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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Espião Na Primeira Pessoa

Sam Shepard
Tradução: Salvato Telles de Menezes
Capa: Teresa Reis Gomes
Quetzal Editores, Lisboa, Agosto de 2018

Fizeram-me todos os exames. Lá no meio do deserto. Do deserto pintado. Terra de apaches. Terra de saguaros. Fizeram-me análises ao sangue, é claro. Todos os tipos de análises ao sangue para analisar os meus glóbulos brancos, para analisar os meus glóbulos vermelhos, analisando-os uns em oposição aos outros. Depois fizeram exames à minha espinal medula. Até me fizeram uma punção lombar. Fizeram-me várias ressonâncias magnéticas. Tubos pelos quais era possível olhar para todo o meu corpo para ver se havia qualquer paralisia de ossos e músculos. Amostras, cortes transversais. Raios X. Imagens fantasmáticas. E observaram a deterioração e observaram todo o tipo de coisas e não conseguiram apresentar nenhuma resposta até que apareceu por fim um tipo, creio que era um neurocirurgião, tinha cabelo preto e uma bata branca e óculos, electrochoques de sondagem com uma vara metálica. Injetou-os em ambos os braços e uma corrente eléctrica começou a pulsar e senti esses choques nos meus braços. Foi ele que apresentou a resposta de que havia alguma coisa que não estava bem. E eu disse, bom, eu sei que alguma coisa não está bem. Porque acha que estou aqui? Limitou-se a olhar para mim com uma expressão vazia.
De manhã ia tomar o pequeno-almoço a uma tasca mexicana. Enchiladas. Queijo com ovos. Pimentos verdes.

terça-feira, 24 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Verdadeiro Oeste

Sam Sheppard
Tradução: António Feio
Capa: João Botelho
Edições Cotovia, Lisboa, Outubro de 1992

Lee: Nunca pensei qu’a velhota fosse tão desconfiada.
Austin: Porque é que dizes isso?
Lee: Esta manhã dei uma volta por aí. Tem cadeados em o tudo qu’é sítio. Cadeados pequenos, cadeados duplos, cadeados com correntes… O que é qu’ela terá assim tão valiosos?
- Austin: Antiguidades. Sei lá.
Lee: Antiguidades? Trouxe tudo o qu’havia na outra casa. Toda tralha que costumávamos ter à nossa volta, lembras-te? Pratos e talheres…
Austin: Para ela devem ter calor sentimental.
Lee: Valor sentimental. Pois! É quase tudo lixo. Ainda por cima, imitações foleiras. Gravuras do Idaho, coladas na loiça. Diz-me lá: quem é que gosta de comer num prato com o Estado de Idaho, feito estúpido, a olhar pr’a gente? Cada vez que se dá uma garfada, vê-se mais um bocado do estado…
Austin: Bom, para ela devem ter um significado especial, senão não tinha ficado com eles.
Lee: Pois, mês eu é que não gosto de levar com o Idaho nas ventas quando ‘tou a comer. Quando ‘tou a comer, ‘tou em casa. ‘Tás a perceber? Não ando p’raí a planar, ‘tou em casa! Não preciso de pensar no Idaho. Passo muito bem sem isso.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Atravessando o Paraíso

Sam Shepard
Tradução: José Vieira de Lima
Capa: Fernando Felgueiras
Difel, Lisboa, Fevereiro de 1997

Era uma coisa que lhe dava sempre náuseas, fazer as malas. Aquela comichão indistinta a espreitar na garganta. A boca a saber a algodão. Bastava-lhe ver a roupa interior e as meias estupidamente à espera dele na cadeira. A pilha de T-shirts desbotadas. Estava-se nas tintas para a ordem segundo a qual as roupas iam para o saco verde. Misturava-as a esmo e nunca pensava no que poderia precisar de tirara primeiro ou em que cidade poderia para na primeira noite. Para dizer a verdade, agora não fazia ideia nenhuma sobre a direcção a seguir ou sobre a estrada que havia de tomar. Era cara ou coroa. Tentou imaginar um destino: Lexington; El Paso; Boulder City. Não fazia ideia. Os destinos misturavam-se todos. Tentou ver-se a si mesmo lá. Algures num sítio qualquer. A chegar. Albuquerque, talvez. Tucumcari. Viu uma cafeteira Denny’s que lhe parecia familiar, para lá de um parque de jogos e de uma velha estação dos caminhos de ferro; mas não estava certo quanto à cidade onde se lembrava de os ter visto ou quanto ao que esses sítios teriam que justificasse o seu regresso. Pensou em queimar todos os seus mapas.

quarta-feira, 1 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


Crónicas Americanas

Sam Shepard
Tradução: José Vieira de Lima
Difel Editores, Lisboa 1982

O meu pai tem uma colecção de discos metidos em caixas de papelão, arrumadas contra a parede do quarto, que se vai enchendo da poeira do Novo México. Nesta colecção, o campeão é um Al Jolson original, em 78 rotações, com a capa colada com fita adesiva e até a fita está meio rasgada. Da última vez que o vi, tentou convencer-me a levar o disco para L.A. e a vendê-lo por uma boa maquia. Está convencido de que vale, pelo menos, mil dólares. Talvez mais, consoante o mercado. Diz que, nos últimos tempos, tem perdido o contacto com os negócios.
O meu pai tem um quadro, na parede da cozinha, por cima do lava-loiças, que mostra uma señorita espanhola toda empoada. Tem mesmo. Leva-me a ver o quadro e ficamos ambos a apreciá-lo. «As pessoas pensam que ela deve estar nua, debaixo daquilo, mas aposto que tem alguma coisa vestida», diz ele.
Uma vez, guiou-me numa visita a todas as suas paredes. Todas as suas paredes estão cobertas por quadros e gravuras. Recortes de revistas de uma ponta a outra das paredes. Cada quadro ou recorte é um ponto de vista. Como se nos debruçássemos de várias janelas sobre paisagens emaranhadas. Observo os quadros. Uma queda de água com rochas verdadeiras coladas em primeiro plano. Rochas que achou que ficavam bem no quadro. Um cão branco com um peixe verde na boca. Cactos Saguaro ao pôr do sol, recortados de uma Arizona Highways de 1954. Um orangotango cor de laranja brincando com os órgãos genitais. Uma esquadrilha de bombardeiros B-52 em pleno voo. Uma colagem de rostos salpicada de manchas de gordura.
O meu pai tem uma colecção de beatas numa lata de café Yutan. Compro-lhe um maço de Old Golds mas nem lhe toca. Continua a vasculhar tabaco nas beatas e enrola tudo o que encontra, em cima de um saco de mercearia, de forma a não perder o mais ínfimo bocadinho. Olha desdenhosamente para o meu maço de cigarros, vermelhos e brancos e enrolados na fábrica.
Gastou em Bourbon todo o dinheiro que eu lhe tinha dado para comida. Encheu o frigorífico de garrafas. Tinha o cabelo cortado rente, tal qual um piloto da segunda guerra mundial. Brilhavam-lhe os olhos de contentamento sempre que passava a mão pelo cabelo rente e duro que nem cerda. Dizia que costumavam cortá-lo assim rente para que os capacetes pudessem encaixar bem nas cabeças. Mostrava-me as cicatrizes dos estilhaços ainda nítidas na nuca.
O meu pai vive sozinho no deserto. Não se dá com gente, diz.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Grande Sonho do Paraíso

Sam Shepard
Tradução: Margarida Periquito
Capa: Raquel Porto
Relógio d’Água Editores, Julho 2004

Se ao menos ela me pudesse ver agora, ela teria a certeza de que me ama, aposto. Aposto que teria. Como é que não havia de ter? Olhem para mim agora. Como eu estou. Se ela ao menos me pudesse ver assim – à espera dela, horas mais cedo, muito antes de ela chegar; à coca de qualquer sinal ou som dela. Ela havia de ver como eu estava ansioso. Ela havia de ver este desespero no meu peito. Se ela ao menos me pudesse ver agora, de longe, sem eu saber que ela me estava a observar, ela havia de me ver como eu realmente sou. Como é que ela poderia não ter qualquer sentimento por mim, então? Uma certa – mas talvez não. Talvez seja – quer dizer, talvez haja alguma repulsa numa coisa como essa. Não sei como é que isso funciona exactamente, mas – talvez haja – uma reacção de qualquer tipo quando alguém está demasiado necessitado. Não sei. Qualquer – convulsão. Não. Não, não é – Não é isso. Isso nem sequer é uma palavra, pois não? «Convulsionar.» Se ao menos ela se conseguisse lembrar daquela vez, quando é que foi – daquela vez lá em Knoxville, quando nos estávamos a beijar no comboio; aquele beijo longo longo que demos – despedindo-nos e o comboio de repente arrancou da estação, mas eu não era para ir com ela; quer dizer, é por isso que nos estávamos a despedir, pensando que não nos íamos voltar a ver durante muito, muito tempo, e estávamos fechados naquele longo – só a beijarmo-nos, e a beijarmo-nos, e de repente o comboio começou a mover-se e não houve maneira de eu poder sair. Árvores e casas passavam como relâmpagos. Depois despejaram-me na estação seguinte, que ficava uma porção de quilómetros adiante, e lá estive eu, horas à espera do próximo comboio em sentido contrário – quer dizer, se ao menos ela não me pudesse ter visto, ali em pé à espera, ela havia – ela de ter certeza havia de me amar. Quer dizer, como é que ela não teria qualquer – não sei. Não sei o que é que faz com que isso aconteça – essa ligação – nunca mais. Se é que alguma vez existiu.