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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOLTAS


 Jorge de Sena.

Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.

Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.

A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares. 

Também um homem amargo.
Numa carta a José Augusto França: "eu sempre detestei o convívio de chacha to relax from work. O meu trabalho não é trabalho, é vida - não preciso to relax dele, a não ser falando das tantas coisas que me interessam."
José Gomes Ferreira, num dos seus "Dias Comuns" refere a indignação de Sena com um crítico, manda-lhe o recorte, que fora injusto para com Irene Lisboa. E comenta: "Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondêcia, etc.,etc.,etc., - ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças? (As injustiças, para as sentirmos nos outros, temos de senti-las primeiro em nós, no sangue do nosso espirito insultado!) Sim. Admiro sinceramente Jorge de Sena - até porque impõe como virtudes o que nos outros soaria a defeitos. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridade. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridadea: o afinco ao trabalho. Jorge de Sena precisa desse trabalho constante como eu preciso de preguiça. (Preguiça para coisa nenhuma)."

É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo. 

1.

«Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!»
Eça de Queirós  em Os Maias.

2.

A lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em agressões  e estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

3.

No fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.

4.

«No autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo. Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»

Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim

5.

«Não há destinos adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.»

6.

«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»

7.

Disse Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.

8.

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

Seria o maior pesadelo que me poderia acontecer.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

LIVROS AUTOGRAFADOS


 

Os livros autografados da Biblioteca da Casa, comprados em 2ª mão, não têm só dedicatórias de gente ilustre para outra gente ilustre.

Por 50 Cêntimos, num desses vãos de escada que ainda se podem encontrar nos velhos bairros de Lisboa, vendendo de tudo um pouco, comprei este livro do Carlos Pinhão.

Comprei-o, principalmente, pelo que um avô sportinguista, corria o dia 16 de Maio de 1991, num bonito gesto de ternura, escreveu para o seu neto benfiquista:

«Para o João com um grande “viva ao Benfica campeão”».

Não sabemos se o João leu o livro, pela capa, pelo miolo, podemos concluir que não tem o mínimo sinal de ter sido lido, mas sabemos que o «despachou» e ter-lhe-ão dado uma ridicularia.

Serviu para quê, esse pouco dinheiro?

Nem para uma caixa de «chiclets» terá dado.

E aquele gesto de ternura do avô que tanto me agradara, passou a tristeza, reflexo da insensibilidade do João face ao gosto do avô lhe ter comprado o livro do Carlos Pinhão e que acabou num vão de escada de compra e venda de livros em 2ª mão.

Se o lesse teria reparado no que o Carlos Pinhão, a dado passo escreveu:

«Jogar é bom, faz bem, mas não é tudo, os jovens devem criar outros hábitos que contribuam para um desenvolvimento harmoniosos do corpo e do espírito… Por exemplo, ler…»

Mas os jovens não lêem.

Lembrar aquela história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: «Evito!»

José Tolentino Mendonça:

«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»

Carlos Pinhão era uma pessoa amável, um competente jornalista desportivo  de A Bola e autor de histórias infanto-juvenis.

Devo ao jornal A Bola ter-me dado a conhecer o poeta Ruy Belo.

domingo, 21 de dezembro de 2025

LIVROS AUTOGRAFADOS


Há algum tempo referi por aqui, um bom número de livros, comprados em alfarrabistas, em que encontro que alguns desses livros pertenceram a escritores, e outras gentes, a quem os autores  os ofereceram.

Os livros ou foram roubados, emprestados e nunca devolvidos, ou, simplesmente, os herdeiros, após ao morte dos proprietários, venderam-nos ao desbarato.

Amiúde encontramos nas listagens, colocadas pelos alfarrabistas na internet, a seguinte indicação:

«exemplar em bom estado de conservação; miolo irrepreensível, valorizado pela dedicatória manuscrita do autor ao…»

E aqui o preço do livro sobe bem.
Começo esta viagem de livros autografados, que se encontram na Biblioteca da Casa, com Ruy Belo.

Livro comprado numa loja-vão-de-escada-em-que encontramos-de-tudo-um pouco.

O livro é nem mais a 1º edição de Aquele Grande Rio Eufrate publicado em Abril de 1961 pela Ática Editora.

 

«A Tomaz Kim, com a amizade e a consideração do Ruy Belo

Alguma poesia que pode haver em Aquele Grande Rio Eufrates

Lisboa 19/VII/62.»

 

O velhote, certamente, não sabia o que estava a vender, muito menos, quem seria Ruy Belo.

Na capa do livro, o velhote colocou o preço: 10 escudos, ao câmbio de hoje, 5 euros.

 

Sobre Tomaz Kim, copiamos da Infopédia:

 

«Poeta, tradutor e ensaísta literário angolano, de nome completo Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo, nascido a 2 de fevereiro de 1915, em Lobito, e falecido a 24 de janeiro de 1967, em Lisboa.
Fez os estudos primários em Cape Town e o ensino secundário em Lisboa. Estudou Engenharia em Londres, mas, regressado a Portugal, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi leitor de Inglês e professor de Literatura Inglesa. Especializou-se depois nessa área em diferentes universidades do Mundo, tendo recebido formação de pós-graduação em Oxford, Heidelberg, Bona e Göttingen.
Com Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal, fundou e dirigiu, na sua primeira fase, Cadernos de Poesia, publicação eclética, editada em Lisboa, em 1940, e que, sob o emblema "Poesia é só uma", apresentava como objetivo "arquivar a atividade da poesia atual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas". Colaborou também em diferentes periódicos como Atlântico, Aventura, Presença e Graal.
A sua poesia, juntamente com a de Ruy Cinatti, inaugura um lirismo "depurado e um pouco hermético", no dizer de Jorge de Sena, mas é uma poesia "elíptica e oblíqua, dada todavia numa expressão muito direta".
Escritos e editados no decurso da Segunda Guerra Mundial, os seus primeiros volumes de poesia relevam de um compromisso com a História que não se traduz em termos de empenhamento social, mas da articulação entre a exigência ética e uma escrita condicionada pelo perigo apocalíptico que o conflito mundial traduzia. A tradução de poetas ingleses, nomeadamente T. S. Elliot, e a convivência com a cultura e língua inglesas justificam a sintaxe elíptica que caracteriza a sua escrita.
Destacam-se na sua obra: Em Cada Dia Se Morre, Os Quatro Cavaleiros, Dia da Promissão e Exercícios Temporais.»

 

Um poema de Tomas Kim tirado da Internet:

 

Quando a morte vier, meu amor,
fechemos os olhos para a olhar por dentro
e deixemos aos nossos lábios o murmúrio
da palavra branda jamais pronunciada
e às nossas mãos a carícia dispersa;
relembremos o dia impossível,
belo por isso e por isso desprezado,
e esqueçamos o que nos não deixaram ver
e o resto que sobrou do nada que possuímos;
deixemos à poesia que surge
o pranto de quem a trocou para comer
e os passos sem rumo pelas ruas hostis;
deixemos à carne o que não alcançámos,
e morramos então, naturalmente...

domingo, 13 de julho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Sempre aqueles versos dum poema de Ruy Belo: «uma casa é a coisa mais séria da vida»

Ou João Miguel Fernandes Jorge: «a casa é onde temos o coração».

Ou Emily Dickinson, «uma casa mais justa que a prosa».

Também um qualquer vagabundo:

«A rua é a casa de todos».

Por que não Vinicius de Moraes e Toquinho?

«Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero»

 

Legenda: ilustração de André Bolino

sábado, 5 de julho de 2025

CONVERSANDO


 As vidas de cada vida são tantas, tantas, que é impossível que se possa dizer que este ou aquele, são livros de uma vida.

Peguei há dias em O Estrangeiro do Albert Camus e poderia dizer que é o livro de uma vida. Não digo. Mas é um grande livro. Sujeito a uma série larga de leituras – quantas vezes o João Bénard da Costa viu o Johnny Guitar? - o livro tem um milhão de sublinhados, mas a minha atenção de agora fixou-se na frase:

«… a partir desse dia senti que a minha casa era a minha cela, e que a vida parava ali.»

Meursault estava preso porque, a seguir à morte da mãe num asilo de velhos, matara um árabe.

Donde partiu esta minha atracção pelas casas?

Só pode ter sido naquele poema do Ruy Belo

«Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro»

A tal ponto que arranjei uma etiqueta para casas e fui lá colocando o que sobre casas ia encontrando. Passei por lá os olhos e trago-vos algumas leituras, a maior parte são versos de poemas e acabo de ler no João Miguel Fernandes Jorge que «um verso fora do poema não deve despertar qualquer interesse.»

Nada se passa por detrás das janelas desde que deixámos de estar por detrás delas.

Palavras encontradas em Alexandre O’Neill

 … a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós a casa mora.

Mia Couto

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra

Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Autor desconhecido

Também nós não voltaremos à mesma casa.

Manuel S. Fonseca

segunda-feira, 10 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Páginas Dispersas

Antero de Quental

Edição organizada por Ruy Belo

Capa: O. Pinto

Colecção de Literatura e Crítica nº 7

Editorial Presença, Lisboa 1966

Recebi a tua melancólica carta. Eu, no meio desta sociedade, da qual por assim dizer me exilei voluntariamente, é quase como se não existisse.

 De uma carta, 1885, de Antero a Eduardo de Almeida Andrade.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Gostaria de ouvir as horas no relógio da Matriz, mas isso é o passado e poderia ser duro edificar sobre ele o Portugal futuro.

Ruy Belo

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

FIM DE VERÃO

A angústia que nasce num dia de verão

pode bem ser fugidio nevoeiro

a esvair-se no tempo da sua promessa

e a dizer-nos com força que não temos razão

 

em duvidar da vida e da nossa presença

junto à terra e ao mar, aqui nestas areias

onde o tempo afinal nem começa nem pensa

e o sol tudo apaga em qualquer estação.

 

Eu lembro Ruy Belo no final deste verão,

mas a vida larguei aqui por esta praia

e o reencontro fez-se contida paixão

com o verso a fluir e a vida tão escassa…

 

A angústia que nasce num dia de verão

é do tempo e da terra uma só comunhão.

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

domingo, 18 de agosto de 2024

QUOTIDIANOS


«Não vemos aqui Deus a passear pela borda da praia, “com as calças arregaçadas”, como dizia Ruy Belo. Mas acreditamos, como o grande poeta, que “o verão é a única estação” e que fomos feitos para “grandes férias”.»

Luís Filipe Castro Mendes   

domingo, 11 de agosto de 2024

OLHAR AS CAPAS


Colóquio – Letras

Dedicado a Ruy Belo

Director : Nuno Júdice

Colaborações:

Silvina Rodrigues Lopes, Pedro Eiras, Carlos Felipe Moisés, Fernando J.B. Martinho, Diana Pimentel, Isabel Morujão, Manuel António Ribeiro

Capa: Luís Moreira

Colecção Letras n 178 Setembro/Dezembro de 2011

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Madrid, 16 de Novembro de 1971

Meu caro Nuno Júdice

Há muito pensava escrever-lhe. Causa próxima: o postal colectivo que, no Verão, me mandaram do Algarve. Comove-me a mim, que sou precisamente um ocidental – não no sentido político, mas por ter nascido no cabo da Europa – que se lembrem de mim como amigo, embora depois disponham de ampla liberdade para criticar os meus livros. Ainda hoje me lembro daquela  estúpida resposta que lhe dei sobre a ausência de temática social em Aquele Grande Rio Eufrates, durante aquele colóquio comigo na Faculdade de Letras.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS



O título do texto pertence a um poema de Ruy Belo que vive no seu livro O País Possível:

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala

Nos inquéritos recolhidos por Alexandra Tavares-Telles, que o Diário de Notícias tem vindo a publicar, em que os diversos intervenientes se lembram dos dias de há 50 anos, hoje  coube a vez à escritora Ana Vidal que, então, tinha 17 anos.

A história que conta remete para tempos que são mesmo de outros tempos, como o existirem familiares em Lisboa que dispunham de uma quarto, de uma casa  para apoaiarem os jovens familiares,  vindos da província para estudar, e  não tivessem que enfrentar os preços pornográficos, miseráveis, absurdos, sei lá mais o quê, que os senhorios impõem, porque o estado não consegue, ou não quer?, construir apartamentos para estudantes.

É mais fácil dar dinheiro aos bancos do que enfrentar os problemas da habitação:

«Neste dia frio de fevereiro eu estava a meio do meu último ano letivo no Liceu de Santarém. O antigo “sétimo ano dos Liceus”, portanto. Era boa aluna, estava dispensada de ir a exame a quase todas as disciplinas. O meu futuro próximo desenhava-se paulatinamente, sem grandes ondas à vista: a ida para Lisboa, para entrar na Universidade – Direito ou Filosofia, ainda não me tinha decidido – e, o que mais me empolgava, o mergulho de cabeça no meu primeiro voo para a independência. Tal como a minha irmã mais velha, já no primeiro ano de Economia e Finanças, e alguns dos meus primos, ficaria alojada na casa da Rua da Junqueira que uns tios nossos, sem filhos, punham à disposição de todos os sobrinhos durante o tempo dos estudos na capital. Tios esses que não viviam lá, o que fazia daquela casa uma espécie de República de estudantes, muito apetecida e ponto de encontro de todos os nossos amigos que viviam com os pais.»


Legenda: imagem Shorpy

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

DE QUE FALAM AS CASAS


 As casas são uma máquina de habitar, é certo, e desempenham um papel-chave na construção da nossa experiência humana, Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas, Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e o seu tumulto, mas também da excedência que experimentamos. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte. «Oh as casas as casas as casas.»

José Tolentino Mendonça em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas

domingo, 15 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Uma Paixão Inocente

João Miguel Fernandes Jorge

Capa: João Botelho

Edições Cotovia, Lisboa Dezembro de 1989

Conheci Ruy Belo em 1989, após ter publicado os meus primeiros poemas. Um dia, durante um almoço na cantina da Cidade Universitária, Ruy Belo apareceu-me à frente com o tabuleiro da sua refeição. Vinha com ele o Manuel Gusmão, seu colega de curso, que tinha sido quem me publicara dois poemas na revista O Tempo e o Modo.

O Manuel Gusmão disse-me: «O Ruy Belo quer conhecer-te, pois gostou dos teus poemas e falou deles para o Km Zero. Tratava-se de uma folha literária do jornal de Castelo Branco, na qual acabaria por publicar alguns poemas.

A partir desse almoço fomos ficando amigos. Uma amizade que acabaria por perdurar. Por sua sugestão, levou o meu primeiro livro para a Moraes Editores e escreveu o prefácio desse livro.

Ruy Belo era um homem justo, profundamente bondosos. E era, sobretudo, um homem de grande saber.

domingo, 20 de março de 2022

E SE A PRIMAVERA FOSSE O TAL MOTIVO A INVENTAR?


Como disse o poeta Ruy Belo:

E eu chego e sento-me ao lado da primavera.

E seria o tempo do Jorge Silva Melo começar a falar dos jacarandás nas ruas de Lisboa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


«Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz» 

Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

Legenda: fotografia Shorpy

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

CONVERSANDO

 Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.

Agora que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada infância.

Já encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade  a lembrar que a infância aquece à medida que se distancia.

Altura de ter vontade de perguntar:

Será que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?

Talvez por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito gosta:

« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.»

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Para Quê Tudo Isto?

Biografia de Manuel António Pina

Álvaro Magalhães

Capa: Rui Rodrigues

Contrponto Editores, Lisboa, Setembro de 2021

A infância é uma estação poética por excelência, mesmo porque recria esse melancólico original que é a infância do mundo: o início do espaço e do tempo. Na infância, não estamos ainda separados do mundo, somos parte dele. Porém, estamos então demasiados próximos dessa infância, demasiado imbuídos dela para a reconhecer como tal. Sim, a infância não se vê da infância. Eugénio de Andrade dizia que ela «nos aquece à medida que se distancia», que é um modo elegante de dizer que só a temos quando a perdemos. «E apenas por a termos perdido a amamos tanto», (Ruy Belo). Sim, só depois de se perder esse estado de graça, essa simples felicidade, se toma consciência disso, e se reconhece o «pecado da infelicidade». Portanto, só possuímos a infância quando ela já é apenas distância, ou seja, uma construção da memória. E a memória partilha da mesma condição ilusória da literatura e do ser. Ela mente, frequentemente («nós é que construímos o nosso próprio passado», dizia Pina, mas é tudo o que temos para nos aguentarmos à tona nas águas turbulentas da existência.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 3

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Ruy Belo, Alexandra Lucas Coelho, Hélia Correia, Siri Hustvedt,

                  Ha Jin, Hilary Mantel, Susana Moreira Marques, Haruki

                   Murakami, António Osório, Valério Romão,  Paul Theroux,

                   Teresa Veiga, Lina Wolff

Capa: Luísa Ferreira

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2014

O Retorno

Volta, volta

logo que possas.

E que o Sol

abençoe as tuas raízes.

 

Segue umas crianças,

acompanha, viva,

a sua alegria.

 

 Vê as árvores,

as que foram tuas,

esconde-te por trás

do velho mirto florido.

 

Não esqueças a Mimosa,

a tua cadela, linda,

companheira, com olhos

quase tão belos e doces como os teus.

 

Procura o nosso Tempo.

Pede-lhe que seja generoso.

Não te deixes desfazer:

Volta, volta serena.

António Osório

sexta-feira, 7 de maio de 2021

POSTAIS SEM SELO


A tarde morre pelos dias fora, é muito triste andar por entre Deus ausente.

Ruy Belo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 19 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


E eu chego e sento-me ao lado

da primavera.

Ruy Belo, do poema Povoamento em Aquele Grande Rio Eufrates