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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

REOLHARES



O QU'É QUE VAI NO PIOLHO 


Aqui, ainda é, o Cinema São Jorge.


Exteriormente, o São Jorge não mudou.

Foi inaugurado no dia 23 de Fevereiro de 1950.

Houve um concerto de órgão dado por Gerald Shaw, música da BBC e no écran foi exibido Os Sapatos Vermelhos.

Juntamente com o Monumental e o Império, constituíam as catedrais cinematográficas de Lisboa

Projecto de Fernando Silva, foi inaugurado em 1950, sofreu obras de remodelação em 1982 e passou a ter três salas.

No ano 2000 a Câmara Municipal de Lisboa exerceu o direito de compra do imóvel, e desde Novembro de 2001, por ali se realizam festivais temáticos de cinema, bem como concertos de música.

Dos muitos filme que vi no São Jorge, de um guardo memória.

Chamava-se o filme O Ballet de Moscovo  (1) e vi-o com o meu pai e o António Colaço.
Para o puto de 13 anos, que então era, a sensação que ficou, foi a de uma enorme seca. Ainda hoje, o ballet não me provoca grandes entusiasmos.


O gosto maior era o de ir com o meu pai ao cinema.

O filme, então, não importava muito qual era, na companhia e na conversa posterior, é que residia toda a importância.

 A propósito do Bolchoi, uma lenda majestática da Rússia, se o meu pai soubesse que, há uns dois ou três anos atrás, Natalia Kasatkina, directora artística do Ballet Clássico de Moscovo disse que agora temos mais liberdade mas menos financiamento do que no tempo da URSS, estou mais que certo que a afirmação seria tema para longa e apetecível conversa.

Uma outra memória.

Um amigo, o Afonso Baptista, ia todos os anos, pelo Carnaval, ao São Jorge.

No intervalo, mais prolongado que o normal, punham a circular pelos assistentes dos balcões e plateia, enormes e leves bolas coloridas, que se arremessavam de mão em mão, perante grandes risotas.

Desafiou-nos uma vez.

Não achei nenhuma piada à história.

 O mesmo não direi dos fininhos que, após a sessão, daquele sábado de Carnaval de finais doas anos 60, fomos beber ao Ribadouro, a célebre Universidade do Tremoço, onde, conta a lenda, Baptista-Bastos e Fernando Lopes idealizaram e escreveram o Belarmino.

Ainda mais uma memória do São Jorge.

A Aida ainda tem guardado no seu infindável baú, um bilhete de um dos recitais que aconteceram no São Jorge, para evocar a memória de João Villaret.

João Villaret morreu no dia 21 de Janeiro de 1961.

Não sei a partir de quando, e quanto tempo durou, estas evocações de João Villaret que se realizavam durante a hora do almoço, com discos que o artista gravara para a Valentim de Carvalho.

Um foco de luz projectava-se sobre o palco, onde se encontrava uma cadeira e um ramo de flores.

Este é o bilhete da sessão do ano de 1966.

Um dia de tempos recentes, o Pedro de Freitas Branco, Filhote para os amigos, perguntava:

Além hoje seria capaz de sair de casa para ouvir um disco de poesia numa sala de cinema?

 

(1)   O Ballet de Moscovo.

Com Galina Ulanova, Raissa Struchkova, Nikolai Fadeyechev e o Ballet do Teatro de Moscovo, Orquestra do Covent Garden.

Produzido e realizado por Paul Czinner.

Estreado no Cinema São Jorge em 9 de Janeiro de 1968.

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.)


OS 75 ANOS DO CINEMA S. JORGE


 A Lisboa que conheci, vai morrendo aos poucos.

Vão desaparecendo os cinemas, as livrarias, as tascas, os restaurantes, algo mais, que marcaram um tempo.

O Cinema São Jorge faz 75 anos e, como diz Maria João Martins «é a última “catedral do Cinema” de Lisboa ainda consagrado à exibição.»

Há dias, por mero acaso, verificámos que o Cais do Olhar, no dia 7 de Fevereiro de 2010, começou a ser percorrido.

Quando aconteceram os 10 anos, organizámos uma breve Antologia, para os 15 anos, entendemos, volta e meia, relembrar textos por aqui publicados.

Os 75 anos do Cinema São Jorge, será a primeira lembrança, nestes nossos 25 anos, um texto aqui publicado no dia 12 de Março de 2012.

O Cinema São Jorge comemora os seus 75 anos com uma programação gratuita que nos faz revisitar momentos marcantes da programação desta sala, piscando discretamente o olho ao futuro.

«Começamos no dia de aniversário com A Quimera do Ouro, de Charles Chaplin – obra-prima que completa 100 anos em 2025 –, acompanhada ao vivo pela Lisbon Film Orchestra.
Depois, e até 2 de março, prosseguimos com um clássico musical estreado em 1950, três filmes retalhados pela Censura e o primeiro êxito do pós-Revolução.
Piscando o olho ao futuro e aos mais novos, nos dias 1 e 2 de março vamos abrir ao público em geral a oficina STOP! Animação!, habitualmente reservada às escolas, e no dia 1 de março haverá visitas guiadas aos bastidores.

As sessões de cinema são de entrada gratuita, sujeita à lotação das salas, mediante levantamento de bilhete no próprio dia na bilheteira do Cinema São Jorge.»

O programa completo pode ser visto aqui.

Legenda: a fotografia do Cinema São Jorge foi tirada do blogue Restos deColecção.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Por aqueles tempos, nascia-se em casa.

Na rua onde nasci, não havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.

Mentalmente percorro essas ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.

Desapareceram quase todos, outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos,locais de consumo.

O cinema é um mundo de afectos que provoca uma grande e inolvidável memória e a cada um o seu Cinema Paraíso, a sua última sessão.

É assim que também a morte nos visita.

Legenda: Cinema Royal na Rua da Graça, hoje um supermercado.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS – CINE PAYRET – HAVANA, CUBA

Para não me acusarem de privilegiar a América, irei dar-vos a conhecer, também, algumas Salas de Cinema de Cuba.

Textos muito curtos, necessariamente, porque a informação disponível acerca dessas salas é não só reduzida como, por vezes, contraditória...

Começarei por este Cine Payret que, embora longe de ser o mais bonito visto do exterior, me parece ser o historicamente mais relevante.

Com efeito, parece ter sido este o local da primeira projeção pública de um filme em Cuba, corria o ano de 1897.

E foi, igualmente, com a “Túnica”, em 1953, a primeira Sala de Cinema a passar um filme em “Cinemascope” em toda a América Latina.

Mas vamos por partes…

Situa-se em Havana, no nº 503 do Paseo Marti Prado, quase defronte do Capitólio.

Foi inaugurado em 21 de Janeiro de 1877, com o nome de Teatro de La Paz, tendo por proprietário um catalão, Joaquin Payret.

Ao longo de muitas décadas teve o azar de ter sofrido três incêndios, o que levou as gentes a acreditar que estaria enfeitiçado.

Nas sucessivas reconstruções passou por vários nomes como, por exemplo, “Coliseo Rojo”.

Em 1951 foi alvo de uma completa remodelação, em estilo moderno, e reabriu em 1952 com o nome de Cine Payret, com um ecrã grande e lugar para quase 2.000 pessoas, tornando-se o maior cinema de Havana.

Durante os últimos anos a programação foi variando, mas era o Cinema onde passaram alguns dos “blockbusters” americanos.

Albergou também, durante muitos anos, o “Havana Film Festival”.

Encontra-se encerrado desde 2008, mas consta que o edifício será transformado em hotel e que manterá em funcionamento a Sala de Cinema.


Texto e fotografia de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS – STRAND THEATRE, KEY WEST


Os Cinemas, tal como os Homens, não nascem todos iguais e com os mesmos direitos e as mesmas oportunidades na vida.

Todas as salas de Cinema que até agora vos apresentei puderam sobreviver até aos dias de hoje, continuando a desempenhar cabalmente a missão original para que foram criadas, isto é, proporcionar algum prazer às pessoas que as frequentam, seja ele de que natureza for: a exibição de um filme, de uma peça de teatro, um concerto de Jazz, de Música Clássica ou de música dita ligeira, uma simples palestra...

Infelizmente, não foi esse o caso deste bonito “Strand Theatre” que hoje vos mostro, situado no nº 527 da Duval Street, a rua principal de Key West.

A sua própria história é difícil de deslindar…

Procurei, procurei, e nada encontrei…

A única coisa que vos sei dizer é que o “Strand” foi inaugurado em 1921, porque há uma fotografia datada de 1922 onde se pode ver um anuncio a fazer referência ao primeiro aniversário do teatro. Ao tempo dessa fotografia o filme que por lá passava era “The Man From Lost River”, realizado em 1921 por Frank Lloyd e hoje dado como perdido.


Noutro sítio também li que a lotação inicial era de 800 pessoas e todo o interior era em estilo Arte Nova. Mas nem uma simples fotografia da sala consegui ver...

O “Strand” terá encerrado como Sala de Cinema no início dos anos 80 e abriu, posteriormente, como um “nightclub”.

Entre 1993 e Dezembro de 2001 alojou o “Ripley’s Believe Or Not Odditorium”, que é um museu de coisas bizarras existente em muitas cidades dos Estados Unidos.

Em Abril de 2002 reabriu como um dos estabelecimentos do império “Walgreens”, uma cadeia americana de venda de artigos de farmácia e produtos de beleza, e assim se manteve até aos dias de hoje.


Com todas estas sucessivas alterações de atividade, o interior do Cinema foi desmantelado e apenas sobreviveu a fachada.

E nada mais se encontra na “net”, o que é estranho para um Cinema tão bonito, talvez o mais bonito de quantos vos dei a ver até agora. Fotografias há muitas e bonitas, mas uma informação mais detalhada acerca da sua história, népia….

A única coisa que vos posso fazer é juntar um “slide show” de curta duração, onde se podem ver algumas fotografias da fachada do Cinema entre os anos 20 e os anos 90 do século passado, bem como uma outra do “lobby”.


Pobre “Strand Theatre”…!

Merecia melhor sorte...

PS:

Ao contrário das restantes, a imagem noturna do teatro não é de minha autoria, tendo sido obtida no “site” “Key West Travel Guide”

Texto de Luís Miguel Mira

terça-feira, 25 de agosto de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS – PARAMOUNT THEATRE, BRISTOL, TENNESSEE / VIRGINIA


De todas as salas de cinema nos Estados Unidos de que já vos falei, o Paramount Theatre, de Bristol, é a mais recente, porque ainda só vai a caminho dos 90 anos de idade.

Fica no nº 518 da State Street, a rua principal da cidade que é, simultaneamente, a fronteira entre os estados de Virgínia e Tennessee. Curiosamente, ficava muito perto dos Armazéns onde tiveram lugar as “Bristol Sessions”, de que ainda há bem pouco tempo vos falei.

Faz parte de um conjunto de “Paramount Theatres” que a “Paramount Corporation” fez construir durante os anos 30 em diversas cidades dos Estados Unidos. O custo total da sua construção foi 210.000 dólares.


Um pequeno parêntesis para vos dizer que estas salas da “Paramount” têm o seu lugar garantido na História do Cinema Americano, porque foi a sua existência que esteve na origem da “Lei Anti-Trust” de 1948, que passou a impedir que a produção e a exibição de filmes estivessem na mão do mesmo proprietário, que poderia garantir, dessa forma, a exclusividade de exibição de determinados filmes em determinadas salas. A partir dessa decisão judicial do Supremo dos Estados Unidos, a “Paramount” teve de se subdividir em duas companhias, a “Paramount Pictures Corporation” para a produção, e a “United Paramount Theatres”, para a exibição, mas sem direito a qualquer tipo de exclusividade.

Voltando ao cinema de Bristol, é um edifício em estilo “Art Deco”, de arquitetura inspirada em alguns trabalhos de Frank Lloyd Wright.

Tinha lugares sentados para 1.200 pessoas e foi inaugurado no dia 21 de Fevereiro de 1931, com uma curta comédia com Carole Lombard e Norman Foster que se chama “It Pays to Advertise”, realizada por Frank Tuttle e hoje completamente esquecida.

Diz-se que o seu interior era muito bonito, todo ele em mistura de estilo “Art Deco” e “Renascimento” e que a principal atração da sala de espetáculos era um enorme órgão “Mighty Wurlitzer”, que viria a ser fortemente danificado em 1954 por ocasião de obras de remodelação para a instalação do “Cinemascope”.


Durante o longo período em que esteve em funcionamento não exibiu apenas filmes, mas também, como era habitual nestes cinemas “de província”, peças teatrais e espetáculos musicais de diversos géneros, nomeadamente com as “big bands” de Tommy e Jimmy Dorsey e Harry James, e com cantores “Country” provenientes do Grand Ole Opry, de Nashville, tais como Tex Ritter, Ken Maynard, Ernest Tubb e Cowboy Copas.

Tal como quase todos os outros grandes cinemas na América, entrou em declínio nos anos 70 e o último filme que teve em exibição foi “Beyond the Poseidon Adventure”, um filme ação de Irwin Allen, em 1979.

Esteve encerrado durante quase 10 anos e depois foram obtidos fundos, nomeadamente junto da população, para a sua remodelação, a qual custou 2 milhões de dólares.

Reabriu em Abril de 1991, com um espetáculo de Tennessee Earnie Ford, um filho da terra, e tem-se mantido em atividade até agora sob a gestão de uma entidade não lucrativa, a “Paramount Fondation”. A sua lotação foi reduzida para 750 lugares, mas todo o restante esplendor do interior se manteve, incluindo um novo órgão “Mighty Wurlitzer”, do qual só existem cerca de 40 exemplares em todos os Estados Unidos.

Desde 1985 integra o “National Register of Historical Places.

Devido à pandemia, encerrou as suas portas no dia 15 de Março do corrente ano.


Mas como existe uma superstição nas gentes do teatro que diz que se todas as luzes de um teatro forem apagadas o mesmo será invadido por fantasmas, foi deixada acessa uma pequena luz no meio do palco, a que chamam “Ghost Light”.

Lá como cá o dinheiro para a Cultura não abunda, e foi lançada uma campanha junto da população para angariação de fundos que permitam suportar os encargos durante esta situação de crise

Entretanto, os espetáculo que foram cancelados estão a ser reprogramados já a partir do próximo mês de Setembro.

Espero, sinceramente, que os possam concretizar...

A seguir, apresento-vos um curto filme para que tenham uma ideia, principalmente na época do mudo, da importância do “Mighty Wurlitzer Organ” nas salas de cinema.


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

terça-feira, 16 de junho de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS - BIJOU THEATRE _ KNOXVILLE, TENNESSEE


Não é o Cine-Teatro mais luxuoso de Knoxville. Esse é o Tennessee, poucas centenas de metros mais acima, que vos mostrarei noutra oportunidade. Mas é o mais antigo e, por isso, cedo-lhe a prioridade

Foi inaugurado no dia 8 de Março de 1909, como uma extensão do Lamar House Hotel, que pretendia ter um espaço de “Vaudeville” para atrair os seus hóspedes.

O Lamar House Hotel, por sua vez,  foi inaugurado em 1817 e profundamente remodelado em meados desse Séc. XIX.

Albergou diversos Presidentes dos Estados Unidos, o primeiro dos quais Andrew Jackson, em 1819.

Durante a Guerra Civil foi transformado em Hospital para o Exército da União, e depois da guerra foi, durante algumas décadas, o local privilegiado para asa grandes festas da elite local.


Pelo Cine-Teatro, ao vivo, passou gente importante como John Phillip Sousa, os Irmãos Marx, Dorothy Gish, Ethel Barrymore, Anna Pavlova e o seu “Balletr Russe”, o ilusionista Houdini e o trompetista Dizzy Gillespie.

Enquanto Cinema, foi de segunda escolha. As grandes estreias estavam reservadas para o Tennessee.

Como tantos por esse Mundo fora, entrou em declínio nos anos 60/70 do século passado, caiu na pornografia e veio a ser, posteriormente, recuperado.

O espaço integra o “National Register of Historic Places”  

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira   

domingo, 26 de abril de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS - SAVANNAH, GEORGIA


Existe um preconceito que tende a considerar os americanos um povo  primitivo e pouco iletrado,  que não tem uma relação com a Cultura – assim mesmo, com cê grande – como aquela que nós, europeus, temos.

O que me oferece dizer é que, ao longo de quatro prolongadas viagens que já fiz pelos Estados Unidos da América, nunca me apercebi que a Cultura fosse tratada a pontapé. Bem pelo contrário…

Alguns dos melhores museus do Mundo estão na América, e não apenas em Nova Iorque, Washington, Los Angeles ou São Francisco, mas também em cidades mais pequenas.

O país dispõe de  inúmeras Organizações federais, estaduais e privadas de renome no domínio da Cultura. A “Smithsonian”, por exemplo, é uma das mais prestigiadas a nível mundial

É certo que a América não tem um património cultural de excelência como o da Europa, mas agarram-se com unhas e dentes ao que têm e preservam-no cuidadosamente.

Um exemplo desse património mais antigo que conheço relativamente bem são as velhas Missões espanholas californianas do Séc. XVIII que existem entre San Francisco e San Diego, que vi num excelente estado de conservação.  

Em todos os Estados, grandes casas senhoriais do tempo colonial e dos primórdios da Independência, inseridas nos seus espaços circundantes,  foram preservadas e estão abertas aos visitantes.

Por todo o lado parques temáticos permitem-nos viajar no tempo e conhecer um pouco melhor a Cultura e as condições de vida  das diversas gerações pioneiras, e dos próprios Índios, como vi em Natchez.

No que respeita às chamadas “belezas naturais”, elas são sobejamente conhecidas. São 62 Parques Naturais Nacionais pouco tocados pelo Homem, de uma beleza de cortar a respiração, proporcionando inesquecíveis experiências de harmonia e de comunhão com a Natureza. E se pensarmos nos Parques Estaduais, este número aumenta consideravelmente...

Dir-me-ão que muitos desses espaços parecem ser demasiado destinados ao turismo… E Versailles,  os castelos do Loire, o Louvre, a Tate Gallery ou os Uffizi, não o são também…?   

É verdade que, quando dela necessitamos, temos alguma dificuldade em  encontrar uma boa livraria, mas isso parece um (mau…) ar dos tempos e não algo específico dos Estados Unidos...


As próprias cidades nem sempre são feitas de grandes arranha-céus. Existem verdadeiras “cidades-museu”, como St. Augustine, Charleston, Natchez ou Savannah, para só vos referir aquelas que  mais recentemente visitei. E é um prazer passear pelas  ruas dessas cidades e ver a diversidade de estilos que oferecem ao viajante, em edifícios muito antigos criteriosamente recuperados. Puxando a brasa à minha sardinha, não imaginam a maravilha que é encontrar, em excelente estado de conservação, velhas salas de Cinema centenárias em quase todos os lugares por onde passamos.

Quando paro defronte delas e as olho parecem querer falar comigo e contar-me as suas histórias… O “glamour” que viveram nos tempos áureos, quando o Cinema era belo… As alegrias, as tristezas e os dramas que deram a ver… O que riram, o que choraram, o que cantaram e dançaram, descalços no parque, à chuva ou sobre as nuvens… A excitação da sala cheia e a agonia de vê-la vazia…

Parecem querer contar-me de tudo o que o vento já levou… Dos esplendores na relva, das condessas descalças, de tudo o que o Céu permite, das lendas dos beijos perdidos, dos filhos da noite, dos rebeldes sem causa e de todos os que só Deus sabe quanto amaram...

Mas da  história delas eu nada sei. Quando as vejo  estão quase sempre fechadas e nem as entranhas lhes consigo vislumbrar… Só à noite, quando regresso ao quarto do hotel, posso ir à “net” tentar perceber por onde passei...

Com regularidade irei enviar-vos fotografias de algumas dessas Salas de Cinema, com informações acerca da sua história, nos casos em que as consegui obter.

E vamos começar hoje com o belíssimo “Lucas Theatre”, em Savannah, na Geórgia.

Foi mandado construir por um senhor chamado Arthur Lucas, abastado proprietário de uma grande cadeia de Salas de Teatro, e foi inaugurado, com pompa e circunstância, há quase 100 anos, no dia 26 de Dezembro de 1921. Foi uma sessão dupla,  com a curta “Hard Luck”, com Buster Keaton, e “Camille” como filme principal, com a diva Alla Nazimova e o divo Rudolfo Valentino, realizado por um tal Ray C. Smallwood de que não reza a História.

À sua época, com 1237 lugares sentados,  era o cineteatro mais luxuoso de Savannah e o primeiro a possuir ar condicionado.

Resistiu durante mais de cinco décadas, mas em meados dos anos 70, com o enorme sucesso dos primeiros “blockbusters” e a progressiva passagem do Cinema para as grandes superfícies comerciais com as suas salas “multiplex”, foi obrigada a encerrar as suas portas, tal como sucedeu a muitas outras salas por esse Mundo fora. O último filme que passou foi  “O Exorcista”.

Dez anos mais tarde foi criada uma associação não lucrativa – “The Lucas Theatre of the Arts” - que tinha como objetivo angariar fundos para a recuperação do edifício, o que ainda levaria muitos anos a concretizar.


Mas isto está tudo ligado, e um grande impulso para a recuperação acabou por ser dado por Clint Eastwood ao fazer nessa sala, ainda em obras,  a festa de encerramento das filmagens de “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, de que ainda há bem pouco vos falei,  e ao doar à Associação  os lucros obtidos nesse evento.

A recuperação foi concluída e a nova abertura teve lugar no dia 1 de Dezembro de 2000, com “E Tudo o Vento Levou”, como não podia deixar de ser…

Hoje o “Lucas Theatre” é um espaço multifacetado.

A sua exploração é gerida pelo “Savannah College of Arts and Design”, que fica lá mesmo ao lado, e promove a exibição de teatro clássico e de vanguarda, de eventos musicais variados e, naturalmente, de Cinema, com particular atenção na divulgação dos grandes clássicos do cinema americano. 

É, igualmente, palco de realização de grandes festivais anuais, como o “Savannah Film Fest”, o “Savannah Philharmonic” e o “Savannah Music Festival”.

Reabilitação conseguida com sucesso, portanto, o que nem sempre acontece nestes casos…

Mas não estaríamos em Savannah se não houvesse, pelo meio, uma história de fantasmas…

Há quem garanta que este teatro está assombrado, que se veem estranhas sombras e se ouve bater palmas quando está vazio, e o “Lucas Theatre” é paragem obrigatória do “Ghost City Tours”...

Tudo terá acontecido em 1928, dizem, quando um grupo de “gangsters”, provavelmente porque o proprietário do teatro não lhes pagou a “comissão”, avançou a tiro pelo meio de uma multidão em fila de espera e matou pelas costas o pobre empregado da bilheteira, que procurava fugir, quedando-se o seu fantasma  para sempre nos corredores do teatro.

Parece que os jornais da época não registaram qualquer acontecimento parecido com este, mas já se sabe o que acontece na América quando a lenda se sobrepõe à realidade…

Mas eu gosto desta história…

Apetece-me é acrescentar-lhe outros fantasmas muito meus, aqueles que morreram nas mais belas mortes do Cinema…

Thomas Mitchel, apoiado por Cary Grant, a dar uma última passa no cigarro no “Only Angels Have Wings”…

Louis Jourdan a deixar-se matar em duelo, depois de ter lido a carta de uma desconhecida…

Margaret Sullavan a abrir a janela e a roubar um último sopro de vida em “Three Comrades”…

O soldadinho de “A Time to Love and a Time to Die” a puxar pela última vez da carta que transportava bem junto ao coração e a vê-la fugir por entre as águas... 

Sterling Hayden estendido sobre a relva com que tanto sonhara, com o cavalo a beijar-lhe a face, em “The Asphalt Jungle”

James Mason a entrar no mar e a libertar, de vez, Mrs. Norman Maine, no “A Star is Born”, do Cukor, e Pandora a fazer o mesmo, por amor ao holandês voador…


Aqueles que os próprios fantasmas se encarregaram de vir buscar, como Mrs. Muir, Jeanette Macdonald no “Maytime” e o velho marido nas duas versões de  “Smilin’ Through”...

E como fantasmas não escolhem antigas ou novas vagas, lá estará, também, o Belmondo de “A Bout de Soufle”, qual James Cagney dos tempos modernos, a ser baleado pelas costas e a andar aos esses pela rua fora antes de se estatelar no chão e levar o dedo aos lábios pela última vez, como Bogard…

E também por lá andarão aqueles que morreram de mãos dadas, como os amantes crucificados do Mizoguchi,  Joel McCrea e Virginia Mayo nesse tão belo e tão esquecido “Colorado Territory” ou  Jennifer Jones e Gregory Peck, depois de se destruírem  mutuamente, no “Duel in the Sun”…

E ainda Helen Hayes nos braços de Gary Cooper, no “Farewell to Arms” do Borzage, naquela que hoje me apetece dizer que é a mais bela morte  no Cinema…

E como os anjos também serão admitidos,  não faltará por lá aquele que tão galhardamente ganhou as suas asas ao levar James Stewart a perceber que a Vida é, na verdade, uma coisa Maravilhosa…

Tanta e tão boa gente que nos encantou e emocionou ao longo da Vida lá deve estar… 

Porque talvez que o Cinema não passe disso mesmo: bons fantasmas que povoam o nosso imaginário e nos ajudam a viver…

E é por isso que  me comove sempre tanto ver um velho Cinema ainda vivo...

Texto e fotografais de Luís Miguel Mira