Mostrar mensagens com a etiqueta Jack Kerouac. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jack Kerouac. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


Vive a tua memória e assombra-te .

Jack Kerouac

Legenda: pintura de Kandinski

domingo, 21 de janeiro de 2024

A IMBATÍVEL SOPA DE PURÉ FRANCESA

Pelo monte abaixo, à chuva, entrei num esplendoroso restaurante da Rue de Clignancourt e comi a imbatível sopa de puré francesa e uma boa refeição com um cestinho de pão francês e o meu vinho e os copos de pé alto e fino com que sonhara. – Olho através do restaurante para as coxas tímidas de uma jovem recém-casada que come o grande jantar de lua-de-mel com o noivo lavrador, sem que nenhum deles fale. – Levarão cinquenta anos a fazer o mesmo nalguma cozinha ou sala de janatar provinciana. – O sol brilhou de novo e, de barriga cheia, vagueei por entre as galerias de tiro e os carrocéis de Montmartre e vi uma jovem mãe abraçando a filinha que segurava uma boneca, fazendo-a saltar no colo e rindo e abraçando-a porque se divertiam tanto no cavalinho de pau e vi o amor divino de Dostoievski nos olhos dela ( e lá em cima no monte sobranceiro a Montmartre Ele estendeu os Seus braços).

Jack Kerouac em Viajante Solitário

sábado, 20 de janeiro de 2024

DEU-ME UM BAQUE!

Manuel António Pina foi colega de Sérgio Godinho no 6º e 7º Anos do liceu. 

Estavam em áreas diferentes, mas tínham cadeiras comuns. 

Foi o Pina que lhe mostrou Pela Estrada Fora do Kerouac. Foi também ele que lhe mostrou as Odes Elementares de Pablo Neruda - «Deu-me um baque!»

sexta-feira, 29 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO


Vive a tua memória e assombra-te.

Jack Kerouac

domingo, 21 de fevereiro de 2021

HISTÓRIAS QUE REMETEM PARA A INFÂNCIA

Tem um grande fascínio por comboios, por estações de caminho-de-ferro, verdadeiros lugares da memória.

O Eduardo Prado Coelho disse que as histórias de comboios remetem sempre para a infância.

Há uma fotografia, não a encontra, que mostra Mário Soares e Maria Barroso, após o 25 de Abril, a regressarem do exílio de comboio. Santa Apolónia era um mar de gente.

Anna Karenina atira-se para debaixo de um comboio, não como fim da sua desgraça, mas como continuação do seu destino.

Agustina Bessa-Luís, em As Estações da Vida, explica: «O seu suicídio, quase automática. Ao lançar-se diante do comboio que avança ma linha, é ainda um modo de ligação com o amante. Ela exerce o seu direito de intervenção já quando a paixão está condenada. Porquê o comboio? Porque ele sugere viagem, fuga, fadiga sob um ângulo de distracção e esquecimento.»

Tolstoi fez de um comboio o seu caixão, morrendo na estação de Astapovo.

A grande viagem de comboio de Lenine, destinada a mudar o mundo, iniciou-se a 9 de Abril de 1917, e durante oito dias preparou a revolução.

Aqueles enormes comboios de mercadorias que percorrem a América profunda, que passam lentamente e onde vagabundos, malta diversa andam à boleia.

 «Durante a depressão eu costumava viajar em comboios de carga pelo menos uma vez por mês. Nesses dias podia ver-se uma centena de homens num vagão, aberto ou fechado, e não eram só vagabundos, mas toda a espécie de desempregados, que iam de um lado para o outro, alguns deles só a vadiar.»

Jack Kerouac em Pela Estrada Fora

No Sweet and Lowdown, filme do WoodyAllen, o Sean Penn enternece-se a ver passar comboios.

O pintor belga Paul Delvaux gostaria de ter sido chefe de estação.

Inveja o anão, apaixonado por comboios, de A Estação, um comovente filme de Thomas McCarthy, que recebe, como herança, um pedaço de terra, em nenhures, que tem uma esquecida estação de comboios e que trabalha numa pequena loja onde desaguam os entusiastas-apaixonados-obessessivos dos caminhos de ferro, que sabem tudo sobre comboios, que podem fazer centenas de quilómetros para tirarem uma fotografia a uma locomotiva, a uma carruagem. 

Finbar já ouviu todas as piadas e observações sobre o seu aspecto físico, apenas quer que o deixem em paz. Durante quanto tempo conseguimos não estar sozinhos? É um prazer raro alguém apenas falar quando o quer fazer. É a solidão que ele procura indo viver para estação desativada que lhe calhou como herança. Não o consegue de todo.

Talvez porque tudo anda ligado, despede-se, por hoje, dos comboios e faz uma incursão pelo livrinho do Eduardo Guerra Carneiro:

«Um pequeno bar junto à estação de Nelas. Verão de 1964, Uma íntima sensação de liberdade (penso nas abelhas). Uma rapariga tão dourada ao longe. Outra vez a estação libertadora, um respirar mais fundo, sorri, segurei uma das tuas mãos, entrámos pouco depois no bar da estação de Nelas. Sim, isto foi serenidade!»

segunda-feira, 29 de julho de 2019

AO MENOS UMA VEZ


Nenhum homem deveria passar a sua vida sem experimentar ao menos  uma vez a salutar e até enfadonha solidão de um ermo, exclusivamente dependente de si próprio e aprendendo assim, portanto, a conhecer a sua verdadeira e oculta. – Aprender, poe exemplo, a comer quando tem fome e a dormir quando tem sono.

Jack Kerouac em ViajanteSolitário

segunda-feira, 7 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


A sabedoria só pode ser obtida do ponto de vista da solidão.

QUOTIDIANOS


Depois de todo este tempo de fanfarra, e ainda mais, cheguei a um ponto em que precisava de solidão e de desligar a máquina de «pensar» e «gozar» aquilo a que chamam «a vida», só desejava deitar-me na erva e olhar para as nuvens…
Dizem, também, numa escritura antiga: «A sabedoria só pode ser obtida do ponto de vista da solidão.»
E de qualquer forma estava farto e cansado de todos os navios e caminhos de ferro e Times Squares de todos os tempos…
Candidatei-me no Departamento de Agricultura dos E. U. a um emprego como vigia de incêndios na Floresta Nacional de Monte Baker nas High Cascades do Grande Noroeste.

Jack Kerouac Viajante Solitário

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ELE PODE RUGIR ATÉ A TERRA TREMER


Uma noite, o Bono, vocalista dos U2, tinha vindo jantar com uns amigos. Passar aquele tempo com o Bono foi como jantar num comboio – parece que estamos em movimento, a caminho de algum sítio. Bono tem a alma de um poeta antigo e há que ser cuidadoso quando se está perto dele. Ele pode rugir até a terra tremer. É também um filósofo envergonhado. Trouxe umas Guiness com ele. Estávamos a falar de coisas de que se fala quando se passa o Inverno com alguém – falámos sobre Jack Kerouac. O Bono conhece o material de Kerouac bastante bem. Kerouac, o homem que celebrizou cidades americanas como Truckee, Fargo, Botte e Madora, cidades que a maioria dos americanos nunca tinha ouvido falar. Era até estranho que Bono conhecesse melhor o Kerouac do que a maioria dos americanos. Bono diz coisas que mexem com qualquer um. É como aquele tipo dos velhos filmes, aquele que dá uma sova a um bufo com as próprias mãos e lhe arranca uma confissão. Se Bono tivesse vindo para a América na primeira metade do século tereia sido polícia. Ele parece saber muito sobre a América e o que não sabe tem curiosidade em saber

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Bono 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

SONHAR COM AQUELA IMENSIDÃO


Assim, na América, quando o sol se põe e me sento no velho desembarcadouro do rio a olhar os longos, os tão longos céus de New Jersey, e sinto toda aquela terra crua que se estende numa elevação incrível até à Costa Oeste, e toda aquela estrada, todas as pessoas sonhando com aquela imensidão, e sei que em Iowa, as crianças devem estar a chorar na terra onde deixam as crianças chorar, e que hoje haverá estrelas no céu, que a estrela vespertina deve estar a romper e a lançar a sua claridade faiscante sobre a pradaria, precisamente antes que a noite abençoada se feche por completo sobre a terra, escureça todos os rios, envolva os cumes e se dobre na praia final, sem que ninguém, absolutamente ninguém saiba o que vai suceder a ninguém. Além dos desamparados farrapos do envelhecer, penso em Dean Moriaty, penso mesmo no velho Dean Moriaty, o pai que nunca encontrámos, penso em Dean Moriaty.

Jack Kerouac em Pela Estrada Fora.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Os homens amam os bares e os bons bares merecem ser amados.

Jack Kerouac em Viajante Solitário

Legenda: fotografia de David Aguilar

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Viajante Solitário

Jack Kerouac
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Pedro Metello
Colecção Minerva de Bolso nº 39
Editorial Minerva, Lisboa, Junho de 1975

Dois dias depois, o S.S. Roamer levanta fero sem mim porque no sindicato não me deixaram entrar, não estava inscrito, e disseram-me que só me restava ficar por ali uns meses a trabalhar no cais ou qualquer coisa e esperar por um barco de cabotagem para Seattle e eu pensei «se 6tenho de viajar pelas costas descerei a costa que cobiço». Por isso, vejo o Roammer abandonar o cais de Pedro, novamente à noite, com a luz vermelha de bombordo deslizando pela água fora seguidas pelas luzes fantasmais dos mastros, vup! (o apito do pequeno rebocador), depois as luzes fracas, gandarviformes, ilusórias e reminiscentes dos Maias das escotilhas onde alguns dos tripulantes lêem nos beliches, outros petiscam na messe e outros, como o Deni, escrevem cartas veementes, com uma grande caneta de tinta permanente vermelha, assegurando-me que na próxima viagem à volta do mundo embarcarei no Roammer.

terça-feira, 14 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Que sentimento é aquele, quando nos afastamos de alguém e vemos os pontos em que as pessoas se tornaram desaparecer ao longe? É o mundo demasiadamente grande a engolir-nos, é o adeus. Mas viramo-nos para a frente, para a seguinte aventura louca sob os céus.

Jack Kerouac em PelaEstrada Fora

segunda-feira, 25 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Pela Estrada Fora

Jack Kerouac
Tradução: H. Santos Carvalho
Capa de Luiz Duran
Editora Ulisseia, Lisboa, Dezembro de 1978

Não tinha dinheiro. Mandei à minha tia uma carta por avião a pedir-lhe cinquenta dólares e a dizer-lhe que era o último dinheiro que lhe pedia; depois disso seria ela a receber o dinheiro que lhe mandaria logo que arranjasse o tal barco.
Depois fui ter com Rita Bettencourt e levei-a para o apartamento. Metia-a no meu quarto após uma longa conversa na escuridão da sala. Ela era uma bela rapariga, simples e verdadeira, com um medo tremendo do sexo. Eu disse-lhe que era uma coisa bela. Queria provar-lho. Ela deixou provar, mas eu fui impaciente em demasia e não provei coisa nenhuma. Ela suspirou no escuro.
- Que pretendes da vida? - perguntei. Era o que eu costumava perguntar então sempre às raparigas.
- Não sei – disse ela – Servir às mesas e tentar ir andando.
Bocejou. Pus-lhe a mão na boca e disse-lhe que não bocejasse. Tentei explicar-lhe como eu estava excitado com a vida e as coisas que podíamos fazer juntos; a dizer isto, e a planear sair de Denver daí a dois dias. Ela, tristemente, virou-me as costas. Ficámos estendidos a olhar para o tecto e a pensar por que razão teria Deus feito a vida tão triste. Fizemos vagos planos para nos encontramos em Frisco.

terça-feira, 5 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Nenhum homem deveria passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez a saudável e até aborrecida solidão.

Jack Kerouac

Legenda: pintura de Leonid Pasternack

terça-feira, 28 de agosto de 2012

FRAGMENTOS


Possivelmente, Marilyn Monroe fez mais esforços para ler o Ulisses de James Joyce do que muita gente que diz que o leu e nunca acabou, ou sequer começou.

Por mim falo e digo que nunca o acabei e poucos esforços tenho feito para que lhe conheça o meio quanto mais o fim.

Em 1999, o exemplar de Ulisses que pertenceu a Marilyn Monroe, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.

A sua biblioteca era constituída por perto de quinhentos livros.

O já citado Ulisses estava por lá, e tinha por companhia obras de Dostoievesky, Jack Kerouac, Yeats, Samuel Beckett, Tolstoi, Walt Whitman, Rainer Maria Rilke, Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald, John Steinbeck.

Marilyn Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais, poemas, frases, cartas, notas várias.

Os papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua morte.

Parte de todo este material foi publicado em livro, no final do ano passado, nos Estados Unidos. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.

Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.

Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.

Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura,  mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.

Um símbolo sexual torna-se um objecto. Eu detesto ser um objecto disse a actriz.
O escritor António Tabucchi  (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro,  e observa:

No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Nos filmes que Billy Wilder realizou com Marilyn, opinião minha, os melhores dos seus filmes, a actriz fez a cabeça em água a Wilder, mas este sabia o diamante que tinha entre mãos:

Penso que ela é a melhor actriz cómica ligeira que temos no cinema hoje em dia, e qualquer pessoa sabe que a comédia ligeira é o mais difícil dos estilos de representação.

Deus deu-lhe tudo.

Obviamente que Billy Wilder, sabia do que falava.

No diário das filmagens do Let’s Make Love , Marilyn confessava:

De que é que eu tenho medo? Porque é que tenho tanto medo? Porque penso que não sei representar? Sei que sei representar, mas tenho medo. Tenho medo e sei que não devo ter, e não quero ter. Mas tenho.

Em 1948, Tom Kelley fotografou-a nua sobre veludo vermelho, que daria lugar ao celebérrimo calendário das paredes de todas as garagens do mundo.

Quando muitos anos mais tarde, um jornalista perguntou-lhe se ela não se envergonhara da ousadia de ter posado para Tom Kelley, Marilyn respondeu:

Tinha fome!

E, sarcasticamente, não deixou de acrescentar:

Porquê? Não gosta do vermelho?

Sabe-se, ou pensa-se que se sabe, que todos morremos a cada dia que passa.

Mas os dias de Marilyn foram tecendo o suicídio organizado em que a sua morte se transformou.

O tal seu livro dos segredos, o livro de capa vermelha, constituía material demasiado perigoso para que, impavidamente, o clã kennedyano assistisse à possibilidade de se tornar público.

Tenho a certeza de que acabarei louca se continuar a viver neste pesadelo, terá dito a actriz naqueles seus tempos de depressão, que irão culminar na noite em que tomou todos os tubos de comprimidos que tinha e não tinha, tal como sugere Ruy Belo no poema que dedicou à sua morte.

Poderá perguntar-se:

Tomou?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

POSTAIS SEM SELO



“O bar ideal não existe na América. O bar ideal é algo que desapareceu do nosso horizonte. Em 1910 um bar era um sítio onde os homens iam encontrar-se durante ou depois do trabalho, e tudo o que lá havia era um balcão comprido, um varão de lata, escarradores e um pianista para tocar música; mais alguns espelhos e barris de “whisky” a dez cêntimos o copo entremeados com barris de cerveja a cinco cêntimos a caneca. Agora é tudo cromados, mulheres bêbadas, paneleiros, “barmen” hostis, proprietários ansiosos a espreitarem pela porta preocupados com os seus assentos de couro e com a polícia; uma data de gritaria na altura errada e o silêncio mortal quando entra um desconhecido.”

Jack Kerouac “Pela Estrada Fora”

quinta-feira, 10 de março de 2011

POSTAIS SEM SELO


Durante a depressão – disse-me o cowboy – eu costumava viajar em comboios de carga pelo menos uma vez por mês. Nesses dias podia ver-se uma centena de homens num vagão aberto ou fechado, e não eram só vagabundos, mas toda a espécie de desempregados que iam de um lado para o outro, alguns deles só a vadiar. Era assim em todo o oeste. Os ferroviários nesse tempo nunca nos chateavam. Hoje não sei.

Jack Kerouak em “Pela Estrada Fora”