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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Existencialismo e a Sabedoria das Nações

Simone de Beauvoir

Tradução: Manuel de Lima e Bruno da Ponte

Colecção: Clave nº 2

Editorial Estampa, Lisboa, Setembro de 1967

Mas, tanto como o ódio e como a vingança, o amor, a acção implicam sempre um revés; isso não nos deve impedir de amar, de agir, pois não temos somente que verificar a nossa condição, mas no próprio da nossa ambiguidade, escolhê-la. Sabemos presentemente que devemos renunciar a encarar a vingança como a reconquista serena de uma ordem razoável e justa. E, no entanto, devemos ainda querer o castigo dos autênticos criminosos. Pois castigar é reconhecer o homem livre tanto no mal como no bem, é distinguir o mal do bem do uso que o homem faz da sua liberdade, é querer o bem.

sábado, 5 de junho de 2021

OLHAR AS CAPAS


  

Que Pode a Literatura?

Depoimentos de Simone de Beauvoir, Yves Berger, Jean-Pierre Faye, Jean

                            Ricardou, Jean-Paul Sartre, Jorge Semprum

Direcção da colecção de Urbano Tavares Rodrigues

Colecção Polémica nº 3

Editorial Estampa, Lisboa, Novembro de 1968

Ao ouvir os vários autores que falaram antes de mim ia pensando para comigo que teria sido melhor substituí-los por leitores. Antes de mais, porque todos eles, sendo romancistas, se esqueceram de que a literatura não é feita exclusivamente de romances; há também os ensaios, por exemplo, e será muito difícil não os integrar na literatura…

Nesse caso para onde irão os belos sonhos de morte de que ouvimos falar há pouco? Isso é outro problema.

Em segundo lugar preferia que fossem os leitores a falar porque a literatura é comunicação, coisa que foi completamente esquecida aqui, com excepção de dois defensores da literatura de compromisso.

Em terceiro lugar porque os leitores, al falarem, teriam conferido às palavras a sua função de signo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975



30 de Dezembro de 1975

Estes dois recortes, um do Diário Popular, outra de A Luta, ambos de 30 de Dezembro de 1975, referem o encerrar do capítulo que ficou para a História como o «Caso Rep«ublica».
Chegava ao fim a longa e difícil luta dos trabalhadores que se arrastou por seis meses.
Passados que são 40 anos ainda não é possível saber, com exactidão, o que se passou no República, durante o Verão Quente.
Mas já é possível dizer que a versão de Mário Soares, e de todos os oportunistas que em seu redor se colocaram, não é toda verdade.
Apenas a verdade que serviu para criar o divisionismo entre as esquerdas.

Um dia, se fará a História.
De quem traiu e o porquê.
Como escreveu Simone Beauvoir:
É horrível assistir à agonia de uma esperança.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


25 de Novembro de 1975.

Cerca das 2 e 30 da madrugada, quatro chaimites dos comandos da Amadora chegam ao Palácio de Belém. Duas delas bloqueiam a Calçada da Ajuda. O comandante da Polícia Militar, Campos Andrada, contacta o Regimento de Comandos sendo-lhe respondido que aquela força estava a cumprir ordens do Presidente da República. Pedidas explicações para a Presidência da República, é confirmado que as chaimites estavam à ordem do Presidente da República, mas que tinha havido uma má interpretação e iriam regressar imediatamente

O Conselho da Revolução, ao fim de oito horas de reunião em Belém, decidiu manter a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região Militar de Lisboa.

04,00 horas -  tropas pára-quedistas ocupam as bases aéreas de Tancos, Montijo, o Estado Maior da Força Aérea, o Comando da Região Aérea, o GDACI , em Monsanto, e a Ota.

05,40 horas - após cerca de 12 horas de interrupção do trânsito entre Leiria e Lisboa, são levantadas as barricadas montadas por agrários e pequenos proprietários.

13,30 horas – o Presidente da República classifica a operação dos para-quedistas de sublevação.


14,30 horas - Otelo Saraiva de Carvalho chega ao COPCON no Forte do Alto do Duque.

Varela Gomes há-de escrever:

Mas não havia nada a fazer. A grande decisão estava tomada. Otelo Saraiva de  Carvalho obedecia à convocação do general Costa Gomes, largando os “paras” à sua sorte. O estratega do 25 de Abril de 1974 abandonava vergonhosamente o seu posto de comando em 25 de Novembro de 1975. Na hora do aperto, fugia de calças na mão, à procura do refúgio protector.
Deveriam ser cercadas 15,00 horas quando o general graduado Otelo Saraiva de Carvalho saiu do Copcon… e da revolução.(1)

Dinis de Almeida também, escreverá:

O desinteresse manifesto de Otelo pelo controlo e coordenação das suas próprias forças militares, torna-se hora a hora mais inquietante.

Só da parte da tarde aparecerá no COPCON, onde apenas permanecerá por momentos.

Arrancará pouco depois para Belém onde afirmará junto a Vasco Lourenço e Marques Junior que ”… eu próprio lancei os pára quedistas, após o que a seguir os abandonei de propósito para lixar a esquerdalhada… que andava sempre a chatear-me…” (2)

“Desgraçada Revolução que tais chefes teve”, dissera um dia Vasco Gonçalves, referindo-se concretamente a uma das muitas inconsequências de Otelo

16,35 horas -  a emissão Telescola, a ser transmitida pela RTP, é interrompida e surge no écran o Capitão Duran Clemente que pretende apelar para que as massas populares se mobilizem junto dos quartéis e estações da RTP, mas a transmissão é desviada para os estúdios do Porto e os portugueses passam a assistir ao filme de Frank Tashlin O Homem do Diners Club com Danny Kaye.

16,30 horas -Costa Gomes decreta o estado de emergência na Região de Lisboa.

 Posteriormente é decretado o estado de sítio parcial na Região de Lisboa e a suspensão da publicação da imprensa escrita.

22,00 horas - a emissão do Rádio Clube Português é silenciada e a Emissora Nacional, a transmitir dos estúdios do Porto, fica sob o controlo do CEMGA.

Do livro Abril nos Quartéis de Novembro: 

A Calma, o saber esperar, adicionados à capacidade de provocar o adversário, terão sido os aspectos que mais contaram para a vitória dos “Nove”, que, à partida, não eram a força melhor colocada em termos militares na cidade de Lisboa. Tais capacidades são especialmente demonstradas no próprio dia 25, quando evitam actuar sem a cobertura de Costa Gomes. Esperaram que ele tentasse resolver o problema por outros meios, ao mesmo tempo que o iam pressionando, demonstrando a urgência de passara à acção. Em verta altura argumentam que não se pode deixar cair a noite para agir e que tudo está por fazer. (3)

Costa Gomes toma o comando directo das Forças Armadas, e as unidades de Lisboa são informadas de que além dele também recebem ordens de Vasco Lourenço, que Costa Gomes nomeia como seu adjunto, e mais tarde juntará o nome de Ramalho Eanes à cadeia de comando.

José Gomes Mota no seu livro A Resistência:

Tudo se passava, portanto, segundo os nossos planos, ou seja, Vasco Lourenço chefiava o Movimento e Ramalho Eanes dirigia o Grupo Militar.
Em seguimento à proclamação do estado de sítio parcial, na área da região de Lisboa, o Estado Maior das Forças Armadas difunde uma nota oficiosa em que se informa a população de que foi determinado o recolher obrigatório no período que se estende das zero às seis horas da manhã, e em que, também, alerta para o facto a rádio e a televisão não poderem emitir comunicados dos partidos políticos, apenas comunicados oficiais.

Simone Beauvoir, algures no tempo:

O mais terrível dos sentimentos é o de ter a esperança perdida.

José Gomes Ferreira no seu livro Intervenção Sonâmbula:

Estamos no fim da Revolução. E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.

Fontes:

- Acervo pessoal.

(1)   – Sobreao Golpes Contra-Revolucionários de 11 de Março e de 25 de Novembro de 1975 – Varela Gomes, edição do autor, Lisboa s/d
(2)   - Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A. 2º volume, Edição do Autor, Lisboa s/d
(3)   - Abril nos Quartéis de Novembro – Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Livraria Bertrand, Junho 1979
(4)    - A Resistência – José Gomes Mota, Edições Jornal Expresso, Lisboa, Junho 1976

domingo, 6 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Se vivermos muito tempo, descobrimos que todas as vitórias , um dia, se transformam em derrotas.

Simone de Beauvoir

sábado, 13 de julho de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO

O TEMPO MUDOU, por uns dias, o calor vai deixar-.nos, de manhã até caíram uns pinguitos de chuva.

Mas foi a única coisa que mudou.

Um executivo moribundo arrasta-se por aí.

O inquilino de Belém olha, medita, entende que deve falar.

Maria já queria estar na Coelheira.

Vai ter de esperar.

A meio da semana, num discurso ininteligível, Cavaco exigiu, um acordo a três: PSD, CDS, PS., um compromisso de salvação nacional.

Se é de salvação nacional que fala, qual a razão de apenas os partidos da governabilidade terem sido chamados?

Com a classe política que nos assiste que se perfila por aí, Portugal é mesmo um país ingovernável.

Definitivamente!

O Paulo e o Passos foram vexados por Cavaco.

Mas ambos estiveram, ontem, amigalhaços, sorridentes, na Assembleia da República, a debaterem o Estado da Nação.

A voz-barítono-do-Pedro, declarou que o governo está vivo e recomenda-se.

Sobre o discurso do inquilino de Belém, o Pedro disse ao Tó Zé: É preciso trocar aquilo por miúdos.

Entretanto, foram todos passar o fim-de-semana.

Não há volta a dar: eleições antecipadas, já!

OS PROCESSOS DE DESPEDIMENTO coletivo concluídos atingiram 4.808 trabalhadores até Maio, o que representa uma média de 32 despedimentos por dia e um aumento de 46,9% face a igual período de 2012.
Segundo dados da Direção-Geral do Emprego e das Relações do Trabalho, o número de empresas que recorreram ao despedimento coletivo aumentou também 30% até Maio (de 387 para 482).

A TAXA DE DESEMPREGO JUVENIL em Portugal atingiu os 37,7% em 2012, a quarta maior da União Europeia, e mais de seis em cada dez jovens portugueses não trabalhavam nem procuravam emprego, divulgou o Eurostat.
De acordo com os dados do gabinete oficial de estatísticas da União Europeia, no ano passado, o número total de jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos totalizou 1.128.000, dos quais 266.000 tinham emprego, 161.000 estavam desempregados e 701.000 eram economicamente inativos, devido, por exemplo, à educação e formação, a responsabilidades familiares, a doenças ou a deficiências.

DURANTE O ANO passado, o sector da construção civil perdeu 15 mil empresas e mais de 130 mil postos de trabalho.
Mais de dez mil trabalhadores, trabalhadores que aguardam o pagamento de 50 milhões de euros referentes a salários em atraso e indemnizações.
Há processos de insolvência que se arrastam há mais de dez anos nos tribunais.

SEGUNDO O RELATÓRIO do Observatório de Saúde, 13% de doentes crónicos, com mais de 65 anos, e não só, estão a cortar nas despesas de saúde.
O dinheiro das parcas reformas não chega para tudo: água, luz, casa, comida, medicamentos.

ATRAVÉS DO Público, soube-se que Paulo Portas já procurava um novo gabinete onde assumiria as funções de vice-primeiro-ministro. A decisão de Cavaco ao pedir um compromisso de salvação nacional apanhou o ainda ministro dos Negócios Estrangeiros com os seus pertences empacotados e o gabinete vazio.
Segundo o diário, Portas andava em aventuras nocturnas pelo património do Estado na capital, à procura de uma sede digna para a sua nova função. O ministro até já tinha feito as despedidas pessoais no Palácio das Necessidades.

EIVADA DE RAIVA, numa histérica gritaria, Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, o segundo cargo na hierarquia do estado, gritou para os portugueses que, na galeria, exigiam a demissão do governo.
Façam o favor de se retirar, façam o favor de se retirar!
E não resistiu a citar Simone Beauvoir. 
Não podemos deixar que os nossos carrascos nos dêem maus costumes.
Simone de Beuavoir escreveu a frase, no pós-guerra, e os carrascos eram os nazis que ocuparam o país.
Borrou ainda mais o pé, quando explicou aos jornalistas que utilizara a expressão sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos perturbam não devemos dar atenção.
Decididamente, a piquena ensandeceu!

JOSÉ PACHECO PEREIRA, no Abrupto:

Nunca em toda a minha vida, antes ou depois do 25 de Abril, senti um tão agudo ambiente de "luta de classes". Os de baixo contra os de cima. os de cima contra os de baixo. Os de cima que fazem de conta que não há os de baixo, não existem, ponto. Os de baixo que se pudessem apanhar os de cima, sem a corte de guarda-costas, os fariam passar um mau bocado. Sem organização, sem instigação, como quem respira. 

sábado, 2 de março de 2013

POSTAIS SEM SELO


Conheci uma criança que chorava porque o filho da sua porteira tinha morrido; os pais deixaram-no chorar, até que se agastaram. «Apesar de tudo, esse miúdo não era teu irmão». A criança limpou as lágrimas. Mas aquele era um perigoso ensinamento. Inútil chorara por um miúdo estranho. São as minhas lágrimas que decidem. Nada está decidido antes de mim.
 Simone de Beauvoir em Pyrrhus et Cinéas, citado por João Martins Pereira em No Reino dos Falsos Avestruzes.
Legenda: fotografia de Dorothea Lange.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

OLHAR AS CAPAS


Morte Serena

Simone de Beauvoir
Tradução de Luísa DaCosta
Capa: Jorge Pinheiro
Editorial Minotauro, Lisboa Janeiro 1966

Não se morre de ter nascido, nem de ter vivido, nem de velhice. Morre-se de qualquer coisa. Saber a minha mãe condenada pela idade a um fim próximo não atenuou a horrível surpresa. Um cancro, uma embolia, uma congestão pulmonar: é tão brutal e imprevisível como a paragem dum motor em pleno céu. A minha mãe encorajava ao optimismo quando, impotente, moribunda, afirmava o valor infinito de cada instante; mas ao mesmo tempo o seu vão encarniçamento destruiu o véu tranquilizador da banalidade quotidiana. Não há morte natural: nada do que acontece ao homem é natural, visto que a sua presença põe o mundo em causa. Todos os homens são mortais: mas para cada homem a morte é um acidente e, mesmo que ele saiba e consinta nisso, uma violência indevida.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

POSTAIS SEM SELO


Se vivermos muito tempo, descobrimos que todas as vitórias , um dia, se transformam em derrotas.

Simone de Beauvoir citada pelo Público.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O GRANDE HOMEM


O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, deixou, hoje, o recado que adoptará mais medidas de austeridade se isso for necessário para permitir o cumprimento do objectivo do défice, fixado em 7,3 por cento no final do ano.

Em 12 de Outubro de 1979, José Rodrigues Migueis escrevia:

“Nações pobres” são em geral as que se deixam governar por quadrilhas minoritárias supostamente escudados numa qualquer doutrina ou ideologia, cuja finalidade real é sobretudo o “venha a nós o nosso vintém.”

Ainda José Rodrigues Migueis, mas em 17 de Fevereiro de 1980:

“Então que me diz você ao novo governo: acha-o melhor ou pior que os outros anteriores?” “São todos uns piores que os outros!”

Sobre os povos Simone de Beauvoir deixou escrito, citando em segunda mão, em “A Força das Coisas”:

“A verdade é que eles não querem ser governados por iguais: pensam muito mal deles porque pensam mal a seu próprio respeito e a respeito dos seus mais próximos vizinhos. É «humano» amar o dinheiro e viver ao serviço dos seus interesses. Mas quando somos humanos, como os outros, não somos capazes de governá-los. O povo pede então o não humano, o sobre-humano, o Grande Homem, que será «honesto» por que está «acima dessas questões”.