Também não perdi muito
tempo, é certo. Poderia socorrer-me da Amazon, mas não tenho Cartão de Crédito,
nem dinheiro, diga-se, e Bach por Loussier perderam-se, varridos pelo vento, em
qualquer esquina da cidade.
Mas lembro-me que comprei, naqueles anos 60, na velha Grande Feira do Disco,na Rua Forno do
Tijolo, este Bach Street e lembro-me
também -oh! se lembro!... – que muitas
vezes beberricando Whisky, o meu pai, eu pelo gin-tonic, ficávamos a ouvir este
disco, naquele móvel com gira-discos e telefonia, que havia aqui em casa, o
mesmo móvel em que o meu filho, hoje com quase 50 anos, com o ouvido no
alti-falante, ouvia a Tourada do
Tordo e do Ary dos Santos.
Se fosse hoje, estaríamos a falar da invasão da
Ucrânia, e ainda há dias murmurei para dentro de mim «o que pensaria o meu pai-marxista-leninista destes dias trágicos».
Claro, com poucas ou nenhumas possibilidades de errar,
sei a resposta!...
O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde disse,
hoje, que o mundo devia ter ouvido, em 30 de Janeiro, o alerta máximo da Organização.
Nesse dia a Organização lançou o alerta sobre os riscos
do coronavírus, e havia apenas 82 casos, e nenhuma morte, fora da China.
Foi então dito pela Organização o que os governos
deveriam fazer para controlar o coronavírus, como decretar quarentenas, pedir
que a população ficasse em casa se possível e respeitar o distanciamento
social.
Porém, nem todos os países acataram as recomendações.
Hoje, no Mundo, há mais de 3 milhões de pessoas
infectadas e já foi ultrapassado o número de mais de 200 mil mortes.
Quando no final do ano passado, começou a ler notícias do
que estava a acontecer numa localidade da China, comentou de si para si, que
isso era lá longe, muito longe mesmo, e que os chineses rapidamente resolveriam
o problema.
Quando na página 21 do Público de 23 de Fevereiro, um domingo, leu a notícia, a 2 colunas,
que se registaram duas mortes e seis dezenas de infectados por coronavírus, em
Itália, ficou assim a olhar, meio aparvalhado, e guardou o recorte.
Porque a Itália não é tão longe como a China.
Não saberia, contudo, imaginar o inferno que se iria
abater sobre a Europa, sobre o Mundo.
Não por acaso, foi reler páginas de Graciliano Ramos, livros
vindos da biblioteca do pai, principalmente aquela frase de Vidas Secas em que Fabiano diz a Tomás
da Bolandeira: “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel?
Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.
Claro que sim,
mas se a gente não ler, a estrepa é bem pior.
Mas como lembrava
hoje, Maria do Rosário Pedreira, citando C.S. Lewis: «lemos para saber que
não estamos sozinhos».
Hoje, visitamos Joann Sebastian Bach, o Prelude 1C
Major BWV 846.
1.
Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa
de Administradores de Hospitais, diz, hoje no Diário de Notícias:
«Os que aplaudem o
Serviço Nacional de Saúde são os que vão querer cortar salários depois.»
A memória é curta.
No dia 28 de Junho de 1979 foi aprovada na Assembleia da
República a Lei Arnaut.
Votaram a favor: PS, PCP, UDP.
Votaram contra; PSD e CDS.
A direita sempre lutou pela medicina privada e, ao longo
dos anos, os sucessivos governos, foram cortando nas verbas para o Serviço Nacional
de Saúde.
Hoje batem palmas à capacidade de resposta que, apesar de todas as tropelias e boicotes, o Serviço Nacional de Saúde deu no combate ao Covid-19.
2.
Tudo indica que o estado de emergência, em vigor até à
meia-noite do próximo 2 de Maio, seja substituído por estado de calamidade, um
patamar inferior de medidas excepcionais.
3.
Quase 60% da população activa está a sofrer redução de
rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como
consequência da pandemia Covid-19, segundo os resultados de um inquérito
publicado pela Deco Proteste. Segundo o inquérito da Deco - associação de defesa do consumidor, a vaga de
desemprego causada pela crise relacionada com a pandemia tem atingido três
vezes mais mulheres do que homens, com 13% e 4% respetivamente. Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho e até
ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem actividade
profissional.
A vaga de desemprego tem atingido três vezes mais
mulheres do que homens.
4.
A ONU pediu aos países que respeitem o Estado de direito,
limitando o período de vigência das medidas excepcionais para o combate da
pandemia de Covid-19, para evitar um catástrofe em relação aos direitos humanos.
«Dada a natureza excecional da crise, é claro que os Estados precisam de
poderes adicionais para lhe responder. No entanto, se o Estado de direito não
for respeitado, a emergência de saúde poderá tornar-se uma catástrofe de
direitos humanos, cujos efeitos nocivos superam a pandemia em si».
5.
Cerca de 9,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos da
América perderam o seguro de saúde por terem ficado desempregadas.
6.
Quando ficamos a saber que o presidente de um país, como
os Estados Unidos, é influenciado por um vendedor-de-banha da-cobra que, para
combater o Covid-19, mandou as pessoas beber lixivia, sabemos em que mundo estamos.
Agora diz que vai deixar as conferências de imprensa pois
é um mero tempo perdido e porque os jornalistas só fazem perguntas estúpidas e
tendenciosas.
O mundo agradece. porque Donald Trump não é um palhaço de
que se possa gostar.
7.
Os negros números:
Portugal regista 928 óbitos.
Os Estados Unidos já contam com 54.841 mortos. o mais
elevado número de mortos: 53.511 pessoas.
De quem sabe que a morte pode estar ligada ao estupor de
um vírus, que caminhou de muito longe para nos atormentar os dias, mas também as
amarguras profundas, solidões muito
grandes, de quem não soube lidar com as fraquezas que minam cada um de nós.
Será que o destino é cruel?
Talvez, mas acima de tudo é um tipo sem moral nenhuma.
Somos, por isto ou por aquilo, uns meros doentes da vida.
«E só as crianças
se riem durante o sono», como escreveu Jorge Listopad.
O velho Woody
Allen gostava de marcar distâncias: «Não
é que eu esteja com medo de morrer. Apenas não quero estar lá quando isso
acontecer.»
Já que te acusam de citares muito, coloca mais três
citações:
Escreveu o poeta e filósofo José Tolentino Mendonça:
«Muitas vezes Deus prefere entrar em nossa casa quando
não estamos.»
O poeta
transmontano A.M. Pires Cabral:
«Que de tudo se
precisa nesta vida. Na outra, por enquanto não se sabe»
Marguerite Yourcenar:
«não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»
A música, bom a música é o coro final da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach.
De tudo se precisa nesta vida, é certo, mas esta música não poderá deixar de nos acompanhar, sejam quais forem os passos que necessitamos de percorrer.
1.
Todo o tempo desta Páscoa, vai ser molhado.
Choveu, em Lisboa, durante todo o dia.
Lembro-me do poeta José Gomes Ferreira, à janela da
varanda da sua casa, no 2º Frente Esquerdo do nº 33 da Avenida Rio de Janeiro, a ver a chuva cair e a lembrar-se que aquela
chuvinha era uma bênção para os nabos e outras hortaliças, que tinha plantados na
sua casa de Albarraque, num terreno herdado do seu pai, projecto do filho do
poetaRaul Hestnes Ferreira, com o patiozinho voltado para poente, a desenhar
com os olhos a Serra de Sintra.
2.
Obrigo-me a que estes dias de pesadelo se tornem
ligeiramente diferentes.
Meto-me com os livros, alinho na música e em filmes comprados
pela Aida, alguns ainda com o celofane de compra, remexo em montes de jornais,
caixas com recortes, com o desejo de os enfiar no lixo, mas há sempre uma qualquer
linha, uma palavra que obriga a reguardá-los.
Lembro-me da casa do Mário Castrim, na Rua dos Lusíadas.
Livros e jornais por tudo o que era sítio, e eu a
perguntar-lhe como é que ele se orientava com a livralhada espalhada pela casa?
«Quando preciso de
algum, assobio e ele aparece.»
Os dias desta semana têm merecido visitas a José Gomes
Ferreira.
Hoje fui apanhado a
falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas
ruas se levante e me atire a primeira estrela! (Cá nós, os poetas, nunca
atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas).
3.
Quando os médicos entendem cuidar do seu quintalinho,
esquecendo o resto, é provável que o cidadão comum não entenda as suas
atitudes.
O diretor do Serviço
de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo
Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização do
serviço na unidade.
«O Conselho de Administração não aceitou a criação de
dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os
médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no
Curry Cabral».
Já há dias, o médico cirurgião Eduardo Barroso dizia não
compreender a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e
de Transplantação do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a
receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus, considerando o
encerramento demagógico e preocupante.
Como continuamos a ouvir o Bastonário da Ordem dos
Médicos a pontapear as decisões do governo, esquecendo (?) tudo o resto, é
normal que nos interroguemos sobre as críticas e decisões dos médicos.
Em tempo de pandemia não me parece muito correcto que se
pense apenas em vaidadezinhas particulares, no quintalinho de cada médico…
4.
A Brisa já
accionou o mecanismo para ser indemnizada pelo Estado.
5.
O senador Bernie Sanders abandonou a corrida presidencial americana:
«Não posso, em consciência, manter uma campanha sem
condições de vencer e que interferiria no que a todos é exigido nesta hora
difícil.»
6.
Em abono da verdade,
não li a crónica de última página do direitista-cronista-com-a-mania-que tem-graça-João-Miguel-Tavares,
olhei apenas o título:
«Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?»
O Dudu chateava-se
que lhe chamassem a atenção para o facto de, mesmo sem ter visto o filme, dizer
que era uma merda.
Caro direitista-Tavares:
Nem uma coisa nem outra
estão no capítulo das facilidades terrenas.
Não foi fácil as
pessoas ficarem nas suas casas, não vai ser fácil tirá-las de lá!
Os jornais, as
televisões só deviam aceitar colaboradores que apresentassem provas de que se
lavam todos os dias!
Há uma passagem do 1º concerto de brandeburgo
de joão sebastião bach em que o ritmo se torna
melancólico, como se o compositor quisesse
fazer uma pausa naquilo que, aparentemente,
descrevia a alegria e a festa de uma corte. Mas
nesse adagio, é como se bach obrigasse
quem o ouvia a fazer uma paragem; e, de
súbito, uma desolação entra na música, sem
destruir a sua perfeição, tal como o outono
também pode trazer uma outra beleza aos
campos, quando o céu se cobre de nuvens
e as folhas adquirem uma tonalidade ruiva,
anunciando o inverno. Porém, esta mudança
não dura muito tempo; e logo a paisagem
retoma a sua vida, através do allegro em
que ressoa um esplendor de grandes salas
iluminadas. A música limita-se a reflectir
os sentimentos do homem; e se o compositor
se demora na tristeza, é porque ela é necessária
para vencer o desânimo da alma. Mas nem todos
o compreendem; e o certo é que o príncipe
de brandeburgo não lhe pagou a encomenda.
Dois recortes da crónica de Frei Bento Domingues no Público.
1.
Título do Público
de 24 de Março:
«A estrada
Beira-Maputo reabre este domingo e a ajuda vai começar a chegar mais depressa.»
Do Diário de
Notícias, on-line de hoje:
«As autoridades moçambicanas
admitiram que os bens enviados para ajudar as vítimas do ciclone IDAI estão a
ser desviados e prometeram fiscalização apertada e punição exemplar.
Há vários
relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos.»
2.
No dia da
Mulher, a cidadã Maria João Valente Rosa disse ao Público:
«Entraremos numa sociedade profundamente igualitária
quando tivermos mulheres altamente incompetentes como CEO das empresas».
3.
Cerca de 4000 pessoas desaparecem por ano em Portugal.
Metade chega ao
Ministério Público - por suspeita de crime - mas muitos não querem ser
encontrados.
Pormenor da capa do JL referindo o regresso de Maria João Pires a Belgais. Pretexto para, em findar de post, recordar Maria João a tocar Bach, BWV 1056.
Não há Natal sem música de Bach, dizia o meu pai. Cantai, alegrai-vos, tal como se ouve na Abertura da Oratória de Natal. Legenda: Adoração do Menino de Gerard Van Honthorst
Bebeu um copo de vinho. Depois outro. Ficou algum tempo a olhar para a estrela no cimo do pinheiro. Uma estrela partida. Mil estrelas pequeninas. As variações Goldberg. Apercebeu-se da voz de Glenn Gould cantando baixinho. Talvez tudo não passasse de um pesadelo, talvez daí a pouco encontrasse o caminho para a torre, a sua torre… Mas mesmo lá em cima ouviria as vozes delas, elas que falavam de morcegos e narcisos… A porta que dava para o jardim continuava entreaberta deixando ver a chuva, o nevoeiro.