Ficção
Mário-Henrique Leiria
Obras Completas Vol. I
Introdução, Organização e Notas: Tania Martuscelli
E-Primatur,
Lisboa Maio de 2019
A VIAGEM, ENFIM
Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites
torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa
viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele
instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a
mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos,
talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar
os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já
estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën
arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas
entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso –
insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens
nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era
extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão
menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto,
ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem,
encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos.
Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado.
O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a
casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto
fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de
tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais
tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge
poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com
grande satisfação da mulher.
Então após ter passado um fim-de-semana a mexer na
máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar voltas pela vizinhança de
capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando ao carro na garagem,
sentiu-se livre.
E era berdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe
que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as
crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa
viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao
volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para
os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco
diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o
chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo.
Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao
longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida,
acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.