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quinta-feira, 26 de março de 2026

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O Adeus à Brisa

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: ilustração de Manuela Pinheiro

Colecção Contemporânea nº 6

Publicações Europa-América, Lisboa, Outubro de 1998

Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

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Abecê da Negação

Urbano Tavares Rodrigues

Capa. José Araújo

Colecção O Campo da Palavra nº 8

Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 1980

- Você é infeliz, Salvador. E não gosta da vida.

- Sei lá. Não posso queixar-me muito. Nunca passei fome. Nunca estive desempregado. Nem preso. Tenho os meus livros, a minha luta, os meus companheiros, a minha razão de viver.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

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Viamorolência

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Henrique Ruivo

Livraria Bertrand, Lisboa, Abril de 1976

Levou-as o nevoeiro, as tuas palavras tristes, que eu talvez não tenha sabido entender. Eram folhas da noite morta. No fim da treva, quando os troncos das árvores já se tingem de lilás, reencontro as tuas palavras-desalento, que eram praticamente lágrimas, quase só lágrimas, flores de água abandonadas…

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

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O Mito de Don Juan e o Donjuanismo em Portugal

Urbano Tavares Rodrigues

Colecção Ensaio

Edições Ática, Lisboa, Janeiro de 1960

Escrever, com desejo de seriedade, sobre «Donjuanismo» é, de certo modo, ingrato e de uma pesada responsabilidade, ainda que fascinante, dada a latitude que o tema, riquíssimo nos seus múltiplos desdobramentos e implicações, em quatro séculos e meio foi ganhando, a ponto de resumir hoje, aos olhos de não poucos ensaístas, algumas das qualidade maiúsculas do homem, investidas no «pecado» ou no crime, e de consentir os ângulos de visão mais paradoxais e artificiosos funambulismos da inteligência. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

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Estórias Alentejanas

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: José Araújo

Editorial Caminho, Lisboa, Agosto de 1977

Agora o que é bem certo é que o prazer da escrita tenho-o conhecido sobretudo ao evocar, ao reinventar, ao escrever o Alentejo, o que pode parecer paradoxal, já que algumas destas histórias são negras, dramáticas como o destino do povo junto ao qual cresci e com quem abri os olhos para a vida.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

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Tempo de Cinzas

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Alfredo Martins

Capa: Alfredo Martins

Editora Ulisseia, Lisboa, Julho de 1968

Nesta Paris de Agosto, quase deserta de parisienses, com os «beatnicks» de longa cabeleira de estopo e brinco à pirata na orelha a soletrarem de noite as estrelas nos cais do Sena ou a dançarem freneticamente o «jerk» no «Bus Palladium, ainda reina a mini-saia nos Campos Elísios e o povo continua a escrever frases acesas contra  a intervenção americana no Vietname.

sábado, 2 de agosto de 2025

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Vida Perigosa

Urbano Tavares Rodrigues

Livraria Bertrand, Lisboa 1955

Tinham a cidade aos pés e não a viam nem queriam vê-la, escondidos naquele jardim suspenso, onde os repuxos caíam, dolorosos, nas vibrantes conchas de mármore. Cada minuto que passava era um minuto perdido, um instante mais que a vida lhes roubava. O céu estava tão perto, através do caramanchão!... Quase desaparecia – coisa maravilhosa! – a noção de identidade. Quase, mas não por completo…

Francisco lamentou, em voz baixa:

- Vou por vezes a esquecer-me de quem sou, de onde me encontro, prestes a dispersar-me pela atmosfera, pelas coisas da natureza… e logo a vida torna a aparecer-me com a rigidez duma ficha.

- Faça como eu, não pense nisso – aconselhou ela.

 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

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As Pombas São Vermelhas

Urbano Tavares Rodrigues

Introdução de Jorge Correia Jesuíno

Colecçao: Livro de Bolso Europa-América nº 427

Publicações Europa-América, Lisboa 1985

A Revolução é uma exaltação, a mais pura, entre dois tempos. Amigos, façamos que ela dure, que se aprofunde, que não se corrompa. Eu sei que é difícil. Mas sei que atingiremos, com o nosso saco às costas, pleno de erros e decepções, a margem certa e segura de uma existência mais humana. E isso, afinal, por pouco que a alguns se afigure, vale bem a aposta: a nossa vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

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As Máscaras Finais

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Luís Filipe de Abreu

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

-Em que ano é que você anda?

- No terceiro… Não me interessa estudat, isto é, desta maneira… Já reprovei duas vezes.

- E o que é que lhe interessa?

- Tanta coisa! O cinema, o jazz, a praia… Gosto de me divertir, pois claro. Mas também gostava de fazer qualquer coisa que fosse útil, que se visse…

- O quê?

- Não sei. Podia tratar de crianças. Tenho jeito para isso, já experimentei. Mas a minha paixão, verdadeiramente, era ser actriz.

sábado, 14 de junho de 2025

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Roteiro de Emergência

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 87/88

Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1966

Aquela mesma janela, no intervalo das rondas, havia eu de tornar depois de quantas vezes, em noites de azedume e cansaço sem fim, para refrescar ainda o olhar e recobrar a esperança, uma réstia de esperança, nessas azuis imobilidades da aurora, que começavam a latir, em liberdade sobre o mágico rio, com o despertar dos barcos, das gaivotas, e pedir depois, apesar do frio que me trespassava, a um céu em brasa, que não havia de aquecer-me: dai-me forças de homem para prosseguir sonhando, já que assim me escolhi e que acredito no estatuto do sonho e no rumo da fraternidade – e sobretudo, ainda e sempre, a coragem de contestar o crime triunfante.

terça-feira, 3 de junho de 2025

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A Hora da Incerteza

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: sobre escultura de Francisco Simões

Publicações Europa- América, Lisboa, 1995

A sensação de volta, ao mesmo tempo eufórica e dolorosa, de tornar às fontes de sangue, à incandescência dos cantos corais da minha infância, desse tempo inalcançável, que já não encontro neste espaço sempre rememorado, nem nas sobreiras vivas, nem nas laranjeiras que restam da antiga horta.

terça-feira, 13 de maio de 2025

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 A Noite Roxa

Urbano Tavares Rodrigues

Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 46

Publicações Europa-América, Lisboa, Dezembro de 1972

Havia duas semanas que Marcelo ia todas as manhãs à posta-restante. Mostrava o passaporte e explicava meticulosamente ao mesmo rapaz esgrouviado, que o atendia com enfado: «Teixeira e Veloso, procure em T e em V, tenho nome duplo, não sei em que letra terão classificado a carta que eu espero.» O empregado relanceava, displicente, o passaporte largamente aberto na primeira página, levantava-se a contragosto, remexia um instante nas cartas que correspondiam àquela iniciais e voltava, imperturbável, de mãos vazias, com um leve, quase desdenhosos, aceno negativo. Era sempre assim. Marcelo ficava ainda um momento, incrédulo, entorpecido, a olhar o placard de madeira, onde aquelas duas divisórias, T e V, eram há pouco uma esperança e agora o silêncio, a distância, a certeza de que ela não escreveria nunca.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

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Realismo, Arte de Vanguarda e Nova Cultura

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Espiga Pinto

Colecção Poesia e Ensaio nº 15

Editora Ulisseia, Lisboa, Junho de 1966

Vale ainda a pena escrever romances? – eis uma das perguntas mais iquietantes que o escritor formula, numa altura em que o disco, a TV e o cinema (e este com um poder de comunicabilidade por certo superior ao da ficção escrita) polarizam a atenção das massas.

sábado, 1 de março de 2025

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As Aves da Madrugada

Urbano Tavares Rodrigues

Colecção de Autores Portugueses

Livraria Bertrand, Lisboa, 1959

António Ouriço pensava apenas na tulha onde ia esconder-se, em chegando à vila, quando o automóvel veio contra ele, como um espanto de ferro e fogo, e ali, redondo, o matou. Um segundo antes, pedira ele a Deus ou ao Diabo que lhe abreviasse a jornada, fosse como fosse, de tanto andart, mendigando e penado por aquelas estradas de Cristo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

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As Torres Milenárias

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Henrique Ruivo

Livraria Bertrand, Lisboa, 1971

A vossa vida é uma afronta para as pessoas que trabalham e sofrem, que se desunham para pagar a renda da casa, para poderem comer, e mal, que a vida está cada vez pior, e que até se esquecem do sexo, de tão cansadas que andam… Em suma, os oitenta ou noventa por cento das pessoas que trabalham… para vocês e outros como vocês fazerem frases… jogarem… os vossos jogos…

domingo, 29 de dezembro de 2024

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Horas Perdidas

Urbano Tavares Rodrigues

Prefácio. Miguel Tavares Rodrigues

Capa: Henrique Ruivo

Livraria Bertrand, Lisboa, Agosto de 1973

Olhei para o relógio: onze horas. O dia todo, ali, a ler aos bocados, a pensar. E sempre assim. Nunca acontecia nada. Que vontade de ir para longe, começar uma vida nova, dizer não à doença, embebedar-me de vida, esquecer-me de mim! A maior doença afinal era aquela força da inércia tentacular que ali me retinha afundado no sofá, sem energia para me levantar, abrir a porta…

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

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Desta Água Beberei

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Manuel Dias

Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1979

Aqui vive a classe operária, aqui se trava o deslize para a direita, aqui se escreve hoje o amanhã. Quando o céu fica de chumbo, quando as vértebras doem e o peito estala de zanga, organiza-se qualquer coisa que nos reúna, um sorteio, uma patuscada, na areia macia de todos, junto dos grandes eucaliptos, dos velhos pinheiros redondos da amizade e do amor. Sobejam felizmente os gravadores, os leitores de cassettes, os transístores, companheiros constantes dos domingos pobres. E se a caruma do pinheiro não auxilia, de facto, o baile pulado dos mais novos, sempre se descobre que ainda existem pássaros, flores ao deus-dará e seios rebeldes a espartilhos, que a língua aguda do sol torna nacarados. «De quem és tu, Etelvina?»,- «Minha.» - Quero-te, Etelvina, minha tua, e nunca, ao meu lado, hás-de envelhecer, porque te hei-de ver sempre como agora te vejo, com olhos de ternura,»

-Que é isso, João, é do vinho ou do sol?»

A liberdade palpita nos dedos que, livres, se entrelaçam. No crepitar das saúdes, no entusiasmo dos punhos que se cerram, no jovem ondular das saias estampadas, bocas vermelhas como a Revolução. Etelvina, o rosto liso da fraternidade. Contigo estou, estarei, meu amor, minha luta, meu calvário partilhado, meu naufrágio se tiver de o ser, minha porção de dia e noite, meu complemento, sexo sem cadeado, assim eu possa e saiba acompanhar-te não só na euforia, mas na batalha das horas ruins, na difícil resistência à penúria e ao fastio.

sábado, 16 de novembro de 2024

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 Violeta e a Noite

Urbano Tavares Rodrigues

Colecção Século XX n º328

Publicações Europa-América, Lisboa, 1991

Vejo-o partir, tão ligeiro. Que se passa? É como se o mundo para ele, apesar de ser quase Inverno, se enchesse subitamente de luz. A rua, as pessoas, o rio do tânsito, tudo a palpitar, alterando o giro do tempo? Não sei.

Realmente, não sei. É verdade que ele me comove. Mas por detrás deste momento, em que um grão de esperança se acende, há tanta vida cansada, apodrecida, tanto gesto excessivo, irrepetível. Dos esconsos da cidade, do rio, do cais, ou do mais fundo de mim vem soprando um subtil cheiro a morte e a nunca mais. Todavia…

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

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Ao Contrário das Ondas

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Henrique Cayatte

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2006

É impressionante como numa cidade com uma oferta cultural tão rica como Lisboa (música da melhor, algum cinema bom e o ballet renovado, as grandes exposições) há tão pouca procura e se mantém no galarim esta gente bacoca, espertalhona e pobre de espírito que ostente uns três automóveis de luxo e tem duas casas de veraneio e quantas vezes mistura negócios sujos com o seu peso político. Gente com ódio à liberdade e com desdém pelo povo, excepto quando fazem discursos eleitorais. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

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O Tema da Morte

Urbano Tavares Rodrigues

Colecção Cronos Ensaio nº 1

Cronos, Lisboa, Janeiro de 1966

Em Portugal a profissão de escritor reveste características sombrais, dado o pequeno número do público ledor. Ser escritor demanda portanto ou fortuna pessoal ou uma vocação ardente e esforço constante. A maioria é constituída por intelectuais que exercem outra profissão e escrevem, não raro com sacrifício de tempo e saúde, nas horas chamadas «vagas».