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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Este salto sem rede, no vazio incógnito de um novo ano.

Chamem-lhe futuro.

Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar.

Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar.

E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Se viram um amável filme da norte-americana Rob, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.

Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Tempo de Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!

E sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.

Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:

 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 


domingo, 31 de dezembro de 2023

O VELHO ANO


Este salto sem rede, no vazio incógnito de um novo ano.

Chamem-lhe futuro.

Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar.

Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar. E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.


Se viram um amável filme da norte-americana Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.


Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!


Ao mesmo tempo lembrar a velha tia, que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo: «não se pede grande coisa: trabalho e saúde...» e sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

 

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.


Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:


 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

MASSACRES DE FOLHAS


A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Meg Ryan e Billy Cristal em When Harry Meet Sally de Rob Reiner (1989) 

sábado, 23 de abril de 2011

DOS QUE AMAM OS LIVROS


Que capa de livro se olha, quando ficamos a saber que (mais) uma livraria fechou portas?
Que citação? Que palavras?
Não sei, apenas sei que a morte de uma livraria me deixa uma desesperante tristeza,  uma angustia muita fina que dói.
De uma vez para sempre, devíamos ser mais – que devíamos ser TODOS, os que entendem que um livro não é uma flor de vaidade - a não comprarem livros nas fnacs, nos hipermercados.
“Exmos. Senhores
A Trama Livraria, Lda. entrou em insolvência há escassos dias. Durante os próximos tempos entrará numa espécie de período de "liquidação" que tem por objectivo escoar todos os livros que foram adquiridos (em segunda mão, maioritariamente) ao longo de mais ou menos três anos de trabalho.
Suponho que o nosso encerramento seja uma surpresa para muitos - sobretudo para aqueles que não têm aparecido mas, para dizer a verdade, estava na cara.
Como todos sabemos, nenhum negócio vive de amigos, primos, vizinhos ou entusiastas. Um negócio, qualquer que ele seja, precisa de clientes para poder cumprir com um sem fim de obrigações que passam pela renda, pelos impostos, pelas contas (água, luz, net, telefone, essas coisas) e, com sorte (não a nossa, convenhamos), pelos ordenados.
Como podem ver não fomos bem sucedidos - isto se acreditarmos nesse conceito misterioso chamado "sucesso". A meu ver - e se nos seguem há tempo suficiente bem sabem que aquilo que acho serve de pouco ou nada - fomos muito, muito bem sucedidos. Falhou o guito. Falharam várias coisas, todas passando pelo guito.
Durante três anos fizemos tudo quanto podia ser feito - concertos, leituras, conversas, edição de dois livros, teatro, festarolas, cinema, actividades infantis e sabe-se lá mais o quê. Todas estas coisas foram feitas, essencialmente, por acreditarmos que eram necessárias, pese embora nunca tenham sido lucrativas. Mas que se lixe, não estávamos nisto pelo lucro e, imaginem, nem sequer somos de esquerda. O objectivo sempre foi o mesmo, desde essa tarde de 2007 em que concebemos a Trama, até há uns meses atrás: fazer aquilo de que gostávamos e em que tínhamos alguma experiência, continuar a aprender e... partilhar. Fúria juvenil, ímpeto irracional, inexperiência, falta de jeito para o negócio, chamem-lhe o que quiserem.
Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.
Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.
Um erro, sim
mas belo
belo
belo
belo
Não queremos que se sintam culpados. Mas se se sentirem também não faz mal.
Até já”
Carta publicada por Catarina aqui.



Chegámos ao ponto em que não há dinheiro para coisa alguma.
Quando se chega a este ponto, começa logo por não haver dinheiro para as coisas da cultura, esse mundo supérfluo habitado por uma minoria de tresloucados.
A frieza dos números, o guito, como lhe chama a Catarina, mataram o sonho de uma vida.
Tramaram a “ Trama”!
Não gostaria, mas sinto o mesmo arrepio que o Jorge Silva Melo sentiu quando uma simpática livraria, em Campo de Ourique, fechou as portas.
Se  a “Trama” fechou, fui também eu que a fechei.
E fico a desejar, uma vez mais, que as livrarias, ao contrário dos homens, possam ressuscitar.
Para já, e até final de Abril, a Trama”, ali na Rua são Filipe Folque nº 51, está em liquidações.

Legenda: Fotograma de “You Got a Mail” de Nora Ephron, com Meg Ryan e Tom Hanks, onde se conta a história de uma pequena livraria, onde havia competência e gosto pelos livros, e que é devorada por uma grande superfície, construída mesmo ao lado, também com uma livraria, mas onde campeiam  a frieza, a ignorância e a incompetência.