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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CANÇÃO A MEIA VOZ

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

Cabral do Nascimento 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Confissões dum Poeta

Paul Verlaine

Tradução, Introdução e notas: Cabral do Nascimento

Colecção Documentos Humanos nº 6

Portugália Editora, Lisboa s/d

E assim, nem bem nem mal, decorreram as coisas… até à chegada a Paris, em Outubro de 1871, de Arthur Rimbaud, de quem minha mulher teve logo um ciúme absolutamente injustificado – nesse tempo – quanto ao sentido torpe que ela pretendia dar-lhe… Não se tratou, de começo, nem sequer de afeição, de simpatia, fosse de que natureza fosse, entre duas naturezas tão diferentes como eram a do poeta dos Assis e a minha, mas sim de admiração e surpresa perante esse garoto de dezasseis anos que já escrito – como bem disse Fénéon – coisas «talvez superiores à literatura».

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

NATAL

Se alguém por mim passou,
O seu caminho foi.
Nenhuma dor me dói;
Neste canto me isolo;
Dá-me tanto consolo
Saber que apenas sou!

Reduz-se tudo a isto:
Suavíssimo perfume
De heliotrópio morto.
Traz-me tanto conforto
Saber que só existo
Aqui, junto do lume!

E o vento que, lá fora,
Deita as folhas em terra,
Não me abala sequer.
Ah, quanto bem encerra
A minha ideia, agora,
De estar num canto, e ser?


Cabral do Nascimento em Natal... Natais

terça-feira, 29 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Exílio e o Reino

Albert Camus

Tradução: Cabral do Nascimento

Capa: Bernardo Marques

Colecção Miniatura nº 85

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Pequenina mas insistente, havia já uns instantes que a mosca voava no autocarro, cujas janelas estavam todavia fechadas. Ia e vinha sem ruído, num voo fatigado. Era frio o ar, e o insecto parecia sentir arrepios a cada rajada de areia que estalava nas vidraças. O veículo, na luz débil da manhã de Inverno, rolava e avançava a custo, num estardalhaço de eixos e de latas. Janine olhou para o marido. Marcel tinha o aspecto de um fauno amuado, com o seu redemoinho de cabelos grisalhos a descer-lhe sobre a testa estreita, o seu nariz achatado, a sua boca irregular.

domingo, 5 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal... Natais...

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento Natais… Natais…

Legenda: pintura de David Jaconson

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

NATAL AFRICANO

Não há pinheiros nem há neve,

Nada do que é convencional,

Nada daquilo que se escreve

Ou que se diz... Mas é Natal.

 

Que ar abafado! A chuva banha

A terra, morna e vertical.

Plantas da flora mais estranha,

Aves da fauna tropical.

 

Nem luz, nem cores, nem lembranças

Da hora única e imortal.

Somente o riso das crianças

Que em toda a parte é sempre igual.

 

Não há pastores nem ovelhas,

Nada do que é tradicional.

As orações, porém, são velhas

E a noite é Noite de Natal.

 

Cabral do Nascimento poema tirado da antologia Natal… Natais 

sábado, 7 de dezembro de 2019

NATAL...NATAIS...


Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento Natais… Natais…

Legenda: pintura de David Jaconson

domingo, 20 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Terna é a Noite

F. Scott Fitzgerald
Tradução: Cabral do Nascimento
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 31
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1962

Na costa aprazível da Riviera francesa, a cerca de meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, fica um vasto hotel imponente, pintado de cor-de-rosa. Várias palmeiras lhe refrescam a frontaria pesada, e diante dele estende-se uma praiazinha deliciosa. Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós. Quando, porém, se inicia esta história há apenas uma dúzia de vivendas antigas, e os seus telhados jazem como nenúfares apodrecidos no meio do pinhal denso que vai do Hotel Gausse ou dos Estrangeiros até Cannes, a cinco milhas de distância.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Livro de Cesário Verde
Seguido de Algumas Poesias Dispersas

Cesário Verde
Edição revista por Cabral do Nascimento
Editorial Minerv, Lisboa s/d

Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos «mignonnes» e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Reflexos Nuns Olhos de Oiro

Carson McCullers
Prefácio Tennessee Williams
Tradução: Cabral do Nascimento
Capa: Augusto T. Dias
Relógio d’Água, Lisboa s/d

Em tempo de paz uma guarnição avançada é um lugar triste. As coisas que aí acontecem repetem-se vezes sem conta. Concorre para esta monotonia o próprio plano da fortaleza: enorme quartel de cimento armado, filas de casas para oficiais, todas semelhantes, ginásio, capela, campo de golfe e piscinas – tudo isto delineado segundo um modelo certo e rígido. Mas talvez a taciturnidade que se nota provenha mais do isolamento, do excesso de ócios e da nímia segurança, pois quando se entra na tropa é em geral para seguir os calcanhares dos que nos procedem. Ao mesmo tempo, porém, sucedem no exército eventos que não será provável renovarem-se. Existe um forte no Sul onde há poucos anos se cometeu um crime: dois oficiais, um soldado, duas mulheres, um filipino e um cavalo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CANTIGA


Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.

Cabral do Nascimento em 366 Poemas Que Falam de Amor

Legenda: pintura de Chris Pointer