Esta é a capa da
caixa que reúne a Obra Completa de Adriano Correia de Oliveira, publicada, em
1994, pela Movieplay Portuguesa.
Organização da
Colectânea: José Niza
Textos: Manuel
Alegre, Paulo Sucena e José Niza
Design gráfico: José
Santa Bárbara
Algumas das gravações
presentes nesta colectânea remontam a 1960. Outras gravações, outras referências
à obra de Adriano Correia de Oliveira, ter-se-ão perdido nos diversos estúdios
por onde o Adriano, quase sempre de forma rudimenetar, gravou os seus discos, e
tudo graças ao seu forte espírito de combatividade, à sua enorme
disponibilidade, bem como o profissionalismo e saberes dos técnicos de som,
mais ainda do nível dos acompanhantes, onde se destaca Rui Pato.
José Niza terá
colocado, na elaboração desta colectânea, todos os seus conhecimentos da vida e
da obra de Adriano Correia de Oliveira.
FACE A
Emigração - Curros Henriquez
E Alegre se
Fez Triste - Manuel Alegre
O Senhor
Morgado - Conde de Monsaraz
Cana Verde - Fernando Miguel Bernardes
A Vila de
Alvito - Raul de Carvalho
FACE B
Canção Tão
Simples - Manuel Alegre
Cantiga de
Amigo - Luís de Andrade
Para Rosalia - Curros Henriquez
Roseira
Brava - António Ferreira
Guedes
História do
Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro - António Aleixo
Todas as músicas são de José Niza.
Arranjos: José Calvário, José Niza, Rui
Ressurreição, Thilo Krasmann
Orquestra sob direcção de José Calvário
e Thilo Ktrasmann
Capa e orientação gráfica: Silva e
Castro
Produção e supervisão musical: José
Niza
Editado em Novembro de 1971
Disco comprado na Discoteca Roma e
custou 188$50, ao câmbio actual menos de 1 euro.
«Quase toda a música deste disco
aconteceu no norte de Angola, em 1970, durante as incomensuráveis noites em
que, médico na guerra, buscava a evasão de não estar ali. Apenas duas canções
(«Emigração» e «Para Rosalia» existiam já desde 1969, histórico ano em que Ricard Salvat à frente do CITAC, compus a música para a peça «Castelao e a sua época».
É, de certo , modo, uma homenagem póstuma a coisas (ainda) vivas.
Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da
Concorrência
Música Adriano Correia de Oliveira, poema Manuel Alegre
Ilustração do interior do
LP da autoria de J. F. Bogalho
FACE 2
Lágrima de Preta
Música de José Niza, poema de António Gedeão
Canção Com Lágrimas
Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel
Alegre
Cantar Para Um Pastor
Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Matilde
Rosa Araújo
Como Hei-de Amar Serenamente
Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Fernando
Assis Pacheco
Sapateia
Canção popular açoriana
A Noite dos Poetas
Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de A.
Barahona da Fonseca
Arranjos de Rui Pato e Carlos Alberto Moniz Acompanhamentos de Rui Pato, Tiago Velez, Raul Mendes e Adriano Correia de
Oliveira.
Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho
Como hei-de amar serenamente
Com tanto amigo na prisão
Deixar intacta a minha voz
Nos acidentes da ternura
Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada
Não posso estar
serenamente
Não posso amar serenamente
Os versos esmagam-se na boca
E fica mais amarga a minha boca
Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente
O correio da guerra trouxe um livro. «Poesias
Completas», de António Gedeão. «Para musicar. Um abraço.
Cambezes». Quase automático. Gedeão é um dos poetas mais musicais
(musicáveis) da língua portuguesa. E a sua poesia, minha velha amiga. Esses
poemas, a angústia, o estar aqui, a viola, as noites, os estilhaços de um povo,
o torniquete equatorial, a medicina artesanal, o resto, tudo tornaram fácil.
Tão fácil, como sentir o arame farpado rasgando a pele dos sentidos. Tudo
tomou, também, um repentino sentido. Não eram poemas isolados, mas uma
história, o que estava ali escrito. E a história, e a poesia, eram demasiado
belas para que a música as estragasse. Havia o Homem. Havia uma história. Havia
um palco: a Vida. Eu daria apenas um pouco de música e um pouco de ordem. Mas,
o importante, era o Homem. Mesmo à dimensão de uma rodela negra, num rodopio de
33 voltas por minuto.
Do início («numa qualquer manhã, um qualquer ser,
/ vindo de qualquer pai, / acorda e vai, / como se cumprisse um dever»)
até «vestidos de surrobeco / e acocorados no chão», vai um salto de
20 séculos. Um drama em tempo de LP. Um disco pensado alto. Este o esquema, o
funil, o encurralar da ovelha. Sob uma macieira de plástico, o homem
nascido-em-qualquer-parte diz donde vem e o que quer:
«Venho da terra assombrada
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém».
Mas avisa:
«Não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar"»
Assim começa a fala do homem nascido. O pior é que o
mundo não é o que devia ser. Há o desencanto do desencontro. O diálogo não
passa de monólogo. As palavras são, apenas, sons. Para isto, mais vale «morrer atolado / na mais negra solidão». (A esta indiferença, a esta
fácil aceitação da fatalidade, chamava Roger Vaillant, em «La Loi», «se portugalizer»). No entanto, nem tudo está, ainda, perdido.
Acredita-se, mesmo por detrás da angústia, das contradições e de um quotidiano
feito de misérias e esperanças, que «todo o tempo é de poesia». Há
uma dinâmica permanente entre «bombas que deflagram / corolas que se
desdobram / corpos que em sangue soçobram / vidas que a amar se
consagram». O Homem acaba por ganhar o desafio, palmo a palmo, dia a dia,
calo a calo: «Tenho sofrido poesia... / dói esta corda vibrante / a corda
que o barco prende... / se vem onda que a levante / vem logo outra que a
distende / não tem descanso jamais». Uma vitória adiada. Um volte-face do
disco, um percurso do geral para o particular. Entramos em Portugal.
Todo um (saudável) culto do passado, construído sobre
um saudosismo que ainda dói – «Poema da Malta das Naus» – é, a um
tempo, homenagem, crítica e incitamento ao Homem Português de ontem e de hoje.
O marinheiro quinhentista «moldou as chaves do mundo», mas toda essa
epopeia teve (e tem) o seu preço, o preço trágico de uma «lágrima de
preta». Este o drama dos descendentes da malta das naus: a ciência
diz-lhes que a lágrima não tem «nem sinais de negro / nem vestígios de
ódio». Mas... e daí? De que vale a ciência da análise, se o Homem Nascido
não está preparado para a aceitar? Bastará a ciência ao Homem para que ele se
humanize? Filipe II (que aqui se cognomina de Manuel I) tinha tudo, tudo! «Mas o que ele não tinha / era um fecho éclair». É isto que dói ao
Homem Nascido: o não ter coisas tão aparentemente simples e possíveis como um
fecho éclair. Jamais a felicidade completa. Sobretudo por ser conseguida à
custa da felicidade dos outros. «Lágrima de Preta» é o primeiro poema
que, no disco, se dirige à mulher.
A Mulher Portuguesa, mulher em vias de
desenvolvimento, é hoje, talvez, o exemplo recente de uma nova forma de
alienação. Ao fazer-se uma (demagógica) promoção da mulher, inaugura-se um
moderno processo de a escravizar: a escravidão pelo trabalho desumanizado. E
escravidão não só à dimensão da sociedade, mas na intimidade da sua própria
vida (trabalho, casa, filhos, marido, trabalho... um ciclo vicioso infernal que
uma vez iniciado não pode parar). «Calçada de Carriche» é um hino à escravidão da mulher-mártir, frágil
máquina suburbana que o quotidiano da cidade suga. Mulher, máquina, máquina,
que o vertiginoso e breve amor dos domingos evade para as auto-estradas, na
doce ilusão de o novo mundo dos sentidos não ter segundas-feiras...
A evasão dá-se. «Leonor, Leonoreta, fuge, fuge, vai na asa de
lambreta» , com o único rumo de fugir a si própria, numa ilusória
felicidade, fugaz como a paisagem que a lambreta rasga.
O cerco aperta-se. O Homem torna-se cada vez mais circunscrito. De um trilião
de homens passa-se para o grupo e, finalmente, para o indivíduo, para o homem
concreto, com nome, residência e tudo. «Álvaro Góis / Rui Mamede / filhos
de António Brandão / naturais de Cantanhede...». Eles vivem, existem, são.
Em Braga ou em Olhão, no Alentejo ou na guerra, eles lá estão! «Vivos», «vestidos de surrobeco» e «acocorados no
chão», eles estão em toda a parte. No chão, mas ainda vivos... Eis a
"Fala do Homem Nascido"!
ELE nasceu numa qualquer manhã e não há poder que o vença.
Mesmo morto há-de passar!
Lisboa, Novembro de 1972.
Dois anos e meio passados, o disco fez-se.
No caminho ficaram muitas ideias, entre as quais o
entusiasmo de amigos como o Rui Ressureição e o Manolo Diaz, que, comigo em
África, quiseram esperar por mim. Como muitas vezes acontece, novas oluções
surgiram, entre as quais a que o talento e a inteligência de José
Calvário trouxeram a todo este trabalho.
Que António Gedeão me desculpe algumas amputações que
fiz aos seus poemas, determinados por razões musicais.
Foram trinta, como vos disse, os discos que fui reunindo com poemas
meus, cantados, e com diferentes músicos e cantores. Depois do de Manuel
Freire, o mais conhecido foi o de José Niza, deputado da nação e também
músico. É um disco de grande formato, só com poemas meus, ao todo onze. José Niza estava na guerra de África, no norte de Angola, quando o correio lhe fez chegar
as “Poesias Completas”. Foi essa a origem do disco, conforme o próprio conta e
vem impresso na respectiva capa. Obrigado.
Luís Cília, músico e cantor, publicou em Paris, um disco de grande
formato, intitulado 2La pésie portugaise de nos jours et de toujours”, com dois
poemas do vosso tetravô: a “Fala do Homem nascido” (“Voix de l’homme né”) e “Dez
reis de esperança” (“Deux sous d’espoir”), em 1972. Além destes contém poemas
de outros autores, portugueses também.
E muitos mais discos se publicaram, um deles de um cantor célebre na
época, entre nós, o Adriano Correia de Oliveira, de quem tenho três discos com
poemas meus e de outros autores.
Transformada, a partir
do 25 de Abril, em Hino do M.F.A, A Life on the Ocean Wave, passou a ouvir-se,
com mais frequência, a partir dos acontecimentos do 11 de Março.
Comunicados,
notícias e outros programas eram antecedidos com esta marcha da autoria de Henry Russell.
Chamou-lhe Desta
Vez é que é de Vez. José Niza já tinha sido o autor deE Depois do Adeus, canção interpretada por Paulo de Carvalho, concorrente ao Festival da Eurovisão de 1974 e escolhida como primeira senha do 25 de Abril-
O disco, etiqueta Orfeu
não refere quem interpreta esta versão cantada em português.
Apenas a
indicação do autor da letra e que os arranjos e Direcção Musical são de
Shegundo Galarza.
O povo é quem
mais ordena
O povo é quem mais trabalha
Desta vez, é que é de vez
Agora é que já não falha
Socialismo português
Revolução num país novo
Liberdade para viver
Pelo pão, pela paz, pelo povo
Vamos todos trabalhar
Vamos todos sem excepção
Cantar! Viver! Lutar!
E fazer a revolução
No mês de Abril
Vencemos nós
E agora todo o mundo
Vai ouvir a nossa voz!
No mês de Maio
O sol virá
A vitória em Portugal
É do povo e do MFA
Morreu hoje o músico, compositor e produtor musical, José Niza. Tinha 73 anos
Autor de muitas das canções de Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Carlos Mendes, Duarte Mendes, Teresa Silva Carvalho, Vitorino, Fausto e Rui Veloso. Em 1972, em conjunto com José Calvário e Carlos Mendes, ganhou o Festival RTP da Canção com o tema "A Festa da Vida", proeza que voltaria a repetir no Festival da Canção em 1974, 1976 e 1987.
A música “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo Carvalho, e que ficou para a história como uma das senhas musicais do Movimento das Forças Armadas no 25 de Abril, também é de sua autoria.
No início dos anos 70, como, responsável da editora Orfeu, colocou no mercado discos, entre outros, de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Manuel Freire, Carlos Mendes e Samuel.
Musicou poemas de António Gedeão, que deram lugar a um disco de referência da música portuguesa: “Fala do Homem Nascido”.
Esta é a capa do LP ”Fala do Homem Nascido”, etiquete “Orfeu”, edição de Arnaldo Trindade & Cª., Lda, Porto. Novembro 1972.
Um belíssimo disco da música portuguesa, um disco de referência.
Poemas de António Gedeão
Músicas de José Niza
Interpretações de Tonicha, Samuel, Carlos Mendes, Duarte Mendes.
Arranjos e Direcção de Orquestra de José Calvário
Gravação de orquestra nos estúdios Celada (Madrid) por Pepe Fernandez, Enrique Rielo e Vinader.
Gravação de vozes nos estúdios Polyson (Lisboa)
Produção de José Niza
Arranjo gráfico de Beatriz Morais Alçada
Fotografias de Álvaro João
José Niza conta:
“Zau Évua (Norte de Angola).
Abril-Maio de 1970.
O correio da guerra trouxe um livro. "Poesias Completas", de António Gedeão. "Para musicar. Um abraço. Cambezes". Quase automático. Gedeão é um dos poetas mais musicais (musicáveis) da língua portuguesa. E a sua poesia, minha velha amiga. Esses poemas, a angústia, o estar aqui, a viola, as noites, os estilhaços de um povo, o torniquete equatorial, a medicina artesanal, o resto, tudo tornaram fácil. Tão fácil, como sentir o arame farpado rasgando a pele dos sentidos. Tudo tomou, também, um repentino sentido. Não eram poemas isolados, mas uma história, o que estava ali escrito. E a história, e a poesia, eram demasiado belas para que a música as estragasse. Havia o Homem. Havia uma história. Havia um palco: a Vida. Eu daria apenas um pouco de música e um pouco de ordem. Mas, o importante, era o Homem. Mesmo à dimensão de uma rodela negra, num rodopio de 33 voltas por minuto.
Do início ("numa qualquer manhã, um qualquer ser, / vindo de qualquer pai, / acorda e vai, / como se cumprisse um dever") até "vestidos de surrobeco / e acocorados no chão", vai um salto de 20 séculos. Um drama em tempo de LP. Um disco pensado alto. Este o esquema, o funil, o encurralar da ovelha. Sob uma macieira de plástico, o homem nascido-em-qualquer-parte diz donde vem e o que quer:
"Venho da terra assombrada
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém".
Mas avisa:
"Não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar".
Assim começa a fala do homem nascido. O pior é que o mundo não é o que devia ser. Há o desencanto do desencontro. O diálogo não passa de monólogo. As palavras são, apenas, sons. Para isto, mais vale "morrer atolado / na mais negra solidão". (A esta indiferença, a esta fácil aceitação da fatalidade, chamava Roger Vaillant, em "La Loi", "se portugalizer"). No entanto, nem tudo está, ainda, perdido. Acredita-se, mesmo por detrás da angústia, das contradições e de um quotidiano feito de misérias e esperanças, que "todo o tempo é de poesia". Há uma dinâmica permanente entre "bombas que deflagram / corolas que se desdobram / corpos que em sangue soçobram / vidas que a amar se consagram". O Homem acaba por ganhar o desafio, palmo a palmo, dia a dia, calo a calo: "Tenho sofrido poesia... / dói esta corda vibrante / a corda que o barco prende... / se vem onda que a levante / vem logo outra que a distende / não tem descanso jamais". Uma vitória adiada. Um volte-face do disco, um percurso do geral para o particular. Entramos em Portugal.
Todo um (saudável) culto do passado, construído sobre um saudosismo que ainda dói – "Poema da Malta das Naus" – é, a um tempo, homenagem, crítica e incitamento ao Homem Português de ontem e de hoje. O marinheiro quinhentista "moldou as chaves do mundo", mas toda essa epopeia teve (e tem) o seu preço, o preço trágico de uma "lágrima de preta". Este o drama dos descendentes da malta das naus: a ciência diz-lhes que a lágrima não tem "nem sinais de negro / nem vestígios de ódio". Mas... e daí? De que vale a ciência da análise, se o Homem Nascido não está preparado para a aceitar? Bastará a ciência ao Homem para que ele se humanize? Filipe II (que aqui se cognomina de Manuel I) tinha tudo, tudo! "Mas o que ele não tinha / era um fecho éclair". É isto que dói ao Homem Nascido: o não ter coisas tão aparentemente simples e possíveis como um fecho éclair. Jamais a felicidade completa. Sobretudo por ser conseguida à custa da felicidade dos outros. "Lágrima de Preta" é o primeiro poema que, no disco, se dirige à mulher.
A Mulher Portuguesa, mulher em vias de desenvolvimento, é hoje, talvez, o exemplo recente de uma nova forma de alienação. Ao fazer-se uma (demagógica) promoção da mulher, inaugura-se um moderno processo de a escravizar: a escravidão pelo trabalho desumanizado. E escravidão não só à dimensão da sociedade, mas na intimidade da sua própria vida (trabalho, casa, filhos, marido, trabalho... um ciclo vicioso infernal que uma vez iniciado não pode parar). "Calçada de Carriche" é um hino à escravidão da mulher-mártir, frágil máquina suburbana que o quotidiano da cidade suga. Mulher, máquina, máquina, que o vertiginoso e breve amor dos domingos evade para as auto-estradas, na doce ilusão de o novo mundo dos sentidos não ter segundas-feiras... A evasão dá-se. "Leonor, Leonoreta, fuge, fuge, vai na asa de lambreta", com o único rumo de fugir a si própria, numa ilusória felicidade, fugaz como a paisagem que a lambreta rasga.
O cerco aperta-se. O Homem torna-se cada vez mais circunscrito. De um trilião de homens passa-se para o grupo e, finalmente, para o indivíduo, para o homem concreto, com nome, residência e tudo. "Álvaro Góis / Rui Mamede / filhos de António Brandão / naturais de Cantanhede...". Eles vivem, existem, são. Em Braga ou em Olhão, no Alentejo ou na guerra, eles lá estão! "Vivos", "vestidos de surrobeco" e "acocorados no chão", eles estão em toda a parte. No chão, mas ainda vivos... Eis a "Fala do Homem Nascido"!
ELE nasceu numa qualquer manhã e não há poder que o vença. Mesmo morto há-de passar!
Lisboa, Novembro de 1972.
Dois anos e meio passados, o disco fez-se.
No caminho ficaram muitas ideias, entre as quais o entusiasmo de amigos como o Rui Ressureição e o Manolo Diaz, que, comigo em África, quiseram esperar por mim. Como muitas vezes acontece, novas oluções surgiram, entre as quais a que o talento e a inteligência de José Calvário trouxeram a todo este trabalho.
Que António Gedeão me desculpe algumas amputações que fiz aos seus poemas, determinados por razões musicais
ORFEU STAT 013 Poemas de António Gedeão Músicas de José Niza Orquestração José Calvário Arranjo gráfico Beatriz Morais Alçada Fotografias Álvaro João Editado em 1972 Lado 1 Estrela da Manhã – Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha Fala do Homem Nascido – Samuel Desencontro – Samuel e Tonicha Tempo de Poesia – Duarte Mendes Vidro Côncavo – Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha Lado 2 Poema da Malta das Naus – Samuel Lágrima de Preta – Duarte Mendes Poema do Fecho Éclair – Carlos Mendes Poema da Auto-Estrada – Tonicha Poema de Pedra Lioz – Samuel Pelo ano de 1969, José Niza encontrava-se em Zaú Évua, no norte de Angola, a cumprir serviço militar. O correio da guerra levara-lhe um livro, “Poemas Completos”, de António Gedeão, e um recado: “para musicar”.De poemas, aparentemente soltos, resultou “Fala do Homem Nascido”, um dos mais belos discos da música portuguesa. Fala do Homem Nascido Venho da terra assombrada, do ventre da minha mãe; não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém. Só quero o que me é devido por me trazerem aqui, que eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci.
Trago boca para comer e olhos para desejar. Com licença, quero passar, tenho pressa de viver. Com licença! Com licença! Que a vida é água a correr. Venho do fundo do tempo; não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada solta o pano rumo ao norte; meu desejo é passaporte para a fronteira fechada. Não há ventos que não prestem nem marés que não convenham, nem forças que me molestem, correntes que me detenham. Quero eu e a Natureza que a Natureza sou eu, e as forças da Natureza nunca ninguém as venceu. Com licença! Com licença Que a barca se fez ao mar. Não há poder que me vença. Mesmo morto hei-de passar. Com licença! Com licença! Com rumo à estrela polar.