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segunda-feira, 26 de maio de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE


 A crónica de Ana Cristina Leonardo no Ipsilon de sexta-feira, como habitualmente, tem muito interesse.

A pergunta é:

Se os algarvios tivessem um hospital decente, os resultados eleitorais manter-se-iam os mesmos?

E a cronista adianta:


«Tudo começou lá muito atrás, era 2002 (vá lá, já foi no século XXI). Primeiro veio o despacho, um ano depois o mesmo ministro aprova a escolha do terreno; ainda em 2003 é celebrado um Acordo Estratégico, seja lá isso o que for. Em 2004, é a quinta prioridade dos hospitais a construir pelas parcerias público-privadas. Em 2005 há novo estudo e em 2006 passa a segunda prioridade. No mesmo ano, nomeiam-se grupos de trabalho em barda. 2007: mais despachos. 2008: preparação do concurso e apresentação pública do novo hospital (uf!). Refreie-se o optimismo! Chega 2009 e mais um despacho. 2010: seleccionam-se duas propostas e em Setembro “inicia-se a fase de negociação, que ainda decorre” (sic).

Isto, podendo não ser gozar com quem trabalha, é decerto gozar com quem está doente.»

Mais um pedacinho da crónica:

«Se apelidar alguém de gordo pode ser interpretado como discurso de ódio, se questionar a participação de mulheres trans em competições desportivas femininas pode ser (e geralmente é, que o diga J. K. Rowling…) visto como transfobia, se recusar a chamada linguagem inclusiva que multiplica casos e casinhos pode ser entendido como discriminatório, se optar por usar a palavra deficientes em vez da designação pessoas com deficiência pode ser lido como prova de insensibilidade, se contar uma piada passou a ser razoável apenas e só se a piada não ofender ninguém, se… se… se… Já aparecer nas televisões e nos jornais a afirmar mentirosamente (desmentido pelos serviços hospitalares e pela PSP) que os ciganos o queriam matar, ou a expressar ideias boçais que nem na taberna de Eco, como fez o deputado Pedro Pinto (Deputado! Por Toutatis!) — “Não podem querer que André Ventura vá para uma cama onde ao lado esteja, por exemplo, alguém de etnia cigana” — passou a ser admissível e, além de admissível, aceitável.
Repare-se, porém, no detalhe (e o Diabo, é sabido, está nos detalhes): Pedro Pinto, recorrendo, até ele, e apesar da boçalidade, ao politicamente correcto — um entendimento linguístico que nos conduziu à ideia de que é possível mexer na merda sem sujar as mãos… —, não diz ciganos, diz alguém de etnia cigana. É o progresso!»

domingo, 30 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

As meditações de Ana Cristina Leonardo no Café do Monte, mais as suas crónicas no Público.

Final da crónica de ontem:

«Confesso que esta nova realidade me confunde. Acrescento não acreditar que seja a única baralhada. Aliás, com excepção da presidente da Comissão Europeia e de Nuno Rogeiro (este sempre na posse de umas informações ultra-secretas que não pode partilhar…) e poucos mais — uns com conhecimentos de estratégia militar, outros versados na psicologia dos russos — creio haver pouca gente com certezas.

Uma esperança me acalenta, porém, e eu não sou optimista.

Se for verdade que a História, à segunda, transfigura-se em farsa e abandona as vestes da tragédia, nada nos garante que isto não seja tudo a brincar. No fim, Ursula von der Leyen irá tomar conta dos seus póneis na sua quinta na Alemanha e António Costa voltará para a sua casa em Benfica, onde escreverá as suas memórias dedicadas a Mário Soares. Putin retirar-se-á para a sua datcha, Trump para a Gronelândia e Zelensky voltará ao humor televisivo.

Tudo estará bem porque acaba bem. A não ser que venha aí uma nova pandemia ou algum meteorito colida com a Terra.»

sexta-feira, 21 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

«Cavaco Silva, José Sócrates, Luís Montenegro. Alguém devia estudar esta obsessão dos políticos lusitanos pelo imobiliário.

Uns dizem que a frase foi proferida por um anarquista mexicano, outros garantem tê-la ouvido pela primeira vez da boca de Che Guevara.

Para quem não sabe, Che Guevara, de seu nome de baptismo Ernesto Guevara de la Serna (não confundir com o espanhol Ramón Gómez de la Serna​ de quem aproveito para recomendar todos os livros traduzidos entre nós — e são vários), foi um revolucionário argentino com papel preponderante na luta cubana contra o ditador Fulgencio Batista – após o derrube do governo de Batista, chegou a ministro do novo governo dirigido por Fidel Castro – acabando por ser executado em território boliviano em Outubro de 1967, capturado pelas Forças Especiais da Bolívia assessoradas pela CIA. Enterrado, então, em parte incerta, as mãos decepadas enviadas para os EUA para confirmação de identidade, sobreviveria por vários anos em T-shirts e posters onde vinha impresso o seu rosto em grande plano coroado pela inevitável boina, pendurados, os posters, nas paredes dos quartos de adolescentes e jovens adultos que lhe admiravam, e invejavam, a rebeldia e coragem.»

Ana Cristina Leonardo na crónica de hoje publicada no Público.

domingo, 16 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

A crónica de Ana Cristina Leonardo, publicada ontem no Público com o título Dúvidas Metódicas, lembra uma das muitas histórias que a rapaziada do ar condicionado em gabinetes na Comissão Europeia que envolviam frutas e vegetais que necessariamente obrigava a determinados tamanhos, bem como a não utilização de colheres de pau nos restaurantes e nas nossas casas e também os galheteiros nos restaurantes, as bolas-de-berlim vendidas na praia, o pão duro (que mais tarde alguém veio lembrar ser indispensável às açordas), as chávenas de café em louça nas esplanadas, a marmelada à fatia, etc., etc. Contas feitas, em nome da higiene e segurança alimentares, punha-se em risco tudo o que fosse artesanal, dos queijos de Azeitão à sopa de couves confeccionada com legumes colhidos directamente do quintal ao lado não registado nas Finanças.

Tal como escreve Ana Cristina Leonardo:

«A mudança foi radical e deu-se numa dúzia de anos. Estávamos em Julho de 2009 quando a comissária europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, a dinamarquesa Mariann Fischer Boel, que exerceria o cargo entre 2004 e 2010, anunciava a reabilitação dos produtos hortícolas defeituosos: “Trata-se de um exemplo concreto dos nossos esforços para eliminar burocracia desnecessária. (…) Na actual conjuntura de preços elevados dos produtos alimentares e de dificuldades económicas generalizadas, os consumidores devem poder escolher entre a mais vasta gama de produtos possível. Não tem qualquer sentido eliminar produtos de perfeita qualidade, apenas porque têm uma forma errada”.»

domingo, 9 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE


 A partir de agora é sempre a descer é uma velha expressão.

É também o título da crónica de Ana Cristina Leonardo no Público de 7 de Março.

Aborda a triste, lamentável conferência de imprensa, na sala oval da Casa Branca, com Zelenski, Trump e uma série de idiotas, políticos e jornalistas,  a funcionarem como calque teatral.

Uma crónica para memória futura, com o habitual humor de Ana Cristina Leonardo:


«E permitam-me que cite aqui, embora a despropósito, o genial médico e intelectual olhanense Francisco Fernandes Lopes: "É preciso ir sempre até ao fundo do fundo do contrafundo”.
Àqueles que acham que exagero, pergunto: quem, até há poucos dias, imaginaria possível este diálogo sobre dress code a propósito de uma guerra que decorre há três anos e não pára de somar mortos, feridos e estropiados?

Brian Glenn (correspondente para a Casa Branca do Real America's Voice, canal por cabo da direita e extrema-direita norte-americanas): “Porque é que não usa um fato? Tem um fato?”
Volodymyr Zelensky: “Tem algum problema com isso?”
Brian Glenn: “Muitos americanos têm problemas com aqueles que não respeitam o código de vestuário da Sala Oval.”

Volodymir Zelensky: “Quando a guerra terminar, usarei um fato. Talvez semelhante ao seu, talvez melhor e talvez mais barato".

É um facto que o líder ucraniano perdeu uma boa oportunidade para perguntar ao incomodado repórter se achava que o macacão de corte militar de Winston Churchill, em visita à Casa Branca em 1941, também significara uma imperdoável falta de respeito. É também um facto que nem todos se podem reclamar da conhecida presença de espírito do britânico. Mas que um diálogo destes pudesse ter lugar durante um encontro para discutir assuntos relacionados com um conflito sangrento, “declaro obedientemente” (claro) que nem ao mais sarcástico autor de ficção ocorreria.»

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

Sejamos claros: o problema não é o que Elon Musk escreve no X: o problema são os cheques que ele depois passa quando vai para casa. Sem cifrões – palavra que foi perdendo crédito entre nós após a conversão de Portugal ao euro – os pontos de vista de Musk não teriam sequer cotação na bolsa de valores da opinião pública. E, sim, até onde a minha vista alcança, nunca como hoje foi tão absolutamente visível que money makes the world go round, de resto um facto bastante anterior ao dueto de Liza Minnelli e Joel Grey em 1972 no Cabaret de Bob Fosse. Em 1914, o norte-americano de origem alemã, Adolf Philipp, um nome então bem conhecido da Broadway, compôs canção de título idêntico para a comédia musical Two Lots in the Bronx e, sem nos desviarmos do tema, recorde-se que o primeiro volume de O Capital de Marx foi publicado ainda antes, em 1867. Há mais de 150 anos que andamos à volta do mesmo.

Parecer actual e irrefutável: os ricos estão a ganhar! E nem o mais pobre de entre nós ousará dizer o contrário.

Da crónica de Ana Cristina Leonardo no Público de 10 de Janeiro.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

Portanto isto da idade não conta para se ser ou não milionário (o que não faltam, aliás, são milionários de nascença).

Mas falávamos do fascínio exercido pelo dinheiro, apesar dos maus resultados que tal fascínio vem arrastando. Houve uma altura em que se citava uma frase atribuída aos Cris, uma etnia índia ainda hoje numerosa no Canadá:

«Só quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe, poluído o último rio, as pessoas perceberão que não podem comer dinheiro.»

Ana Cristina Leonardo de uma crónica no Público de 13 de Dezembro

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

«É verdade: gosto de me posicionar contra Sartre a favor de Camus. A História viria a dar razão ao segundo e ainda hoje pagamos o preço de não termos dado ouvidos a Koestler. Talvez até aproveite a canícula para ler à noite, quando o cérebro supera da letargia, O Peso da Responsabilidade – Blum, Camus, Aron e o século XX francês de Tony Judt (Edições 70, 2018), ensaio sobre três homens que acabariam renegados pelo seu tempo, um pouco à semelhança do próprio Judt, que não conseguiu escapar ao rótulo de self-hatred-jew.»

Ana Cristina Leonardo, crónica no Público de 28 de Junho.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

«O divertissement implica tempo, claro. Um tempo parado, contemplativo, contrário ao tempo da aceleração exponencial. E as brincadeiras dos cães lembraram-me agora uma história. Uma história por demais conhecida. Contava-a António Alçada Baptista.

Andava o Padre Anchieta por terras do Brasil. Com pressa no chegar, pede o jesuíta aos índios que lhe transportam a tralha que sejam despachados no passo. O destino fica longe, a dias de caminhada. No primeiro dia os índios foram céleres, assim como no segundo. Inesperadamente, ao terceiro descansaram. Surpreendido, pergunta-lhes o padre pelo motivo da pausa. A explicação chegou rápida e era simples: “Temos vindo demasiado depressa e a nossa alma ficou para trás. Temos de esperar por ela para podermos continuar”.»


Ana Cristina Leonardo numa das suas crónicas no Público 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE


«Entretanto houve o sismo. Por aqui, fomos todos poupados às tremedeiras da Terra. Felizmente, por onde elas foram sentidas, tudo não foi além do susto. E se a grande literatura, como estou convencida, nos prepara para tudo, até para a nossa morte (mas nunca para a morte dos outros…), é então de ir ler Voltaire. Sinal dos tempos, não ouvi ninguém falar do Cândido ou de Pangloss.»


Ana Cristina Leonardo, da crónica no Público de 30 de Agosto

Legenda: pormenor da capa do Cândido de Voltaire da edição da Colecção de Bolso das Publicações Europa-América.