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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


Esta manhã, ao passar pela loja de plantas e flores da minha rua, deparou-se-me de chofre, dependurado no vidro da porta, um cartaz salpicado de neve escandinava com esta legenda, escrita numa língua imprevista (que afinal era norueguês): INGEN JUL UDEN BLOMESTER. (Nenhum Natal sem flores.)

E então aconteceu esta coisa extraordinária: sem o mínimo sentimento de espanto, como se ainda vivesse numa cidade norueguesa e não se tivessem esfumado quarenta anos de paixões e de morte, dei um salto no tempo e li o letreiro com a naturalidade de quem continuava a passear com lentidão medidativa pelas velhas ruas da Noruega.
Durante alguns segundos esses quarenta anos sumiram-se num poço de sombras e cosi o presente ao passado – com a sensação estranha de me terem ficado para trás vários dias por viver que, de vez em quando, vêm aquecer-me (ou gelar-me) os passos.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns

Legenda: pintura de Diego Rivera

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


 Lembro-me do nosso primeiro Natal juntos. O nosso único Natal juntos. (E quando os presentes deixam de chegar e as luzes da árvore Natal se apagam, compreendemos que estamos velhos.)

Londres no Inverno. A primeira neve. Lizzie com um casaco azul-escuro de tecido forte e neve nos cabelos. A pista de gelo na Somerset-House. A árvore em Trafalgar Sqaure.
Jantámos fora na véspera de Natal, num “pub” modesto, mas onde a comida era boa. Bebemos vinho, a marca mais cara que eu podia pagar. Depois fomos a um concerto de Natal. Regressámos a casa perto da meia-noite e demos os presentes um ao outro: para ela uns brincos de prata compridos, para mim um cachecol azul.
No final do ano fomos dançar e depois bebemos champagne em Trafalgar Sqaure. O único ano que começámos juntos. Estava a nevar.

Ana Teresa Pereira em O Fim de Lizzie

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


«Entre aquilo que Portugal deixou neste país africano, podemos destacar o costume de se comer bacalhau na noite de Natal. E não se pense que é hábito de reduzida elite urbana, nostálgica de tempos coloniais, que alguns estudiosos gostam de impropriamente chamar “crioula”. Para já, a população urbana é metade da de Angola e vai servindo de matriz cada vez mais avassaladora da cultura angolana. E o costume está absolutamente espalhado, pelo menos por todas as cidades.»

- Pepetela, escritor angolano.

domingo, 24 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS

 


Ava Lavinia Gardner nasceu, em Grabtown, Carolina,  do Norte, na véspera de Natal do ano de 1922.

Um oportuno capricho de Mr. Santa Claus, uma bela prenda de Natal oferecida aos homens, tanto os de boa vontade, como os outros.

Um alguém, não era um qualquer, mas o nome está esquecido, foi-lhe perguntado se tinha animais em casa.

Resposta pronta:

«Um poster de Ava Gardner, o mais belo animal do mundo.»

A fotografia mostra o mais belo animal do mundo, a ser recebido pelo então seu marido Frank Sinatra, em 12 de Setembro de 1952, na chegada a Idlewild vinda de Hollywood a bordo do “Constellation Embaixador” da TWA - Trans World Airlines. Ava Gardner chegava a Nova York para a estreia de As Neves de Kalimanjaro.

 

Legenda: fotografia da Shorpy

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


 Mais sonhos de infância com comboios.

Legenda: imagem Shorpy

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


Uma infância recheada de desejos de um comboio daqueles que aparecem nas salas e garagens dos filmes americanos.   

Legenda: imagem Shorpy

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM


 O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, junto ao Largo do Calvário. rua que hoje tem o seu nome.

O assassinato está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972 letra de António Quadros (pintor), música de José Afonso.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo Amaro. 

No livro Viagens,  o poema Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei, Mário Castrim pormenoriza as últimas palavras, os últimos momentos de vida de José Dias Coelho:

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

Legenda:  A imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.»

OUTROS NATAIS


Lembro-me bem dos Mercados de brinquedos no Martim Moniz e no Largo de Camões. A velha fotografia que no cimo se publica, pertence a uma das barracas onde se vendiam brinquedos no Largo de Camões. Não tem referência do ano. Talvez anos 50.

Nela se vêem os tambores que o pai em miúdo quis ter e que nunca lhe deram. Ao ponto de no meu primeiro Natal ter posto à volta da árvores de Natal, dezenas e dezenas de tambores.

Tal como se recorda nesta história já por aqui publicada:

 

«No Natal de 2012 comprou o Diário de Inverno de Paul Auster.

Qualquer pretexto lhe serve para comprar um livro.

Não sendo autor referencial da casa, bastou-lhe ler na contracapa:

«Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.»

Gostou do livro.

Mais ainda, quando quase a findar, leu:

«Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse».

Sininhos de Natal tremelicaram. Também a ele o pai o visita. E lembrou-se, que por aí, tinha um qualquer registo que, voltas e mais voltas, acabou por encontrar.

Há espelhos que se aproximam de nós e trazem-nos as pessoas que somos.


Lembra-se dos tambores que o pai lhe deu no primeiro Natal?

Não, não se pode lembrar, mas é como se assim fosse.

Contaram-lhe a história e ele consegue ver.

O pai deu-lhe uma mão cheia de tambores, aqueles tambores de madeira com riscas vermelhas, pele de cartão, dois pauzinhos, os tambores, tambores que o pai quisera um dia ter na sua infância e que nunca lhe deram.

Há espelhos que vêm até nós com as imagens nunca vistas, mas que outros contaram.

E passam a ser nossas.

Pendurado nos livros, colocou o último boné que o pai usou, o seu ouvinte mais inteligente.

Tem dias, mas principalmente noites, que sente que o pai anda por aqui, aquele cheiro a tabaco negro, marca UNIC, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram

por lhe trazer o último suspiro.

Uma voz: Então não há por aí um whisquinho e logo a seguir: já agora põe aí a Peggy Lee a cantar o «Johnny Guitar.

Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so warm inside.

Comove-se cada vez que olha o boné e disso fez um hábito.

Ouvem-se tambores ao longe.

E é quase Natal!»
 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


Anos 50,60.

Pelo Natal, vendiam-se perus em alguns locais de Lisboa. 

Lembro-me dessas vendas no Martim Moniz e o que a fotografia mostra é uma venda no Largo de São Domingos.

Em casa do meu pai não se compravam os perus em Lisboa. Íamos ao Lavradio, quando, desde o Lavradio até à Baixa da Banheira, tudo aquilo eram quintas. Hoje tudo aqui são florestas e florestas de cimento.

Aqui se reproduz a aventura de comprar perus no Lavradio.

Um texto publicado neste blogue no dia 19 de Dezembro de 2012:


«Tenho dos meus tempos de miúdo, a lembrança de ver, por estes dias de Natal, no Martim Moniz, dezenas de alentejanos a venderem perus.

Ramalho Ortigão escreve no V volume de As Farpas:

«Lisboa prepara neste momento a festa de Natal.

Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço adornadas de florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos, guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de Cana são esses os mais tenros.»

A minha avó não comprava o peru no Martim Moniz.

Um tio materno, operário da CUF no Barreiro, vivia no Lavradio, quando o Lavradio, até à Baixa da Banheira, eram quintas a perder de vista.

Na sua casa térrea, numa dessas quintas, com horta e capoeiras, os perus eram ali criados a bolota.

Perto do Natal, eu e o meu pai, íamos ao Lavradio buscar os perus.

Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda movido a carvão.

No Barreiro apanhávamos a camioneta para o Lavradio.

Barcos e camionetas eram escassos, com longuíssimos  intervalos de espera.

Os peru, patas amarradas, viajavam numa alcofa.

Trazíamos também alfaces, tomates, cebolas e tangerinas que exalavam um perfume único e embalador.

Nisto se perdia toda uma tarde.

Chegados a casa, a minha avó embebedava o peru para o Natal com aguardente, e começava os preparativos para o tempero e o recheio.

Depois era a grande festa do jantar de Natal.

Nunca, mas mesmo nunca, voltei a comer um peru como o que a minha avó cozinhava pelo Natal.

Ainda fiz algumas tentativas, mas já nada era igual.

Nem os barcos a carvão, nem a camioneta da carreira e o  meu tio deixara de ter a horta e as capoeiras.

O cimento tomou conta de tudo e hoje o Lavradio, e tudo à volta, é o que é: betão e mais betão.

Depois chegariam os obsoletos perus de plástico, que se vendiam nos super mercados e nunca mais, no jantar de Natal, o peru assentou praça como manjar.

Tudo isto é uma doce memória, mas ao mesmo tempo amarga.

Amarga, porque, tal como o poema de David Mourão-Ferreira, de que o meu pai muito gostava, se pode ler:

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Assim foi.,, assim será… e o Nada há-de retomar a cor do infinito.»

 

Legenda: Fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa copiada do Público de 16 de Dezembro.

domingo, 17 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


É Natal. No fundo dói-me sempre esta alegria que me ensinaram a assentir pelo nascimento de um menino gasto pela sua teimosia em vir ao mundo para ser crucificado. Todos os Natais me pergunto: Será este ano que a luz da criança solestical –O Natale  Solis Invicti – prevalecerá sobre a noite do Calvário? Será desta vez que o menino Jesus em veloz corrida divina vai escapar à moral crucificante da sua história? Não o deixam. O peditório para o seu sangue derramado por nós é um preceito indispensável à convicção de que a nossa felicidade não é deste mundo. E assim celebramos o nascimento de Jesus determinado pelos cálculos funestos dos primeiros cristãos: o dia da sua conceição fixado de acordo com o dia da sua morte e este caindo no equinócio da Primavera no qual fora criado o mundo. Por conseguinte: o Advento concebido a partir da criação do mundo crucificado. O selo das trevas no nascimento do deus menino. Era certamente no negrume desta efeméride sombria que a minha tia Hortência, crivada de cilícios sob o vestido pardo, alicorava o suco do ananás para a «mijinha do menino Jesus» que bebíamos no Natal.

Natália Correia em Não Percas a Rosa

Legenda: Pietá de Michelangelo

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


 Achei bonito mas não consegui saber onde.

Colaboração de Aida Santos

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


 




Natal Branco
O jardim da casa dos nossos amigos Angelika e Hans-Martin, em Reinbek, perto de Hamburgo.

Colaboração de Aida Santos