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segunda-feira, 23 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Poesia

Mário-Henrique Leiria

Obras Completas Vol. II

Introdução, Organização e Notas: Tania Martuscelli

E-Primatur, Lisboa Maio de 2025

 

Triângulo Kabalístico

 

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Manifestos, Textos Críticos e Afins

Mário-Henrique Leiria

Obras Completas Vol. III

Introdução, Organização e Notas: Tania Martuscelli

E-Primatur, Lisboa Junho de 2019


BI-MORALIDADE


Isto de tropa, não percebo nada. Não fui lá! Sempre tive coisas mais importantes a fazer.

Mas um amigo meu não se safou. Teve que ir.

No dia da inspecção, nu e em sentido, declarou esperançado e peremptório:

- Tenho os pés chatos, sou paneleiro e mijo na cama. Foi para fuzileiro naval.

Moralidade (made in USA/URSS) – o crime não compensa.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Ficção

Mário-Henrique Leiria

Obras Completas Vol. I

Introdução, Organização e Notas:  Tania Martuscelli

E-Primatur, Lisboa Maio de 2019

A VIAGEM, ENFIM

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com grande satisfação da mulher.
Então após ter passado um fim-de-semana a mexer na máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar voltas pela vizinhança de capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando ao carro na garagem, sentiu-se livre.
E era berdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar  para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para  trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Mário Gin-Tónico Volta a Atacar

Mário-Henrique Leiria e Mário Viegas
Textos inéditos, semi-inéditos, desconhecidos, esquecidos e muito divertidos
Capa do programa do Teatro Estúdio no S. Luiz, Março de 1987
Único actor e irresponsável: Mário Viegas

«A minha cumplicidade com Mário em 1978 e com o seu Humor foi fulminante!!
Estreei Mário Gin-Tónico no Porto em Junho de 1986 e durante dois anos foi das experiências maiores da minha vida: milhares de gargalhadas e espectadores.
Quando o espectáculo chegou às 3 horas… decidi parar. Aqui está de volta e com novos textos.
Vai um copo?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado

só


A BALA    e   o teu braço

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Casos de Direito Galático
O Mundo Inquietante de Josela (Fragmentos)

Mário-Henrique Leiria
Capa: Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, Carlos Rocha
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Editorial República, Lisboa, Abril de 1975

Ternura

Cheguei a casa um pouco mais cedo do que o costume. Tirei a ventoinha da cabeça, pus-me à vontade, fui ver se os mamutes estavam a fazer disparates e sentei-me na sala, no velho e confortável sofá que a tia Mizé nos oferecera pelo casamento. Querida tia Mizé! Preparei um gin.
Josela ainda não chegara. Estava atrasada, talvez as compras, quem sabe.
Foi quando ouvi abrir a porta. Fui ver. Josela chegava, empurrando o carrinho antigo que servira para o nosso filho agora com dezoito anos como sabem, e com um bom lugar de Viet qualquer coisa, lá não estou bem certo onde; lugar seguro e de futuro, foi o que me disseram. Bom rapaz, o nosso garoto.
Olhei o carrinho. Trazia um bebé dentro. Josela sorria. Vi o preço. Razoável. Do talho do senhor Esteves. Manias da Josela.
Olhei Josela.
Tinha os olhos brilhantes, havia uma ternura inesperada que a envolvia, uma tristeza distante nas mãos.
- Achas que podemos ficar com ele? – perguntou-me, afirmando.
Concordei. Josela manda.
Arrumei o carrinho.
Era um bebé ainda em muito bom estado. Durou cinco dias até apodrecer, calculem!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Mário e Isabel

Mário-Henrique Leiria
Ilustrações de Isabel Lobinho
Forja Editora, Lisboa, Maio de 1975

Antifibiologia

Ainda conseguiu voltar à superfície e pôr outra vez a cabeça fora de água.
Então, deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo, sólida e certeira, bem no alto da cabeça.

Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: “ que felizes devem ser os anfíbios!”

domingo, 11 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Novos Contos do Gin Seguidos de Algumas Fábulas do Próximo Futuro

Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa, Janeiro de 1978
Esta 2ª edição contém textos que não fazem parte da anterior edição, datada de Dezembro de 1973


O LUNA-PARQUE

Recordo-me perfeitamente. Era esplêndido, ir aos sábados ao Luna-Parque com a família.
Logo à entrada havia uma série de barracas de tiro ao alvo, com meninas simpáticas a chamar pela gente. Foi aí que o primo Rodrigo, ao disparar com o canhão de 12, se enganou e ficou sem a cabeça.
Havia também carrinhos com amendoins, sorvetes e aquele algodão de açúcar que nos deixava todos lambuzados. Sopeiras e magalas aos pares, de mão dada, a olhar para
tudo. Vejam lá há quanto tempo isto foi!
E a Montanha Russa! Ah, a Montanha Russa, como eu gostava de andar nela! Um sábado íamos todos na Montanha Russa. No meio do entusiasmo, o tio Leocádio deu um empurrão à avó Amélia, lá mesmo no alto da maior subida. Sem querer. Esborrachou-se toda cá em baixo, pobre avozinha. Tivemos pena.
Era realmente divertido. Nessas tardes fartava-me de comer tremoços e até bebia o meu pirolito.
Havia também a Grande Roda. Lá de cima via-se o Parque todo, ouvia-se a musiquinha que nos chegava como um som de distância. Era bonito. Certa vez, quando estávamos já na segunda volta, a tia Clarinda inclinou-se para ver melhor e ficou entalada nas engrenagens. Deu um certo trabalho a tirar dali os restos, coitados dos empregados.
No Comboio Fantasma foi-se o tio Geraldo. À saída, quando as portas se abriram e nos libertámos daquela escuridão medonha onde toda a gente dava gritinhos, demos por falta dele. O meu pai disse-me discretamente que devia ter sido um esqueleto que o apanhou. A verdade é que nunca mais o vimos.
E o papagaio que tirava a sina, lembram-se? Metiam-se dez tostões numa caixinha e o papagaio lá ia com o bico, zás, buscar a nossa sina. Como era engraçado!
Mas divertido, divertido mesmo, era o Grande Chicote. Levava-se cada safanão! Os carros batiam uns contra os outros e fartávamo-nos de rir. O Zezito, o filho da tia Josefa, levou um safanão tal que partiu a espinha. Era bom. Que saudade!
Depois comiam-se também umas farturas e eu até tinha direito a um copinho de abafado.
Quando chegava Outubro, com a melancolia das primeiras chuvas e as folhas douradas começando a cair das árvores, o Luna-Parque fechava e eu ficava já a pensar no ano seguinte.
Então o meu pai fazia as contas. Além de nós ali em casa, ainda sobrava o tio Inácio do Ministério, o primo Jerónimo que estava no Brasil, a prima Josefina que depois casou com o Clarimundo da Fonseca, devem estar lembrados, e mais alguns. A família, por esses tempos, era grande, graças a Deus.
Há quantos anos!
Como o tempo passa!
 

sábado, 10 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Novos Contos do Gin

Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa 1973

ESCLARECIMENTO

Quando estamos cansados
deitamos o corpo
e adormecemos

às vezes não

procuramos outra mão
outros olhos
que nos limpem a fadiga
e evitem o sono
que nos vem antigo

quando estamos cansados
podemos erguer o corpo
e acordar
e morrer acordados

sem cansaço

segunda-feira, 8 de julho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Lisboa Ao Voo do Pássaro

Mário-Henrique Leiria
Fotos: João Freire
Capa: Artur Henriques
Forja Editora, Lisboa Abril de 1979

pássaros
passarinhos
passarões
todos deputados
galifões
numa
assembleia da república
com certeza
votam o aumento
dos próprios
ordenados
ou não fossem eles
deputados

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Depoimentos Escritos – Contos, Poemas e Cartas de Amor

Mário-Henrique Leiria
Prefácio: Leonor Correi de Matos
Capa: Carlos António de Oliveira e Sousa
Ilustração da capa: José Antunes
Colecção Ficções nº 26
Editorial Estampa, Lisboa Abril de 1997

Demiti-me de tudo. Estou só. Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza é oportunista.

De uma carta a Isabel, datada de Carcavelos, 17 de Dezembro de 1974.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Contos do Gin-Tonic


Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa Março 1973

- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.
- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso?
- Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.
Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Viram isto?


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

OLHAR AS CAPAS


"Conto do Natal Para Crianças"

Mário-Henrique Leiria

Colecção "Roda Livre"
Forja Editora SARL
Lisboa, Fevereiro 1975
Este Conto de Natal foi composto por Mário-Henrique Leiria, em Dezembro de 1972, e oferecido a Álvaro Belo Marques.