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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Os Homens Alegres

Robert Louis Stevenson

Tradução: Helena Barbas

Colecção: Mares nº 59

Expo 98, Lisboa Agosto de 1997

Estava uma manhã maravilhosa de finais de Julho quando pela última vez me pus para o caminho de Aros. Na noite anterior um barco tinha-me largado em terra de Grisapol. Tomei o pequeno-almoço que a modesta estalagem me permitiu e, deixando ali toda a bagagem até que a pudesse vir recolher por mar, ataquei pelo promontório de coração alegre.

Estava longe de ser um nativo destas partes, originário, como era, do tronco puro das terras baixas da Escócia. Mas um tio meu, Gordon Darnaway, depois de uma juventude pobre e rude, e de alguns anos no mar, tinha casado com uma jovem rapariga das ilhas. Mary Maclean, assim se chamava ela, a última representante da sua família. E quando ela morreu a dar à luz uma filha, Aros, a quinta cercada pelo mar, tinha ficado na posse dele. Não lhe trouxe nada alem de meios de subsistência, como eu bem sabia, mas era um homem a quem a má fortuna perseguira. Embaraçado como estava com uma criança pequena, receava voltar a arriscar-se nas aventuras da vida, e conservava-se em Aros, a roer as unhas contra o destino. Os anos passaram-lhe sobre a cabeça naquela solidão, e não lhe trouxeram nem auxílio, nem contentamento. Entretanto a nossa família ia morrendo na planície. Há pouca sorte para qualquer um daquela raça, e talvez o meu pai tivesse sido o mais afortunado de todos porque, não só foi um dos últimos a morrer, mas deixou um filho ao seu nome e um pouco de dinheiro para o sustentar. Eu era estudante na Universidade de Edimburgo, vivendo suficientemente bem às minhas custas, mas sem amigos e parentes. Quando algumas notícias acerca da minha pessoa fizeram caminho até ao rio Gordon, no Ross Grisapol, ele – que era um homem que considerava o sangue mais espesso que a água – escreveu-me no dia em que soube da minha existência, e instou-me a que considerasse Aros como o meu lar. Foi assim que acabei a passar as minhas férias naquela parte do país, tão distante de todo o convívio e conforto entre o bacalhau e as galinhas d’água escocesas. E era para isso que agora, depois de ter acabado as aulas, regressava com um coração tão leve nesse dia de Julho.


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Um amigo é um presente que damos a nós próprios.

Robert Louis Stevenson

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

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Reprodução das primeiras páginas de A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson.

Um livro encantador.

O meu imaginário está povoado de livros da infância e adolescència: Emílio Salgari, Júlio Verne, Alexandre Dumas, Walter Scott, Jack London, Robert Louis Stevenson, Mark Twain, tantos outros, Mas, com outros autores, devo muito a esta Biblioteca dos Rapazes da Portugália Editora.

Seguindo os obsoletos princípios da ditadura, rapazes de um lado, raparigas de outro, terá sido essa a razão de haver a Biblioteca das Raparigas, também da Portugália Editora. Uma rapariga não podia ler A Ilha do Tesouro? Os rapazes não podiam ler As Férias da Condessa de Ségur?

Só aquelas mentalidades velhas e doentias sabiam o porquê.

OLHAR AS CAPAS



A Ilha do Tesouro

Robert Louis Stevenson
Tradução. Alsácia Fontes Machado
Capa: Júlio Gil
Desenhos: Álvaro Duarte de Almeida
Biblioteca dos Rapazes nº 25
Portugália Editora, Lisboa s/d

O castelão Trelawney, o Dr. Livesey e outros senhores pediram-me que escrevesse tudo o que eu sabia sobre a Ilha do Tesouro, desde o princípio ao fim, sem esquecer nada, e apenas deixo em claro a localização da ilha porque ela guarda um tesouro que ainda não foi retirado. Peguei, pois, na pena no ano de graça de 17… e recuei até ao tempo em que meu pai tinha a estalagem do «Almirante Benbow» e em que o velho marinheiro, com a sua cicatriz duma sabrada, se instalou pela primeira vez sob o nosso tecto.
Lembro-me dele como se fosse ontem e vejo-o transpondo a porta da estalagem e trazendo atrás de si a sua mala de marujo. Era um homem alto, forte, pesado, de cor trigueira; uma alcatroada trança de cabelo caía-lhe sobre o casacão azul, cheio de nódoas; as mãos eram calosas, cobertas de cicatrizes, e as unhas enegrecidas e partidas; e a cicatriz da cutilada que lhe atravessava uma face, punha nela um traço branco e lívido. Vejo-o correndo a olhar em torno da enseada, assobiando em surdina, como ele costumava fazer, e depois trauteando essa velha canção que cantas vezes cantava:

Quinze homens na mala do morto…
Io-ho-ho, e uma garrafa de rum!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

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Gosto muito da escrita de Mário de Carvalho.

 Nunca conversei com ele e encontro-o muitas vezes no Metropolitano, nas ruas que circundam aquela onde moro, em tempos, nas sessões de autógrafos da Festa do Avante ou da Feita do Livro, em outros tempos, às quintas-feiras, ele almoçava, com advogados amigos, num tasco para os lados das avenidas ditas novas, e, volta e meia também eu, com amigos meus, também amesentava por ali.

Mário de Carvalho nasceu em Setembro de 1944, eu em Março de 1945.

Morava na Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, eu na Rua Mestre António Martins, ambas para os lados da Penha de França.

Andámos no Liceu Gil Vicente, a caminho sentíamos o delicioso cheiro, a chocolate, da Fábrica Favorita, ali a Sapadores, frequentámos as matinés do Cine-Oriente, do Royal, mas nunca nos encontrámos.

Certamente que um dia, chegarei à fala com Mário de Carvalho, para dizer não sei bem o quê, talvez a frase gasta e idiota: «gosto muito da sua escrita.»

Tenho em arquivo uma sua crónica publicada no Público, Março de 1993, que dá pelo nome de Uma Bandeira na Varanda. Quando a li comoveu-me muito e ainda hoje, quando a releio, sinto a mesma comoção.

Essa crónica está agora reunida em O Que Eu Ouvi Na Barrica das Maçãs, o que é um prazer e uma comoção redobrados.

Gosto de crónicas de jornais, algumas guardo-as e fico sempre à espera que os seus autores as reúnam em livro o que, nem sempre acontece e, infelizmente, no caso de António Lobo Antunes, é uma decisão definitiva: nunca mais publica um livro de crónicas.

O título do livro de Mário de Carvalho remete para as crónicas que sob esse mesmo nome escreveu para o Público e que é uma alusão a um capítulo de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, «O que eu ouvi na barrica das maçãs.»

Como me faltam unhas para tocar guitarra, digo de Mário de Carvalho o que ele, em crónica inserta, também  na barrica das maças, diz de José Saramago:

«Eu, que sempre fui um repentista-do-dia-seguinte, não podia deixar de admirar e de invejar uma arte de dizer que me parecia coisa de feiticeiro. E, ainda por cima, num português impecável, capaz de ser posto logo em papel.»

Legenda: pormenor do capítulo 11 de A Ilha do Tesouro e onde Mário de Carvalho foi buscar o título do seu livro.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


As Novas Mil e uma Noites

Robert Louis Stevenson
Tradução: Catarina Rocha Lima
Capa: A. Pedro
Colecção Vampiro nº 660
Livros do Brasil, Lisboa, Julho de 2002

- Se é assim, como se pode dizer que ele é um poeta moral? --disse Mark. - Quer dizer, olha o que ele faz. Olha para o comportamento dele. Nunca usa um sinal de alarme ou uma bóia de salvação e, o que é mais, nunca dá a entender que tem alguma à mão para ser usada por alguém ou por ele próprio.
- Não.
- Como se podem aplicar juízos morais quando vemos quantas direcções ele toma ao mesmo tempo? Será que ele não tem já problemas suficientes? Olha até onde ele chega. Encontra-se consigo próprio regressando, afunda-se até aos joelhos, esquece a deriva, foge consigo próprio, retira-se para a geometria, recusa os becos sem saída, fica entregue a si próprio, e acaba quase sempre por perder todas as jogadas. Mas o pano, meu caro, nunca se rompe. A corda esticada está sempre bem esticada. Ele aguenta o negócio, é o que é, e se desatasse a fazer juízos morais ia à bancarrota como os outros.
- O problema com Shakespeare --disse Pete, batendo na mesa-- é que ele nunca equaciona o homem em relação à ideia e dá sugestões quanto ao resultado final.
- Não era do género de fazer apostas.
- Punha as coisas a nu, é tudo. Desafio qualquer um que tenha dito que ele via o bem e o mal como abstracções. Não via. É certo que o nosso próprio sentido moral, tal como é, poderá ser obliterado durante este processo. E se tormarmos essa obliteração como um mal, poderemos considerar Shakespeare como um poeta imoral. Mas por outro lado, enquanto a experiência neutraliza a nossa própria moralidade, devemos manter certos critérios pelos quais medir toda a questão. Se não tivermos pontos de referência, será uma experiência perdida.
- E então?
- O que acontece é uma substituição. Nós temos, em vez de uma moral vulgar de Lineu -- uma convenção socioreligiosa assente no acordo dos homens para viverem em comum--, temos em vez disso o simples facto de que o homem é o seu próprio juiz involuntário, porque sendo capaz de escolhas ele está obrigado a aceitar a responsabilidade das suas acções. Poderia então dizer-se que, na medida em que põe isso em realce, ele é um poeta moral.
- Ah. Mas então em que ficamos agora?
- De volta ao nosso ponto de partida.
- Que é o quê?
- De volta à cerveja --disse Pete.- Fala comigo quando eu estiver sóbrio. Toda esta questão está tão cheia de incógnitas que até me dá azia.
- Que é que bebes?
- A mesma coisa.