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sexta-feira, 6 de março de 2026

A MORTE PODE DESTRUIR-ME MAS NÃO ME MATA


 Noutro dia apercebi-me de que os grandes génios da música popular brasileira, Chico, Caetano, Gil, Bethânia, compositores e cantores da banda sonora da vida de tantos de nós, são todos octogenários. Meu Deus, como deixámos que isto nos acontecesse. E agora já não temos José Saramago: perdemos a nossa voz. E Lobo Antunes morreu: perdemo-nos neste labirinto de gritaria, cuspo e fúria desenfreada, e não temos nem um fiozinho de Ariadne para nos resgatar.

Eu, que sempre achei que a arte, fosse a literatura ou a música, não servia para rigorosamente nada, a não ser para ser arte (e isso é tudo), penso nestes anos de fim do mundo, de atrocidades medonhas, em que se dizimam países, se arrasam gerações, se contamina o planeta, com a exaltação vampírica e bélica dos comentadores, que salivam em êxtase, que a literatura, não tendo superpoderes para nos salvar, ao menos serve para nos confrontar com a nossa própria humanidade. É o que nos distingue dos animais e da selvajaria: a capacidade de criar, de imaginar outros mundos, outras vidas, de sermos um bocadinho deus.

Como Lobo Antunes desprezaria estas pessoas, que, das suas cadeiras-gaming, espumam beligerância, e discorrem sobre drones de combate e mísseis hipersónicos. Ele que se arrepiava com os dedinhos ao alto a fazer aspas e com a palavra viral. Que conviveu tão de perto com a morte, com o sofrimento, alheio e próprio, sobreviveu a três cancros agressivos, tratamentos violentos de quimioterapia, cirurgias, internamentos, a uma guerra colonial, à morte de irmãos, amigos e companheiros de batalha. Ele que não suportava o ridículo cheio de pose, a arrogância dos simplórios, mas tinha um carinho quase ternurento pelo napperon em cima do televisor, pelas marquises dos subúrbios, pelas viúvas solitárias que distribuem milho aos pombos. Enfadavam-no as conversas intelectuais, pretensamente eruditas, não frequentava o meio literário, recusava sentar-se com certos (quase todos) escritores portugueses à mesma mesa, não suportava a mediocridade.

Lobo Antunes jogou a sua vida nos romances, também nas crónicas, que eram extraordinárias, mas ele desvalorizava-as. Não gostava de falar delas, eram, dizia, apenas um complemento ao orçamento doméstico. Não apreciava entrevistas, mas não suportava que os jornais ignorassem o seu mais recente romance. Entediavam-no as perguntas do costume, não admitia explicar os seus livros, não assumia "técnicas literárias", nem "estruturas narrativas", detestava "proezas literárias", misturava presente, passado e futuro, porque estava convencido de que os tempos se cruzam e indistinguem, não falava em personagens: eram vozes, que nos sopravam ao longo das linhas dos seus livros.

A força torrencial da sua linguagem alagava tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num delírio caótico. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Dizia que o jazz que o pai lhe dava a ouvir o ajudou no frasear, no seu trânsito poético, que às vezes se suspende: "Não é cantilena para adormecer", dizia Maria Alzira Seixo, "mas advertência para acordar. A frase não chega até ao fim. A vida não chega…"

Gosto de pensar na sua escrita como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele, que nem sabia abrir um computador e escreveu sempre em caligrafia de formigueiro miniatural. Por isso, nas entrevistas, preferia desconcertar o interlocutor, divergir em direcções improváveis, embaraçá-lo com comentários provocadores, destilar ódio e simpatia em doses iguais, largar com estrondo, em cima da mesa, um comentário brilhante, uma citação das tantas que sabia de cor, sobretudo quando o gravador já estava desligado. No espaço de meia hora conseguia ser superiormente inteligente, louco, enraivecido, ternurento, tortuoso, filosófico, sedutor, cruel, vingativo, encantador… Sempre irresistível.

Às vezes penso que ele próprio foi a mais fascinante personagem que criou. A sua memória de baú sem fundo, a sua enorme atenção, que o acompanhou desde a infância, atenção a tudo, aos detalhes ínfimos, a que mais ninguém reparava, às frases literárias e brilhantes que reproduzia na parede do seu apartamento. Algumas eram suas. Lembro-me de o ver seduzir plateias de centenas de pessoas. De as ver ficar rendidas. De as desiludir também, com o seu ar négligé, misto de fleuma altiva com indiferença estudada, meio distraído, ar de quem já nem está ali naquele palco, porque se evadira para outro lugar, porventura, mais interessante.

Era sempre uma forma de causar desalinho e um certo desconforto. Isso parecia agradar-lhe. E o desalinho e desconforto foram matéria e material dos seus romances. Queria que os livros agarrassem o leitor pelo pescoço, à bruta. E também, por isso, eram maravilhosos e inigualáveis. Parecia gostar de se estar nas tintas, porque tinha alcançado esse estatuto, se lhe apetecia dizia coisas desagradáveis sobre Pessoa e Eça. Olhava para os melhores da literatura com admiração e raiva e pensava: tenho de ser melhor que eles. Leitor insaciável: se um dia não lesse era como se se vestisse sem tomar banho, comentava .
Lembro-me de lhe assistir a momentos de uma alacridade tão infantil e contagiante, em que cantava em voz alta e recitava poemas, e a outros de desdém, perante um público distinto que o homenageava: "Era tão bom que esta gente lesse", segredou-me. Citava o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Talvez fosse o escritor que conheci que mais se preocupava com a posteridade, mas negava-o: "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que… olhe, de que haja manhã…" E lembrava Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata."

Um dia perguntou-me: "Posso dizer-lhe uma coisa em off?" E fixou-me com aquele olhar muito azul e muito sério: "Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal… Mas é só uma opinião."


Ana Margarida de Carvalho no Público

segunda-feira, 17 de junho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Os 50 anos do 25 de Abril possibilitaram a saída de numerosos livros. Memórias, fotografias, histórias. Um aspecto interessante está relacionado  com os livros tendo em vista as crianças, muitas delas que ainda não eram um sorriso na cara dos seus pais quando a ditadura caiu.

Um desses livro é Sempre escrito por Rita Taborda Duarte e ilustrado por Madalena Taborna, um muito bonito licro editado pela Assembleia da República.

Rita Taborda Duarte é uma das duas filhas do escritor Mário de Carvalho, a outra é Ana Margarida de Carvalho e pode-se lembrar o provérbio popular de que filhas de peixe sabem nadar.

«Por isso quando nasci, o meu pai viu-me, pela primeira vez, à distância de um vidro baço e grosso que nem por nada se quebrava: a PIDE (Polícia Incrivelmente Destituída e Estúpida) mantinha-o preso no forte de Peniche, em frente ao mar. Tanto mar, tanto mar…»

Um livro bonito e comovente, com histórias que metem pelo meio canções e poemas de Ary dos Santos, José Afonso, José Mário Branco, Lopes Graça, Sérgio Godinho, José Gomes Ferreira, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Ruy Belo, António Ramos Rosa, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill.

Por fim, dizer que esta maravilha de livro custa 8 euros e pode ser comprado na Livraria da Assembleia da República e, quando o forem comprar podem ter a possibilidade de conhecerem o Palácio de São Bento.

terça-feira, 31 de maio de 2022

SACANICES JORNALISTICAS


Quando há dias, quis completar a resposta a um comentário de Luís Eme sobre o indecente despedimento da Visão, da escritora e jornalista Ana Margarida de Carvalho, tive necessidade de consultar o livro «Memórias Vivas do Jornalismo» de Fernando Correia e Carla Baptista.

Fiquei depois a refrescar-me com a releitura de algumas páginas do livro, um vício gratificante que utilizo constantemente, e fui cair numa história contada pelo jornalista Roby Amorim, falecido em Dezembro de 2013, que refere a filha-da-putice  feita ao escritor Carlos Eurico da Costa, então jornalista do Diário Ilustrado.

O Diário Ilustrado era propriedade da Sociedade Abel Pereira da Fonseca, que vivia do lucrativo comércio, entre outros, de vinhos, azeites e bacalhau, um jornal  recheado de bons jornalistas e colaboradores, o mais possível contra a ditadura salazarenta, mas os proprietários sempre se borrifaram para o jornal. 

Só que um dia mostraram-se interessados num grande projecto que era fazer alumínio em Angola, isso necessitava da intervenção governamental e para isso era preciso estar bem com o governo e tiveram a necessidade de controlar o jornal começando por dar uma varridela nos jornalistas da casa, todos, ou quase, gente da oposição.

Um desses casos foi o despedimento de Carlos Eurico da Costa com um pretexto perfeitamente absurdo. Ele tinha tirado duas ou três linhas de chumbo (os jornais ainda se faziam a chumbo) porque era pescador, para fazer lá uns apetrechos para a pesca, duas ou três linhas de chumbo que custavam dez centavos ou qualquer coisa assim. Foi despedido por roubo. 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

VELHOS RECORTES


 A escritora Ana Margarida de Carvalho, em Dezembro de 2016, ao fim de 24 anos, foi despedida, da revista Visão e deixou esse despedimento retratado num depoimento que espelha no que se tornou o jornalismo português. «Sem uma única palavra de explicação», a jornalista considerou-se «destratada e desconsiderada e humilhada», para além de ser «coagida a assinar um contrato de rescisão, tudo menos amigável».

Ana Margarida de Carvalho assinou reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa da Imprensa. Publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claie e ocupava o cargo de Grande Repórter na Visão. Também passou pela redacção da SIC. Foi vencedora do Grande Prémio de Romance e Novela APE com o seu romance de estreia, «Que Importa a Fúria do Mar» e «Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato».

«Havia um autor famoso que dizia “fala sobre o que quiseres, mas não escrevas sobre a vidinha”. Pois venho desobedecer-lhe, é justamente da vidinha que eu venho aqui tratar. Da minha. E quero, antes de tudo, agradecer a tantos e tantos amigos e colegas (alguns distantes) que se interessaram e quiseram saber e me telefonaram e mandaram mensagens. Nem imaginam como foi importante para mim. Não vou esquecer. Os que não me falaram, não se preocupem, eu já esqueci.
1º- Não deve haver nada mais inglório do que acabar uma carreira de 24 de jornalismo num gabinete de um director de recursos humanos.
2º- Não deve haver nada mais inglório do que ter de enfrentar sozinha um destes seres anónimos e transitórios, sem uma única palavra de explicação, de apoio e de solidariedade de quem devia e podia.
3º- Não deve haver nada mais inglório do que ser destratada e desconsiderada e humilhada e coagida a assinar um contrato de rescisão, tudo menos amigável.
4º- Este meu despedimento não foi a pior coisa que me aconteceu naquela redacção. Foi apenas a última.
5º- Não guardo qualquer ressentimento em relação a esta direcção. É tão má como qualquer outra anterior (sem contar obviamente com a do Carlos Cáceres Monteiro, o único director, grande-repórter, líder que conheci). Estes apenas fazem o que lhes mandam- e mal. São outros seres anónimos e transitórios. E estão assustados (no sentido brechtiano do termo)
6º- Cometi um erro: foi levar o jornalismo demasiado a sério, quando ele não queria ser levado a sério.
7º- Não, cometi, dois erros: o de a certa altura da minha vida ter colocado o jornalismo à frente de tudo. Da literatura, sim (comecei a escrever muito tarde), dos meus próprios filhos, quando eram pequenos - e isto dói.
8º- Terceiro erro (há sempre um terceiro): estava sempre tão atolada em trabalho, tão concentrada nas reportagens, nas entrevistas, numa correria, cheia de entusiasmos - o que não faz mal nenhum porque era muito nova, tinha muita energia, mas tinha muita ingenuidade também. Resultado: nunca dei conta, a tempo, de como a incompetência e falta de talento estão associadas, por sua vez, a um talento desmesurado para a intriga e para o 'mau coleguismo'. Palavra que não fazia ideia de que a inveja podia ser uma força tão mobilizadora.
9º- No jornalismo conheci as piores pessoas, as mais cobardes, as mais desleais, as mais mesquinhas, as mais medíocres, as mais desinteressantes, as mais incompetentes, as mais desonestas, algumas nem sabia que podiam existir (achava que era só nos livros, enfim)... Mas depois conheci pessoas maravilhosas que se tornaram amigas de infância. E isso vale tudo e apaga o resto.
10º- Por causa do jornalismo contactei de perto com personalidades admiráveis, fui a sítios onde jamais iria, conheci mundos outros. Nunca cometi nenhum erro grosseiro, nunca falhei um prazo, nunca me atrasei na entrega de algum trabalho... Devo-lhe muito, mas não farei as pazes com o jornalismo tão cedo. Talvez um dia. Porque o trabalho é um direito, não apenas um dever, a minha vontade é, juro, ir-me embora, sair do país, ir fazer voluntariado para um sítio longínquo e perigoso, onde não me considerem «dispensável». . Bom... depois do Natal logo vejo...
Obrigada a todos os que chegaram até aqui.

 

Ana Margarida de Carvalho

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

AS FOTOGRAFIAS DO VIAJANTE


Num dos inquéritos de Verão que o Público andou a publicar, perguntaram à escritora Ana Margarida Carvalho: «Qual a sua maior extravagância?»

A resposta saiu assim:

«Atirei ao Rio Gilão uma anel valiosos, porque estava irritada com a pessoa que mo ofereceu. Gosto de pensar que talvez um peixe o tenha engolido e sido pescado, e ido parar de alguém que hoje ainda o conserve e estime o anel. Devia tê-lo vendido numa casa de penhores, mas não teria o mesmo dramatismo.»

sábado, 9 de março de 2019

TER PACIÊNCIA


Na carta que te escrevo, pergunto-te se posso morrer antes de ter vivido. Ou se posso ressuscitar sem ter morrido primeiro. O tempo arrasta-me e aquele em que te não escrevo já está longe demais. Tu tens a sabedoria da paciência. Agora sei, agora aprendi. Para se saber é preciso ter paciência. Esperar e ver.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

E SE EU FOSSE MÚSICA, MÃE?


Não, nunca escolheria uma canção de amor, nem uma canção que se pudesse cantar. Se ela fosse música, gostaria de ser A Chang is Gonna Comne, de Sam Cooke.
«I was born by the river in little tent…»
Não tanto pelas conotações da luta Americana anti-racista, essas só as aprendeu mais tarde, mas porque falava em rio e também ela tinha nascido junto a um rio.
«And just like that river, I’ve been runnin’ ever since.
Só que ela nasceu junto a um rio de ocaso, onde as águas já perderam a pureza alcalina das origens e vêm corrompidas de sais, sódios, resíduos e outras metástases de poluição.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

quarta-feira, 21 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


Nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros, o que lembramos hoje é sempre o que da última vez lembrámos, são falsas todas as memórias.
E tudo se mistura, um sonho, um facto, uma recordação, vários pontos acrescentados que formam uma constelação defeituosa – tudo feito da mesma matéria, uma esponja, cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial.

Ana Margarida Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

Legenda: fotografia de Eric Vance

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Os velhos deitam-se antes da hora de deitar, e acordam antes da hora de acordar.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando há um prego que se destaca, martela-se. E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.  

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Tanta terra no mundo para morrer, tão pouca para viver.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sábado, 21 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Deixa-me dizer-te os meus silêncios, sei que um dia os vais conseguir ouvir.

Ana Margarida de Carvalho em Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato

Legenda: Fotografia de Jonathan Rauch

terça-feira, 26 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os velhos mentem estupendamente bem.

Ana Margarida de Carvalho em Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato

quinta-feira, 27 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os mortos ao menos não sonham, são sonhados.

Ana Margarida de Carvalho em Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato