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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

MOTHER ROAD


A estrada 66 é a rota principal das populações em êxodo. A estrada 66 – a longa faixa de cimento que corta as terras, ondulando para cima e para baixo, no mapa, de Mississipi a Bakersfield – atravessa as terras vermelhas e as terras pardas, galga as elevações, cruza as Montanhas Rochosas, penetra no luminoso e terrificante deserto e, cruzando este, torna a entrar nas regiões montanhosas até alcançar os férteis vales da Califórnia.

A 66 é o caminho de um povo em fuga, a estrada dos refugiados das terras da poeira e do pavor, do trovejar dos tractores, dos proprietários assustados com a invasão lenta do deserto pelas bandas do norte e com os ventos que vêm ululando aos remoinhos do lado do Texas, com as inundações que não traziam benefícios às terras e ainda acabavam com o pouco de bom que ainda possuíam. De tudo isto os homens fugiam e encontravam-se na estrada 66, vindos dos caminhos tributários e das estradas sulcadas de calhas e de marcas fundas de rodas, que cortavam todo o interior. A 66 é a estrada-mãe, a estrada do êxodo.


John Steinbeck, “As Vinhas da Ira”

Contei-vos na última “crónica” que a passagem pela Route 66 me tinha feito recordar o êxodo das populações rurais do midwest devido aos efeitos da seca e do “Dust Blow”. Numa época já de si conturbada, em que se faziam sentir fortemente os efeitos da crise de 1929, tanto a seca, por um lado, como as tempestades de areia, por outro, arrasavam as últimas esperanças de sobrevivência dos pobres camponeses do Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Tennessee, … Fortemente endividados à banca ou incapazes de pagar as suas rendas aos grandes proprietários rurais, estas populações foram obrigadas a abandonar as suas terras e a lançarem-se à estrada, na esperança de uma vida melhor, quase sempre nos verdejantes campos da Califórnia. Carregavam as suas velhas carripanas com os poucos bens que tinham conseguido salvar, e lançavam-se à aventura… Mas nem sempre se podiam, dar ao “luxo” de ir de carro… Às vezes não tinham mais do que um simples carrinho de mão, como poderão ver numa das fotografias que vos envio. Ao mesmo tempo, os tractores avançavam pelos campos e deitavam abaixo todas as construções que por lá encontrassem, para impedir aos anteriores ocupantes qualquer veleidade de regresso.

É uma época da História dos Estados Unidos de que sempre gostei muito. Época de extremos, em que o “Sistema” mostrou o seu lado mais negro: a impiedosa ditadura dos bancos e dos grandes “landowners”, a exploração dessa imensa mão-de-obra nos campos da Califórnia, vivendo em condições infra-humanas, a cumplicidade entre as polícias locais e os proprietários rurais para abafar, pela morte se necessário, todas as tentativas de rebelião… Mas foi também, por outro lado, uma época de grandes batalhas sociais na qual veio ao de cima a dignidade de todo um povo, a sua capacidade de união e de solidariedade para lutar com determinação contra essas mesmas adversidades…

Felizmente, foi também uma época que a Arte, com A grande, fixou para a posteridade: na Literatura, através dessa obra-prima de John Steinbeck que foi “As Vinhas da Ira” (1939); no Cinema, não só com a adaptação desse mesmo livro feita por John Ford (1940), mas também com outros filmes que, com as devidas distâncias, navegavam nas mesmas águas, como foi o caso de “Tobacco Road” (1941), do mesmo Ford, de “Our Daily Bread” (1934), de King Vidor, ou “The Southerner” (1945), de Jean Renoir, …; na Música, com as célebres “Dust Blow Ballads”, que Woody Guthrie, fortemente impressionado com o livro de Steinbeck, escreveu entre 1937 e 1941, e que constituem o melhor e mais coerente conjunto de “canções de intervenção” que conheço; finalmente, na Fotografia, através do trabalho dos fotógrafos da “Farm Security Administration” (FSA), que Roosevelt enviou para os campos com um claro intuito de propaganda política. Roosevelt tinha afirmado em 1936, num discurso que ficou célebre, “Vejo um terço da nação mal alojado, mal vestido e mal alimentado”, e contava com o apoio desses fotógrafos para documentarem, no terreno, os graves problemas sociais resultantes da Grande Depressão e justificarem, assim e aos olhos de toda a população, as políticas sociais do New Deal. Alguns desses fotógrafos, como foi o caso de Dorothea Lange, acompanharam sistematicamente essas populações em fuga, concretizando, nessa altura, a parte mais notável de toda a sua obra.




E o que vos proponho agora aqui, à guise de homenagem a esse Povo, é dar voz e imagens a esses autores. Será uma “crónica” com características especiais… De longe a mais longa, mas aquela em que menos irei escrever. As fotografias e os textos de Steinbeck e Woody Guthrie falam bem por si, pelo que me limitarei a enquadrar uma ou outra citação. Preparem-se, então, para essa longa viagem, sabendo que, quando se cansarem, sera fácil salatrem do comoboio a todod o momento…

On the 14th day of April
Of 1935, there struck
The worst of dust storms
That ever filled the sky

You could see that dust storm coming,
The cloud looked death-like black,
And through our mighty nation
It left a dreadfull track

(Woody Guthrie – “The Great Dust Storm”)

Escolhi para vos mostrar uma célebre fotografia de Arthur Rothstein “Dust storm, farmer and sons” (1936), onde vemos um pai e seus filhos a fugir a uma tempestade de areia. Essa mesmo fotografia foi escolhida para a capa do álbum “Dust Blow Ballads sung by Woody Guthrie, da Folkways Records (1964).

That old dust storm killed my family
But it can't kill me, Lord
And it can't kill me

That old dust storm killed my baby
But it can't kill me, Lord
And it can't kill me.

That old landlord got my homestead
But he can't get me, Lord
And he can't get me.

That old tractor got my home, boys
But it can't get me, Lord
And it can't get me

That old pawn shop got my furniture
But it can't get me, Lord
And it can't get me

(Woody Guthrie – “Dust Can’t Kill me”)



Os homens em êxodo rompiam na 66; às vezes um carro solitário, outras vezes, uma pequena caravana. Andavam o dia inteiro vagarosamente pela estrada e, à noite, paravam onde houvesse água. De dia, velhos radiadores expeliam colunas de vapor e frouxas varetas de ligação matraqueavam os ouvidos no seu contínuo martelar. E os homens que guiavam os camiões e os carros sobrecarregados escutavam apreensivos. Quanto falta para chegarmos à cidade mais próxima? Há um verdadeiro terror pelas distâncias entre as cidades. Se alguma coisa se quebra…

John Steinbeck, “As Vinhas da Ira”

(Fotografia de Bem Shan)


E um simples furo de pneu era motivo de angústia e pretexto para grandes vigarices… (fotografia de Dorothea Lange).

Temos de arranjar um pneu novo, mas – Deus do Céu! – eles querem tanto dinheiro por um pneu usado! Eles põem-se a olhar para nós e sabem que a gente tem de viajar de qualquer maneira, que não podemos perder tempo. Então, aumentam o preço.É pegar ou largar! Pensa que eu estou aqui no negócio para me divertir? Estou aqui para vender pneus. Não lhos posso dar de presente. Não tenho culpa nenhuma do que vos aconteceu. Eu também tenho cá as minhas arrelias.

A que distância fica a próxima cidade?

Ontem passaram por aqui quarenta e dois carros, cheios de gente como vocês. De onde vêm eles? E aonde vão?

Bem, a Califórnia é um grande estado.

Mas também não é assim tão grande. Os Estados Unidos juntos não são assim tão grandes como isso. Não há lugar para vocês e para mim, para a sua gente e para a minha, para ricos e para pobres, todos num só país, os ladrões e a gente honesta. Para os esfomeados e para os fartos. Porque não voltam para o sítio de onde vieram?Isto aqui é um país livre… A gente vai para onde quiser.

Isso é o que você pensa! Já ouviu falar das patrulhas de polícia na fronteira da Califórnia? É a polícia de Los Angeles – prende-os e manda-os voltar para trás. Eles dizem: se vocês não vêm para cá com a ideia de comprar terras, não os queremos cá. E dizem: você tem carta de motorista? Deixe ver. Então, rasgam a carta e dizem: sem carta de motorista, você não pode entrar no estado com esse camião.

Mas estamos num país livre!

- Vá atrás disso, vá! Já houve alguém que disse: a liberdade depende da massa que a gente pode pagar por ela.

Mas na Califórnia, eles pagam salários altos. Eu tenho até um impresso em que diz isso mesmo.

Ora! Isso não passa de uma cantiga! Vi gente que regressava de lá. Vocês foram intrujados. Afinal, quer levar esse pneu ou não quer?

John Steinbeck – “As Vinhas da Ira”




Algumas partes da viagem, como era o caso da subida das Montanhas Negras a caminho de Oatman, de que vos falei na última “crónica” , eram feitas de noite, para evitar o sobreaquecimento dos carros… E a chegada a esta placa identificadora da entrada no Estado da Califórnia era vista como uma festa, muito embora ainda houvesse um deserto para atravessar…

O Sol esgotava as terras rochosas, já de si áridas e, em frente, erguiam-se serras caóticas, de cristas quebradas – a muralha ocidental do Arizona. E agora a família fugia ao Sol e à seca. Viajara a noite toda e chegara também de noite às montanhas. Trepara durante a noite as muralhas denteadas e a fraca luz dos faróis errara nas paredes de pedra clara que orlava a estrada. Passou o pico ao anoitecer e desceu vagarosamente através das velhas ruínas pedregosas de Oatman e, quando a madrugada chegou, viu, lá em baixo, o rio Colorado. A viagem continuou até Topock e a família teve de estacionar na ponte, enquanto um guarda da fronteira raspava o papelzinho que havia sido pregado no pára-brisas. Depois, atravessou a ponte e penetrou no deserto selvagem e rochoso. E, embora estivesse mortalmente cansada e o calor matinal fosse aumentando, resolveu parar.

O pai avisou:
- Chegámos … estamos na Califórnia!

John Steinbeck – “As Vinhas da Ira”


Luís Miguel Mira em Crónicas da América

terça-feira, 18 de agosto de 2020

WE CAN'T GO HOME AGAIN


Na minha última crónica tinha-vos contado que John Steinbeck se tinha escapado de Salinas para Monterey aos 17 anos. A família possuía uma "cottage" em Pacific Grove e ele para lá foi passar largas temporadas, arranjando trabalho onde este lhe aparecesse. Ganhar "experiência de vida" é muito bonito, como sempre me disse o meu velho Pai...

Depois de uma passagem pela Universidade, Steinbeck regressaria a Salinas aos 24 anos, aí se mantendo, de forma intermitente, nos 4 anos seguintes. Em 1930 casou-se e foi então de novo viver, de forma mais estabilizada, para a tal casa de Pacific Grove. E é, precisamente, nessa década de 30 vivida em Monterey que Steinbeck irá escrever aquela que, em minha opinião, é a parte mais interessante da sua obra, e que culminará, em 1939, com a publicação de "As Vinhas da Ira".

Na altura não era tanto assim mas, hoje, Pacific Grove é uma zona residencial chique de Monterey, com belas mansões antigas e uma vista de mar maravilhosa.

Monterey era, nos tempos de Steinbeck, uma cidade de actividade predominantemente piscatória. Curiosamente e nos tempos mais chegados, os primeiros a exercer essa actividade foram os chineses, que por lá se instalaram durante a segunda metade do séc XIX. Mais tarde haveriam de lá chegar os italianos (da Sicilia, sobretudo), os galegos e até os portugueses, estes muito ligados à pesca da baleia.

Colada a Pacific Grove, naquela que começou por se chamar "Ocean Vue Avenue" e depois se passou a designar por “Cannery Row” , ficava precisamente a zona dos grandes armazéns e fábricas de conservas. Se se lembrarem do filme "Clash by Night", que Fritz Lang realizou em 1952, no qual uma muito jovem Marilyn Monroe trabalhava numa destas fábricas agarrada a uma máquina de cortar sardinhas, ficarão com uma ideia mais exacta do ambiente que por lá se vivia, que o próprio Steinbeck descreveu assim no início do seu livro "Cannery Row"/"Bairro da Lata" (1945):

"Cannery Row, em Monterey, na California, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, um som, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício: lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavados, terrenos de ortigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinha de chapa ondulada, dancings, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atranvacadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes são, como disse o homem certa vez, "pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe", com o que pretendia dizer "toda a gente". Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse: "santos e anjos, mártires e homens bons", e significaria a mesma coisa".

Mas o mar cansou-se de tanta azáfama e a sardinha começou a rarear a partir de inícios dos anos 50, o que levou ao progressivo abandono de toda aquela indústria conserveira.

Hoje, Cannery Row é, juntamente com Fisherman's Warf, que fica lá perto, a zona mais turística de Montery. Os velhos armazéns mantêm a traça e, como é habitual nestas circunstâncias, foram recuperados para lojas, restaurantes e centros comerciais. Num desses grandes armazéns, junto ao mar, encontra-se hoje instalado o Aquário de Monterey, um dos principais dos EUA. E não falta até, como poderão ver, uma estátua de homenagem a Steinbeck, que tanto fez por aquelas terras e aquelas gentes. Mas faltou-me uma coisa a mim: há quase 30 anos atrás, quando lá passei pela primeira vez, havia sobre o mar, num pontão de madeira, um desses carroceis iluminados cuja visão, na noite estrelada e com o mar a bater mesmo ao lado, me deixou maravilhado e não mais me saiu da cabeça. Fui lá agora para o rever e já não o encontrei... “Has been”…!

Quem também não encontrou grandes resquícios do seu passado foi o próprio Steinbeck. Em 1960, ainda antes de ganhar o Prémio Nobel, Steinbeck decidiu fazer, de caravana (a que deu o nome de "Rocinante"...) uma grande viagem pelos Estados Unidos, na companhia do seu cão Charley. Essa viagem haveria de dar origem a um dos seus últimos livros, "Viagens com o Charley", publicado em 1962.

Como não podia deixar de ser, Steinbeck passou por Monterey à procura de alguns dos "homens bons" do seu tempo. Encontrou muito poucos, e o que viu deve ter-lhe sido muito penoso… A um amigo de infância que ainda lhe chamava “Juanito”, como nos velhos tempos, e lhe garantia que nada tinha mudado, Steinbeck respondeu assim:

Põe o pé na rua – estranhos, estrangeiros, milhares deles. Olha para as colinas – parecem pombais. Hoje percorri a pé a Rua Alvarado a todo o comprimento e voltei para trás pela Calle Principal e não vi nada senão estranhos. Esta tarde perdi-me em Peter’s Gate. Fui ao Campo do Amor, ao regressar de Joe Duckworth pelo Campo da Bola. É um terreno para venda de carros usados. Os meus nervos estão desafinados com as luzes do tráfego. Até os polícias são estranhos, estrangeiros. Fui ao Vale Carmel, onde em tempos poderíamos disparar um trinta-trinta em qualquer direcção. Agora não se poderia atirar um berlinde sem atingir um estrangeiro. As pessoas não me fazem diferença, Johnny, tu sabes isso. Mas estas são pessoas ricas. Plantam gerânios em grandes vasos. Há piscinas onde as rãs e os camarões de água doce costumavam estar à nossa espera. Não meu amigo, não seja trouxa…”.

E, mais adiante, num indisfarçável misto de tristeza e raiva, acrescentaria:

“No meu alvoroço de despeito nostálgico, prestei um mau serviço à Península de Monterey. É um belo lugar, limpo, bem dirigido e progressivo. As praias estão limpas, ao passo que em tempo eram infestadas de tripas de peixe e de moscas. As fábricas de conserva, que em tempo espalhavam um fedor doentio, desapareceram, havendo em seu lugar restaurantes, lojas de antiguidades e semelhantes. Agora pescam turistas e não sardinhas, e essa espécie não parece quererem extinguí-la. Carmel, que começou com escritores famintos e pintores indesejáveis, é agora uma comunidade de pessoas abastadas e de aposentados. Se os descobridores de Carmel voltassem, não poderiam dar-se ao luxo de lá viver, mas as coisas não iriam tão longe. Seriam imediatamente detidos como indivíduos suspeitos e deportados para além dos limites da cidade.

O lugar do meu nascimento mudara, e, tendo-me ido embora, não mudara com ele. Mantinha-se na minha memória como fora em tempo, e a sua aparência exterior confundia-me e encolerizava-me.

O que vou dizer deve ser a experiência de muitíssimas pessoas deste país onde tantas vagueiam e regressam. Procurei amigos velhos e provados. Pensei que o cabelo deles recuara um pouco mais do que o meu. As saudações eram entusiásticas. As lembranças jorravam. Velhos crimes e velhos triunfos eram trazidos à luz e limpos de pó. Então, subitamente, a minha atenção vagueava, e, olhando para o meu antigo amigo, via que a dele vagueava também. Era verdade o que dissera a Johnny Garcia – eu era o fantasma. A minha terra crescera e mudara, e os meus amigos com ela. Voltando agora, tão mudado para os meus amigos como a minha terra estava mudada para mim, falseava o seu quadro, desnorteava a sua memória. Quando me fora embora morrera, e ficara portanto fixo e imutável. A minha volta apenas causava confusão e embaraço. Embora não pudessem dizê-lo, os meus amigos queriam que eu partisse, de modo a poder tomar o meu lugar apropriado no padrão da lembrança, e eu queria partir pela mesma razão. Tom Wolfe tinha razão. Não podemos voltar para o lar porque o lar deixou de existir, excepto nas bolas de naftalina da memória.

A minha partida foi uma fuga….”.

Desculpem lá o mau jeito, mas hoje deu-me p’ra isto…

Luís Miguel Mira em Crónicas da América

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

À MESA COM JOHN STEINBECK


Eu não sei muitas coisas, é verdade, àcerca da cidadezinha de Salinas, situada no Monterey County, na California.

Era para um fim-de-semana de corridas de automóveis em Salinas que James Dean se dirigia, naquele fatídico fim de tarde de Setembro de 1955.

Foi, também, "somewhere near Salinas, Lord" que Bobby McGee foi deixada "slip away", "looking for the love" todos nós esperamos que ela tenha encontrado...

Mas foi, sobretudo, nas obras de John Steinbeck que fui encontrando mais referências a esse lugar. E deu para perceber que se tratava de um importante centro agrícola, um dos principais de todos os Estados Unidos no que respeita à produção de frutas, legumes e outros produtos hortícolas afins. E também terra de vinhas, porque bebi um excelente "Pinot Noir" proveniente do vale de Salinas!

Muitas das primeiras obras de Steinbeck se situam em Salinas ou em lugarejos muito perto, mas talvez a mais marcante, nesse aspecto, seja "East of Eden".

Se não leram o livro, certamente viram o filme que Elia Kazan realizou em 1954, primeiro filme do tal rapaz de Indiana de que acima vos falei. E recordam-se, certamente, que o pai de Cal (Dean, no filme) tinha ficado na penúria porque a sua genial ideia de enviar alfaces para Nova York por comboio, conservadas em gelo, tinha saído furada pelo simples facto do avanço do comboio ter sido retido por uma tempestade. A àgua a jorrar das carruagens do comboio é, aliás, uma das imagens fortes do filme.

Para impôr a sua imagem de empreendedor e poder compensar o seu pai por essa perda, o jovem Cal dedica-se à plantação de feijões. Nunca achei demasiada graça à interpretação de Dean nesse filme (nem, em boa verdade, nos outros dois...), demasiado "Acto's Studio" para o meu gosto. Lee Strasberg não irá dar voltas no túmulo por um comentário destes de um gajo como eu, mas acho que esse estilo de representação dos primeiros filmes de Brando, Newman e tantos outros é uma das coisas mais datadas que hoje poderemos encontrar no cinema americano dos anos 50. Admitido que tenha sido importante, na altura, mas hoje é, para mim, dificilmente suportável...

Mas, voltando a Dean e a "East of Eden", sempre achei graça ao sorriso que ele punha no rosto quando contava aos outros o segredo do seu negócio: Beans!!!

Cal não teve sorte, e o seu puritano pai (excelente Raymond Massey!) atirou-lhe o dinheiro à cara, dizendo-lhe que jamais poderia aceitar tal coisa obtida à custa da especulação e da exploração dos pequenos propriétários rurais.

Mas estou aqui para vos falar de Steinbeck e não de Dean. E só me lembrei do filme para vos dizer que aquelas planícies sem fim que nele se vêm, carregadinhas de legumes, são a imagem de marca de Salinas.

John Steinbeck nasceu em Salinas, no início do século passado (1902) e aí viveu até aos 17 anos. Era oriundo de uma família de origem alemã, cujo nome era Grobsteinbeck, o qual, a exemplo de tantos outros de emigrantes, foi americanizado para Steinbeck.

A casa onde John Steinbeck nasceu tem uma história curiosa. Após muitos anos em poder da Diocese de Monterey, foi posta à venda no ínicio dos anos 70 e acabou por ser comprada por um grupo de senhoras da boa sociedade de Salinas, por $ 80.000, que a recuperou e aí instalou um pequeno restaurante destinado à divulgação da cozinha tradicional da região. Se quiserem comer um hamburger com ovo estrelado, não é a melhor solução... Mas se preferirem, como eu, uma boa tarte de espinafres, serão benvindos.

Essas senhoras formaram uma associação cívica, a Valey Guild, e todo o serviço do restaurante, da cozinha às mesas, é assegurado por voluntárias vestidas com os trajes da época.

É uma sensação estranha essa de almoçar na sala de jantar da Família Steinbeck, com o seu retrato de grupo na parede; ou visitar o quarto onde o jovem Steinbeck escreveu as suas primeiras obras ( "Red Poney","Tortilla Flat", ...).

Mas parece que Steinbeck nunca gostou muito de Salinas, e fugiu de lá logo que lhe foi possível. Percebe-se bem porquê: Salinas, a cidade, não tem nada de especial que se recomende. A Central Avenue, rica de casas em estilo victoriano, é bonita, tal como agradável é hoje a parte mais antiga da cidade, com os seus belíssimos cinemas e teatros dos anos 40, mas nada isso lá estava nos tempos de Steinbeck. Como também não estava o "The National Steinbeck Center", onde hoje é possível passear, com o auxílio das mais modernas técnicas da museologia, pelo interior das principais obras do nosso autor.

De facto, logo que pôde, Steinbeck pirou-se e foi viver para uma cabana de madeira em Monterey, a umas míseras 27 milhas da Salinas. Eu teria feito o mesmo...

Mas de Monterey, e de Steinbeck em Monterey, vos contarei numa próxima oportunidade...

Luís Miguel Mira em Crónicas da América

sábado, 3 de junho de 2017

O DEL MONTE EXPRESS


Na Palace Drug Company enrolaram-se os toldos. Um pequeno grupo de homens que tinha passado a tarde em frente aos Correios saudando os amigos pôs-se a caminho para ver chegar o Del Monte Express, vindo de São Francisco.

John Steinbeck em O Milagre de SãoFrancisco

domingo, 2 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Diz-se que o homem nunca está satisfeito, que mal lhe é dado ter uma coisa, logo deseja outra melhor. Mas isto, que dizem para o diminuir, é uma das maiores qualidades do homem e o que o torna superior aos animais, que se dão felizes com o que têm.

John Steinbeck em A Pérola

Legenda: fotografia de Edouard Boubat

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A tarde desceu tão imperceptivelmente como a idade atinge o homem feliz. Ouro penetrou na luz do Sol. As águas da baía ficaram mais azuis e pregueadas pelo vento que soprava da praia. Os pescadores solitários que acreditam que o peixe morde durante a maré alta deixaram as suas rochas, e os seus lugares foram ocupados por aqueles que estavam convencidos ser na maré baixa que o peixe pega no isco.

John Steinbeck em O Milagre de São Francisco

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

QUOTIDIANOS


Fui, com o desejo de aprender como é a América. E não estava certo de estar aprendendo fosse o que fosse. Descobri que estava a falar em voz alta para o Charley. Ele gosta da ideia, mas o processo faz-lhe sono.
- Aqui só para nós, vamos tentar o que os meus rapazes chamariam fazer as generalidades dançar o jazz. Vamos pôr-lhe títulos e subtítulos. Consideremos a comida, tal como a encontrámos. É mais que possível que nas cidades que atravessámos acossados pelo tráfego haja bons e famosos restaurantes com ementas deliciosas. Mas nos sítios onde se come ao longo das estradas a comida foi asseada, sem sabor, sem cor e de uma completa uniformidade. É quase como se os fregueses não tivessem interesse no que comem, conquanto que não tenha características  que os atrapalhem. Isso é verdade quanto a tudo excepto quanto aos pequenos almoços, que são uniformemente maravilhosos se comermos só bacon com ovos e batatas fritas. À beira das estradas nunca tive um jantar realmente bom nem um pequeno almoço realmente mau. O bacon ou as salsichas eram bons e acondicionados na fábrica, os ovos frescos ou conservados frescos pela refrigeração, e a refrigeração era universal.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura de Edward Hopper

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Pergunto a mim mesmo porque o progresso se parece tanto com a destruição.

John Steineck em Viagens com o Charley

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

LIMITEI-ME A LÊ-LO!


- Já estive em Duluth – disse a criada – e no Natal vou a Sioux Falls. Tenho uma tia lá.
- Não tem parentes em Sauk Centre? – perguntou-lhe o cozinheiro.
- Claro que tenho, mas isso não é tão longe como quem diz São Francisco. O meu irmão está na Marinha. Está em San Diego. Tem conhecidos em Sauk Centre?
- Não, quero só ver. Sinclair Lewis veio de lá.
- Ah, pois! Têm lá uma tabuleta. Creio que vão lá umas quantas pessoas para a ver. Tem uma certa utilidade para a cidade.
 - Foi o primeiro homem que me falou desta parte do país.
- Quem?
- Sinclair Lewis.
- Ah, sim! Conhece-o?
- Não limitei-me a lê-lo.
Tenho a certeza de que ela ia dizer «Quem?», mas interrompi-a. – Diz que atravesso em Saint Cloud e continuo na cinquenta e dois?
O cozinheiro disse: - Creio que esse fulano já lá não está.
- Bem sei, já morreu.
- Não me diga!...

John Steineck em Viagens com o Charley

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Quando esse período acabou e foram feitas as despedidas, tive de voltar a passar pela mesma solidão perdida, e não foi menos penoso do que no princípio. Parecia não haver cura para a solidão, a não ser a de estar só.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura de Paul Signac

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

POSTAIS SEM SELO



As linhas de mudança estão traçadas. Nós, ou pelo menos eu, não podemos ter uma concepção da vida humana e do pensamento humano em cem anos ou em cinquenta anos. Talvez a minha maior sabedoria seja o conhecimento de que não sei. Tristes são os que gastam a sua energia a tentar fazer voltar as coisas atrás, pois só podem sentir amargura com a perda e nenhuma alegria com o ganho.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura Izvor Pende

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

POSTAIS SEM SELO


Verifico pela minha longa experiência que admiro todas as nações e odeio todos os governos, e que o meu anarquismo natural não há parte nenhuma onde se revolte mais do que nas fronteiras nacionais, onde pacientes e eficientes funcionários públicos desempenham os seus deveres em matéria de imigração e alfândega. Nunca passei nada de contrabando na minha vida. Porque será, então, que tenho uma sensação embaraçosa de culpa ao aproximar-me de uma barreira alfandegária?

John Steineck em Viagens com o Charley

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

POSTAIS SEM SELO


Comecei a formular uma nova lei descrevendo a relação entre a protecção e o desânimo. Uma alma triste pode matar-nos mais depressa do que um micróbio.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura de Rob Hefferan

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POSTAIS SEM SELO


E, no perpétuo Verão húmido, desafio o seu espírito de imaginação, a não regressar ao grito da cor, ao arrepio límpido do ar gelado, ao cheiro da lenha de pinho a arder e ao calor acariciante das cozinhas. Pois como pode alguém conhecer a cor no meio do verde perpétuo, e para que serve o calor sem o frio para lhe dar doçura?

John Steineck em Viagens com o Charley

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


O tempo é ainda mais complexo junto ao mar do que em qualquer outro sítio, pois, além do girar do Sol e do volver das estações, há o bater das ondas contra os rochedos, marcando o fluir das horas, e o subir e descer da maré como os de uma grande clepsidra.

John Steinbeck em O Milagre de São Francisco.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Monterey possui uma qualidade imutável. Quase todos os dias, de manhã, o Sol brilha nas janelas do lado ocidental das rua; e, de tarde, brilha no lado oposto. Diariamente, o autocarro vermelho passa, retinindo, no seu vaivém entre Monterey e Pacific Groive. Todos os dias as fábricas de conservas expelem para o ar o desagradável cheiro do peixe a que reduzem o tamanho. Todas as tardes, o vento sopra da baía a agita ois pinheiros nas colinas. Os pescadores à linha sentam-se nas rochas de cana na mão e no rosto vinca-se-lhes a paciência e o cinismo.

John Steinbeck em O Milagre de São Francisco.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PRÉMIOS, PREMIADOS, DESPREMIADOS


John Steinbeck ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1962.

Como passados cinquenta anos a Academia Sueca abre os ficheiros que contém as actas da atribuição dos prémios, ficou, agora, a saber-se que a atribuição do Nobel a Steinbeck aconteceu porque a Academia considerava não existir nada melhor.

Na lista dos finalistas desse ano encontravam-se o dramaturgo francês Jean Anouilh, a escritora dinamarquesa Karen Blixen e os britânicos Lawrence Durrell e Robert Graves.

Karen Blixen foi retirada da lista por ter morrido naquele ano, as hipóteses de Anouilh esgotavam-se porque Saint-John Perse vencera o Nobel em 1960 , quanto a Lawrence Durrell, foi considerado que não estava maduro o suficiente para receber o prémio, já para não falar do erotismo que navega na sua obra, Robert Graves era um poeta britânico e a Academia, enquanto Ezra Pound estivesse vivo, tendo em vista as suas simpatias pelo fascismo italiano, não daria o prémio a um poeta inglês.

Restava John Steinbeck que, para além de outras obras, já publicara A Um Deus Desconhecido, As Vinhas da Ira e Ratos e Homens.

Considerar que estas obras não têm o valor para atribuir um Nobel ao seu autor é, no mínimo estranho, bizarro, não dá mesmo para acreditar.

Curiosamente, Steinbeck, no discurso da entrega do prémio, manifestara as suas dúvidas se não existiam outros autores, autores que reconhecia e respeitava,  que não merec4essem ganhar o Nobel, mas isso é apenas Steinbeck numa de humildade.

Não leio livros porque os seus autores ganharam o Nobel, não vejo filmes porque os seus realizadores venceram óscars da Academia, não ouço música por lhe ter sido atribuída um qualquer prémio.

Já era, há muito, seu leitor, entusiasmado leitor, quando José Saramago recebeu o Nobel.

As razões da Academia, os estranhos critérios, na atribuição do Nobel a Steinbeck, voltam a pôr a nu as omissões que se têm verificado, as atribuições a gente que hoje ninguém sabe quem foi, ou, sequer que livros escreveram.

Jorge Luís Borges, por exemplo, não recebeu o Nobel devido ao seu alinhamento político que manteve com a ditaduras argentina.

Pode-se, discordar... mas Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.

Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política.

É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.

O meu livro preferido de Steinbeck é A Um Deus Desconhecido, mais do que As Vinhas da Ira um grande romance que originou um admirável filme realizado por John Ford.

O começo do livro mostra logo a envolvência poética que percorre todo o livro, aquela frase solta, com humildade:

A terra vai deixar de chegar, senhor pai.

E, apesar das reticências do pai, este acaba por o abençoar e ele parte em busca dessa terra, uma terra que ali não esticava.

Depressa veio o Inverno, com a neve alta, e o ar enregelou-se em agulhas. Durante um mês Joseph vagueou pela casa, custando-lhe abandonar a sua juventude e todas as fortes recordações materiais da juventude; mas a bênção paterna desligava-o de tudo. Era um estranho naquela casa e sentia que os irmãos ficariam contentes quando ele se fosse embora. Partiu antes da chegada da Primavera, e as colinas da Califórnia estavam cobertas de verde quando ele lá chegou.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Gosto dos filmes que começam com uma voz off.
A Fundação Calouste Gulbenkian, para comemorar o seu cinquentenário, nomeou João Bénard da Costa, como responsável pela selecção dos filmes para o ciclo Como Era Belo o Cinema.
O ciclo abriu, a 4 de Novembro de 2006, com O Vale Era Verde de John Ford, baseado no romance de Richard Llewellyn.
Escreveu João Bénard da Costa em Os Filmes da Minha Vida : não há filme que me faça mais saudades.
Para além de um filme de doces nostalgias, Bénard da Costa não deixa de salientar o cunho político-laboral que o filme encerra, quando o pai, à greve dos mineiros, em que os filhos estão envolvidos, chama socialist nonsense, recusando-se a aderir e tentando proibir os filhos de o fazer.
A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E o pai proíbe que continue. Quem quiser coisas  dessas não tem lugar naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e saem. Fica só o mais novo, criança ainda e fica um enorme silêncio perante aquele primeiro “assassinato do pai”. De pois, o miúdo tosse e, sem o olhar, o pai diz muito devagar: “Yes, my son, I know you are there.
Cena deliciosa esta, uma das muitas que marcam indelevelmente o filme.



 Jorge Silva Melo no seu Século Passado:


Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama; ou  a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver...
Digo eu, agora: também a lindíssima Maureen O’Hara, nos seus 21 anos de cabelos ruivos, no preto e branco do filme, a atingirem um brilho esplendoroso.
Um filme em que não há nada, mas mesmo nada, que não esteja no lugar certo.
A perfeição é possível?



Ainda João Bénard da Costa: Há quem diga que tudo o que vive é sagrado, Ford, que o não disse filmou-o.


A tal voz off, que eu tanto gosto nos filmes, inicia-nos os passos para o desenrolar do filme:
Estou a embalar os meus pertences no xaile que a minha mãe levava ao mercado, e vou-me embora do meu vale. Desta vez jamais voltarei. Deixo para trás as minhas memórias de 50 anos. A memória. Que estranho que a mente esqueça tanto do que só agora acabou de passar, ainda que mantenha viva a memória do que aconteceu há anos atrás, dos homens e mulheres há tanto tempo falecidos. Mas quem dirá o que é ou não real? Como posso crer que todos se foram, quando as suas vozes permanecem gloriosas nos meus ouvidos? Não. E levantar-me-ei sempre para voltar a dizer não, porque eles continuam a ser uma verdade viva na minha mente. Não há nem cerca nem sebe, em torno do tempo que passou. É possível ter de volta o que se gostou, se o recordarmos. Por isso posso fechar os olhos ao que o meu vale é agora e que já se foi, e vê-lo tal qual como ele era quando eu era miúdo. Verde como era e possuído pela abundância da terra. Em todo o País de Gales não havia outro tão bonito.Tudo o que alguma vez aprendi enquanto criança, aprendi-o com o meu pai, e nunca achei que nada do que ele me disse estivesse errado ou fosse inútil. As lições que me ensinou permanecem tão intensas e claras na minha mente como se as tivesse ouvido apenas ontem. Nesses dias, a escória negra, os resíduos dos poços de carvão, só então tinham começado a cobrir a encosta da nossa colina, mas ainda não tinham desfigurado o campo ou escurecido a beleza da nossa aldeia. A mina de carvão só então começara a enfiar os magros dedos negros por entre o verde. Ainda consigo ouvir a minha irmã Angharad a chamar-me. Mineiros eram o meu pai e os meus irmãos e orgulhosos do seu oficio. Alguém começava a cantar, e o vale repicava ao som de tantas vozes. Porque o cantar está para o meu povo como ver está nos olhos.



Como isto não é um exercício de crítica ao filme, antes uma relembrança do quanto é belo o cinema, deixo o discurso de Mr. Gruffydd, o padre que vai ser julgado pelo conselho dos diáconos, gente que, ao longo dos tempos, a Igreja sempre guardou em si, como defensores de uma moral obsoleta, hipócrita, tão característica dos beatos e beatas de sacristia.


O meu avô paterno, anticlerical militante, adorava este discurso, o discurso de Mr. Gruffydd, interpretado por Walter Pidgeon:
Esta é a última vez que tomo a palavra nesta capela. Vou deixar o vale com mágoa, por aqueles que me ajudaram aqui, e que deixaram que eu os ajudasse. Mas... para os restantes, aqueles que provaram que desperdicei o meu tempo entre vós, só tenho uma coisa a dizer. Não houve um único entre vós que tenha tido a coragem de vir ter comigo e me acusar de alguma má acção. Mesmo assim, seja como fôr, se houve algum pecado, sou eu quem deve ser considerado pecador. Há alguém que queira erguer a voz, aqui e agora, para me acusar? Não. Também são cobardes para além de hipócritas. Mas eu não vos culpo. A culpa é tanto minha como vossa. As línguas ociosas e a pobreza de espirito que têm demonstrado, significam que não consegui transmitir à maioria a lição que me foi dada para ensinar. Quando era jovem pensava que  podia conquistar o mundo com a  verdade. Pensava vir a dirigir um exército maior do que Alexandre alguma vez sonhou. Não para conquistar nações mas para libertar a espécie humana.




Com a verdade. Com o som dourado da palavra. Mas só uns quantos escutaram. Só uns poucos de vocês compreenderam. Os restantes vestiram-se de preto e sentaram-se na capela. Porque é que cá vêm? Porque vestem de preto a vossa hipocrisia e a exibem perante Deus aos domingos? Por amor? Não. Já demonstraram que têm o coração demasiado definhado para receberem o amor do Vosso Pai Divino. Eu sei porque vieram. Vi-o nas vossas caras todos os domingos enquanto estavam aqui de pé perante mim. Foi o medo que vos trouxe cá. Um medo horrível e supersticioso. Medo da retribuição divina. Um relâmpago e o fogo dos céus, a vingança do Senhor e a justiça de Deus. Mas esqueceram-se do amor de Jesus. Ignoraram o seu sacrifício. A morte. O medo. As chamas, o horror e as roupas negras. Reúnam então o vosso conselho. Mas saibam que se estão a fazer isto em nome de Deus e na casa de Deus, estão a cometer uma blasfémia contra Ele e a sua palavra.
A mesma voz off que nos introduz o filme, encerra-o:
Homens como o meu pai não podem morrer. Permanecem ainda hoje, comigo, tão reais na memória com o eram na carne, amando e amados. Como era verde o meu vale.
Estive a rever o filme.
Quando chegou o The End, se vos disser que os meus olhos estavam secos, não acreditem.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

FRAGMENTOS


Possivelmente, Marilyn Monroe fez mais esforços para ler o Ulisses de James Joyce do que muita gente que diz que o leu e nunca acabou, ou sequer começou.

Por mim falo e digo que nunca o acabei e poucos esforços tenho feito para que lhe conheça o meio quanto mais o fim.

Em 1999, o exemplar de Ulisses que pertenceu a Marilyn Monroe, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.

A sua biblioteca era constituída por perto de quinhentos livros.

O já citado Ulisses estava por lá, e tinha por companhia obras de Dostoievesky, Jack Kerouac, Yeats, Samuel Beckett, Tolstoi, Walt Whitman, Rainer Maria Rilke, Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald, John Steinbeck.

Marilyn Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais, poemas, frases, cartas, notas várias.

Os papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua morte.

Parte de todo este material foi publicado em livro, no final do ano passado, nos Estados Unidos. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.

Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.

Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.

Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura,  mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.

Um símbolo sexual torna-se um objecto. Eu detesto ser um objecto disse a actriz.
O escritor António Tabucchi  (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro,  e observa:

No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Nos filmes que Billy Wilder realizou com Marilyn, opinião minha, os melhores dos seus filmes, a actriz fez a cabeça em água a Wilder, mas este sabia o diamante que tinha entre mãos:

Penso que ela é a melhor actriz cómica ligeira que temos no cinema hoje em dia, e qualquer pessoa sabe que a comédia ligeira é o mais difícil dos estilos de representação.

Deus deu-lhe tudo.

Obviamente que Billy Wilder, sabia do que falava.

No diário das filmagens do Let’s Make Love , Marilyn confessava:

De que é que eu tenho medo? Porque é que tenho tanto medo? Porque penso que não sei representar? Sei que sei representar, mas tenho medo. Tenho medo e sei que não devo ter, e não quero ter. Mas tenho.

Em 1948, Tom Kelley fotografou-a nua sobre veludo vermelho, que daria lugar ao celebérrimo calendário das paredes de todas as garagens do mundo.

Quando muitos anos mais tarde, um jornalista perguntou-lhe se ela não se envergonhara da ousadia de ter posado para Tom Kelley, Marilyn respondeu:

Tinha fome!

E, sarcasticamente, não deixou de acrescentar:

Porquê? Não gosta do vermelho?

Sabe-se, ou pensa-se que se sabe, que todos morremos a cada dia que passa.

Mas os dias de Marilyn foram tecendo o suicídio organizado em que a sua morte se transformou.

O tal seu livro dos segredos, o livro de capa vermelha, constituía material demasiado perigoso para que, impavidamente, o clã kennedyano assistisse à possibilidade de se tornar público.

Tenho a certeza de que acabarei louca se continuar a viver neste pesadelo, terá dito a actriz naqueles seus tempos de depressão, que irão culminar na noite em que tomou todos os tubos de comprimidos que tinha e não tinha, tal como sugere Ruy Belo no poema que dedicou à sua morte.

Poderá perguntar-se:

Tomou?