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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

MINHA BENGALA FININHA

Minha bengala fininha

Tronquinho de cerejeira

Ajudas o meu andar

És minha companheira

 

Prendo-te com minha mão

Num afago que te dou

Nossa conversa é tão muda

Como um filme de Charlot

 

Falamos ambas da vida

Do tempo em que corria

Tu era um tronco verde

Primavera que nascia

 

Charlot às vezes sorri-me

Entre a mão e a bengala:

Troquinho de cerejeira

Também tem a sua fala.

 

Matilde Rosa Araújo

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Bloco

Coordenação de Luiz Pacheco e Jaime Salazar Sampaio

Colaboração de Jaime Salazar Sampaio, José Cardoso Pires, Poesia Mário Ruivo

                            Ferro Rodrigues, Maria Natália Duarte Silva, Matilde Rosa

                            Araújo e Luiz Pacheco

Capa: Castro Rodrigues

Ilustração de Daniel de Morais

Biblioteca da Censura nº 17

Edição Fac-simile do jornal Público, Agosto de 2023


Epitáfio

Passou a vida a

A procurar saber

O que os outros pensavam dele.

 

Chegou até aqui

Em caixão de mogno.

domingo, 17 de abril de 2022

CANTAREMOS


 

«Cantaremos» é editado em 1970

Capa de J.F. Bogalho

FACE A

Cantar de Emigração

José Niza música, poema de Rosalia de Castro

Saudade Pedra e Espada

Música Roberto Machado, poema Manuel Alegra

Fala do Homem Nascido

Música de José Niza, poema de António Gedeão

O Sol Préguntou à Lua

Canção popular açoriana

Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência

Música Adriano Correia de Oliveira, poema Manuel Alegre


                                                          Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

FACE 2

 Lágrima de Preta

Música de José Niza, poema de António Gedeão

Canção Com Lágrimas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel Alegre

Cantar Para Um Pastor

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Matilde Rosa Araújo

Como Hei-de Amar Serenamente

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Fernando Assis Pacheco

Sapateia

Canção popular açoriana

A Noite dos Poetas

Música de Adriano Correia de Oliveira, poema de A. Barahona da Fonseca


Arranjos de Rui Pato e Carlos Alberto Moniz
Acompanhamentos de Rui Pato, Tiago Velez, Raul Mendes e Adriano Correia de Oliveira.


                                                Ilustração do interior do LP da autoria de J. F. Bogalho

Como hei-de amar serenamente
Com tanto amigo na prisão
Deixar intacta a minha voz
Nos acidentes da ternura
Como hei-de estar sentado e calmo
Sentado e calmo com a minha amada

Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente
Os versos esmagam-se na boca


E fica mais amarga a minha boca
Não posso estar serenamente
Não posso amar serenamente


sábado, 7 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Segredo é Amar

Sebastião da Gama
Prefácio: Matilde Rosa Araújo
Edições Ática, Lisboa, Março de 1974

0 mais difícil não é ir à Arrábida, porque no Verão há carreiras de camionetas, no Inverno há em Azeitão táxis ou carroças ou jeriquinhos tão prestáveis; como os da Cacilhas de antigamente, e de janeiro a Dezembro, para muita e muito boa gente, há duas pernas vigorosas e de boa vontade que fazem transpor, a Serra pelo Vale do Picheleiro. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte para os bons banhistas, os bons amigos de bem-comer, os bons turistas; o que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. Sabe-se lá se o alor místico lhe vem da origem, se lho deixaram - inefável herança! - os franciscanos do seu Convento?... Mas é fora de dúvida que o visitante, se o não apreendeu, saiu da Arrábida sem sequer ter entrado nela verdadeiramente!
Vá sozinho, suba ao Convento, que é onde o espírito da Serra converge e como que ganha forma, leve, se quiser, os versos de Agostinho (bem-aventurado, que no-lo editou, o Professor Mendes dos Remédios!) e experimente como afinal é fácil estar a sós com Deus.
Quando, de rosado, começa a arroxear-se o horizonte, a Serra é um vulto de sombra parado a meio do silêncio. Pios de ave, como goteiras, piguelingam de quando em quando e de onde a onde - e damos então mais consciente notícia do grande silêncio. Dizemos:

Assim com cousas mudas conversando,
com mais quietação delas aprendo
que outras que há, ensinar querem falando.

 Se a Lua surgir, o mato começa a desenhar no chão arabescos que já sabemos ler; empalidece mais o Convento e nós, compenetrados da beleza divina (ou franciscana?) das coisas, somos a grande porta que se fecha sobre a Serra para a Serra dormir, pela noite longa e azulada de Estrelas, na sua, meditação que já dura séculos.
0 Céu fica-lhe perto: Bastaria acordar a meio da noite... Bastaria, para que Deus a ouvisse, sonhar alto um verso de Frei Agostinho, dos muitos que ele rezou e ela sabe de cor...

segunda-feira, 26 de março de 2012

OLHAR AS CAPAS


Poetas de Hoje e de Ontem

Selecção de Maria de Lurdes Varanda e Maria Manuela Santos
Prefácio de Matilde Rosa Araújo
Capa e ilustrações: Filipa Canhestro
Escritório Editora, Lisboa, 2011

Poema do Coração

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão