segunda-feira, 20 de maio de 2024
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
OLHARES
O que ele gostava dos cafés de Lisboa.
Um dos muitos simples prazeres
da sua vida.
Depois começaram a
transformá-los em agências bancárias, em casas de trapos.
As grandes mágoas que então
nasceram.
Quando José Rodrigues Miguéis
foi obrigado ao exílio nos Estados Unidos, o primeiro grande choque que
enfrentou foi a não existência de cafés.
Sua mulher Camila conta o
episódio:
«Quando chegou aos
Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não
havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde
se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou
quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é
que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito
difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver.
Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários
locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta
situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»
Foi dura, e inglória, a luta
pela manutenção dos cafés.
O poeta José Gomes Ferreira
nos seus Dias Comuns fala dessas
lutas, quando juntamente com o Carlos de Oliveira, O Augusto Abelaira, tantos
outros, andaram em bolandas, de café para café que lhes dessa possibilidades de
manterem as suas tertúlias.
Os cafés da minha preguiça" como escreveu o Mário de Sá-Carneiro.
Ler o jornal, um livro num
café com uma bica à frente.
Jorge Silva Melo: Sabores de outros tempos: o ovo a cavalo, o
molho, as batatas fritas dos velhos cafés de Lisboa.
Façamos a evocação de um café
de Lisboa: o Vává, símbolo dos anos 60 que viu nascer o cinema novo português, também
músicas, conspirações várias.
Lauro António, que há dias nos deixou, escreveu diversas crónicas sobre a cidade no jornal digital «Mensagem de Lisboa».
Uma dessas crónicas lembra o VáVá e a sua história:
Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café Restaurante Vavá existe desde esse ano e foi um dos meus cafés de eleição. Os outros foram a Grãfina e o Nova Iorque
Além de mais, tem sido o meu
café-restaurante prioritário, acompanhei todas as transformações, lidei com
todas as gerências, fui assistindo à reciclagem da clientela, e descobri que o
espaço, apesar de tudo, se mantém como local de culto e de saudosa romagem. Por
isso vale a pena contar a história física, que é pouca, mas sobretudo recordar
o espírito do lugar, que se conserva, muito para lá das vicissitudes do tempo e
dos circunstancialismos vários da vida de cada um.
Julgo ser, por isso, uma pessoa bem
informada para dar conta do recado, ainda que nestes casos, o recado, por muito
factual que se queira, tenha sempre de ser subjectivo, com o que a posição
comporta de risco, mas também de sinceridade. O meu testemunho não é totalmente
imparcial e a tender para o abstracto, antes se afirma desde início, pessoal e
apaixonado. Esta será uma “visão”, uma “visão” possível entre muitas outras, de
um espaço que vem cumprindo, vai para cima de seis décadas, a função para que
foi criado.
Não muito longe do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos EUA, nesta praça onde se encontram frente a frente o Vavá e o Luanda, começavam as quintas e os quintais, viam-se rebanhos de ovelhas e cabras e cultivavam-se as couves. Paulo Rocha fala dos “Verdes Anos” destes locais no seu filme, um dos que abriu caminho ao Novo Cinema Português (curiosamente o Novo Cinema marchou lado a lado com o Vavá, mas disso falarei mais a frente).
Em Novembro de 1993, para uma revista então publicada pela livraria Barata, escrevi um texto que não resisto a recuperar. Dizia assim:
O café, enquanto local, e não só
chávena, e não só bebida, refere duas realidades, ambas de agradável evocação:
a bica, que se toma, e a tertúlia de amigos com quem se fala, enquanto se bebe
a primeira.
Não havia ainda televisão em doses industriais, para agarrar audiências pelos processos mais singulares; não havia internet, chats, blogues ou Facebook; não havia ainda Betas, VHS ou DVDs para se verem os filmes em casa; não havia concertos rocks todos os dias, nem espectáculos a toda a hora; não havia as drogas pesadas a influir negativamente nos horários dos donos dos cafés, que se querem ver livres de tão ingratos clientes, e fecham muito mais cedo; não havia a ameaça da violência urbana que apesar de tudo pesa sobre o comportamento de muita gente que prefere a segurança do lar à incerteza das ruas; nem havia, sobretudo, estes mercantis balcões de agora, onde as pessoas tomam apressadamente café, enquanto outras comem sofregamente uma sopa e pastelinhos de bacalhau, bifanas ou mesmo “pratinhos” de feijoada à transmontana, antes de regressarem ao seu balcão no centro comercial ou à secretária no escritório.
Muitos se perguntam por quê a designação Vavá?
Legenda:
Foto 1 – Fotografia de Aida Santos
Foto 2 – Fotografuia do jornal I
Foto 3 - Site de Lojas
Com História
Foto 4 – Site de Lojas
Com História
Foto 5 – Site de Lisboa
ComVida
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
A UNIVERSIDADE DO TREMOÇO
Para mim, a Ribadouro, esquina
do fundo da Rua do Salitre com a Avenida da Liberdade, está sempre agarrada
ao Belarmino, filme
do Fernando Lopes, ali pensado, escrito, encenado, discutido.
Também conhecida pela Universidade do Tremoço.
O José Cardoso Pires em A Balada da
Praia dos Cães:
«O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de
cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o
fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua
bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para
Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um
galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dono Lurdes abortadeira.
Mestres-de-obras a arrrotar! Oh, senhores.»
Quantos finos, quantos bifes com ovo a
cavalo, quantas conversas pela noite dentro, a esperança vã de mandar Salazar
borda fora.
O que ainda tivemos de esperar!...
Hoje, a Ribadouro está
mais voltada para os turistas, para uma classe específica, gente que
encheu os bolsos de dinheiro para, nos tempos que correm, nos acusarem de que
andámos a viver acima das nossas possibilidades.
Já não anda por lá a malta do Parque
Mayer, gente do jazz, das escritas, dos jornais, o clã da Ribadouro.
Assim de memória, alguma da rapaziada
desse clã: Fernando Lopes, Canto e Castro, Manuel de Azevedo, Baptista-Bastos,
Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Alexandre Vieira, Carlos de Oliveira,
rapazes, outros já entradotes, que, no fundo, só queriam assaltar a
felicidade, felicidade que, como dizia o Saint-Just, era possível.
Esperanças, sonhos, amores, desamores,
frustrações, andaram por aquelas mesas, juntamente com cervejas,
tremoços, cafés, o que calhava.
Não consigo passar junto à Ribadouro, sem
que os passos se encaminhem para o balcão, beber um copo de cerveja
clara, Sagres, naturalmente, olhar as mesas, agora atoalhadas para
turistas e gente fina, e sentir o rumor das conversas, não deixando de seguir
os ditames do José Gomes Ferreira:
«Saudades de não poder inventar o
futuro. Às mais variadas horas, desde as sete da manhã até ao fim da tarde.»
quinta-feira, 11 de julho de 2019
QUOTIDIANOS
terça-feira, 30 de abril de 2019
RELACIONADOS
Contra capa do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:
I
O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.
II
A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.
III
Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.
OLHARES
segunda-feira, 15 de abril de 2019
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.
sábado, 22 de julho de 2017
OLHAR AS CAPAS
terça-feira, 23 de maio de 2017
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
e foste campeão, como qualquer de nós.
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.
é a nossa vocação, nosso trejeito.
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
À CONVERSA
domingo, 7 de agosto de 2016
TODA A MEMÓRIA
Texto de Fernando Lopes, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor de Alain Resnais, publicado no nº 1 do Cinéfilo, 4 de Outubro de 1973.
terça-feira, 3 de março de 2015
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
terça-feira, 2 de setembro de 2014
OLHARES
terça-feira, 4 de março de 2014
ALAIN RESNAIS (1922-2014)
Emmanuelle Riva, na entrevista ao Cinéfilo:
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