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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

COMENTÁRIO SOBRE OS VELHOS

Alguém tem de
ir à frente. A ir alguém
que vão
os velhos. Se formos pensar bem
para que é
que os velhos servem? A maior parte
não faz nada. Estão quase sempre doentes.
Em rigor só
dão trabalho. Consomem recursos
imensos. A ter de ir
alguém à frente
(é bom de ver:) que
vão eles. Nós temos objectivos. Toda uma
vida pela frente. Molhando
as calças de
pingos.
Lançando pão d’ontem
aos pombos.

João Luís Barreto Guimarães

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

CORTEJO FÚNEBRE

Quando o carro fúnebre passou a morrer

frente ao Café

enterrei a atenção num jornal receando conhecer

aquele nome ao comprido no seu

último passeio pela vila. Os mais velhos

no Café

ousaram até à vidraça comentando

circunstâncias sobre a vida que o

morto tinha. O

sino da torre da igreja soava

tão alto lá fora

os acordes pareciam flechas

alvejando o salão. A

morte não é tudo

na vida pelo que no instante seguinte

todo o povo dispersou e os mais velhos

no Café

voltaram ao dominó

cotejando entre si a última ida ao médico

o mais recente sinal ou

sintoma de doença.

Espreitei a rua para ver se a

morte já ia longe

ainda sentia o sino a latejar na cabeça

dessa vez

(tive a certeza)

tentou ver se levava alguma

coisa de mim.

 

João Luís Barreto Guimarães

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

CONVERSANDO

Deus, para muita e variada gente, é um assunto mal resolvido.

Foi João Luís Barreto Guimarães quem o disse numa entrevista ao Expresso.

«Deus e o meu pai morreram no mesmo dia»

Também:

«Por que razão não está Deus nos lugares desfavorecidos?»

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O POETA

Foi visto

(diversas vezes) com uma

caneta na mão. Nem

tentava disfarçar. Sentava-se à

                                mesa consigo

(sempre

cingido de livros) e escutem:

o que fazia era

escrever poemas. Sei muito bem

                                     o que digo.

Ele fazia poemas. Os outros

passavam ao largo

(fugindo a qualquer pergunta)

                                       ele nem

sequer escondia o que ali estava

                                     a fazer. Ali

à frente

de todos. Linhas e linhas

                                     escritas.

Não se limitava a ler.

Não se limitava apenas a viver

                                    A sua vida.

Sei muito bem o

digo. Aquilo eram

poemas.


João Luís Barreto Guimarães

quarta-feira, 10 de julho de 2024

A PALAVRE VERDADE

Primeiro quiseram levá-la (sem

uma boa razão)

algemou-se ao poema

no ponto mais frágil

do verso. Tentaram depois

                               esquartejá-la

(rasgá-la

sílaba a sílaba) mas

as letras arrojadas

mantiveram-se unidas como

numa cicatriz. Tentam agora

                                ocultá-la

(apondo-lhe

a venda azul)

quanto mais a pressionam

                                   tanto mais

se deixa ler num relevo

de sudário.

 

João Luís Barreto Guimarães

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O SR. KOSLOWSKI FALTA À MANIFESTAÇÂO

Se o sofá não

fosse cómodo (e a rua não fosse

tão longe) juro

que ergueria o peso imenso da alma

e ia à

manifestação. Desta vez juro que iria. Mas

do que posso ajuizar (pelas

imagens em directo chegaria atrasado

já lá estão os companheiros

(com

palavras levantadas) lutando por eles

e por mim. Menos um não faz diferença. Mas

juro que irei partilhar (daqui

deste meu sofá) o

texto do comunicado e

quando ouvir no écran o cinismo do ministro

juro que o

vou insultar. Daqui deste meu sofá.

Desta vez

estou empenhado


João Luís Barreto Guimarães


Nota do Editor:  Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução. Este poema foi tirado do Público de 24 de Abril de 2024.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

EXTRAORDINÁRIO


 Recorte tirado da última página do Expresso de 20 de Outubro.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

ALGUÉM TEM DE AMAR O BANAL

Alguém tem de amar
o banal. Alguém tem de tratar disso. Os
rostos que passam idênticos
como os pombos
de uma praça. A mala
que apenas fecha se alguém
se senta em cima. Insectos suicidando-se
contra o brilho dos faróis. O apetite
da ferrugem
nos portões da avenida. Alguém
tem de amar o vulgar (falar
do que é
ordinário). O cheiro a peixe frito que
sobe desde a cozinha. As luas que nascem dos
dedos quando
se roem as unhas. Alguém tem de amar
o que é feio
(trazê-lo para o poema). Só assim
por entre o impuro pode o
incêndio acontecer.

João Luís Barreto Guimarães

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A HIPÓTESE DO CINZENTO

Num país a preto e branco
recomendaram-me o cinzento. Um recurso
extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia
ensaiar
soluções inusitadas
experimentar o morno (que não é frio nem
quente)
explorar o lusco-fusco (que
não é noite nem dia) praticar a omissão
(que não é mentira
nem verdade). Preto e branco misturados permitiam
finalmente
viver em conformidade
desocupar os extremos (tão alheios à virtude)
liquefazer-me na turba
no centro na
média
dourada. Com a paleta dos cinzentos poderia
aprimorar a arte da sobrevivência que
(como os mansos bem sabem) é
não estar vivo
nem morto.

João Luís Barreto Guimarães

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Assinar a Pele
Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos

Organização João Luís Barreto Guimarães
Assírio &Alvim, Lisboa, Novembro de 2001

Zoologia: O Gato

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

HISTÓRIA CLÍNICA


As mamas da dona Ana eram um
sítio maravilhoso. Maduras (qual
par de mangas) de entre elas saíam
coisas extraordinárias
(notas de 5 para os netos
lenços bordados no Minho) uma ou
outra medalha do mau-génio
do marido. Dessa vez veio à cidade e
o doutor ficou com uma –
ela deixou de poder encravar no meio delas
tudo aquilo e os santinhos
(deste lado uma colina alta e generosa desse
um prado dividido). Num ano
levou-lhe a outra e outra levou-lhe
o marido (ainda há mulheres com sorte:)
está
enfim livre de perigo.

João Luís Barreto Guimarães

Poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna de Economia no Expresso, 15 de Março de 2014.

sábado, 28 de dezembro de 2013

ESTAMOS DENTRO DOS DIAS


estamos dentro dos dias eu: na cidade do mar hoje é Dezembro
quase Natal quase partilha conheço alguns que têm contribuído
para a construção da terra (oh peço perdão desculpe mas:)

nunca trago trocado comigo. edificamos barreiras nos dias
(a nossa pequena história) reconhecemos nossos passos
desejamos o corpo dos amigos por entre mesas de taberna

entre a sangria e o mimo. na hora de todas as coisas: para
onde vamos? alguém nos irá julgar? talvez não seja esse o
momento final (as partidas foram feitas para se poder
regressar). vivemos para o efémero tentando convencer um

deus mas deuses assim têm um tempo de humanos. passamos
ao lado dos barcos (o tempo avança por sílabas) pode parecer
estranho escrever assim mas é quase manhã e ninguém
confessou ainda quem foi que deu o desfalque no meu coração

João Luís Barreto Guimarães em Natal… Natais, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Público, Lisboa s/d

Legenda. imagem do filme A Árvore da Vida.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

À CONVERSA


João Luís Barreto GuimarãesTenho o livro Lugares Comuns (2000) que é todo passado à mesa do café. O café é uma metáfora do mundo, é uma segunda casa.
Jorge Sousa BragaOs cafés: quanto mais rascas, melhor. Quanto mais barulho, melhor. O café onde se ouve falar a dona Ricardina, não funciona.

Entrevista no Público, 10 de Fevereiro de 2013.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

BAGAGEM PERDIDA


E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães, poema inédito, citado do Público de 14 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O ESPÍRITO DO NATAL


Ano após ano em Dezembro a
árvore artificial
deixa o encerro da cave para ser
a luz do frio. É um pinheiro da China. Quem
se deitar a fazer contas ao ágio
dessoutro negócio
(vinte e quatro mil escudos: já
lá vão nove invernos) a
coisa
está mais ou menos por
dois contos e tal
o natal. Mau grado à sua copa (inerte
 e inodora) falte
o olor a caruma dos natais da minha infância
nela escudo a floresta que ficou por abater
todo um mundo de plástico que
me sobrevirá.

João Luís Barreto Guimarães

Poema retirado de “Natal… Natais”, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d