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quarta-feira, 23 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO


Dantes, havia cada vez mais gente revoltada; agora, há cada vez mais gente infeliz.

Joaquim Manuel Magalhães

sábado, 7 de agosto de 2021

POSTAIS SEM SELO


 E há poemas que não têm caspa nem engordam com os anos.

Joaquim Manuel Magalhães

quarta-feira, 7 de abril de 2021

DEMASIADO VAZIO

Ainda não percebi as razões que levaram as autoridades (sanitárias e políticas) deste país, a fecharem as livrarias em tempo de pandemia. Nunca vi excesso de pessoas às portas das livrarias de modo a constituírem perigo de contágio. 

Uma idiotice como outra qualquer, uma ignorância como outra qualquer.

Perguntaram a Joaquim Manuel Magalhães o que lhe sugeria as cidades sem livrarias:

«Mostra-me um demasiado vazio, sobretudo por nesses armazéns apenas se encontrarem livres inúteis que dizem ter um público. Um gosto público que se abastece de nada, nem sequer sabe se gostará de ler. Gosta de ler o que para ali está. Mas em Londres, Paris, Madrid também já não há livrarias ou boas casa para poder comprar discos. Encontrei uma em Berlim, mas também já deve ter desaparecido. Falam em globalização. Mas onde encontrar tanto o antigo como o novo a não ser nas Amazons europeias ou equiparáveis?»

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A CASA PERTO DO MAR


As casas que tive tiraram-mas. Calhou
que fossem anos nefastos guerras desolações expatriamentos;
por vezes o caçador encontra as aves de passagem
por vezes não as encontra; a caça
era boa no meu tempo, os chumbos apanharam muitos;
os outros vagueiam ou enlouquecem nos refúgios.

Não me fales do rouxinol nem da cotovia
nem da pequena arvéola
que escreve algarismos na luz com a sua cauda;
não sei muito de casas
sei que têm a sua tribo, mais nada.
novas ao princípio, como as crianças de colo
que brincam nos jardins como as franjas do sol,
bordam coloridas persianas e brilhantes
portas sobre o dia;
quando o arquitecto acaba mudam,
enrugam ou sorriem ou mesmo teimam
com os que ficaram com os que partiram
com outros que voltariam se pudessem
os que se perderam, agora que o mundo
se tornou num imenso hotel.

Não sei muito de casas,
lembro-me da sua alegria e da sua tristeza
às vezes quando paro;
                                            mesmo
às vezes, perto do mar, em câmaras nuas
com uma cama de ferro sem nada meu
olhando a aranha nocturna cismo
que alguém se prepara para vir, que o enfeitam
com roupa branca e negra com jóias multicores
e em seu redor falam baixo damas veneráveis
cabelos cinzentos e rendado escuro,
que se prepara para vir e despedir-se de mim;
ou, uma mulher com pestanas em hélice talhe profundo
voltando de portos meridionais,
Esmirna Rodes Siracusa Alexandria,
de cidades fechadas com as quentes persianas,
com perfumes de frutos de ouro e com ervas mágicas,
que sobe os degraus sem ver
os que adormeceram debaixo das escadas.

Sabes as casas teimam facilmente, quando as despes.

Yorgos Seferis, tradução de Joaquim Manuel Magalhães.
Poema encontrado em Um Mar de Filmes, Cinemateca Portuguesa , 1998.
Legenda: pintura de Edward Hopper

quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MORREU O ASSIS COMO É DO CONHECIMENTO PÚBLICO, COMO JÁ TINHA MORRIDO O ESTEVES DA LEITARIA, O O' NEILL DA SEDA CHINESA EM FEIRA DE CIGANO


Borrifava-se nas editoras e publicava livros, pagos do seu bolso, que oferecia aos amigos

Conheci-o no Diário de Lisboa e voltámos a encontrar-nos no República.

Como disse Joaquim Manuel Magalhães, poeta e crítico literário:

O Fernando Assis Pacheco de que eu gosto tem a obra publicada bem longe dos empórios editoriais cuja distância do poder económico é um acto cultural defender (Centelha, Inova); ou então entregues a esse prazer da auto-publicação lateral, através de opúsculos passados a stencil e quase que difundidos de mão em mão; ou mesmo em ignorados jornais de província.

No República e no semanário O Jornal alimentou secções de recensão de livros, nada de crítica, apenas divulgar o que ia saindo das editoras, lembretes.

Se este seleccionista tivesse o sangue-frio e a quietude táctica de um lagarto dos muros, levava bem melhor a sua cruz semanal ao calvário do fotocomposição: Mas ele é um bicho de entusiasmos: fala alto, escreve a traço grosso, chateia meio mundo quando descobre, fresco ainda dos preços, «o livro». Eis, de seguida, alguns exemplos do ano que vai terminar, com o pedido expresso de que não veja neles o rigor da ordem.

No República chamou-lhe PRONTUÁRIO DAS LETRAS:


Em O Jornal chamou-lhe BOOKCIONÁRIO:


Escreveu livros.

Prontuou e bookcionou os livros de outros.

A morte só lhe poderia marcar encontro numa livraria.

Foi há 20 anos, num findar de Novembro, tal como escreveu Vasco Graça Moura deixou em poema:

com Novembro a findar morreu fernando
assis Pacheco numa livraria,
entrava nela sempre que podia
a ver as novidades e foi quando
de ensaios ou romance ou poesia
alguns volumes ia folheando
que o coração então lhe vacilando
lhe emudeceu a escrita nesse dia


Ou ainda Manuel Alegre:

Não sei se alguma vez nós voltaremos
da guerra onde deixámos partes d’alma.
As minas ainda estão a rebentar
trazemo-las por dentro e ninguém pode
desarmá-las.
A última foi a de Fernando Assis Pacheco
não em Zala ou Balacende nem Quilolo
mas numa pacata livraria de Lisboa
às onze da manhã
essa hora fatídica da emboscada.

Não me venham dizer que foi enfarte
ou acidente cardiovascular. Eu sei
que foi a mina

armadilhada no coração.

Nota do Editor: 
O título é tirado de uma prosa que o jornalista Rogério Rodrigues escreveu na morte do Fernando Assis Pacheco morreu,

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

V.S.T. & ETC


Um fazedor de livros como o Olímpio Ferreira, tinha de estar ligado à &etc., o que quer, de imediato, dizer a Vitor Silva Tavares.
Cumplicidades, afectividades.
Quando Olímpio nos deixou, com tanto ainda para fazer e dar, Jorge Silva Melo escreveu este texto no Público de 4 de Janeiro de 2008:

Chamava-se Olímpio Ferreira, o seu nome aparece na ficha de dezenas de livros e revistas (da Cotovia, da & etc., da Assírio, da Fenda, da Averno, da Abril em Maio, dos Artistas Unidos, e mais haverá que não sei). Tinha 40 anos, fazia paginação, morreu no dia 30 de Dezembro, ataque cardíaco.

Um dia, há muitos anos, dia difícil para mim, tocou-me à porta com um embrulho que eu supus ter deixado cair - e agradeci. Era um exemplar de Consideram-se Mortos e Morrem, o belíssimo romance de Vittorini que a PIDE apreendeu nos anos 60 e aparecia na colecção da Portugália como "fora do mercado". Lera um artigo em que eu falava da falta que me fazia esse livro perdido, e apareceu-me em casa (como soube a minha morada? Nunca saberei...) com esse embrulho, um sorriso, um remetente (à Rua da Fé, nome que lhe ia bem). Para onde telefonei, mal me apercebi que não era um vizinho que encontrara nas escadas uma coisa que eu deixara cair. E ficámos amigos.


E foi sempre com esse sorriso e estes livros achados que fui vivendo estes anos com ele, livros que encontrava, e um dia me oferecia, os Vadios de Pasolini, tradução de Virgílio Martinho, capa de Pinto, edição do Vítor Silva Tavares para a Ulisseia, apreendido pela PIDE - que desencantou nunca me disse onde, que tanto o procurei.


Vinha de Coimbra e do movimento católico, falámos pouco desse catolicismo que nos ligava, falámos sempre mais de livros, de traduções que ele sabia estarem a ser feitas (foi ele que me falou de Carlos Leite traduzindo o Pavese, de Manuel Portela a traduzir o Sterne), de poetas que apareciam (deu-me o primeiro Tolentino Mendonça, padre e amigo, não sei se não foi ele também quem primeiro me falou do Luís Quintais, foi ele que me anunciou a decisão do Manuel Gusmão de enfim publicar, sabia sempre tudo, foi ele que me falou da DiVersos), falámos de tipos de letras e da dimensão dos livros (gostávamos de livros pequeninos, livrinhos, chamámos nós à nossa colecção), de capas e de política, rimo-nos da última vez que nos encontrámos, no Campo de Santana, na véspera ou no dia em que lhe nasceu o filho mais novo, rimos dos dislates do poder, sempre falámos mais disso, dos disparates do mundo, ele convidava-me de vez em quando para umas coisas (um colóquio na Nova, um artigo para a revista Intervalo em que trabalhava), recomendava-me pessoas, gente mais nova (o Luís Henriques, que este domingo me anunciou a sua morte - e chorava), aparecia sempre, como da primeira vez, com um sorriso lindo.
E fazia livros, paginava-os, entusiasmava-se, revejo agora o seu deslumbramento com o Homossexualidade de Joaquim Manuel Magalhães que publicara a Telhados de Vidro nº 4 (500 ex.). É poema (extraordinário) que não leio sem me lembrar do rosto do Olímpio ao oferecer-mo, "se há poesia política, é esta", dizia, e nesse dia estava declaradamente afirmativo, coisa rara naquela sua maneira de ser, tão discreto que era.


Nunca soube o que queria o Olímpio, se queria fazer outra coisa, se queria escrever, se queria editar, se queria abrir alguma loja de livros, se queria outra coisa, nunca disse, mesmo quando eu o desafiava, sei que fazia livros, queria andar pelo meio deles - e de filmes também, filmes de que, às vezes, falávamos e foi ele que me disse que me conhecera em Coimbra, na estreia do Agosto, na plateia deserta do TAGV - e paginava com saber, com extremo cuidado, destreza, simplicidade, delicadeza. Não sei se atrás do seu sorriso haveria alguma mágoa, alguma coisa que não tinha feito e queria, sorria, brincava com o destino, falava de amigos e de escritores, de editores e de livros. E dos filhos e das noites em claro.


Era um homem que fazia livros - e às vezes os dava -, que convencia os outros da excelência de certos autores (Gianni Rodari, editado pela Teorema), que convidava ao secreto encontro - e tinha sempre novidades.


Morreu agora, inesperadamente, brutalmente, discretamente, no meio das festas, com tantos amigos fora, e faz-me falta, era um rapaz leal, firme, secreto, discreto, um amigo.
Na missa, em Santa Isabel, Tolentino Mendonça lembrou-o, comovido - e lembrou as bem-aventuranças. E lembrou que não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros. Deste rapaz que fazia livros.