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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

SOMBRAS

A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando,
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós connosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.

Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Mistério de Lisboa

Nuno Júdice, Maria Isabel Barreno, Sérgio Godinho, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Mário de Carvalho, entre outros

Pinturas: José António Cardoso, Ilda David

Ilustrações: Fernanda Fragateiro, Rui Martiniano

Fotos: José Afonso Furtado

Capa: Fernando Mateus

Relógio D’Água Editores, Lisboa 1993

Havia vendedores de quase tudo: peixeiras com canastas à cabeça, tapadas com um oleado; as várias carroças de hortaliças, de frutas; havia até a carroça do petróleo; e a mulher da fava-rica, e o oculista e o homem das peles de coelho. Alguns não só vendiam como compravam, nesse tempo em que os cordéis se guardavam numa caixa, na despensa, e os papéis também, em que quase tudo valia algum dinheiro, pouco que fosse, e tinha certamente um valor de uso; o das peles de coelho, que comprava as peles frescas e vendia pelas curtidas, o ferro velho, o dos trapos e garrafas. Todos tinham pregões, espécie de logotipo sonoro da época, e hora certa para passar.

(Maria Isabel Barreno)

sexta-feira, 18 de abril de 2025

COMEÇOS DE LIVROS


 Não sou um leitor atento, disponível, dos livros de Vergílio Ferreira.

Diversas conversas, muito líquidas, com o Baptista-Bastos no «Expresso-Bar», no Largo da Trindade, levaram-me a ter uma ideia não muito clara, boa, do autor. Uma vaga ideia, apenas isso, de lhe ouvir falar de falta de carácter. Não se deve fazer as coisas assim…mas foi assim que se passou…

Os livros não os lera. Algum deus disponível nos Olimpos talvez me conceda um leve perdão.

Vergílio Ferreira sempre teve a ideia de que os seus pares dele não gostavam. Baptista-Bastos está à frente desses pares.

Contudo, o começo de Para Sempre, entrou na longa lista dos meus Começos de Livros:


« Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta – sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais.»


Sempre que os encontro, guardo os Começos de Livros de que outros autores vão falando.

Fernando Pinto do Amaral, escritor e crítico literário, tem o começo de Para Sempre do Vergílio Ferreira, como um dos seus preferidos:


"Para sempre. Aqui estou."

E explica:

«Na sua simplicidade soberana, estas frases (ou esta frase desdobrada em duas) resumem todo o clima deste livro em que um homem, quase no fim da vida, regressa à casa da sua infância e aí se confronta com a solidão, com a certeza da morte e com o seu absurdo. Uma forma como "para sempre" mergulha-nos numa eternidade suspensa no instante em que a frase é proferida, criando um notável efeito de repercussão que se mantém ao longo de todo o romance.»

terça-feira, 25 de junho de 2024

DOS ANOS SETENTA

Voltar aos anos setenta
como se fosse possível
essa melodia lenta
transpor às cegas o nível
da realidade obtusa
do dia morno que passa
e escutar a semifusa
dessa década tão baça
que em ti se prolonga hoje
à medida de ninguém
febre que agora te foge
primavera que não vem
Ano de setenta e dois
o teu irmão a morrer
breve despiste e depois
cada dia outro dever
outra missão a cumprir
em secretos rituais
a vida inteira em devir
menos por menos dá mais
Ano de setenta e quatro
com revolução em abril
e todo um novo teatro
no teu drama juvenil
em anos adolescentes
soturnos introvertidos
Já não sabes o que sentes
fantasma de tempos idos
sombra a passar num só flash
filme que já não existe
por onde quer que hoje vás
tens razões para ser triste
Anos setenta talvez
à espera do infinito
silhuetas que mal vês
agitadas em conflito
Tudo era esquerda ou direita
em conspirações de bares
e na noite mais suspeita
movimentos militares
Copos fumos atmosferas
o Botequim o Procópio
e tu sem saber quem eras
coração-caleidoscópio
Socialistas comunistas
PPD e CDS
deputados nomes listas
e mais partidos que houvesse
Cunhal Soares Sá Carneiro
inesperada companhia
era teu aquele cheiro
de um país que ali nascia
Primeiros dias do mundo
a acontecerem em ti
e essa memória sem fundo
a iludir-te hoje aqui
Ano de setenta e sete
dizer adeus a teu pai
tudo o que a vida promete
mas de súbito se esvai
Fotografias cinzentas
golas altas bandas largas
entre as imagens que inventas
certas dívidas não pagas
Helmut Schmidt Giscard d’Éstaing
ou Kissinger e Brejnev
a preto e branco em écran
de harmonia semibreve
na exausta guerra fria
em que tudo se explicava
e o planeta se movia
numa corrente de lava
Anos setenta obscenos
primeiras pornografias
menos por mais dava menos
cassetes que descobrias
e alimentavam isso
a que chamavas o sexo
coisa mágica feitiço
espelho côncavo ou convexo
Anos setenta no fim
de uma infância que te amava
memória em forma de assim
cadência que nada trava
Cinquenta anos depois
tudo é tempo tudo é nada
sonho só do que não foi
longe dessa madrugada
como se o mar engolisse
os recados do destino
e fosse agora tolice
repassar a pente fino
os vãos sinais desses anos
entretidos à procura
dos sintomas mais insanos
humanos ou trans-humanos
ou a última loucura
que é ficares assim absorto
nessa miragem impura
a olhar para o vazio
talvez vivo talvez morto
com uma cidade a teus pés
Ainda saberás quem és?
E esse rio que vês no Porto
ainda é o mesmo rio


Fernando Pinto do Amaral

Nota do Editor:  Este poema de Fernando Pinto do Amaral foi tirado do Público de 17 de Abril de 2004.

Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

ZEITGEIST

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.

Fernando Pinto do Amaral

domingo, 15 de janeiro de 2012

QUANDO JÁ NÃO HÁ NADA


Quando já não há nada
absolutamente nada pra dizer
e cada dia te parece apenas
uma longa e inútil sequência
de vinte e quatro horas vazias;

quando uma folha de papel
é um deserto branco já sem rosto,
um firmamento sem constelações,
uma página nua, uma página
muda,
há dois rápidos olhos que te falam
desde sempre da terra prometida.

Consegues fixá-los? Não tens medo?
Vê como arde súbito o seu gelo
no fundo das pupilas
e não hesites -  rouba essa vertigem
à madrugada de Jerusalém
porque às vezes não há outra saída
para algumas palavras que ainda podem
ser um arco  uma flecha
perto do alvo que ninguém conhece.



Legenda: pintura de Edouard Manet.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

MENTIRAS



As das crianças, para não serem castigadas;
as dos apaixonados de uma noite
quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma,
para subir o preço desses bens;
as dos que inventam histórias inverosímeis
em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem
que já não é possível;
as dos candidatos a eleições;
as dos melhores actores, tão perfeitas
que se tornam verdade;
as dos padres de todas as igrejas
anunciando a salvação;
as mais inofensivas ou as mais perversas;
as mais piedosas ou as mais cruéis;
as que todos descobrem num relance;
as que só se conseguem detectar
num momento feroz de lucidez;
as que apenas se dizem ao telefone
quando falta a coragem de um olhar;
as que começam por pedir desculpa
e geram outras cada vez maiores
até que uma só vida se transforme
em duas ou três vidas paralelas;
as que explodem de súbito, lavadas
pelas lágrimas de uma confissão;
as que perduram pela vida inteira
como um crime perfeito
e levamos connosco para o túmulo.

Sobre elas assenta desde sempre
o que chamamos mundo, o que chamamos ainda humanidade.

Como o sol ou a água, sempre foram
imprescindíveis para a vida humana
e Atlas agradece-as
porque tornam mais leve, dia a dia,
o peso dos seus ombros.


Fernando Pinto do Amaral