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quarta-feira, 19 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


A Casa dos Motas          

Manuel Ferreira

Capa: José Araújo

Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1977

Tinha de resolver a questão dos trabalhadores despedidos por causa dos tais papéis. Que talvez se tivesse precipitado. Sempre fora a opinião da mulher. A culpa, em grande parte, foi do primo, esse tal que andava lá por Lisboa na grande roda política, e o mandou inscrever na União Nacional. Mas talvez o primo tivesse razão. Os tais papéis agora apreciam com frequência, por toda a parte. Falavam da fome, do desemprego, das greves, da necessidade de os operários se unirem e reivindicarem junto dos patrões. Mota pensaca: onde é que isto vai parar?

Dois dias depois alguma coisa mais aconteceria. Ali em Monte reala, na Marinha Grande, em Leiria e pelos arredores. Tinham levado muitos. E entre eles o Rosa, o Teixeira, o Manadas, o Caldo e até a Francisca Macha.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 A Aventura Crioula

Manuel Ferreira

Prefácio: Baltasar Lopes

Capa: Espiga Pinto

Colecção Poesia e Ensaio nº 14

Editora Ulisseia, Lisboa, Abril de 1967

A pergunta hoje tem perfeito cabimento: formou-se ou não ali um grupo de características específicas? E esse grupo de características diferenciadas de que factores nutre a sua originalidade? De africanos ou de europeus?

Há quem não tenha hesitado e declare ser o Cabo-Verdiano fundamentalmente um africano, sem nunca ter perdido «o seu fetichismo, os seus ritos, as suas danças, a sua magia, os costumes livres». E que o «Nero cabo-verdiano permaneceu o negro bon-enfant que conhecemos em África.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Hora Di Bai

Manuel Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 52/53
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Naquele tempo de fome a ilha de São Vicente era o porto de salvamento.
Empurrados do interior, os povos vieram arrastando-se para o litoral, até junto do mar, na esperança de uma mandioquinha, na ânsia de um caldinho de peixe – que luxo! – de uma cana para chupar, ou até de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrastados nos ventos da miséria. Nem a sopa da assistência evitava que a carroça da Câmara, no alvor da madrugada, levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados e frios. Nem a sopa da assistência o evitava, bem se pode dizer, pois as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.
Um pesadelo perpassava pelas localidades e casalejos ribeirinhos, de ponta a ponta, e galgava pela amarelidão da terra nua e requeimada.
Dondê aquelas bananeiras verdinhas de cachos pendidos em arco ao rés-do-chão? Dondê aqueles pés de papaia carregadinhos, e aquelas batatas-doces, e aquela mandioca, aquele nhame, e aquelas laranjas, a água a crescer na boca!, e aquele milho cobrindo os sequeiros e os regadios, dando a fartura da gente e dos animais?! Nem ervas, nem uma raiz a despontar, nem um rebento a asseverar que a vida não era promessa vã, nessas ilhas desgarradas no meio do mar!
Dondê aquelas casas, o movimento da tardinha? Dondê aquele falatório dos homens, os chamos das mães pelos filhos que andavam correndo pelas ribeiras? Gente, donde?! Lá no interior, casas intactas, nem uma só! Fantasmas solitários na paisagem descarnada.
A maldição varrera a ilha. A maldição da estiagem. A maldição da fome.
Nada bulia a não ser os revérberos do Sol na distância.
Que silêncio!
Nem pio de ave. Nem grito de dor ou ciclo de tristeza feria tamanha solidão. Até a morna, drama feito canção, se diluíra no silêncio da dor. Os sobreviventes dessa fúria ciclónica – que eram? Destroços de angústia, restos de vida absurda e degradada, onde remotas esperanças, desencantadas dum estado de morbidez, se desprendiam teimosamente lá do fundo do inconsciente, na terrível ânsia de viver.
Fogo, tristeza, abandono de fim-de-mundo. Só, na terra nua e bem amada!