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terça-feira, 6 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Tear da Casa

Marta Cristina de Araújo
Com um desenho de Ângelo de Sousa
Colecção Alegria Breve nº 5
O Oiro do Dia, Porto, Novembro de 1981

A morte construi-se rápida reluzente por detrás dos taipais. Nunca
me disseram      podia ter sabido      a casa dantes habitada fora destruída
e dela só haviam aproveitado os materiais ainda resistentes.       O granito
Certas madeiras as mais caras.      Outra dos caixilhos queimaram-na os
operários no aquecer das suas comidas.     Devem ter passado dois
invernos depois do vazio e certamente se juntavam muitas vezes durante
os intervalos ou pequenas fugas.       Falariam de quê?      De como decorria
a construção da morte     dos pormenores tanto-fecho-nas-portas         do
pequeno salário      quem sabe se ainda recordavam alguns dos antigos
habitantes e diziam obrigaram-no-a-mudar-foi-para-longe-as rendas-têm-
-subido-no-centro-da-cidade.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Peso da Sombra

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Desenho: Ângelo de Sousa
Editora Limiar, Porto, Outubro de 1982

Trabalho com a frágil e amarga
matéria do ar
e sei uma canção para enganar a morte –
assim errando vou a caminho do mar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poemas e Fragmentos de Safo

Tradução de Eugénio de Andrade
Desenho de Ângelo de Sousa
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Dezembro de 1974

É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Religião do Girassol

Antologia organizada por Jorge Sousa Braga
Ilustrações: Albuquerque Mendes, Pedro Tudela, Ângelo de Sousa
                     Luísa Gonçalves, Júlio Resende, Fernando Pinto Coelho, 
                      Cristina Valadas
Capa: Girassol Peruano de Giovani Neri
Colecção Documenta Poética nº 54
Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2000

Apesar de o tempo o ter desgastado
continua contando os passos do sol,
perseguindo um doce país doirado,
o girassol.

O mesmo aonde erguendo-se do túmulo
uma virgem branca como a neve
e um jovem consumido pelo desejo
aspiram que os leve.

William Blake

sexta-feira, 1 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Longe do Mundo

Jorge Fallorca
Desenhos: Ângelo de Sousa
Capa: Paulo da Costa Domingos
Frenesi, Lisboa, Maio de 2004

O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PAINEL DE LIBERDADE


Naquele primeiro 10 de Junho em liberdade, que não mais foi Dia da Raça, uma enorme festa transformou o Mercado da Primavera, em Lisboa, num grito de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Nesse espaço 48 artistas plásticos, (tantos como os anos de ditadura) das mais variadas tendências, pintaram um enorme painel colectivo ( 24 metros de comprimento por 4,5 de altura)  em que cada um, à sua livre maneira, pintou as suas cores da liberdade.

A parede dividida em 48 quadrados, piso térreo e dois andaimes marcando o primeiro e segundo pisos.

O calor era muito e alguns artistas trabalharam em tronco nu.

Assim ficaram distribuídos os 48 quadrados:

 1 – Margarida Tengarrinha
 2 – Sá Nogueira
 3 – João Abel manta
 4 – Júlio Pereira
 5 – Henrique Manuel
 6 – Palolo
 7 – Artur Rosa
 8 – Ângelo de Sousa
 9 – Nuno Sam-Payo
10 – Lima de carvalho
11 – Teresa Magalhães
12 – Guilherme Parente
13 – Fátima Vaz
14 – Manuel Peres
15 – René Bartholo
16 – João Vieira
17 – Jorge Martins
18 – Querubim Lapa
19 – Manuel baptista
20 – Eduardo Nery
21 – Charrua
22 – Helena Almeida
23 – Costa Pinheiro
24 – Jorge Pinheiro


25 – Júlio Pomar
26 – David Evans
27 – Alice Jorge
28 – Emília Nadal
29 – Fernando Azevedo
30 – Vespeira
31 – Rogério Ribeiro
32 – José Escada
33 – Vítor Palla
34 – Tomás Mateus
35 – António Domingues
36 – Menez
37 – António Sena
38 – Justino Alves
39 – Eurico
40 – Sérgio Pombo
41 – João Moniz Pereira
42 – Nikias Skapinakis
43 – Vítor Fontes
44 – Jorge Vieira
45 – Ana Vieira
46 – Maria Velez
47 – António Mendes
48 – Carlos Calvet

Fiquei sempre com a ideia de que não foi dada a esta obra colectiva, expressão do reconhecimento e da solidariedade dos Artistas Democráticos para com o Movimento da Forças Armadas, o devido valor.

Houve mesmo  quem lhe chamasse uma manifestação oportunista.

O painel acabou por ficar armazenado em instalações situadas perto do local onde foi pintado.

Em 1981, o painel seria totalmente destruído após um estranho incêndio que destruiu todo o armazém-

Legenda
- pormenor do painel em fotografia copiada de Portugal Anos 70 de Joaquim
  Vieira.
- Júlio Pomar pintando o painel fotografia em HelenaVaz Silva com Júlio Pomar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


8 a 14 de Junho

FOI DETIDO Saldanha Sanches, director do Luta Popular, órgão central do MRPP.
Dezenas de militantes desfilaram da Praça do Chile até à Praça do Areeiro, gritando slogans: Abaixo a nova Pide e Liberdade para Saldanha Sanches.

Segundo Maria José Morgado, que presenciou a prisão levada a cabo por polícias à paisana, esta prisão visou sobretudo atingir o MRPP e o “Luta Popular” e está integrada num conjunto de medidas repressivas contra os marxistas-leninistas-maoistas”. 

“É uma medida da coligação burguesa no poder contra a classe operária e a sua vanguarda
organizada.

NO DIA !0 DE JUNHO DE 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural. Entre muitos outros pintores , participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro. MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:
Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.



Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxe.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturada.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor que fazia de Cardeal Cerejeira o artista que proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor presidente do conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.


Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…


Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

OS ARMADORES da pesca da sardinha afirmam que não suportam as exigências dos pescadores.

FORAM INTERROMPIDAS , em Argel, as negociações com o P.A.I.G.C.
Mário Soares:

É preciso fazer notar, neste momento, que incidentes desta ordem são perfeitamente comuns e até direi, quase naturais Há dificuldades da nossa parte, há dificuldades da parte deles.

PROSSEGUE  a greve na Timex.

O RECONHECIMENTO do direito à independência por Portugal é reclamado  pelo MPLA como condição essencial para o cessar fogo.

Sá CARNEIRO numa entrevista a um jornal do Brasil afirmou que o Governo Provisório é uma verdadeira equipa.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas daMemória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa