ou os que eram tidos como tal), e num local onde muitos dos sobreviventes dessa perseguição se reúnem a celebrar, que “comunismo nunca mais”.

Num país no qual uma lei aprovada em 1997 para permitir aos presos políticos da ditadura, e aos que viveram na clandestinidade, pudessem contabilizar esse tempo para efeitos de pensão nunca foi regulamentada, o mínimo de reparação devida a quem gastou anos, por vezes décadas da sua vida, nos calabouços do Estado Novo é respeito pela sua coragem e sacrifício.

Além da sua disruptiva e oportuna declaração sobre o dever de reparação histórica pelos desmandos do Império português, Marcelo Rebelo de Sousa parece ter sentido a necessidade de sublinhar que esse respeito é um fator essencial da preservação da memória coletiva do país.

O Presidente da República podia só ter estado na inauguração oficial do Museu da Resistência, proferido palavras de circunstância. Mas escolheu esperar a inauguração protagonizada pelas centenas de resistentes, ex-presos políticos e respetivas famílias, que decorreu mais tarde.

Quem o viu, de cravo vermelho ao peito, à porta do Forte de Peniche - a mesma porta por onde, 50 anos antes, saíram em liberdade os últimos detidos -, seguindo depois, anónimo (não quis câmaras), na massa anónima que entoava a Grândola Vila Morena, sentiu que também ele, humildemente, queria render homenagem a quem ali tanto sofreu. E cantou com eles a música histórica de Zeca Afonso. Para e pela a memória futura.

Valentina Marcelino, hoje, no Diário de Notícias

Legenda: fotografia da Ordem dos Arquitectos Secção Regional Sul.

O memorial, com 21 metros de largura, 4 metros de altura e com cerca de 40 toneladas, localiza-se na entrada interior da fortaleza e contém a inscrição de 66 mil carateres que escrevem os nomes de 2510 presos políticos.

No topo do memorial, está gravada uma frase do historiador e escritor António Borges Coelho, também ele preso político em Peniche:

"Nomeai um a um todos os nomes
Lutaram e resistiram
A liberdade guarda a sua memória nas muralhas desta fortaleza"

O memorial com o nome de todos os que por ali passaram, foi um projeto desenvolvido pelo Atelier AR4 Arquitetura e executado pela Frademetalúrgica.

sábado, 20 de abril de 2024

POSTAIS SEM SELO


Cada dia, quando chega ao fim, é ele próprio passado.

António Borges Coelho 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

         Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                  João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Tenho com o 25 de Abril um sentimento que transporto do futebol: a enorme alegria pelo golo que entrou na baliza, mas, depois o adversário empata, dá a volta ao jogo e saio do estádio, acabrunhado, direito a casa, com a vontade de  estilhaçar a baixela deixada pelos antepassados.

Nunca gostei de fardas, teria preferido que a ditadura caísse com um levantamento popular, que a sua queda não tivesse na sua origem um estilo corporativista de tropa, cansada de uma guerra, inútil e odienta.

Um levantamento popular como aquele que, exemplarmente António Borges Coelho, descreve em A Revolução de 1383.

Não foi por mero capricho que a ditadura, logo que este livro saíu, o colocou fora do mercado.

Digo-vos que não é com gosto, bem pelo contrário, que, hoje reproduzo, este passo da conversa que José Saramago manteve com João Céu e Silva, tal como estou bem certo, que foi com enorme tristeza que Saramago as proferiu:

«Não estou com saudosismo da revolução, ela foi o que foi, com os seus erros e disparates mas também com as suas grandes conquistas e, principalmente, as suas grandes ilusões – enormes ilusões – que alimentam uma parate substancial dos portugueses. Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos a democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha tem a democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transicção como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram naquela altura… Até o Melo Antunes disse “Esse tipo é parvo!” Por isso não me falem em 2 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer “25 de Abril sempre” mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.»

sábado, 30 de março de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


António Borges Coelho é um dos maiores historiadores portugueses.

O livrinho que hoje se publica em Olharas Capas tem 63 páginas, mas é um tratado histórico do que realmente somos. Antes e depois de Abril. O pequeno texto que acompanha o olhar sobre a capa, é sintomático.

Uma outra citação na pág. 31:

«Se os detentores de monopólios e latifúndios não excedem as duzentas famílias, ainda por cima assustadas com o 25 de Abril – dir-se-á -, onde está a dificuldade de as ilaquear no processo? Os monopólios não se reduzem às duzentas famílias. Preso na sua engrenagem agita-se todo um vasto mundo: administradores, funcionários superiores, alto e clero, gente estupidificada pela engrenagem da sociedade de consumo. Que os monopólios, esses sim, não têm rosto e muito menos humano. Têm siglas: SARL. Têm os cornos do bezerro de oiro que a ignorância, a superstição e a corrupção venera.»

Por fim, fiquemo-nos com as palavras finais do livrinho:

«A independência nacional não depende da bondade ou maldade dos homens. Só se conquista verdadeiramente depois dos trabalhadores tomarem o poder. Que, para eles, a nação não se opõe à existência das outras nações, não as encara como presa, como no conceito burguês, antes pressupõe a fraternidade das nações e dos homens, antes pressupõe um conceito novo, uma prática nova que Marx designou justamente como internacionalismo proletário.»

Ex-Militante do Partido Comunista, desfiliou-se em 1991, disse que sem os tempos de prisão e a preocupação pelas minorias, nunca teria sido historiador.

Aos 90 anos, no sossego da sua casa na Parede, está a escrever o 7º volume da sua História de Portugal.

Estava preso em Peniche aquando da fuga de Álvaro Cunhal a 3 de Janeiro de 1960. Não fugiu com os seus camaradas: «Não queria voltar à vida de funcionário do PC e tinha o meu projecto de escrever História, escrever para lá da História.»

Forte de Peniche.

O grasnar sempre presente das gaivotas, entre outos sons ligados ao mar, permitia aos presos imaginar a paisagem que os rodeava. Como se pode compreender através do poema «Sou Barco» de António Borges Coelho, musicado por Luís Cília e cantado por Adriano Correia de Oliveira: «ouço o fragor da vaga sempre a bater ao fundo, escrevo, leio, penso, passeio neste mundo de seis passos e o mar a bater ao fundo».

sexta-feira, 15 de abril de 2022

SOU BARCO

E este é o 2º LP que a ORFEU colocou na sua colecção «Super Budget».

ORFEU SUPER BUDGET 1018

Capa de Fernando Aroso

Este, e o anterior LPde Adriano que aqui apresentámos, mereceu que a Orfeu os intitulasse ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA.

Por querer dar nomes diferentes, para além da generalização do nome do cantor, para este texto escolhi a canção Sou Barco, poema de António Borges Coelho, escrito nas masmorras do Forte de Peniche. «tempo onde o tempo morre».

O poema, que tem música de Luís Cília, faz parte do livro Fortaleza.

Alinhamento do disco tirado da contra capa:



Acompanhamentos de Rui Pato.

terça-feira, 27 de abril de 2021

JOGOS INTERMINÁVEIS



Detemo-nos hoje no segundo episódio recortado do trabalho publicado por Patrícia Carvalho no Público.

Do que nesse trabalho se lê, ressalta sempre a solidão daqueles homens e a dura luta para a ultrapassar.

O grasnar sempre presente das gaivotas, entre outos sons ligados ao mar, permitia aos presos imaginar a paisagem que os rodeava.

António Borges Coelho, que também esteve preso em Peniche, tem um poema, Sou Barco em que diz:  ouço o fragor da vaga sempre a bater ao fundo, escrevo, leio, penso, passeio neste mundo de seis passos e o mar a bater ao fundo, poema para o qual Luís Cilia fez música, depois cantado pelo próprio Cilia e por Adriano Correia de Oliveira.

Adelino Pereira da Silva, o protagonista do episódio de hoje, foi condenado a 3 anos de prisão maior e medidas de segurança. Na cadeia de Peniche é colocado, isolado, na cela 4 do pavilhão B. É despojado de tudo, apenas tem a roupa que trazia vestida, mais os sapatos. Não tinha nada para escrever, nada para ler. Para se distrair, construiu dois jogos de xadrez com miolos de pão e jogava sozinho, horas a fio.

Jogos intermináveis.

sábado, 17 de abril de 2021

ATÉ LOGO

                                                                       À Isaura

 

Há oito meses dissemos:

- Até logo!

Era uma tarde fria de Novembro

uma tarde como qualquer outra

gente regressando a casa do trabalho

lancheiras malas rugas profundas no rosto.

 

Se houvesse malas de mão

para a saudade a desventura

não havia malas no mundo que chegassem…

 

Era uma tarde fria de Novembro.

Não sei se alguém sorriu

do beijo que trocámos.

- Até logo - disseste.

 

Depois passaram oito meses (1)

os meses mais compridos que tenho encontrado.

Que pensamentos levava comigo?

Sei que disseste «até logo»

E era como se levasse as tuas mãos

Abertas sobre o meu peito.

 

Pensava

que só nas despedidas breves

por horas

se dizia «até logo»

como a alguém que parte

«boa viagem»

ou ao nosso companheiro

«bom trabalho».

 

Mas já passaram oito meses

duzentos e quarenta dias

cinco mil e setecentas horas.

Porque disseste

«Até logo»?

 

Se eu não soubesse

aprenderia que na minha pátria

os namorados dizem «até logo»

e estão meses anos

por vezes não voltam mais.

 

Fecham-nos

atrás de grades de ferro

espancam-nos

matam-nos devagar

e não permitem que apareçam

«logo».

 

Amiga

o ódio que trago armazenado

destas noite de insónia e abandono

dou-o à luta.

Mas temos que sofrer

sofrer deveras.

Até que um dia

Os homens cantarão livres como os pássaros

os namorados beijarão sem pressa

e as palavras «até logo»

quererão dizer simplesmente

«até logo»


(1) Os oito meses transformaram-se em dez anos. Noutros casos, quinze, vinte anos e mais.

António Borges Coelho em Fortaleza

Legenda: Isaura Borges Coelho

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Na página 123 de Youkali é o País dos Nossos Desejos, pode ler-se:

«Helena levava o rádio ligado. Uma voz rouca de mulher entoava um poema de Roger Fernay.

É este o poema: 


É quase no fim do mundo,
meu barco vagabundo
errando ao sabor das ondas
levou-me lá um dia...
A ilha é pequenina
mas a fada que a habita
gentilmente nos convida
a irmos em visita!

Youkali, é o país dos nossos desejos
Youkali é a felicidade, é o prazer...
Youkali é a terra onde esquecemos os nossos cuidados...
é, na nossa noite, como o alvorecer,
a estrela que seguimos é Youkali!

Youkali é o respeito pelos votos trocados,
Youkali é o país dos amores partilhados,
é a esperança nos corações humanos,
a libertação, que amanhã esperamos!

Youkali, é o país dos nossos desejos
Youkali é a felicidade, é o prazer...
Mas é um sonho, uma loucura,
pois Youkali, não existe nenhuma!

E a vida prossegue,
estafante, quotidiana,
mas a pobre alma humana,
procurando o olvido,
tem, p´ra deixar a terra,
de encontrar o mistério
onde os sonhos residem
em alguma Youkali...

Youkali, é o país dos nossos desejos
Youkali é a felicidade, é o prazer...
Youkali é a terra onde esquecemos os nossos cuidados...
é, na nossa noite, como o alvorecer,
a estrela que seguimos é Youkali!

Youkali é o respeito pelos votos trocados,
Youkali é o país dos amores partilhados,
é a esperança nos corações humanos,
a libertação, que amanhã esperamos!

Youkali, é o país dos nossos desejos
Youkali é a felicidade, é o prazer...
Mas é um sonho, uma loucura,
pois Youkali, não existe nenhuma!...

Em Youkali há histórias de amor entrelaçadas com histórias de um povo em busca da liberdade.

«Prepare-se para ir à polícia! - O guarda arregalava os olhos postos para o preso, despertado no meio do sono, e abria-lhe as portas duplas da cela. - Vais aprender a cantar!

- Não presto declarações a esta polícia.

- Queres dormir é só dizeres um nome.

- Não falo.

Kurt  Weill fez, em 1934, a música para Youkali é o País dos Nossos Desejos, originalmente chamou-lhe Tango Habanera. O poema é de Roger Fernay.

Interpretações do Trio Belli-Fisher-Rimmer, Teresa Stratos e Ute Lemper.





                                          

Legenda: contra capa de Youkali é o País dos Nossos Desejos, desenho de Rogério Ribeiro.

sábado, 9 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


E apesar de hoje trabalhar e me interrogar mais sobre o passado, vivo no presente. Porque é nele que temos de resolver os problemas, e a grande questão é a que está sempre a fugir. Cada dia, quando chega ao fim, é ele próprio passado.


Legenda: fotografia do semanário Sol.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

OS AMIGOS DE MANUEL COSTA E SILVA


Os Meus Amigos é um livro-homenagem a Manuel Costa e Silva.
O livro é composto por fotografias de amigos de Manuel Costa e Silva e para esses amigos, o editor Nelson de Matos, arranjou alguém que desses amigos falasse.
São estes os amigos de Manuel Costa e Silva que aparecem no livro:

Fernando Lopes – texto de João César Monteiro
Maria João Seixas – texto de Maria Belo
José Gomes Ferreira – texto de Fernando Lopes Graça
Lia Gama – texto de Baptista-Bastos
Luandino Vieira – texto de Augusto Abelaira
João Hogan – texto de Virgílio Domingues
Eugénio de Andrade – texto de Eduardo Prado Coelho
Carlos de Oliveira – texto de Salvato Teles de Menezes
Rogério Ribeiro – Alexandre Cabral
Sérgio Niza – José Manuel C. Mendes
Maria do Céu Guerra – Vitorino d’Almeida
José Saramago – Carlos Eurico da Costa
João Abel Manta – José Carlos de Vasconcelos
Ilda Moreira – Luísa Dacosta
Ricardo Pais – Maria Velho da Costa
António Borges Coelho – José Saramago
Maria Emília Correia – Miguel Serras Pereira
Frederico George – Daciano Costa
José Cardoso Pires – Maria Lúcia Lepecki
Vitorino – Maria do Céu Guerra
António Ole – David Mestre
Zita Duarte – Fernando Lopes
Pedro Bessa Múrias – pelo próprio
Júlio Pomar – pelo próprio
Vespeira – António Ramos Rosa
Mario Vargas Llosa – Irineu Garcia
Virgílio Domingues – Rui Mário Gonçalves
João Cutileiro – Sílvia Chicó
Aníbal Falcato Alves – António Simões
Eduardo Geada – Artur Semedo
Rosalina Gomes d’Almeida – Sérgio Niza
José Bizarro – Mário Barradas

Legenda. Fotografia de Manuel Costa e Silva tirada de Os Meus Amigos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

MUSEU DA RESISTÊNCIA E LIBERDADE


Permitam-me que fale em nome das vítimas, particularmente daquelas de que não sabemos o nome nem o grau de sofrimento. Milhares de presos do fascismo lusitano passaram por aqui. Por este Aljube. E por outros locais de tortura e de castigo: Rua do Heroísmo no Porto, Rua António Maria Cardoso em Lisboa, sedes da Pide em Coimbra e noutras cidades, forte de Caxias, fortaleza de Peniche, fortaleza de Angra do Heroísmo, Angola. Timor, Tarrafal. Muitos foram mortos nas prisões e na rua.
O tempo lança um véu de esquecimento sobre a vida dos homens e a dos espaços em que se moveram. E quem sempre viveu em liberdade tem dificuldade em entender que num tempo bem próximo se policiavam e reprimiam as palavras, as organizações e os movimentos dos cidadãos e se varriam as manifestações populares a tiro de metralhadora ou pela ação de homens, fardados e à paisana, de pistola em punho ou no galope dos cavalos com espadas nuas nas mãos.

O processo histórico não segue em linha reta num movimento ascensional até ao paraíso. Balança num vaivém ondular mas nunca no mesmo plano. E se as condições objetivas empurram as vontades para movimentos contraditórios, a memória é indispensável para não cairmos nos mesmo precipícios e para usarmos, tanto quanto nos for possível, a experiência do que correu melhor. Mestra da vida, como diziam os nossos renascentistas e geógrafos, a experiência é um presente carregado de memória.

Hoje, ao institucionalizar o Museu da Resistência no espaço do Aljube, a Câmara de Lisboa dá um alto exemplo de cidadania. O local escolhido está carregado de história antiga e contemporânea. Situa-se no coração da cidade. As suas paredes centenárias ombreiam com outros monumentos que preservam a memória de Lisboa e da nação: a Sé, o Paço a par de São Martinho onde foi morto o conde Andeiro, o mosteiro de Santo Elói aonde veio, em consagração, o corpo do Infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira, o mosteiro de São Vicente de Fora, o castelo de Lisboa. Aqui ao lado, na Sé, ouviram missa, atrás da cortina, com o rei, Pedro Álvares Cabral e Francisco de Almeida antes de navegarem para a Índia.

Ao Aljube chegavam os presos, depois de identificados e examinados nas instalações da Pide na Rua António Maria Cardoso. Aqui ficavam dias, semanas, meses, numa cela pouco maior do que o comprimento e a largura dum homem. Com o bailique levantado, apertado nas altas paredes e vigiado pelo ralo das duas portas, o preso podia dar um passo em frente e outro à retaguarda. O que fazer?

Será esta noite que o guarda aparece no ralo da porta com voz escarninha: prepare-se para ir à polícia! Alta madrugada, era lançado das escadas para dentro da ramona como um fardo. Resistirei
?
Durante seis meses de que se alimentavam os presos? Não era certamente do rancho miserável. Alimentavam-se quase só da memória. Trazia-lhe recordações, inimagináveis, da infância, da adolescência, da mulher ou das mulheres amadas, dos camaradas e amigos que queria defender para não caírem no seu mesmo inferno.
De uma das celas podia ver os pombos na rosácea da Sé. Da Sé chegavam os cânticos da Pascoa. Nas paredes corriam as letras sinais a dar ânimo ou notícias. Da rua, vinha o ruído metálico dos elétricos, até ao último, no silêncio da madrugada.
Depois da tortura, na Rua António Maria Cardoso, vencedores e vencidos regressavam às celas com marcas profundas no corpo e no espírito. Sabiam que o combate ainda não terminara, que viriam novas batalhas. E o prémio da vitória poderia ser bebido em anos e anos de sofrimento.

Presos houve que planearam e alcançaram a fuga. Das celas saiu uma noite o operário vidreiro José Moreira para não mais voltar. Atiraram-no do alto duma janela depois de o matarem na tortura. Antes, em liberdade, tinham-lhe perguntado: Se fores preso, que farás? - Farei o que puder.

As sociedades que não preservam a memória não acautelam o seu futuro. Hoje demos um passo decisivo. Bem hajam! Não, não apagarão a memória!

Depoimento do historiador António Borges Coelho no dia em que foi apresentado o projecto – Museu do Aljube-Resistência e Liberdade, que abrirá portas em 1974 ano em que o 25 de Abril faz 40 anos.


Legenda: imagem do Correio da Manhã.