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domingo, 6 de março de 2022

FALAR DE LIVROS, DISCOS COMO CONVERSAS DE CEREJAS



 As conversas são como as cerejas, falar de livros e discos também.

Quando atrás citei o livro do António Cartaxo, «Ao Sabor da Música», lembro-me que andei à procura do Play Bach de Jacques Loussier, por ele citado, mas nunca o encontrei. 

Também não perdi muito tempo, é certo. Poderia socorrer-me da Amazon, mas não tenho Cartão de Crédito, nem dinheiro, diga-se, e Bach por Loussier perderam-se, varridos pelo vento, em qualquer esquina da cidade.

Mas lembro-me que comprei, naqueles anos 60, na velha Grande Feira do Disco,na Rua Forno do Tijolo, este Bach Street e lembro-me também  -oh! se lembro!... – que muitas vezes beberricando Whisky, o meu pai, eu pelo gin-tonic, ficávamos a ouvir este disco, naquele móvel com gira-discos e telefonia, que havia aqui em casa, o mesmo móvel em que o meu filho, hoje com quase 50 anos, com o ouvido no alti-falante, ouvia a Tourada do Tordo e do Ary dos Santos.

Se fosse hoje, estaríamos a falar da invasão da Ucrânia, e ainda há dias murmurei para dentro de mim «o que pensaria o meu  pai-marxista-leninista destes dias trágicos».

Claro, com poucas ou nenhumas possibilidades de errar, sei a resposta!...


segunda-feira, 27 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS

O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde disse, hoje, que o mundo devia ter ouvido, em 30 de Janeiro, o alerta máximo da Organização.

Nesse dia a Organização lançou o alerta sobre os riscos do coronavírus, e havia apenas 82 casos, e nenhuma morte, fora da China.

Foi então dito pela Organização o que os governos deveriam fazer para controlar o coronavírus, como decretar quarentenas, pedir que a população ficasse em casa se possível e respeitar o distanciamento social.

Porém, nem todos os países acataram as recomendações.

Hoje, no Mundo, há mais de 3 milhões de pessoas infectadas e já foi ultrapassado o número de mais de 200 mil mortes.

Quando no final do ano passado, começou a ler notícias do que estava a acontecer numa localidade da China, comentou de si para si, que isso era lá longe, muito longe mesmo, e que os chineses rapidamente resolveriam o problema.

Quando na página 21 do Público de 23 de Fevereiro, um domingo, leu a notícia, a 2 colunas, que se registaram duas mortes e seis dezenas de infectados por coronavírus, em Itália, ficou assim a olhar, meio aparvalhado, e guardou o recorte.

Porque a Itália não é tão longe como a China.

Não saberia, contudo, imaginar o inferno que se iria abater sobre a Europa, sobre o Mundo.

Não por acaso, foi reler páginas de Graciliano Ramos, livros vindos da biblioteca do pai, principalmente aquela frase de Vidas Secas em que Fabiano diz a Tomás da Bolandeira: “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.

Claro que sim, mas se a gente não ler, a estrepa é bem pior.

Mas como lembrava hoje, Maria do Rosário Pedreira, citando C.S. Lewis: «lemos para saber que não estamos sozinhos».

Hoje, visitamos Joann Sebastian Bach, o Prelude 1C Major  BWV 846.

1.

Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores de Hospitais, diz, hoje no Diário de Notícias:

«Os que aplaudem o Serviço Nacional de Saúde são os que vão querer cortar salários depois.»

A memória é curta.

No dia 28 de Junho de 1979 foi aprovada na Assembleia da República a Lei Arnaut.

Votaram a favor: PS, PCP, UDP.

Votaram contra; PSD e CDS.

A direita sempre lutou pela medicina privada e, ao longo dos anos, os sucessivos governos, foram cortando nas verbas para o Serviço Nacional de Saúde.

Hoje batem palmas à capacidade de resposta que, apesar de todas as tropelias e boicotes, o Serviço Nacional de Saúde deu no combate ao Covid-19.

2.

Tudo indica que o estado de emergência, em vigor até à meia-noite do próximo 2 de Maio, seja substituído por estado de calamidade, um patamar inferior de medidas excepcionais.

3.

Quase 60% da população activa está a sofrer redução de rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como consequência da pandemia Covid-19, segundo os resultados de um inquérito publicado pela Deco Proteste.
Segundo o inquérito da Deco - associação de defesa do consumidor, a vaga de desemprego causada pela crise relacionada com a pandemia tem atingido três vezes mais mulheres do que homens, com 13% e 4% respetivamente.
Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho e até ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem actividade profissional.
 A vaga de desemprego tem atingido três vezes mais mulheres do que homens.

4.

A ONU pediu aos países que respeitem o Estado de direito, limitando o período de vigência das medidas excepcionais para o combate da pandemia de Covid-19, para evitar um catástrofe em relação aos direitos humanos.

«Dada a natureza excecional da crise, é claro que os Estados precisam de poderes adicionais para lhe responder. No entanto, se o Estado de direito não for respeitado, a emergência de saúde poderá tornar-se uma catástrofe de direitos humanos, cujos efeitos nocivos superam a pandemia em si».


5.

Cerca de 9,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos da América perderam o seguro de saúde por terem ficado desempregadas.

6.

Quando ficamos a saber que o presidente de um país, como os Estados Unidos, é influenciado por um vendedor-de-banha da-cobra que, para combater o Covid-19, mandou as pessoas beber lixivia, sabemos em que mundo estamos.
Agora diz que vai deixar as conferências de imprensa pois é um mero tempo perdido e porque os jornalistas só fazem perguntas estúpidas e tendenciosas.
O mundo agradece. porque Donald Trump não é um palhaço de que se possa gostar.

7.

Os negros números:

Portugal regista 928 óbitos.

Os Estados Unidos já contam com 54.841 mortos. o mais elevado número de mortos: 53.511 pessoas.

Itália: 26.977 mortos
Espanha: 23.521 mortos
França: 23.293 mortos
Grã-Bretanha: 21.092 mortos

Em todo o mundo já morreram 210.374 pessoas.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Quinta-feira, dita de Paixão.

O mais duro dos percursos.

De quem sabe que a morte pode estar ligada ao estupor de um vírus, que caminhou de muito longe para nos atormentar os dias, mas também as amarguras profundas,  solidões muito grandes, de quem não soube lidar com as fraquezas que minam cada um de nós.

Será que o destino é cruel?

Talvez, mas acima de tudo é um tipo sem moral nenhuma.

Somos, por isto ou por aquilo, uns meros doentes da vida.

«E só as crianças se riem durante o sono», como escreveu Jorge Listopad.

 O velho Woody Allen gostava de marcar distâncias: 

«Não é que eu esteja com medo de morrer. Apenas não quero estar lá quando isso acontecer.»

Já que te acusam de citares muito, coloca mais três citações:

Escreveu  o poeta e filósofo José Tolentino Mendonça:

«Muitas vezes Deus prefere entrar em nossa casa quando não estamos.»

O poeta transmontano A.M. Pires Cabral:

«Que de tudo se precisa nesta vida. Na outra, por enquanto não se sabe»

Marguerite Yourcenar:

«não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»

A música, bom a música é o coro final da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach.

De tudo se precisa nesta vida, é certo, mas esta música não poderá deixar de nos acompanhar, sejam quais forem os passos que necessitamos de percorrer.



1.

Todo o tempo desta Páscoa, vai ser molhado.

Choveu, em Lisboa, durante todo o dia.

Lembro-me do poeta José Gomes Ferreira, à janela da varanda da sua casa, no 2º Frente Esquerdo do nº 33 da Avenida Rio de Janeiro,  a ver a chuva cair e a lembrar-se que aquela chuvinha era uma bênção para os nabos e outras hortaliças, que tinha plantados na sua casa de Albarraque, num terreno herdado do seu pai, projecto do filho do poeta  Raul Hestnes Ferreira, com o patiozinho voltado para poente, a desenhar com os olhos a Serra de Sintra.

2.

Obrigo-me a que estes dias de pesadelo se tornem ligeiramente diferentes.

Meto-me com os livros, alinho na música e em filmes comprados pela Aida, alguns ainda com o celofane de compra, remexo em montes de jornais, caixas com recortes, com o desejo de os enfiar no lixo, mas há sempre uma qualquer linha, uma palavra que obriga a reguardá-los.

Lembro-me da casa do Mário Castrim, na Rua dos Lusíadas.

Livros e jornais por tudo o que era sítio, e eu a perguntar-lhe como é que ele se orientava com a livralhada espalhada pela casa?

«Quando preciso de algum, assobio e ele aparece.»

Os dias desta semana têm merecido visitas a José Gomes Ferreira.

Hoje fui apanhado a falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas ruas se levante e me atire a primeira estrela! (Cá nós, os poetas, nunca atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas).

3.

Quando os médicos entendem cuidar do seu quintalinho, esquecendo o resto, é provável que o cidadão comum não entenda as suas atitudes.

 O diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização do serviço na unidade.

«O Conselho de Administração não aceitou a criação de dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no Curry Cabral».

Já há dias, o médico cirurgião Eduardo Barroso dizia não compreender a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplantação do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus, considerando o encerramento demagógico e preocupante.

Como continuamos a ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos a pontapear as decisões do governo, esquecendo (?) tudo o resto, é normal que nos interroguemos sobre as críticas e decisões dos médicos.

Em tempo de pandemia não me parece muito correcto que se pense apenas em vaidadezinhas particulares, no quintalinho de cada médico…


4.

 A Brisa já accionou o mecanismo para ser indemnizada pelo Estado.

5.

O senador Bernie Sanders abandonou a corrida presidencial americana:

«Não posso, em consciência, manter uma campanha sem condições de vencer e que interferiria no que a todos é exigido nesta hora difícil.»

6.

Em abono da verdade, não li a crónica de última página do direitista-cronista-com-a-mania-que tem-graça-João-Miguel-Tavares, olhei apenas o título:

«Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?»

O Dudu chateava-se que lhe chamassem a atenção para o facto de, mesmo sem ter visto o filme, dizer que era uma merda.

Caro direitista-Tavares:

Nem uma coisa nem outra estão no capítulo das facilidades terrenas.

Não foi fácil as pessoas ficarem nas suas casas, não vai ser fácil tirá-las de lá!

Os jornais, as televisões só deviam aceitar colaboradores que apresentassem provas de que se lavam todos os dias!

7.

Os negros números:

Itália

18.279 mortes

Espanha

15.238 mortes

Estados Unidos

14.695 mortes

França

12.210 mortes

Grã-Bretanha

7.097 mortes

Irão

4.110 mortes

China

3.215 mortes

Bélgica

2.523 mortes

Alemanha

2.451 mortes

Holanda

2.396 mortes

Portugal

409 mortes

Mundo

93.425 mortes

8.

«Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida»

António Ramos Rosa

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

BACH SEMPRE!


Por diversas vezes, neste Cais, pode ler-se que não há Natal sem música de Bach.
A frase é do meu pai, respondendo à pergunta que, amiúde, lhe faziam de que canção de Natal gostava mais.
Dando asas à ideia, fui buscar o 4º Concerto para piano, mais concretamente o 2º andamento.
Não se esqueçam de passar um bom fim-de-semana.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

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Há uma passagem do 1º Concerto de brandeburgo...

OS PROBLEMAS MATERIAIS NÃO AFECTAM A COMPOSIÇÃO DA OBRA



Há uma passagem do 1º concerto de brandeburgo
de joão sebastião bach em que o ritmo se torna
melancólico, como se o compositor quisesse
fazer uma pausa naquilo que, aparentemente,
descrevia a alegria e a festa de uma corte. Mas
nesse adagio, é como se bach obrigasse
quem o ouvia a fazer uma paragem; e, de
súbito, uma desolação entra na música, sem
destruir a sua perfeição, tal como o outono
também pode trazer uma outra beleza aos
campos, quando o céu se cobre de nuvens
e as folhas adquirem uma tonalidade ruiva,
anunciando o inverno. Porém, esta mudança
não dura muito tempo; e logo a paisagem
retoma a sua vida, através do allegro em
que ressoa um esplendor de grandes salas
iluminadas. A música limita-se a reflectir
os sentimentos do homem; e se o compositor
se demora na tristeza, é porque ela é necessária
para vencer o desânimo da alma. Mas nem todos
o compreendem; e o certo é que o príncipe
de brandeburgo não lhe pagou a encomenda.

Nuno Júdice em Resumo: a poesia em 2010

quarta-feira, 3 de abril de 2019

ETECETERA




Dois recortes da crónica de Frei Bento Domingues no Público.

1.

Título do Público de 24 de Março:

«A estrada Beira-Maputo reabre este domingo e a ajuda vai começar a chegar mais depressa.»

Do Diário de Notícias, on-line de hoje:

«As autoridades moçambicanas admitiram que os bens enviados para ajudar as vítimas do ciclone IDAI estão a ser desviados e prometeram fiscalização apertada e punição exemplar.

Há vários relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos.»

2.

No dia da Mulher, a cidadã Maria João Valente Rosa disse ao Público:

«Entraremos numa sociedade profundamente igualitária quando tivermos mulheres altamente incompetentes como CEO das empresas».

3.

Cerca de 4000 pessoas desaparecem por ano em Portugal.

Metade chega ao Ministério Público - por suspeita de crime - mas muitos não querem ser encontrados. 


Pormenor da capa do JL referindo o regresso de Maria João Pires a Belgais.
Pretexto para, em findar de post, recordar Maria João a tocar Bach, BWV 1056.

sábado, 24 de dezembro de 2016

ENTÃO, É NATAL!


Não há Natal sem música de Bach, dizia o meu pai.
Cantai, alegrai-vos, tal como se ouve na Abertura da Oratória de Natal.

Legenda: Adoração do Menino de Gerard Van Honthorst

                                        

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

BACH: VARIAÇÕES GOLDBERG


A música é só música, eu sei. Não há
outros termos em que falar dela anão ser que
ela mesma seja menos que si mesma. Mas
o caso é que para falar de música em tais termos
é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem
mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.
Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música
for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,
nenhum silêncio recolhido nos persiste além
de alguns minutos. E não dura na memória como
silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala
a própria música que adora. Porque a música
não é silêncio mas silêncio que
anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio,
e sim a inteligência que no abstracto busca
ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;
se tudo se organiza como a variada imagem
de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos
que os grupos, e os grandes números, e as proporções
conhecem necessários; se tudo repercute como
em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem
um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras
esculpidas em volutas brancas e douradas cujos
recantos de sombra são um trompe-l’oeil
para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de
bater nas teclas em cascatas de ordem;
e se tudo existiu na música para tal triunfo
e dele descende tudo o que de arquitectura
possa existir em notas sem sentido – COMO
não proclamar que essa grandeza imensa
não se comove com íntimos segredos (mesmo implica
que não haja segredo em nada que se faça
a não ser o espanto de fazer-se aquilo),
é como que uma cúpula de som dentro da qual
possamos ter consciência de que o homem é por vezes,
maior do que si mesmo. E que nada no mundo,
ainda que volte ao tema inicial, repete
o que só foi proposto como tema para
se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,
aquele tema torna não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos ante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.
Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,
para  sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque
o virtual de um pensamento se tornou ali
uma evidência: se tronou concreto.
Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse –
Igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.
Será que alguma vez, senão aqui,
aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto
de real e virtual serem idênticos, e de nós
não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de
nós termos sido música somente?


Jorge de Sena de Arte de Música em Poemas Escolhidos, Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1989.    


segunda-feira, 4 de junho de 2012

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Sobre uma ária da Oratória de Natal de J.S. Bach



Ouvi o chamamento e respondi-lhe logo:
abandonei sem cálculo o aprisco e as ovelhas
pelo incerto prodígio para sempre clamado;
e vagueio turbado, não sei se longe ainda
desse menino anunciado pelo anjo,
da misteriosa graça prometida esta noite.

São cortantes e íngremes os carreiros que piso,
espessa e armadilhada treva onde caminho;
mas o maior inimigo dos meus passos
sou eu, receosos até deste silêncio,
trôpego por cicatrizes de quedas e de ofensas
que mantêm em mim a agressão dos anos idos.

Vão acusar-me, é certo, de seguir atrasado
os  que disputam o ouro dos lugares dianteiros,
os poderosos, puros, nunca fora da lei
rígida e parcial feita por eles
para acossar e ferrar marginais como eu,
para quem os juízos são pardos, surdos, cegos.

Nem por isso deponho o meu desígnio:
se  aquele apelo perturbou estes montes
distantes dos conluios de reis e sacerdotes,
é também para mim: feriu-me satisfaço-o,
pois infiltra em meu sangue o seu poder radioso
que fará do início desta busca o seu tremo.

Prosseguirei ao encontro desta revelação,
exausto e suspeitosos, eleito embora infame,
serenidade agora o susto em que acordei
ao duvidar se era um sonho a voz a erguer-me:
vejo serem verdade o menino e o curral,
o assombro e o júbilo da luz desta jornada.


José Bento em Resumo: a poesia em 2011, Assírio &Alvim Março 2012.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A PORTA QUE DAVA PARA O JARDIM...


Bebeu um copo de vinho. Depois outro. Ficou algum tempo a olhar para a estrela no cimo do pinheiro. Uma estrela partida. Mil estrelas pequeninas. As variações Goldberg. Apercebeu-se da voz de Glenn Gould cantando baixinho. Talvez tudo não passasse de um pesadelo, talvez daí a pouco encontrasse o caminho para a torre, a sua torre… Mas mesmo lá em cima ouviria as vozes delas, elas que falavam de morcegos e narcisos… A porta que dava para o jardim continuava entreaberta deixando ver a chuva, o nevoeiro.

Ana Teresa Pereira em A Noite Mais Escura da Alma