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domingo, 27 de abril de 2025

À LUPA


 Livraria Bertrand no Centro Comercial do Campo Pequeno.

Estava a olhar para os escaparates.

Uma gentil moça aproximou-se com um sorridente «posso ajudá-lo?»

O livro que ele queria era «O 25 de Abril que Novembro Traiu» de Manuel Duran Clemente.

Há umas semanas falhara o lançamento do livro na Voz do Operário.

A moça não conhecia nem livro nem autor.

- Vou ali ao computador para ver se temos.

Após procura, novamente sorridente, disse: 

- Ah! não recebemos livros dessa editora…

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

ESTE DIA HÁ 45 ANOS


25 de Novembro de 1975.

 Cerca das 02 e 30 horas da madrugada, quatro chaimites dos comandos da Amadora chegam ao Palácio de Belém. Duas delas bloqueiam a Calçada da Ajuda. O comandante da Polícia Militar, Campos Andrada, contacta o Regimento de Comandos sendo-lhe respondido que aquela força estava a cumprir ordens do Presidente da República. Pedidas explicações para a Presidência da República, é confirmado que as chaimites estavam à ordem do Presidente da República, mas que tinha havido uma má interpretação e iriam regressar imediatamente

 O Conselho da Revolução, ao fim de oito horas de reunião em Belém, decidiu manter a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região Militar de Lisboa.

 04,00 horas -  tropas pára-quedistas ocupam as bases aéreas de Tancos, Montijo, o Estado Maior da Força Aérea, o Comando da Região Aérea, o GDACI , em Monsanto, e a Ota.

 05,40 horas - após cerca de 12 horas de interrupção do trânsito entre Leiria e Lisboa, são levantadas as barricadas montadas por agrários e pequenos proprietários.

 13,30 horas – o Presidente da República classifica a operação dos para-quedistas de sublevação.

14,30 horas - Otelo Saraiva de Carvalho chega ao COPCON no Forte do Alto do Duque.

 Varela Gomes há-de escrever:

 «Mas não havia nada a fazer. A grande decisão estava tomada. Otelo Saraiva de  Carvalho obedecia à convocação do general Costa Gomes, largando os “paras” à sua sorte. O estratega do 25 de Abril de 1974 abandonava vergonhosamente o seu posto de comando em 25 de Novembro de 1975. Na hora do aperto, fugia de calças na mão, à procura do refúgio protector.

Deveriam ser cerca das 15,00 horas quando o general graduado Otelo Saraiva de Carvalho saiu do Copcon… e da revolução.(1)

 Dinis de Almeida também, escreverá:

 O desinteresse manifesto de Otelo pelo controlo e coordenação das suas próprias forças militares, torna-se hora a hora mais inquietante.

 Só da parte da tarde aparecerá no COPCON, onde apenas permanecerá por momentos.

 Arrancará pouco depois para Belém onde afirmará junto a Vasco Lourenço e Marques Junior que ”… eu próprio lancei os pára quedistas, após o que a seguir os abandonei de propósito para lixar a esquerdalhada… que andava sempre a chatear-me…” 

 “Desgraçada Revolução que tais chefes teve”, dissera um dia Vasco Gonçalves, referindo-se concretamente a uma das muitas inconsequências de Otelo.» (2)

 16,35 horas -  a emissão Telescola, a ser transmitida pela RTP, é interrompida e surge no écran o Capitão Duran Clemente que pretende apelar para que as massas populares se mobilizem junto dos quartéis e estações da RTP, mas a transmissão é desviada para os estúdios do Porto e os portugueses passam a assistir ao filme de Frank Tashlin O Homem do Diners Club com Danny Kaye.

 16,30 horas -Costa Gomes decreta o estado de emergência na Região de Lisboa.

  Posteriormente é decretado o estado de sítio parcial na Região de Lisboa e a suspensão da publicação da imprensa escrita.

 22,00 horas - a emissão do Rádio Clube Português é silenciada e a Emissora Nacional, a transmitir dos estúdios do Porto, fica sob o controlo do CEMGA.

 Do livro Abril nos Quartéis de Novembro: 

« A calma, o saber esperar, adicionados à capacidade de provocar o adversário, terão sido os aspectos que mais contaram para a vitória dos “Nove”, que, à partida, não eram a força melhor colocada em termos militares na cidade de Lisboa. Tais capacidades são especialmente demonstradas no próprio dia 25, quando evitam actuar sem a cobertura de Costa Gomes. Esperaram que ele tentasse resolver o problema por outros meios, ao mesmo tempo que o iam pressionando, demonstrando a urgência de passara à acção. Em verta altura argumentam que não se pode deixar cair a noite para agir e que tudo está por fazer. » (3)

 Costa Gomes toma o comando directo das Forças Armadas, e as unidades de Lisboa são informadas de que além dele também recebem ordens de Vasco Lourenço, que Costa Gomes nomeia como seu adjunto, e mais tarde juntará o nome de Ramalho Eanes à cadeia de comando.

 José Gomes Mota no seu livro A Resistência:

«Tudo se passava, portanto, segundo os nossos planos, ou seja, Vasco Lourenço chefiava o Movimento e Ramalho Eanes dirigia o Grupo Militar.

Em seguimento à proclamação do estado de sítio parcial, na área da região de Lisboa, o Estado Maior das Forças Armadas difunde uma nota oficiosa em que se informa a população de que foi determinado o recolher obrigatório no período que se estende das zero às seis horas da manhã, e em que, também, alerta para o facto a rádio e a televisão não poderem emitir comunicados dos partidos políticos, apenas comunicados oficiais.»

 Simone Beauvoir, algures no tempo:

 O mais terrível dos sentimentos é o de ter a esperança perdida.

 José Gomes Ferreira no seu livro Intervenção Sonâmbula:

 Estamos no fim da Revolução. E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.


Fontes:

- Acervo pessoal.

 (1)   – Sobre os Golpes Contra-Revolucionários de 11 de Março e de 25 de Novembro de 1975 – Varela Gomes, edição do autor, Lisboa s/d

(2)   - Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A. 2º volume, Edição do Autor, Lisboa s/d

(3)   - Abril nos Quartéis de Novembro – Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Livraria Bertrand, Junho 1979

(4)    - A Resistência – José Gomes Mota, Edições Jornal Expresso, Lisboa, Junho 1976

sábado, 28 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


28 de Novembro de 1975

Natália Correia em Não Percas a Rosa:

À meia noite uma última badalada varre os ruídos da cidade.
O estado de emergência não foi considerado suficiente para a gravidade da situação militar e o estado de sítio passa a vigorar na Região Militar de Lisboa
O silêncio exaspera. Estamos sem jornais. Lacónicos comunicados informam espaçadamente a nossa ansiedade. O mais angustiante é que dessas escassas informações não conseguimos concluir se estamos ou não numa guerra civil
Este nosso país é realmente prodigiosos androginato do positivo e do negativo: um Governo em greve. O céu de Lisboa abanado por safanões de caças. Reencontros militares que decorrem num mundo paralelo, invisível. As notas oficiosas noticiam que as bases aéreas vão sendo abandonadas pelos rebeldes.

São emitidos mandados de captura para o Coronel Varela Gomes e Capitão Duran Clemente.

O Conselho da Revolução decide suspender as negociações pendentes sobre a contratação colectiva até à adopção de uma nova política salarial.

Durante a tarde soube-se que, na estação da Amadora, foi mortalmente atingido um membro da F.E.C. (ml). Os comandos dispersavam vários populares que se juntavam para adquirir uma edição clandestina do Luta Popular, órgão informativo do M.R.P.P.

O Conselho da Revolução demite todos os membros dos conselhos administrativos, dissolve os órgãos e corpos sociais, incluindo as assembleias gerais, administrações, conselhos fiscais, direcções e conselhos de redacção dos seguintes órgãos estatizados: O Século, Diário de Notícias, A Capital, Diário de Lisboa, Diário Popular.

Nove dias depois de suspender a sua actividade, o Conselho de Ministros considerou estarem reunidas as condições necessárias para o desempenho da sua missão e, sobre a presidência de Pinheiro de Azevedo, voltou a reunir.

O Primeiro-Ministro, através da R.T.P., fala ao país e, a terminar, diz:


É anunciado o início do inquérito aos acontecimentos do 25 de Novembro.

Vergílio Ferreira no seu Conta-Corrente:

A rádio transmite «folclore» português, dizendo com alegria que há muito não era transmitido. Limpeza geral nas redacções e administrações de jornais estatizados. Iremos  enfim respirar?
Não creio viável a  «democracia». Talvez uma ditadura no género Boumedienne ou Alvarado, como aliás imaginei logo no artigo «Dois meses de revolução».  Mas que sei eu de Alvarado e Boumedienne? Só o que sei é que não posso mais com esta bandalheira.

Fontes: 

-Acervo pessoal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


25 de Novembro de 1975.

Cerca das 2 e 30 da madrugada, quatro chaimites dos comandos da Amadora chegam ao Palácio de Belém. Duas delas bloqueiam a Calçada da Ajuda. O comandante da Polícia Militar, Campos Andrada, contacta o Regimento de Comandos sendo-lhe respondido que aquela força estava a cumprir ordens do Presidente da República. Pedidas explicações para a Presidência da República, é confirmado que as chaimites estavam à ordem do Presidente da República, mas que tinha havido uma má interpretação e iriam regressar imediatamente

O Conselho da Revolução, ao fim de oito horas de reunião em Belém, decidiu manter a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região Militar de Lisboa.

04,00 horas -  tropas pára-quedistas ocupam as bases aéreas de Tancos, Montijo, o Estado Maior da Força Aérea, o Comando da Região Aérea, o GDACI , em Monsanto, e a Ota.

05,40 horas - após cerca de 12 horas de interrupção do trânsito entre Leiria e Lisboa, são levantadas as barricadas montadas por agrários e pequenos proprietários.

13,30 horas – o Presidente da República classifica a operação dos para-quedistas de sublevação.


14,30 horas - Otelo Saraiva de Carvalho chega ao COPCON no Forte do Alto do Duque.

Varela Gomes há-de escrever:

Mas não havia nada a fazer. A grande decisão estava tomada. Otelo Saraiva de  Carvalho obedecia à convocação do general Costa Gomes, largando os “paras” à sua sorte. O estratega do 25 de Abril de 1974 abandonava vergonhosamente o seu posto de comando em 25 de Novembro de 1975. Na hora do aperto, fugia de calças na mão, à procura do refúgio protector.
Deveriam ser cercadas 15,00 horas quando o general graduado Otelo Saraiva de Carvalho saiu do Copcon… e da revolução.(1)

Dinis de Almeida também, escreverá:

O desinteresse manifesto de Otelo pelo controlo e coordenação das suas próprias forças militares, torna-se hora a hora mais inquietante.

Só da parte da tarde aparecerá no COPCON, onde apenas permanecerá por momentos.

Arrancará pouco depois para Belém onde afirmará junto a Vasco Lourenço e Marques Junior que ”… eu próprio lancei os pára quedistas, após o que a seguir os abandonei de propósito para lixar a esquerdalhada… que andava sempre a chatear-me…” (2)

“Desgraçada Revolução que tais chefes teve”, dissera um dia Vasco Gonçalves, referindo-se concretamente a uma das muitas inconsequências de Otelo

16,35 horas -  a emissão Telescola, a ser transmitida pela RTP, é interrompida e surge no écran o Capitão Duran Clemente que pretende apelar para que as massas populares se mobilizem junto dos quartéis e estações da RTP, mas a transmissão é desviada para os estúdios do Porto e os portugueses passam a assistir ao filme de Frank Tashlin O Homem do Diners Club com Danny Kaye.

16,30 horas -Costa Gomes decreta o estado de emergência na Região de Lisboa.

 Posteriormente é decretado o estado de sítio parcial na Região de Lisboa e a suspensão da publicação da imprensa escrita.

22,00 horas - a emissão do Rádio Clube Português é silenciada e a Emissora Nacional, a transmitir dos estúdios do Porto, fica sob o controlo do CEMGA.

Do livro Abril nos Quartéis de Novembro: 

A Calma, o saber esperar, adicionados à capacidade de provocar o adversário, terão sido os aspectos que mais contaram para a vitória dos “Nove”, que, à partida, não eram a força melhor colocada em termos militares na cidade de Lisboa. Tais capacidades são especialmente demonstradas no próprio dia 25, quando evitam actuar sem a cobertura de Costa Gomes. Esperaram que ele tentasse resolver o problema por outros meios, ao mesmo tempo que o iam pressionando, demonstrando a urgência de passara à acção. Em verta altura argumentam que não se pode deixar cair a noite para agir e que tudo está por fazer. (3)

Costa Gomes toma o comando directo das Forças Armadas, e as unidades de Lisboa são informadas de que além dele também recebem ordens de Vasco Lourenço, que Costa Gomes nomeia como seu adjunto, e mais tarde juntará o nome de Ramalho Eanes à cadeia de comando.

José Gomes Mota no seu livro A Resistência:

Tudo se passava, portanto, segundo os nossos planos, ou seja, Vasco Lourenço chefiava o Movimento e Ramalho Eanes dirigia o Grupo Militar.
Em seguimento à proclamação do estado de sítio parcial, na área da região de Lisboa, o Estado Maior das Forças Armadas difunde uma nota oficiosa em que se informa a população de que foi determinado o recolher obrigatório no período que se estende das zero às seis horas da manhã, e em que, também, alerta para o facto a rádio e a televisão não poderem emitir comunicados dos partidos políticos, apenas comunicados oficiais.

Simone Beauvoir, algures no tempo:

O mais terrível dos sentimentos é o de ter a esperança perdida.

José Gomes Ferreira no seu livro Intervenção Sonâmbula:

Estamos no fim da Revolução. E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.

Fontes:

- Acervo pessoal.

(1)   – Sobreao Golpes Contra-Revolucionários de 11 de Março e de 25 de Novembro de 1975 – Varela Gomes, edição do autor, Lisboa s/d
(2)   - Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A. 2º volume, Edição do Autor, Lisboa s/d
(3)   - Abril nos Quartéis de Novembro – Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Livraria Bertrand, Junho 1979
(4)    - A Resistência – José Gomes Mota, Edições Jornal Expresso, Lisboa, Junho 1976

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


19 de Novembro de 1975

Com uma calma palaciana, adquirida em 48 anos de ditadura, a direita e a extrema-direita vão avançando.
Sucedem-se as notícias da intenção de golpes provocados por militares reaccionários, com o apoio do ELP &Cª Lda.
Vasco Lourenço, Melo Antunes, outros militares afectos ao Grupo dos Nove, apercebem-se da situação e tentam uma unidade militar que permita uma clarificação da situação política e a defesa do espírito de Abril, uma tarefa que se afigura bem difícil.
Realizam-se várias reuniões, mas são dúbios os comportamentos de alguns dos militares afectos ao Grupo dos Nove.
Por um lado tenta-se a unidade, mas por outro o espírito unitário é lançado borda fora.
Considerando que Otelo Saraiva de Carvalho tem demasiados afazeres, o Conselho de Revolução, com o apoio de Otelo, designa Vasco Lourenço para governador militar de Lisboa.
Mas os comandantes das unidades da Região Militar de Lisboa, em reunião realizada no Forte do Alto do Duque, aprovaram, por maioria, a rejeição do nome de Vasco Lourenço.

NA SUA PRIMEIRA PÁGINA, A Luta, publica um comunicado das brigadas de vigilância revolucionária das Forças Armadas que denunciam «manobras na Força Aérea desencadeadas por militares identificados com o PCP e a FUR». São referidos os capitães Faria, Sobral Costa, os majores Costa Martins, Manaças, Ventura, Arlindo Ferreira e o Tenente -Coronel Lince.

NO DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Duran Clemente escreve que agora, mais do que nunca, a esquerda tem de se organizar e apela à união:


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


13 de Março de 1975

A INSTITUCIONALIZAÇÃO  imediata do MFA, através do Conselho Superior da Revolução e da Assembleia do MFA; a decisão de que o acto eleitoral decorra nos prazos previstos; a confirmação de que há civis ligados ao alto capital presos por estarem implicados na intentona do 11 de Março; e o reconhecimento da importância da aliançado Povo com as Forças Armadas, através da vigilância popular e da eficácia da actuação das Forças Armadas, foram os factos mais importantes referidos no decorrer de uma conferência de Imprensa dada ontem pelo ministro da Comunicação Social, comandante Correia Jesuíno que se encontrava acompanhado do capitão Duran Clemente da 5ª Divisão do EMGFA e do comandante Montês, director-geral de Informação.
O 11 de Março – adiantou o ministro - não foi um golpe militar representativo de divisões profundas no seio da Forças Armadas. Foi um golpe desencadeado por um grupo minoritário, altaamente reacionário, constituído por pessoas com um currículo já estabelecido. Inclusivamente, algumas dessas pessoas já tinham sido saneadas das Forças Armadas.
Referido, também, que se encontram detidos 25 militares, além da detenção de civis ligados ao grande capital, que subsidiaram partidos políticos e deram fugas a capitais da ordem de milhões de contos.
Quanto à participação nas eleições, dos partidos CDS e PDC, foi afirmado que a decisão caberá ao Conselho Superior da Revolução.



NUM COMUNICADO  do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, provocado por notícias de Lisboa, que tentariam envolver o governo espanhol nos acontecimentos em Portugal, é reafirmado que o governo espanhol reafirma a sua adesão total ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outro estado e que observa «rigorosamente» nas suas relações com Portugal.

SPÍNOLA  terá declarado a vários oficiais espanhóis  que «tenciona não voltar nunca mais a Portugal» e que espera encontrar asilo fora de Espanha, provavelmente no Brasil.

NUM COMUNICADO da Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português lê-se que não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção.

O JORNAL DE NOTÍCIAS e A Capital referem a morte de um civil às portas do RAL 1, na tarde do ataque. O civil, acompanhado de uma mulher, foi abatido pelos soldados depois de terem sido disparados tiros do carro onde fugia, depois de provocações aos soldados e populares que se encontravam junto ao quartel.

OS TRABALHADORES da Rádio Renascença consideram «irreversivelmente» anulados os despedimentos ordenados, em Setembro passado, pelo conselho de gerência da estação.
Numa carta enviada ao Presidente da República, em nome da Conferência Episcopal, D. António Ribeiro, patriarca de Lisboa, reclama o «normal funcionamento da emissora católica em condições de Liberdade».


NO SEU EDITORIAL o jornal londrino The Guardian escreve: «A não ser que os próximos dias tragam novas informações sobre o estado das coisas em Portugal, a rebelião de ontem por parte de para-quedistas e unidades da Força Aérea continuará a parecer, como parece agora, um acto de desespero político desnecessário e auto-destruidor.»

NO SEU EDITORIAL, o jornal parisiense Fígaro, destaca: «Duas interpretações dos acontecimentos são possíveis: ou a direita portuguesa é a mais idiota do Mundo, ou os «duros» do regime se comportaram com surpreendente maquiavelismo para eliminarem definitivamente os seus adversários da cena política.»

CÉSAR OLIVEIRA no seu livro Os Dias Decisivos:

O 11 de Março foi, penso eu, a tentativa bem sucedida para levar o general Spínola e os seus apoiantes para uma sublevação militar mal preparada, mal dirigida e com poucos apoios, de modo a evitar que a mesma ocorresse numa fase mais adiantada e segura de preparação.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Os Dias Decisivos – César Oliveira

Legenda:
- cartaz da autoria de João Abel Manta

- Títulos de O Século de 13 de Março de 1975

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ESTE DIA NÃO!


Como atempadamente a própria disse, a Aida teve um tasco em Almoçageme, ela bem me corrige, dizendo que era um Restaurante, mas para mim sempre foi um tasco porque é a palavra de que mais gosto para nomear sítios onde se come, onde se bebe, onde se conversa.
Enquanto por lá estivemos, muita gente entrou por aquelas portas dentro.
De entre os clientes lembro Duran Clemente.
Conversámos várias vezes, e questionado sobre tal, sempre me disse que teria que correr muita água por baixo das pontes para que um dia se saiba o que foi o 25 de Novembro de 1975. 
O livrinho que Duran Clemente já escreveu, publicado em 1976 pelas Edições Sociais, é apenas um alinhavar de notas e acontecimentos.
Não tinha qualquer intenção de referir a data, mas no blogue Entre as Brumas da Memória, Joana Lopes colocou um texto de Duran Clemente sobre o 25 de Novembro.
Porque é um texto importante, reproduzo-o com a devida vénia:

Manuel Duran Clemente deixou há dois dias este texto no meu mural do Facebook e, com a sua autorização, publico-o também aqui. Muitos leitores, provavelmente a maioria, discordarão do conteúdo e da forma peculiar e truculenta usada pelo autor. Mas é o que pensa hoje um dos ícones do (não) 25 do Novembro, aquele que ouvíamos naquela noite em nossas casas e a que foi retirada abruptamente a palavra, e faço questão de lhe «devolver» a voz.


Finalmente foram precisos mais de 38 anos para hoje toda a gente ou a sua maioria concluir que não houve nenhum golpe de esquerda...mas sim um razoável golpelho de "medrosos" (duma direita merdosa) a maior parte deles representando, conscientemente ou não, os que tinham perdido privilégios no 25 de Abril de1974 e aos quais os meus camaradas, pouco cultivados nestas coisas da política, incluindo Costa Gomes e outros experts - com Melo Antunes [a comandar os "nove"], que não sabia de politica mais do que eu - se associaram, não com medo do Partido Comunista nem dum guerra civil, mas sim com medo dos poderosos americanos , suas CIA e FBIs, que a pronto mataram J. Kennedy e Robert Kennedy, Luther King...Allende no Chile, Amilcar Cabral em Conakry, Mondelane em Moçambique, estudantes no México, o Black Power,...e toda a réstia de esperança dum ano de 1968 e de um Maio de 1968...E aqui na lusa pátria das lutas de 1962, 1969 e 1973.....e dos heróis mortos, feridos e presos do PCP...e dos de outras cores, católicos progressistas ou sociais-democratas, ditos socialistas, exilados ou refractários por Franças, Bélgicas, Alemanhas, Suiças, Holandas ou Escandinávias...terras das sereias.

No Portugal minimamente consciente…nunca ninguém teve medo do PCP, nem de Vasco Gonçalves, nem do MFA...mas toda a gente sofreu e teve horror ao fascismo, aos maus acólitos da igreja e aos nefastos caciques locais que hoje ainda perduram...na direita, na igreja e nas localidades...

Por isso Melo Antunes após este episódio fratricida de 25 de Novembro de 1975, que umas bestas pretendem ainda comemorar, debaixo do chapéu de chuva de R.Eanes...dizia (a meu ver, eu suspeitíssimo) para salvar a sua pele e a dos seus "alienados medrosos"... a democracia tem que contar com o PCP...que o mesmo era dizer a democracia tem de contar com todos nós que fizemos REVOLUÇÃO...que ele, como eu, fizemos...só com a diferença (por eu ser comunista deste os 30 anos..ou desde que nasci) não tenho a Medalha da Liberdade..(sendo dos primeiros dez a conspirar para o 25 de Abril). Coisa formal na qual me estou nas tintas… só nas tintas não. Completamente nas tintas...mas por mor dos meus pecados [acho que S.Pedro ma vai entregar à entrada do Purgatório...].

Com a incultura destes militares adeptos de Melo Antunes e de Vasco Lourenço e com pontas da lança dos EUA (desconhecidos destes e de outros genuínos capitães de Abril) (CIAs, FBIs E CARLUCCIs) infiltrados desde sempre no MFA e que me dispenso de nomear...até porque alguns jazem mortos ...que é que se poderia esperar deste saloio rectangulozinho à beira-mar plantado...??? As promessas europeias dessa outra figura "ignorante" (ignorante como revolucionário, sim...)??? Refiro-me a Mário Soares. É um intuitivo diletante que esteve sempre atrás do biombo da Revolução...como hoje está ...!!!

A diferença é esta...a esquerda "derrotada" estava e está com a Revolução...a dita "esquerda" vencedora está com o 25 de Abril...mascarada de 25 de Novembro.

Como não há 25 de Abril sem REVOLUÇÃO...para que serve o 25 de Novembro? Para, num momento destes, um dos mais graves da vida nacional, uns espertalhaços que ficaram adormecidos com os louros dos 25 de Abril/Novembro, conquistados por nós, se outorguem em dar força à direita e aos inimigos do povo português...

Ramalho Eanes....um andrógeno do 25 de Abril e da REVOLUÇÃO... teve o desplante [nesta era (hoje) sob resgate da troika] de aceitar ser homenageado no dia 25 de Novembro..Se fosse um homem genuíno, do 25 de Abril, devia ter dito que NÃO, redondamente e sem equívocos. Mas não..ao terceiro terço dos mistérios dolorosos, da santa madre igreja, após salvé rainhas...de oh clemente e oh piedoso.. que nem sei quem sois ..declarou aceitar a homenagem fracturante. Mas como tem uma missa em Alcains...(terra do meu apreço pelo belo cabrito que lá se esfola..) à qual prometeu não faltar...vai mandar a mulher (D.M.Portugal) e sua filha, alimentar, no dito jantar, a gula dos vampiros da nossa democracia...dos alegres e tristes algozes deste nosso burgo.

Mas sabem no fim disto tudo o que está em causa... é que alguns de nós que nascemos para chatear os malandros (de vários níveis) andamos para aí a espalhar que a culpa do que está a acontecer tem muito (quase tudo ou quase nada, ou qualquer coisa) a ver com uma certa data de um Outono de 1975....em que as nossas mais gloriosas esperanças (ao contrário dos dolorosos mistérios do terço da Virgem Maria) foram decapitadas por inconscientes medrosos ou por conscientes ao serviço do estrangeiro.

E, ao lado desse desígnio, militares, como Melo Antunes, (chefe dos "nove") que passando por Bissau em Agosto de 1974 ,transpirava (vulgo: suava) ao ter de enfrentar seus jovens Duran Clementes, Jorge Golias, Faria Paulinos, Bouça Serranos, Jorge Alves, Barros Mouras, Celsos Cruzeiros, Sousa Pintos, Matos Gomes e outros nobres capitães ou militares de ABRIL ..."assessores" ou "adjuntos" dum homem digno Carlos Fabião...Eu estava junto de Fabião que de Bissau mandou o General Spínola dar uma volta ao bilhar grande. Meus amigos, fui eu que traduzi, ao telefone, em Julho de 1973... Isto porque o general do monóculo queria teimoso aterrar em Bissalanca com as suas 27.000 fotografias para organizar mais um teatral e “falso” congresso do povo guineense…numa última tentativa de abafara descolonização e evitar o inevitável: a já declarada e reconhecida, por quase 100 países, independência da Guiné-Bissau!!! Nessa ocasião pasme-se Melo Antunes ainda andava indeciso com a problemática descolonização. Por isso, antes de morrer, declarou que ela tinha sido uma tragédia. Espero que tivesse, no seu íntimo, responsabilizado essa “proclamada desventura” a António Salazar, a Marcelo Caetano e à ditadura fascista.

Um exemplo da ética de Ramalho Eanes.

Mas ainda hoje se fala aos quatro ventos da ética de Ramalho Eanes. Pois bem, vou-vos contar este acontecimento. Em 1977 o Conselho da Revolução (CR) para apaziguar os militares resolveu promovera publicação dum Decreto-Lei que reintegrava todos os militares “expulsos” das Forças Armadas em consequência dos eventos do 11 de Março e do 25 de Novembro. A coisa foi noticiada em caixa alta nos jornais. Só que esta aparente generosidade de Eanes e dos seus membros do CR estava eivada dum manhoso subterfúgio. Os militares do 25 de Novembro não tinham sido formalmente expulsos, logo a lei não iria aplicar-se a eles.. Depois de termos dado conta disso avisou-se Vasco Lourenço (eu mesmo escrevi uma carta a Melo Antunes) inquirindo-os se tinham consciência do logro. Estes discutiram o facto com Eanes. Afinal a lei não contemplava os militares injustamente acusados de golpe no 25 de Novembro. Viemos a saber que a ética de Ramalho Eanes impediu que o texto da lei fosse adaptado e nos contemplasse. Éticas e manhas. Manhas e lógicas de medo e de falta de saber!!! Como hoje...

Continuarei ...se não houver problemas técnicos...há mais para contar!!!


Manuel Duran Clemente