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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


O livro é de Aníbal Falcato Alves.

Num convívio, em Abril de 1995, de vinhos e petiscos alguém disse que era giro fazer uma casa de petiscos para a feira de Maio em Estremoz.

Assim foi e chamaram-lhe Cozinha dos Ganhões.

Ganhão, dicionariza o livro é «o que trabalha com as juntas de bois,. Aquele que executa qualquer trabalho.»

«Cada tasca, cada restaurante, cada cozinheiro, em dias diferentes, apresentaram as suas especialidades.»

Em Maio de 1994 publicou-se o livro com o mesmo nome, Apresentação gráfica de Armando Alves, prefácios de Borges Coelho e Helder Pacheco, receitas alentejanas, um série de depoimentos com gentes alentejanas a contarem o que foram as suas fomes, as suas vidas em tempos de ditadura.

Este é o prefácio de António Borges Coelho:


Legenda: pormenor de uma pintura de Armando Alves que faz parte de  Os Comeres dos Ganhões.

domingo, 31 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS


As Filhas de Loth

Bento da Cruz

Capa: Armando Alves

Editorial Labirinto, Lisboa 1988

-Este ano estamos mal com as batatas.

-Olhai que é uma desgraça.

- A como se vendem?

- Sete… oito… nove tostões.

- Dadas.

- E ninguém as procura.

- Quilhedela assim.

- Vamos ter de as levar ao grémio.

Prefiro deitá-las ao gado.

O gado também está de rastos.

- O lavrador não pode viver

- Se o governo não olha por isto.

O grande mal são os intermediários. As batatas vendem-se em Lisboa e bo Porto a dois escudos. Se houvesse justiça nesta malfadada terra…

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Eça de Queirós

Correspondência

Coordenação, Prefácio e Notas de Guilherme de Castilho

Capa: Armando Alves

Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, Setembro de 1983

 

Carta a Latino Coelho

 

Bristol, 10 de Julho de 1887

                   Ill.mo Ex.mo Sr. José Maria Latino Coelho

                   Secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa

 

Exmo. Sr.

 

Tenho a honra de remeter a V. Exªa dois exemplares da minha obra A Relíquia com a qual desejo concorrer ao Prémio Académico fundado por S. M. El-Rei o Sr. Luís I

Creia V. Exª na alta consideração a perfeita estima com que sou

 

                                                      De V. Exª.

                                                Consórcio m.to venerador

                                                   J.M. d’Eça de Queirós

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


 As Baleias Não Choram

D.H. Lawrence

Desenho de Diogo Alcoforado

Capa: Armando Alves

Colecção: O Aprendiz de Feiticeiro nº 9

Editorial O Oiro do Dia, Porto, Outubro de 1983

Diz-se que o mar é frio, mas o mar contém
o sangue mais vivo, quente e impetuoso.

Nos grandes abismos são quentes todas as baleias,
quando se agitam
sem descanso e mergulham sob os icebergues.
As verdadeiras baleias, cheias de sémen, com as cabeças
em forma de martelo, prontas a matar,
ei-las lançando do mar os seus jactos violentos, quentes
e brancos.

E balançando-se, balançando-se ao longo das idades sem
tempo da sensualidade,
nas profundidades dos sete mares,
vacilam através das águas salgadas com um prazer
embriagador,
estremecem de amor sob os trópicos
e caminham pesadamente com um desejo maciço e
poderoso, como deuses.
Então o grande touro estende-se sobre a sua noiva
através do abismo azul do mar,
montanha sobre montanha na voluptuosidade da vida:
para além do íntimo rumor do oceano vermelho e oculto
do seu sangue
estende-se a longa ponta do desejo, forte e imensa como
um redemoinho, até repousar
na união, o suave e selvagem encontro do corpo
insondável da baleia fêmea.

E sobre a ponte fálica poderosa, unindo o prodígio das
baleias,
arcanjos em fogo submersos no mar demoram-se
a passar,
de um para o outro lado, arcanjos da felicidade
que vão dele para ela e dela para ele, grandes Querubins
que os acompanham no seio do oceano, suspensos nas
ondas do mar,
grande céu das baleias entre as águas, antigas
hierarquias.

E as enormes baleias mães sonham estendidas, ao
aleitarem as suas crias,
sonham com os seus estranhos e grandes olhos abertos
nas águas do princípio e do fim.

As baleias-touros reúnem as fêmeas e os filhos-bezerros
num círculo
quando o perigo os ameaça, à superficie das marés
incessantes,
e alinham-se como grandes Serafins ferozes, ao
defrontarem o perigo,
rodeando o rebanho dos seus montros de amor.
E toda esta felicidade no mar, entre a água salgada
onde Deus é também amor, mas sem palavras,
e é Afrodite a esposa das baleias,
feliz, plenamente feliz;
Vénus salta entre os peixes e torna-se a fêmea do delfim,
ela, a graciosa e alegre marsuína brincando com o maor
e o mar,
a fêmea do atum redonda e feliz entre os machos,
pesada com o seu sangue cheio de delícia, obscura
felicidade de um arco-íris no mar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Viola Interdita

Manuel Alberto Valente

Capa: Armando Alves

2 desenhos de José Rodrigues

Colecção de Poesia nº 1

Edição de Autor, Porto, 1970

 

Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

 

A casa continua como quando aqui paravas.

Talvez sejam os mesmos que agora a povoam

destas conversas sonolentas e cruzadas.

Ali ao longe o rio persiste em navegar

e só as águas envelheceram. O resto é

a cidade   quer dizer   o nevoeiro

que quando desembarcaste. Fala-se na esperança

e acredita-se no medo. O resto é a cidade

que cantaste e te desconheceu

e ainda desconhece os que procuram

o violino de palavras que criaste.

sábado, 4 de setembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Poesia

Eugénio de Andrade

Posfácio: Arnaldo Saraiva

Capa: Armando Alves

Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Dezembro de 2005

A Figueira

Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de Agosto
apenas me roçava, e partia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

OLHAR AS CAPAS



21 Retratos do Porto Para o Século XXI

Diversos autores
Coordemação de José da Cruz Santos
Apresentação de Eduardo Lourenço
Capa e Direcção Gráfica de Armando Alves
Edições ASA, Porto, Novembro de 2004

Um dia a Ti Mariana do Ambrósio desceu a rua com o cesto à cabeça e chamou à minha porta:
- Ó Maria?
A minha mãe foi à janela:
- Diz Mariana.
- O teu rapaz está aí?
- Está. Entra.
A Ti Mariana subiu as escadas e, no átimo de transpor a soleira da porta, saudou:
- Deus seja aqui.
- E o diabo em casa do padre – respondeu a minha mãe.
A Ti Mariana depôs o cesto no chão e voltou-se para mim que permanecia sentado à mesa às voltas com um naco de presunto, pão e vinho:
- Isto – e indicou uma cestada de alfarrábios – lá em minha casa, onde ninguém sabe ler, servem apenas para entreter os ratos. Agora, como tu andas lá nos estudos, lembrei-me de que talvez lhes possas dar outro destino.
Por isso tos trouxe. Se os queres muito bem. Se não, fogueira com eles.
- Claro que quero, Ti Mariana. Onde é que a enhora foi desenterrar estes veneráveis incunábulos?
- estes quê?
- estas antiguidades?
- Eram dum meu tio-bisavô padre que, segundo dozem, tinha a sala onde dormia forrada de livros. Mas foram desaparecendo. Restam estes. Agora desocupa-me o cesto que precisos deles para ir às couves.

De um texto de Bento da Cruz.

terça-feira, 5 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Os Comeres dos Ganhões

Aníbal Falcato Alves
Prefácios: António Borges Coelho e Helder Pacheco
Capa: Armando Alves
Ilustração: Armando Alves
Fotografias: Aníbal Falcato Alves
Campo das Letras, Porto, Janeiro 1997

No tempo da fome, que foi o tempo do fascismo no Alentejo, a açorda era o alimento quase exclusivo dos trabalhadores alentejanos durante os meses de Inverno. No Verão, a açorda era substituída pelo gaspacho.
Claro que as açoradas comidas pelos trabalhadores não tinham os requintes do bacalhau, da pescada ou de qualquer outro acompanhamento. Mesmo o azeite não era empregado na devida quantidade.
À açorda assim comida, sem qualquer acompanhamento, chamava-se “açorda pelada”. Às outras, aquelas bem temperadas, só os senhores tinham acesso. Havia agrários que comiam o bacalhau nas suas açordas e, num gesto magnânimo, mandavam guardar as barbatanas para serem cozidas na água da açorda da malta. Devido a esta benemerência, de vez em quando, os trabalhadores lá a comiam com um gostinho a bacalhau.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS



Os Afluentes do Silêncio

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1968

Esta morte, assim sem mais nem menos, que um amigo me comunica, entala-se-me na garganta. «Morreu o Manuel Ribeiro de Pavia. Levou-o uma pneumonia que o foi encontrar depauperado por uma vida quase de miséria. Passava fome! Tinha uma única camisa! Não pagava o quarto há não sei quanto tempo! E nós a falarmos-lhe de poesia…» Assim é: passava realmente fome. Todos nós o sabíamos. E ele a falar-nos de pintura, de poesia, da dignificação da vida. É justamente nisto que residia a sua grandeza. Não falava da sua fome – de que, feitas bem as contas, veio a morrer. A fome não consta de nenhum epitáfio.

sábado, 1 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Fernando Fernandes – 47 Anos de Divulgação da Leitura

Organização: José da Cruz Santos
Capa: Armando Alves
Campo das Letras, Porto, Maio de 1999

Entra-se para o universo do livro definitivamente. Passado o noviciado é muito raro a algum deste meio optar por outra profissão exterior ao universo de Gutenberg. Por mais adversidades, crises económicas ou outras, o livro parece conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.
Em Portugal nunca houve cursos superiores ou secundários especializados de editores e ainda menos de livreiros carismáticos tenham deixado o seu nome na memória e no saber dos que fazem do livro a sua actividade e paixão.

Do depoimento de Manuel Henrique Monteiro.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Crónicas Algarvias

Manuel da Fonseca
Capa: Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Dezembro de 1986

Avançando, coxia fora, noto pela primeira vez que há poucos passageiros. Sento-me no meu lugar, abro o jornal. Não consigo concentrar-me. Os pensamentos afastam-se da leitura. Lembro-me da família, os vizinhos, a vila, neste instante tão perto do comboio onde viajo. Teimo em ler. Mas, as recordações voltam. Nítida, ressoa-me na memória uma voz familiar:
- Olha que não deves ler nos comboios. Ou noutros meio de transporte.
- Porquê, tia?
- Porque pode provocar um descolamento da retina.

sábado, 1 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Rival

Roger Vailland
Tradução: António Neves-Pedro
Capa: Aramando Alves
Colecção Metamorfoses nº 13
Editorial Inova, Porto, Janeiro de 1975

- Tem entrevista marcada?
- Não.
- Então faça o favor de preencher uma ficha.
Mignot escreveu:
NOME: Fréderic Mignot
FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.
- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.
Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.
- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.
«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.
Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.
«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

sábado, 21 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Limiar dos Pássaros

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Setembro de 1976

Nada sabia de marés, com algumas partias, com outras regressavas. Um dia, já há muito, deixei de te ver. Disseram-me que morreste, e que foste meu pai. É capaz de ser verdade, e ultimamente tenho imaginado como terias morrido. Espero que tenha sido sobre os teus olhos, que foram muito belos, que a morte haja começado com rigor o seu ofício. Era neles que incidia o meu desejo. Quando penso em ti, vejo-te de órbitas vazias, um sangue escuro invadindo-te a boca. Apodreces como toda a gente, só um pouco mais de lado, porque a morte deve ter prosseguido o seu trabalho sobre o coração. Que procurava ela quando o levou à boca? Está agora sobre o centro do teu ser, aí refocila voluptuosamente, crava os dentes até arrancar os teus mais viris ornamentos e cuspir-tos na cara. Foi pena que já não pudesses ouvir as suas gargalhadas ao longo do corredor.
Onde me espera.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS



Poesia Completa

Luís Veiga Leitão
Organização: Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro
Apresentação crítica: Luís Adriano Carlos
Capa: Armando Alves
Colecção Terra Imóvel nº 12
Edições ASA, Porto, Setembro de 2005

Testamento

Abre os olhos – o sol é teu.
Mergulha as mãos – a água é tua.
Deixo-te o sol, o mar, o céu
que pousa no beiral da nossa rua.
E os trigais do dia que desponta
e as flores da terra que me cobre.
Toda a riqueza milenar, sem conta,
de mais um poeta pobre.

Deixo-te as palavras que não gritaram
estranguladas pelo nó do medo;
e as outras, fuziladas, que tombaram
nos pátios do degredo.
E os sonhos por abrir; hoje, no sono
dos séculos que chamaram eterno.
Toda a Primavera, todo o Outono,
das minhas árvores de Inverno.
E a luta que fundiu meu coração
num canto que sangrou nesta certeza:
Depois de mim virás, ó meu irmão!,
mais claro e limpo de tristeza.

1955

sábado, 10 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Aldeia Nova

Manuel da Fonseca
Capa: Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Junho de 1984

Rui enchia o peito de ar, lavava-se no sol. Mas já ia correndo rua abaixo. Uma grande vontade de correr. Onde estaria o Tóino e os outros? Ah! diria a avó que não queria voltar mais àquela casa! E diria também ao Estroina. Talvez lhe dessem razão… Deixassem-no andar, assim à sua vontade. Deixassem-no correr. Correr era bom. O bibe abria-se para os lados como asas. Deitava a cabeça para trás; o chão fugia-lhe debaixo dos pés. Nem via as casas, só o céu por cima dele. Entontecia, sentia-se livre como um pássaro. Se a mãe estivesse, não sereia nada daquilo a sua vida, não. A mãe deixava-o ser livre como um pássaro. Diria tudo isso ao avô: «Avô, desde que a mãezinha partiu, sinto-me preso como um pássaro numa gaiola!» Mas o avô não compreenderia as suas palavras. Nem a avó, nem o Estróina, ninguém!... O melhor era ir correndo, correndo sempre, correndo até tombar de cansado.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
               caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
                caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
                caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.                                                      
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas

                 caminhemos serenos.

Papiniano Carlos

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Peso da Sombra

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Desenho: Ângelo de Sousa
Editora Limiar, Porto, Outubro de 1982

Trabalho com a frágil e amarga
matéria do ar
e sei uma canção para enganar a morte –
assim errando vou a caminho do mar.

sábado, 30 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Poesia 71

Selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Junho de 1972

Dois Poemas

I

Nem sei estimar das tuas vestes sem costura
o fito e a alba
ou louvor da tala dos instantes
um só vermelho.
pelas moradas ledas e subtis
à passagem dos castos e escolhidos
                                                                    sustenidos
dos lidos
nada soube
que mais que o sáurio verde não prossiga.
Nem escolhido é o signo por lavrado
Entre a testa e o chão
No húmido verdor dalguma víscera.
Se casas são plantadas com perícia
e arrematados autos lautos
louvados por tão cautos
seja a lhaneza desta a palha da debulha
o verde devolvido em amarelo.
É que não sei dos nomes com firmeza
mais que o início quedo e boçal talo
nem companhia posso ou artefactos
que o langor da lagarta não assista
que não consinta o emergir dos catos.

II

No entretanto do tempo é que o verde resiste
o interstício manso a prova do contínuo
que quebra o passo e mais que o acrescenta
o assegura; se a roda começou
e do metal a terra é estreita         diminui
e de redonda à recta se afeiçoa
pelo verde o sabemos      no intervalo
dum ponto a outro ponto
do recado
da boca a outra boca   da fissura
entre o nome e o feito vertical.
No caule o facto osso e a semente
no espaço a obra de metal e a folha crua.


(Poemas de Maia Velho da Costa publicados no suplemento «Literatura e Arte» de A Capital)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poesia 70

Selecção de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Junho de 1971

Devolvem-me os canais em que circulo
os cartazes do pranto as unhas tensas
cruzando sobre a fronte o desengano
uma chuva de fogo para a noite

Dizendo noite a própria noite vela
para imitar o dia destruí-lo
uma lata vazia um grito gasto
onde a sopa arrefece

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra

Dizendo dia crio a melhor forma
de revender a noite insinuá-la
fio de raiz roendo-me os tecidos
uma estátua crescendo

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra.

Vasco da Costa Marques do livro Um Beco no Espaço

terça-feira, 29 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Amor Desagua em Delta

Egito Gonçalves
Capa: Armando Alves com um desenho de José Rodrigues
Colecção Coroa da Terra nº 1
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1971

Sitiados


Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.