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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

POEMA

Fundiu-se o olhar do poeta em lágrimas salgadas

e o poeta não quis cantar o que os seus olhos viram.

É que o poeta só cantava

para as meninas dos balcões floridos

de cactos e de cravos,

para aquelas

que sonham com estrelas

e príncipes de lenda.

– E preferiu cegar.

Fechar os olhos ao vaivém da rua

e continuar morando em sua Torre de Marfim.

Ah! Poeta inútil!

Enrouqueceu a cantar as líricas inúteis

aos cravos das janelas

das meninas fúteis

e ninguém mais se lembrará de ti.

Mas se cantares a rua, a fome, o sofrimento,

se abrires os olhos sobre o nosso mundo,

se conseguires que toda a gente o veja

e o sinta, e sofra, só de ver sofrer,

ninguém se lembrará de ti, poeta,

mas terás feito a tua luta,

e, nela,

justificado uma razão de ser.

 

Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

sábado, 24 de maio de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


 Estamos com o nº1 da Colecção Poetas de Hoje editados pela Portugália Editora: Os Poemas de Álvaro Feijó.

O prefácio do livro é de João José Cochofel e ambos são velhos amigos e formados na escola neo-realista onde tiveram a companhia, entre outros, de Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado.

Álvaro Feijó morreu muito novo, tinha 24 anos quando morreu em 1941.

Escreve Cochofel:

«Fantasia e realidade constituem os ingredientes indissociáveis da poesia de Álvaro Feijó, que era daqueles poetas que de tudo arrancam poesia, dos pequenos nadas, dos miúdos acontecimentos do dia a dia, até de uma simples notícia de jornal, das emoções pessoais como dos factos observados, que a sua visão exercitada capta e que o seu  adestramento formal sabe fixar com uma fidelidade que raro entra em conflito com a riqueza poética da expressão.»

Esta frase sublinhei-a no prefácio de Cochofel, razão mais que suficiente para que a poesia de Álvaro Feijó tivesse uma entrada significante no jovem que então estava a desbravar os novos poetas portugueses que ele desconhecia por completo.

 

«Mas se cantares a rua, a fome, o sofrimento,

se abrires os olhos sobre o nosso mundo,

se conseguires que toda a gente o veja

e o sinta, e sofra, só de ver sofrer,

ninguém se lembrará de ti poeta,

mas terás feito a tua luta,

e nela,

justificado uma razão de ser.»

 

O poema que Álvaro Feijó escolheu para deixar o seu autógrafo, é:

 

LARGADA

 

«33…35…Rumo ao Norte»!

 

Só isto! Nada mais!

 

E isto quer dizer

a saudade do cais

que se perdeu de vista;

o Mar que se conhece braça a braça

por outro mar sem fundo;

as praias onde andara em pequenino

pelas do Cabo do Mundo,

geladas e tristes;

a mulher possuída realmente

pela mesma mulher

que se quer

e se não tem,

e a voz dum filho nu – continuamente –

debruçado do cais

a pedir pão!

 

- «33… 35… Rumo ao Norte».

 

Só isto! Nada mais!

Julho de 1940

sexta-feira, 7 de março de 2025

RITMO ETERNO?

A enxada tomba… Cavador não sentes,

com ritmo igual, por esse mundo, a rodos,

dezenas delas a bater, também?

………………………………………………………

Para que veio Cristo ao mundo e às gentes,

se aquilo que pregou veneram todos

— fingidamente — e nunca o fez ninguém?!

Espera cavador! O Sol que dorme,

agora, amanhã há-de voltar…

E, do negrume dessa noite enorme

que parece jamais querer cessar,

de tuas mãos, com teu esforço enorme,

 

— Um Novo Mundo há-de surgir, brilhar…

 

Janeiro de 1938

Álvaro Feijó em Poemas de Álvaro Feijó

quarta-feira, 17 de abril de 2024

LARGADA

 «33…35…Rumo ao Norte»!


Só isto! Nada mais!

 

E isto quer dizer

a saudade do cais

que se perdeu de vista;

o Mar que se conhece braça a braça

por outro mar sem fundo;

as praias onde andara em pequenino

pelas do Cabo do Mundo,

geladas e tristes;

a mulher possuída realmente

pela mesma mulher

que se quer

e se não tem,

e a voz dum filho nu – continuamente –

debruçado do cais

a pedir pão!

 

- «33… 35… Rumo ao Norte».


Só isto! Nada mais!

Julho de 1940


Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

domingo, 6 de maio de 2018

NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO


O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas 
- e que altar enorme! -
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
- a Fome!


Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

Legenda: fotografia tirada de Faina Maior: A Pesca do Bacalhau nos Mares da
                 Terra Nova de Francisco Marques e Ana Maria Lopes, Quetzal
                 Editores, 1996

sábado, 10 de fevereiro de 2018

GARE


O comboio perdeu-se no negrume
da noite e da distância.

A leva dos emigrantes
                                      - num sonho de riqueza
e na esperança de vida –
enchera o monstro.

Na gare, choros e gritos!
Namoradas perdidas,
mães velhinhas
E os amigos,
numa espécie de inveja dolorida,
por não poderem partir.
Na gare a dor em cada face!

E só eu
             - que não era um emigrante –
só eu tive um sorriso de mulher
pedindo que voltasse

Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MOMENTOS ARREPIANTES


Passadas as emoções do momento, quero deixar referido que as cerimónias fúnebres de Mário Soares nos Jerónimos, o mesmo cenário que marcou a assinatura da cerimónia da adesão de Portugal à CEE, tiveram passos marcantes mas quero referir dois: a declamação, por Maria Barroso, de Os Dos Sonetos de Amor da Hora Triste de Álvaro Feijó, a audição da Lacrimosa do Requiem de Mozart.
O começo da minha aprendizagem dos poetas portugueses contemporâneos, está marcado pela leitura dessa espantosa Colecção Poetas de Hoje, da Portugália Editora. Hoje, o poeta Álvaro Feijó, como tantos outros, apenas é conhecido por uma minoria e, por sinal, é o número 1 dessa colecção.

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                        Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.



terça-feira, 14 de julho de 2015

POEMA DO DÓRI


Nevoeiro... Nevoeiro...

O Mar é grande e o batel pequeno.
O Mar é imenso e o porto é um ponto.
Nevoeiro... Nevoeiro.
Silêncio. Tristeza triste a de quem tem
um ruído igual a bater nos ouvidos
duas horas, cem dias.
O peixe que salta e estrebucha no barco,
a vaga que sobe e se encrespa e que perde
o esforço dum dia.
A linha que estica e os membros que são
a máquina-remos,
a máquina-velas,
os membros que são um moto contínuo.
A ronca que ronca, o sino que tange
- que triste tanger -. O céu sem estrelas.
O gelo que desce das bandas do Norte
- escondido na bruma - que desce e que range.
Um choque.
Um grito ...
Quem foi ...
Onde foi?...
Ali a dois metros, a cem, ou a mil. 
Ninguém vê nada do seu barco,
e procurar
era perder a posição ...
Cem dias ... Cem dias na vida irreal
dum mundo à parte ...
Mas não é só na Terra Nova
que o nevoeiro cai
e anda rentinho ao Mar. 
Neste país de luz e Sol
o nevoeiro anda cá dentro
e não nos deixa olhar ...

Álvaro Feijó em Poemasde Álvaro Feijó

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

OLHAR AS CAPAS


 Os Poemas de Álvaro Feijó

Álvaro Feijó
Prefácio: João José Cochofel
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 1
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1961

O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

NATAL



Natal
Nasceu
foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscado num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquece-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Álvaro Feijó

Poema retirado de “Natal… Natais”, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura, “Público”, Lisboa s/d

Legenda: Fotografia de Andre Kertesz