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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ana

Maria Teresa Horta

Ilustrações de Leonor Fini

Editorial Futura, Lisboa, Dezembro de 1974

«Os dias são hoje de memória: a mudez, o Natal, os pés nus no chão da cozinha até à chaminé, o silêncio procurado do jardim.

Um jardim com a cas ao fundo. Uma casa impassível, impenetrável, de aparência tranquila.

Lá dentro a mãe arranja camélias na jarra de cristal facetado, e azevinho no centro da mesa.

Os seus movimentos são ágeis, livres e atentos ao mesmo tempo. Movimentos tão jovens como os seus cabelos nos ombros a resvalarem na seda do vestido».

segunda-feira, 25 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Novas Cartas Portuguesas

Maria Isabel Barreno
Maria Teresa Horta
Maria Velho da Costa

Editorial Futura, Lisboa, Maio de 1974

                                                                                                                             Primeira Carta I

Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível, ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procura mos. E já foi dito que não interessa tanto o objeto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.
Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido.
Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês a cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?

                                                                                                                                                1/3/71

terça-feira, 29 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Educação Sentimental

Maria Teresa Horta
Editorial «A Comuna», Lisboa, Fevereiro de 1976

As mãos

Porque das mãos
toda a importância está
no que seguram

Digo-vos:

naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite

nem ternura…

Porque das mãos
toda a razão está
no que descuram

Digo-vos:

naquilo que desfrutam
e manipulam por vezes
sem vontade

nem brandura…

domingo, 18 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Mulheres de Abril

Maria Teresa Horta
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1977

Diz

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada