Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Tamen Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Tamen Poemas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de abril de 2026

ENSONETO

Entretanto, meu filho, é vinho tinto,

erosão persistida, abraço baço.

Lumes novos, quem é que os inventa

melhor do que o calor que nós nos damos?

 

Às uvas pois. O mais é uma cadeira

e o olhar do céu com chuva ou não,

enquanto as aves fogem e nós as imitamos

quase sem dor nem arte - só sentidos.

 

Assim sossega, assim verdeja e está,

eructa e vê, olhando à transparência,

um céu assim mais lento.

 

Só depois te levantas e contigo

vai certeza nenhuma, só viver

outra vez, amanhã, a vida mesma.

 

Pedro Tamen 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,

descer o rio verde atrás de ti,

abrir os braços longos desde os sete

anos sob a latada ao pé do largo,

guardar o cheiro a figos vistos lá,

a olho nu, ao pé, ao pé de ti,

parar a beber água numa fonte,

um acaso perdido no caminho

onde os vimes me roçam a memória

e te anunciam mãos e te perfazem;

como se o sino à hora de tocar

já fosse o tempo todo badalado,

e a tua boca se abrisse atrás do tojo,

e abaixo dos calções as pernas nuas

se rasgassem só para o pequeno sangue,

tal o pequeno preço que me pedes.

Atrás da curva estavas, és, serias,

nos muros de granito, nas amoras.

Amar-te era lembrança e profecias,

uma porta já feita para abrir,

e encontrar o lar ou música lavada

onde, se nasces, vives, duras, moras

- meu nome exacto e pão

no chão das alegrias.

 

Pedro Tamen

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

POEMA PARA TODOS OS DIAS

E aquele dia que viemos à cidade

correndo tanto que o vento te puxava pelo vestido?

Não era meia-noite nem meio-dia,

eram todas as horas do meio.

Lembras-te de como nos perdemos pelas ruas?

Andámos a pé, brincando com os passos como os meninos   pobres.

Os homens saíram das tabernas para nos verem passar,

demos todos as mãos, fizemos uma roda

e acabámos a rir, ajoelhados, naquela praça onde havia uma igreja.                              

Depois gritámos adeus e perdemo-nos de novo.

Fomos ter diante de uma estátua e eu desenhei no mármore

uns grandes bigodes de morrer de riso.

Demos o braço, corremos outra vez e estávamos não sei onde,

certos de que o Sangue nos tinha baptizado.

Pedro Tamen de Poema Para Todos os Dias em Tábua das Matérias

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Herodes

                       Para Miguel Viqueira

 

Gritam, mijam, cheiram a leite

azedo. Andam por aí

pelos colos das mães, montados

em burros poeirentos. E há um

que aqueles pretos dizem que há-de um dia

sentar no meu coxim o cu borrado.

Não sabem nada, uns e outros,

soltam vagidos que ninguém entende.

Dou-lhes na mona a uns

e os outros que passeiem.

Detesto gente parva.

 

Pedro Tamén em Natal… Natais

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

NUM OUTRO MAR QUE DESSES MORRERIA

Num outro mar que desses morreria
e não invejo, pois, a só migalha
que a mão que tens mais leve certo dia
a outros pelo vento cega e espalha.
 
A mim, amor, só cabe, qual convém
para o centro da terra, teu miolo;
e, mais, do que isso, a tua chaga-mãe,
a perfeita descida do teu colo,
 
o lado fora, e nele o imo expresso
nos acidentes líricos do leito
em que, de ter-te, só me tenho e esqueço.
 
Em nada tenho tudo, dito e feito,
e nisso tens a estrela que mereço
brilhando perto, ao fundo do teu peito.

Pedro Tamen de Os Quarenta e Dois Sonetos em Tábua das Matéria

 


quarta-feira, 10 de setembro de 2025

ADIRO E REMEMORO

Adiro e rememoro, calo e vejo

o que não é de noite nem de dia:

outro mar interior que se esvazia. 

Arrumo e já persisto, corro e beijo

 

a raiz de somenos, de entretanto, 

que era ou que não era mais ao lado 

de um tempo ferido mais que de passado. 

Ao sair de pequenos, por enquanto, 

 

olhares de luzes, moitas, agonias, 

encontro mãos abertas, correnteza 

de sumos, e a pedra em que me vias: 

 

veludo teu de flores, de flor firmeza, 

tua casa de mato e cantarias, 

janela entreaberta para a mesa.

 

Pedro Tamen de Escrito de Memória em Tábua das Matérias

sexta-feira, 18 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


Princípio de Sol

Pedro Tamen

Círculo de Leitores, Lisboa, 1982

 

Nem esquece o que tenho

nem no que vens

se esfuma:

das ilhas continentes donde venho

em cada dia tens

ilustrações – é uma

apenas só viagem nossa,

quer siga eu aonde eu possa

ter memória de ti,

quer venhas tu de frente,

andando simplesmente

até aqui.


E assim dos nossos pés se fica em brasa

o chão do corredor da nossa casa.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 De Os Verdes Anos, filme de Paulo Rocha, com argumento de Nuno Bragança e música de Carlos Paredes, poema de Pedro Tamen, diz Jorge Silva Melo em Século Passado, memórias suas, que viu o filme no São Luiz, tinha quinze anos e nenhum outro filme  «tenha rasgado mais o céu possível do que este pequeno filme juvenil, inseguro tímido e lírico de Paulo Rocha, filme feito aos vinte e cinco anos (o Paulo nasceu em Dezembro de 1936, o filme traz a data de 1963).

Com que então, era possível? Filmar os locais que eu conhecia, filmar desencontros de amor pelo entardecer do campo grande, filmar as barracas que se construíam em cima da Avenida do Aeroporto, até perdermos a vista noutras Chelas e, agora, o parque do Rock in Rio? Filmar Floresta do Ginjal, aquela escada íngreme forrada a conchas? Filmar pessoas, como a criada eu andava pela casa dos meus pais chorando com os folhetins da rádio e aos domingos de namoro? E ver nisto, inscrever na paisagem que todos os dias eu via (a esquina do Vává…) a violência daquele final, a morte da rapariga, o rapaz que desafia a cidade?

Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.

«É o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saída, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda», diz João Bénard da Costa, e ninguém sabe mais do que ele.

E o Paredes continua a tocar. Até ao sabugo, como o Paulo Rocha.

O Poema Possível

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(Pedro Tamem)




segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
— meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.

Pedro Tamen de Escrito de Memória em Tábua das Matérias

terça-feira, 9 de abril de 2024

NÃO TENHO PARA TI QUOTIDIANO

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.


Pedro Tamen de Daniel na Cova dos Leões em Tábua das Matérias

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


As Palavras da Tribo

Antologia pessoal de poemas dos autores

Fernando Guimarães

Mário Cláudio

Nuno Júdice

Pedro Tamen

Desenhos de José Guimarães

Quetzal, Lisboa 1985

 

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

 

Poema de Pedro Tamen.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

ODE

Agenda, meu desforço,
subtil celeridade com que esqueço
os termos de ser moço
nos tempos que feneço.

De que me vingas tu, senão
de não ser de compras e de festas
mas de ir comprando pão?
Agenda que me emprestas

mas não me dás nem vendes,
que me vestes gravatas e coletes,
me afagas, me consolas, me defendes.
Fecho-me a sete chaves nas retretes

e assento em ti palavras que desvivo
no rio de que rio aguadamente.
E assim me liberto se me esquivo
Habilidoso e rente.

Pedro Tamen em Tábua das Matérias

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O MAR É LONGE

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.


Pedro Tamen

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

DISSESTE

Disseste: o sol nasceu.

Foi verdadeiramente então que o sol nasceu

e que nos habituámos todos a dizer

que o sol nasceu.

Às vezes pensamos que acontece várias vezes

mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver

o grande círculo azul em cujo centro

tu dizes eternamente: o sol nasceu.

 

Pedro Tamen 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

CHAVE, KLEE

És, como no Klee
a máquina de chilrear
a liquidez perfeita dos passos,
a música dos surdos.

Que húmido pilar
sustenta, amor, o paço
em que me acoito e durmo
que não seja teu canto

ao canto do meu dia?
És, como no Klee,
a virgem matemática
que tudo me desvenda

e sem que eu faça contas
calculas somas, sumos,
entre o covo das ondas
e azul astronomia.

És, como no mundo,
a pintura delida
de que sobrou apenas
um osso branco e flauta.

Pedro Tamen

quarta-feira, 18 de maio de 2022

IVAN ILITCH

Não perguntei ao agonizante que paisagem

via para além dos pés da cama

que era aquilo dos rostos inquietos

se de verdade inquietos

aos pés da cama há tantos dia     ai

há tantos     tantos dias

espreitando     espreitando de olhos molhadinhos

a passa passividade     a quase bem passada

posição deitada mas respirante ainda

 

Não perguntei se do outro lado

por cima ou   bem melhor     atrás

da vazia cabeça   alguma coisa ardia

sem nada anunciar

tudo pronunciando

 

Pedro Tamen

sexta-feira, 30 de julho de 2021

PRIMEIRO DIA SEM PEDRO TAMEN


Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
— meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.


Pedro Tamen de Escrito de Memória em Tábua das Matérias

quinta-feira, 29 de julho de 2021

PEDRO TAMEN (1934-2021)


Morreu Pedro Tamen.

Um poeta de mão cheia, um Príncipe.

É uma grande perda, mas ficamos com o agasalho dos seus versos, das suas traduções, do enorme exemplo que nos deixou como pessoa e como intelectual,

sempre a fugir dos holofotes, das parangonas de jornais e revistas.

 

Chave, Klee

 

És, como Klee

a máquina de chilrear

a liquidez perfeita dos passos,

a música dos surdos.

 

Que húmido pilar

sustenta, amor, o paço

em que me acoito e durmo

que não seja teu canto

 

ao canto do meu dia?

És, como Klee,

a virgem matemática

que tudo me desvenda

 

e sem que eu faça contas

calculas somas, sumos,

entre o covo das ondas

e azul astronomia.

 

És, como no mundo,

a pintura delida

de que sobrou apenas

um osso branco e flauta.

 

Pedro Tamen em Rosado Mundo


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

HERODES


                 Para Miguel Viqueira

Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.
Detesto gente parva.

Pedro Tamén em Natal… Natais

domingo, 29 de setembro de 2019

NAQUELE TEMPO


Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.
Quando nascia o sol todas as pessoas viam
e os homens eram crianças para além dos montes.
Era uma planície, grande como convém a todas as planícies
E plana porque tudo estava certo.
Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais às ervas e às flores.

Tu,
tão perfeita que era impossível não seres,
tão erguida como um riso de andorinha,
tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,
e não havia motivos nem razões porque sabíamos tudo.
A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima
e ao deitarmo-nos na terra como folhas da mesma planta,
gratos, reduzidos, conscientes.
Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos vinham sentar-se no rebordo
e riam como nós pequenas gargalhadas.
Eu cantava canções mais belas do que não tendo palavras
e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos exactamente como a todos os sons.

Pedro Tamen de Os Dias em Tábua das Matérias