Quando passo junto ao que foi o "QUARTETO" confesso que sinto arrepios de um luto que nunca consegui fazer.
Um leitor do Público.
Um leitor do Público.
Aqui, ainda é, o Cinema São Jorge.
O gosto maior era o de ir com o meu pai ao cinema.
O filme, então, não importava muito qual era, na companhia e na conversa posterior, é que residia toda a importância.
A propósito do Bolchoi, uma lenda majestática da Rússia, se o meu pai soubesse que, há uns dois ou três anos atrás, Natalia Kasatkina, directora artística do Ballet Clássico de Moscovo disse que agora temos mais liberdade mas menos financiamento do que no tempo da URSS, estou mais que certo que a afirmação seria tema para longa e apetecível conversa.
Uma outra memória.
Um amigo, o Afonso Baptista, ia todos os anos, pelo
Carnaval, ao São Jorge.
No intervalo, mais prolongado que o normal, punham a circular pelos assistentes dos balcões e plateia, enormes e leves bolas coloridas, que se arremessavam de mão em mão, perante grandes risotas.
Desafiou-nos uma vez.
Não achei nenhuma piada à história.
O mesmo não direi dos fininhos que, após a sessão, daquele sábado de Carnaval de finais doas anos 60, fomos beber ao Ribadouro, a célebre Universidade do Tremoço, onde, conta a lenda, Baptista-Bastos e Fernando Lopes idealizaram e escreveram o Belarmino.
Ainda mais uma memória do São Jorge.
A Aida ainda tem guardado no seu infindável baú, um bilhete de um dos recitais que aconteceram no São Jorge, para evocar a memória de João Villaret.
João Villaret morreu no dia 21 de Janeiro de 1961.
Não sei a partir de quando, e quanto tempo durou, estas evocações de João Villaret que se realizavam durante a hora do almoço, com discos que o artista gravara para a Valentim de Carvalho.
Um foco de luz projectava-se sobre o palco, onde se encontrava uma cadeira e um ramo de flores.
Este é o bilhete da sessão do ano de 1966.
Um dia de tempos recentes, o Pedro de Freitas Branco, Filhote para os amigos, perguntava:
Além hoje seria capaz de sair de casa para ouvir um
disco de poesia numa sala de cinema?
(1) O Ballet de Moscovo.
Com Galina Ulanova, Raissa Struchkova, Nikolai
Fadeyechev e o Ballet do Teatro de Moscovo, Orquestra do Covent Garden.
Produzido e realizado por Paul Czinner.
Estreado no Cinema São Jorge em 9 de Janeiro de 1968.
(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.)
Vão
desaparecendo os cinemas, as livrarias, as tascas, os restaurantes, algo mais, que marcaram um tempo.
O
Cinema São Jorge faz 75 anos e, como diz Maria João Martins «é a última
“catedral do Cinema” de Lisboa ainda consagrado à exibição.»
Há
dias, por mero acaso, verificámos que o Cais do Olhar, no dia 7 de Fevereiro de
2010, começou a ser percorrido.
Quando
aconteceram os 10 anos, organizámos uma breve Antologia, para os 15 anos, entendemos, volta e meia, relembrar textos por aqui publicados.
Os
75 anos do Cinema São Jorge, será a primeira lembrança, nestes nossos 25 anos, um texto aqui publicado no dia 12 de Março de 2012.
O
Cinema São Jorge comemora os seus 75 anos com uma programação gratuita que
nos faz revisitar momentos marcantes da programação desta sala, piscando
discretamente o olho ao futuro.
«Começamos
no dia de aniversário com A Quimera do Ouro, de Charles Chaplin –
obra-prima que completa 100 anos em 2025 –, acompanhada ao vivo pela Lisbon
Film Orchestra.
Depois, e até 2 de março, prosseguimos com um clássico musical estreado em
1950, três filmes retalhados pela Censura e o primeiro êxito do pós-Revolução.
Piscando o olho ao futuro e aos mais novos, nos dias 1 e 2 de março vamos abrir
ao público em geral a oficina STOP! Animação!,
habitualmente reservada às escolas, e no dia 1 de março haverá visitas guiadas
aos bastidores.
As sessões de cinema são de entrada gratuita, sujeita à lotação das salas, mediante levantamento de bilhete no próprio dia na bilheteira do Cinema São Jorge.»
O programa completo pode ser visto aqui.
Legenda:
a fotografia do Cinema São Jorge foi tirada do blogue Restos deColecção.
Na rua onde nasci, não havia
qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.
Mentalmente percorro essas
ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à
Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o
Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.
Desapareceram quase todos,
outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos,locais de
consumo.
O cinema é um mundo de
afectos que provoca uma grande e inolvidável memória e a cada um o seu Cinema
Paraíso, a sua última sessão.
É assim que também a morte
nos visita.
Legenda: Cinema Royal na Rua da Graça, hoje um supermercado.
Para não me acusarem de privilegiar a América, irei dar-vos a conhecer, também, algumas Salas de Cinema de Cuba.
Textos muito curtos, necessariamente, porque a informação disponível acerca dessas salas é não só reduzida como, por vezes, contraditória...
Começarei por este Cine Payret que, embora longe de ser o mais bonito visto do exterior, me parece ser o historicamente mais relevante.
Com efeito, parece ter sido este o local da primeira projeção pública de um filme em Cuba, corria o ano de 1897.
E foi, igualmente, com a “Túnica”, em 1953, a primeira Sala de Cinema a passar um filme em “Cinemascope” em toda a América Latina.
Mas vamos por partes…
Situa-se em Havana, no nº 503 do Paseo Marti Prado, quase defronte do Capitólio.
Foi inaugurado em 21 de Janeiro de 1877, com o nome de Teatro de La Paz, tendo por proprietário um catalão, Joaquin Payret.
Ao longo de muitas décadas teve o azar de ter sofrido três incêndios, o que levou as gentes a acreditar que estaria enfeitiçado.
Nas sucessivas reconstruções passou por vários nomes como, por exemplo, “Coliseo Rojo”.
Em 1951 foi alvo de uma completa remodelação, em estilo moderno, e reabriu em 1952 com o nome de Cine Payret, com um ecrã grande e lugar para quase 2.000 pessoas, tornando-se o maior cinema de Havana.
Durante os últimos anos a programação foi variando, mas era o Cinema onde passaram alguns dos “blockbusters” americanos.
Albergou também, durante muitos anos, o “Havana Film Festival”.
Encontra-se encerrado desde 2008, mas consta que o edifício será transformado em hotel e que manterá em funcionamento a Sala de Cinema.
Texto e fotografia de
Luís Miguel Mira