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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

NESTE DIA


Nos dias recentes em que saí daqui por uns dias, estive sem computador, fiz pequenos exercícios escritos à mão. Percebi rapidamente que já «não» sei escrever à mão, e veio-me à lembrança que já ouvi, ou já li, que escrever é algo que está prestes a desaparecer.

Pelo Natal é comum saber-se que pelo mundo se trocam milhões de SMS com votos de Boas-Festas, mas jamai um postal, uma carta.

Tenho um velho recorte de uma crónica do José Tolentino de Mendonça:

«Uma das coisas que aprendi foi que uma carta começa pelo envelope, pelo selo, pelo papel e que essa materialidade (escolhida, retrabalhada)) participa desse encontro sem palavras que uma carta pode significar.»

O neto foi despedir-se dos avós, agora que ia de férias com os pais.

- Manda-nos um postal, disse a avó.

- O que é um postal, vó?..

Disseram-nos que Saramago escrevia pela manhã, ao som de Mozart, Bach Ou Beethoven, guardando as tardes para  responder às cartas, cerca de 100 que lhe chegavam por mês.

Várias vezes deixou expresso que deveria ser publicada a correspondência que manteve com os seus pares e com o seus leitores. Por motivos nunca declarados, a Fundação  Saramago ainda iniciou esse imprescindível trabalho.

Por cartas, pegamos no 1º Volume dos Cadernos de Lanzarote, e publicanos a entrada que escreveu no último dia do ano de 1993:

sábado, 26 de abril de 2025

JÁ NINGUÉM ESCREVE CARTAS


O romance Lusitânia, publicado em Dezembro de 1980, por Almeida Faria, encerra a trilogia de que fazem parte A Paixão e Cortes.

Uma sucessão de cartas escritas por diversas personagens que vão desde Abril de 1974 a Março de 1975.

Em 30 de Março  de 1985 o Diário Popular, pela mão de Baptista-Bastos, junta Almeida Faria, também por lá aparece o Dinis Machado, a entrevista está titulada com uma frase de Almeida Faria: «O Jornalismo dito cultural é um terrorismo interessado em promover a mediocridade.»

O recorte que ora se publica, não tem nada a ver com a entrevista do Bastos com o Almeida Faria, antes é uma carta inédita publicada pelo JL, dez anos depois da publicação de Lusitânia.

Já ninguém escreve cartas, Baptista-Bastos e Dinis Machado já nos abandonaram, e muita gente não saberá quem é Almeida Faria e pouquíssimos ainda são capazes de o ler.

sábado, 7 de dezembro de 2024

DESERTO DE AFECTOS


Lembram-se, por este tempo, quando abriam a caixa do correio e desabava um mar de cartões de Boas-Festas?

As palavras, os desejos eram sempre os mesmos, mas sentíamo-nos confortáveis.
Agora apenas as cartas costumeiras das facturas, disto daquilo daqueloutro, que há para pagar, a publicidade de viagens de fim-de-semana, de telemóveis, um cartãozinho do Professor Fofana, especialista em amor, astrólogo, médium africano, 45 anos de experiência.
Já não há cartões de Boas Festas. Onde é que ficou esse tempo? Quando perdemos esse gosto?
Sentir uma amarga nostalgia por esse tempo, um certo pânico por este silêncio, por este quase deserto de afectos.
Gostar de cartas, gostar de cartões de Boas Festas, gostar de selos, coleccionar selos, gostar de esperar, ansioso, pela chegada do correio, cartas, por vezes ilegíveis – por sua dama tornou-se paleógrafo - abrir a carta com uma faquinha apropriada, ou abrir a carta, desesperadamente, rasgando o envelope, quando se esperam palavras como sem ti a minha vida não era feliz.
Os correios comovem-no.

Quem leu Júlio Dinis sabe do que ele está a falar.

O correio electrónico, o telemóvel, tomaram-nos de assalto, determinaram que é obsoleto comprar um cartão de Boas Festas –já nãos vendem! -, escrever palavras com uma caneta, o caminhar para a estação de correios ou para o marco do correio.

«Mãe Tá-se? Tou aí no Natal levo a Bé. Depois dou um tok para confirmar».

O José Gomes Ferreira ensinou-lhe que «saudades, só do futuro», mas, caramba! tem saudades do tempo em que não havia telemóveis, mails, tem saudades do tempo em que as cartas, os cartões de Boas Festas que se enviavam, quando os amigos estavam aquém dos olhos, estavam perto, estavam longe e nos dizíamos uns aos outros que é sempre pouco o esforço que se faz para gostar.

Coisas simples, sinceras, saber que ser amigo é poder a gente entregar-se sem nos passar pela cabeça que o próximo se vai rir de nós.

terça-feira, 16 de abril de 2024

NÃO SÃO AVES AS CARTAS

 Não são aves as cartas

que chegam

pelo correio

 

aves de uma as

 

secas

molhadas

 

São corações brancos

dobrados em 4

 

gravados a azul

e a preto

 

pelos dedos

pelas lágrimas


António Reis em Poemas Quotidianos 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

NINGUÉM ESCREVE A NINGUÉM


 

Ninguém escreve a ninguém. Gabriel Garcia Marquez, por outros motivos, deixou isso num livro que metia um coronel pelo meio. Ninguém escreve a ninguém. Abre-se a caixa do correio e encontramos o vazio, ou os folhetos de propaganda, disto e daquilo, a conta do telefone, o professor Fofana, especialista em amor e trabalhos ocultos, a dizer-nos para o contactar, o extracto bancário a mostrar – era necessário? – que cada vez temos lá menos dinheiro. Já não se escrevem cartas como antigamente. Os amigos foram para longe e já não escrevem. Os amigos que estão perto preferem os abraços e os beijos pelo telemóvel. Num qualquer Natal as operadoras portuguesas processaram 195,5 milhões de mensagens escritas. A dizerem o quê? Who knows!...Por ele gosta de palavras desenhadas no papel. Deixámos de comunicar apesar de passarmos horas ao telemóvel. Já ninguém sabe onde está o marco do correio da rua onde vive. Tudo isto acaba no mundo de silêncio que de repente nos envolve e não sabemos como veio, como aconteceu. Acredita que para se escrever isto que vai dizendo é necessário uma grande dose de ingenuidade. Que seja! Como escrever num SMS o silêncio que se esconde. Há um tempo moroso e dele surgem cidades e embora daí nada venha ,fica o esforço de se escreverem as palavras que ocorrem, que se socorrem umas às outras, algo que poderia ser assim: há um barco que encalha no meio do rio. Daí sobe a maresia, o espumar encarneirado, reflexos do sol que rói as nuvens. Há uma náusea, um torpor no meio do rio. As cordas estendidas como braços para a tua margem. E lá para o fim da tarde, não direi amigo antes de chegar a noite anódina e vagamente prestável. Porque do molhe não me ouvem, o silêncio morde-me os pulsos. O Sol esquiva-se. Sou eu que de mãos tensas torço o barco a aportar meigamente. Nisto se perde o tempo. É a nostalgia.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

DESERTO DE AFECTOS


 O Natal será sempre o encanto e a ternura da impossibilidade. O sem sentido de alguns presentes, como naquele conto de O’ Henry: ela vendeu o lindo e comprido cabelo para lhe comprar uma corrente para o relógio, de que ele tanto gostava; ele empenhara o relógio para lhe comprar as travessas para o cabelo, de que ela tanto gostava.

Karl Valentim preferia que cortássemos do calendário o Dia De Natal, se com isso conseguíssemos que os restantes 364 dias do ano fossem todos de Natal.Gostaria que o Natal não tivesse o carácter de que se tem revestido nos últimos tempos: um consumismo desenfreado que dele fazem o dia mundial da hipocrisia.

As noites de Natal, aquelas que não mais posso repetir, passava-as em casa do meu pai, a família mais chegada, a comer bacalhau cosido com couves, a beber vinho tinto alentejano, a conversar pela noite fora, rematando-se a festa com carne de porco frita envolta em ovos mexidos, a que se seguiam umas fatias douradas, filhós e uns cálices de licor de ginja que, por Junho, se tinha colocado a marinar numa grande garrafa de vidro, juntamente com açúcar, aguardente branca, um pau de canela. A manhã começava a nascer, saía para regressar onde vivia e gostava do cheiro de Natal que sentia pelas ruas.


Tentamos fazer o mesmo com os filhos, com os netos, tentar a reinvenção dessas noites felizes, mas é mais que certo: nunca se volta aos sítios onde fomos felizes. Falta, essencialmente, esse passe de mágica, que eram as conversas do meu pai, um brilhante contador de histórias.

Há coisa melhor que o Natal?

O Natal é um cantinho bom do ano, um aconchego.
 

terça-feira, 22 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO

O neto foi despedir-se dos avós, agora que ia de férias com os pais.

- Manda-nos um postal, disse a avó.

- O que é um postal, vó?... 

CONVERSANDO

Na Parede, por onde andei estes dias, tentei encontrar postais da vila para enviar a uns amigos alemães. Percorridas umas cinco papelarias não consegui encontrar um único postal, tão pouco de Carcavelos, Estoril ou Cascais. Na Livraria da Europa-América só havia postais de Lisboa!...

Na papelaria junto à Estação do comboio, disseram-me que já ninguém usa postais, mandam-se «sms». Disse-lhe que não tenho telemóvel, a moça ficou espantada a olhar não sei para onde…

Reconheço que sou um tipo antigo, agarrado a coisas extintas ou em vias de o serem, coisas completamente desactualizdas, tudo tão de outro tempo.

Mas é bom escrever aos amigos e um postal talvez seja uma maneira de estar perto desses amigos.

Um tempo outro de coisas modernas mas que não conseguem juntar as pessoas.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Quando pensei nestes Sublinhados Saramaguianos não segui nenhuma ideia, nenhum projecto , para além de pegar nos livros de José Saramago  e copiar o que deixei sublinhado nos livros.

Diversas vezes não foi apenas isso, atravessei-me com outras prosas, outras situações. Como a de hoje.

Estive ontem com o Último Caderno de Lanzarote.

Já há uns dias falei de que a Fundação José Saramago ainda não se concentrou na publicação da Correspondência de Saramago com o seus pares, com os seus amigos, com os seus leitores.

Neste Último Caderno, no dia 8 de Agosto de 1998, Saramago insiste:

«Um dia deixei consignada nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da completa de um escritor deveria haver um voluyme ou mais com as cartas dos leitores.»

O que hoje aqui se recorda é uma carta de Jorge de Sena para José Saramago, no tempo em que este exerceu nos Estúdios Cor o trabalho de Director Editorial:

«Assis, 18/5/961

Meu caríssimo Saramago

A sua carta de 10, que levou cinco dias (!) a chegar cá, não me acusa ainda a recepção do original de Metamorfoses, que lhe enviei. Mas, embora não recorde ao certo a data, não há provavelmente demora ou extravio, mas apenas desencontro.

Ontem, os jornais brasileiros noticiavam a concessão do prémio CCB à Fernanda Botelho, o que eu esperava, desde que, junto, no mesmo correio, com aquela sua carta, me veio um recorte do D. de Lisboa (ou coisa parecida), em que havia uma longa lista indiscreta com os nomes dos mais eminentes concorredores. Quero crer que meu cunhado e o Dionísio terão votado em mim; e que o espírito de corpo, em mistura, da Faculdade de Letras e da velha “Távola”, tenha, nas pessoas do David  (do qual o mesmo correio me trouxe uma obrinha sobre o Teixeira Gomes, com maviosíssima dedicatória) e do Jacinto, votado na Botelho que, se bem me lembro, já haviam querido premiar contra o Migueis. Claro que os interesses da Bertrand, a que todos mais ou menos se encontram ligados, fez o resto, já que o Simões votaria no diabo, e não no demónio em andanças … Agradam-me, porém, duas ou três coisas: 1o – eu não concorri, mas a editorial…; 2o havia, na lista, o Régio, e outros (que eu não considero muito, mas são “eminentes”) como o Redol, o Abelaira, o Urbano, também premiáveis; 3o – a concessão do prémio à Botelho, notoriamente neutra ou fascistoide, mas pelo menos autora de uma literatura castrada do ponto de vista ético-político, é manifestamente uma “prudência”, uma subserviência, não digo à ordem estabelecida, mas ao não incomodarem-na. Enfim, não me lamento, porque o prémio sempre eu achei que o não ganhava; e não vos culpo: porque achei legítimo concorrer e não me opuz. Do ponto de vista financeiro, os cincoenta contos, para quem devia em Lisboa, ainda, mais do que isso e em requerência de pagamento urgente, sem saber onde há-de ir buscá-lo, esses trinta (cincoenta, não é?) contos, assim passados por diante do nariz, são um rude golpe. Do ponto de vista da minha situação aqui também o são, porque eram – embora eu não acredite em prémios – um acréscimo de prestígio entre os que acreditam neles; e, para os meus inimigos, é um farto motivo de goso. Mas não cuidemos mais desta história toda, ainda que eu fique, curiosamente, à espera dos seus comentários póstumos. E, se não fosse poder parecer uma “chantagem” moral, eu pediria a VV., sobre as Metamorfoses, um adiantamento; e quem diz sobre estas diz sobre uma tradução que VV poderiam dar (do francês) para minha Mulher fazer, que eu não tenho tempo. O que são as traduções dela pode ver-se nos livros que traduziu (assinando Freitas Leça): O Crime dos Justos e Adeline Venicien, do Chamson – por exemplo (Livros do Brasil), – e também Le Grand Ecart, do Cocteau, e O Ouro, do Cendrars, cujas traduções acho, com serem difíceis, perfeitas. E Os Nossos avós Gauleses (Portugália) – cujas provas, no nosso mútuo acordo, eu li, como ela lê as daquilo que eu publico.

Gostei muitíssimo da sua carta (e obrigado pela diligência junto desse imarcessível Amaro), das melhores que tenho consoladamente recebido de V. Como sempre são aquela discreta amizade, uma desencantada e sã amargura, o humor de quem sabe que o riso nem todos o merecem; e, por trás de tudo, um bom senso e um equilíbrio que lhe invejo sinceramente, quando os meus me custam (e a V. também, quem sabe) olímpicos, tanto ranger de dentes… Quanto à imodéstia, meu caro, eu sempre achei, e acho, a modéstia a menos legítima das virtudes.

Se eu for, como pretendo, e insisto, para Araraquara (apesar da “côrte” contraditória e interesseira que parece esboçar-se aqui, e foi ao ponto de o meu Director rebaixar-se a pedir-me para vir jantar a minha casa, aonde não o convidáramos mais, para conversar comigo, o que será na próxima semana), não me parece que as coisas possam repetir-se, além do normal que V. tão bem descreve. Eu sou, humanamente, a mais desencantada das pessoas (quase sempre, é certo, sem a sã amargura acima referida) – e não impunemente se é demitido aos 18 anos do mais alto sonho da sua vida, já descrente então da vida de família, para percorrer depois os submundos da miséria, e ter sido, durante anos, tropa, funcionário público, político, homem de letras, na aquisição de uma experiência que me dará contos e poemas até ao fim da vida. A cátedra e, além da cátedra, a ilusão de renovação pedagógica autêntica que era Assis, foram, suponho eu, uma última metamorfose minha, em que era natural que eu entrasse impante e acreditando. Ter um “status” universitário e uma posição preponderante nesse outro mundo – eis sonhos que eu não realizara ainda. Naturais, pois, a ilusão e a desilusão, que não poderão repetir-se já para Araraquara nenhuma. Aí, como nas mais cátedras que eu venha a aquecer ou não, terei os desgostos e as arrelias que temos em tudo, maiores ou menores. Mas, como sou incorrigível no afecto desinteressado com que me dedico a tudo (e 15 anos de funcionalismo não puderam corrigir-me), é possível que eu, no fundo de ingenuidades que me salva do tanto de horrível (e também de bom) que a vida tem me dado, ainda venha a ter, mais que arrelias, dores. Neste momento, meu caro, desconfiado com o longo silêncio do Conselho Universitário do Rio , eu já espero, naquela divisão entre indignação reservada e resignação risonha, que é a minha, eu já espero mais uma derrota: a de encalhar, num recife burocrático qualquer, o meu processo de doutoramento. Consolo-me, já pensando que, afinal, as derrotas, como a rude franqueza com que tenho incansavelmente denunciado tantas pessoas e coisas (aqueles pavões e perus, de que V. fala), cortando-me acessos e integrações “corporativas”, pondo-me à margem, me libertam, na medida em que me livram de silêncios, de concessões tácitas, de arregimentações quaisquer. Sempre assim foi. A esse último respeito, embora às vezes sonhe com o mundo a meus pés, nunca tive ilusões impróprias: desde que me conheci (e levei algum tempo, porque tinha muito que conhecer), sempre soube que sou daqueles que os Arcanjos da Estrada (que não é metáfora do Pessoa, mas termo das iniciações) têm por obrigação deixar em pelota. E não podem os ditos cujos queixar-se de que eu não tenha, às vezes com precipitada generosidade, facilitado, e justificado até, o trabalho deles.

A minha produção de contos – o que, há tantos anos, aguardava, dentro de mim, tempo que a poesia nunca me requereu – prossegue num ritmo exaustivo. Acabei ante-ontem um, muito longo, que creio, pela amplidão, a complexidade, a violência, das coisas melhores que já escrevi . Mas também nisso flutuo numa libertação total que, neste por exemplo, deixa a perder de vista, mero exercício, Os Amantes, no que se refere à descrição e análise da experiência sexual. Escrevo-os como para um mundo ideal onde fosse possível publicar tudo. Além de Os Amantes e de Um Conto Brevíssimo (uma pequena brincadeira séria que vai sair no Estado de São Paulo) tenho já mais cinco contos mais ou menos longos que dariam um volume. Tecnicamente, e o que não é possível ainda, Os Amantes e Um C.B. pertencem a uma reedição das Andanças. Por isso mesmo, de Os Amantes tirei cópias “mimeografadas” para distribuição restrita às pessoas que receberam oferta do volume (claro que lhe vou mandar uma). Os outros contos, com mais dois ou três, serão um volume terrífico, em que a “pátria”, o Exército, a Armada, a Justiça, a Moral, etc. etc. ouvirão o que nunca ouviram. É possível que eu tire, para já e para amostra, cópia de um deles, que lhe mandarei também. Esse volume será, não sei se lhe disse, Os Grão-Capitães. Com ele farei o seguinte: tentarei publicá-lo aqui, o que pode talvez conseguir-se, embora me desagrade, pelo escândalo político e “moral”. Em jornais e revistas… as dimensões e os “contextos” são proibitivos. Mas, em qualquer caso, reservarei os direitos de uma edição vossa, a publicar tão logo seja possível… Para tanto, oportunamente, receberão organizado um original. Tudo isto sem prejuízo de um volume que venha – se esta fornalha de ficção se demorar acesa – a coligir-se de contos publicáveis aí.

Recebi de Nova York e do Migueis, a Escola do Paraiso e o Passageiro. Este li e achei fraco; o romance não tive ainda tempo de o ler, mas emprestei-o, por exemplo, ao Victor Ramos, que o achou uma obra-prima. Não sei se VV mandam ao Migueis as vossas edições, eu, desorientado entre as ofertas de tanta obra sucessiva, creio que lho não ofereci. Poderia V. mandar-lhe, com a dedicatória que junto envio, um exemplar das Andanças? Muito obrigado, desde já.

Quanto ao Sr. Crippa, manda-se o livro desta vez, e logo vemos se também eu devo, como o Miguéis, cortar-lhe a coleta.

E, para a colecção de ensaios, e ainda bem que lhe agradou a ideia, cá estou gratamente às ordens.

Esta já vai longuíssima, mas ainda quero comentar essa de eu me guardar para o regresso… Será que eu regressarei alguma vez? Sem dúvida que, aqui entre nós, o Brasil, com todas as suas vantagens, é pior que Portugal, com todos os seus defeitos. Quando e se as coisas mudarem, as saudades que tenho da minha casa e dos meus amigos (e também o patriotismo de lágrima ao canto do olho) funcionarão activamente. Mas, meu caro, dentro das premissas que V. lucidamente expôs, de as cátedras e os lugares serem para os outros (que terão sobre mim a vantagem da minha ausência), com que hei-de dar de comer aos meus filhos? Muito provavelmente, eles voltarão, e eu gostaria que voltassem… Mas V. vê-me, a mim, depois destas aventuras catedralícias, voltado a engenheiro de 3ª da Junta Autónoma das Estradas? Com, para mais, uma viagem vertiginosa a quase-ministro ?… E, no Portugal que se avizinha, mesmo que eu fosse um glorioso mixto de Victor Hugo e Balzac, ninguém vai poder viver das letras… – que, aliás, não viveram delas. Talvez eu acabe na China.

Dê as minhas melhores lembranças ao Canhão e ao Correia. Mande-me notícias do Nataniel. E receba o grande, saudoso e grato abraço do seu muito amigo

Jorge de Sena

terça-feira, 25 de outubro de 2022

SUBLINHADO SOBRE UM SARAMAGUIANO SUBLINHADO


Reconheçoque a transcrição que faço da conferência de José Saramago é longa, mas acabei por não resistir. Trata-se de um exercício notável, autêntico jogo de xadrez que, lamentavelmente, nunca aprendi a jogar. Também gostava de tocar guitarra e nada fiz por isso.

Penso que alguém de bom ler alguma vez poderá ficar desiludido com a escrita e capacidades argumentativas de Saramago.

Desconhecia esta conferência como, de certeza quase absoluta, desconheço outros textos e intervenções de José Saramago.

Aqui entendo dizer que o trabalho da Fundação, em determinados aspectos, não se tem debruçado convenientemente com o imenso espolio e ideias que Saramago deixou. De uma delas já falei por aqui mas volto a falar:

José Saramago sempre entendeu que para que se possa conhecer melhor a obra de um escritor, é necessário publicar a correspondência trocada com os seus pares.

Saramago vai mais longe, e na longa conversa que manteve com João Céu e Silva, diz:

Tenho milhares de cartas e costumo dizer que a obra completa de um escritor só estará realmente completa publicando-se uma selecção das cartas dos leitores porque – fala-se tanto da teoria da recepção – é naquelas cartas que se vê realmente o que é a recepção. Em casa devemos ter umas duas mil cartas de leitores que é preciso classificar e ordenar.

Humberto Werneck que fez uma entrevista a José Saramago, cuja transcrição pode ser lida no Último Caderno de Lanzarote revela que «Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.»

No dia 8 de Agosto de 1998, entrada do Último Caderno de Lanzarote, Saramago volta ao assunto das correspondência que manteve com os seus leitores.

«Um dia deixei consignado nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da obra completa de um escritor deveria haver um volume ou mais com as cartas dos leitores. Fala-se, discute-se, discorre-se sobre as teorias da receção (empurrando portas abertas?), e parece que ninguém repara no inesgotável campo de trabalho que oferecem as caretas dos leitores.»

Decorreu o suficiente tempo sobre a morte de Saramago  para que a Fundação já tivesse iniciado o trabalho de divulgação sobre as cartas de diversa gente que Saramago recebeu e a que deu resposta.

Compreendo e aceito a existência de T-shirts, sacos para livros, canecas, porta-chaves, agendas, etc., etc., etc.

«Isto tem muito que ver também com o prazer da escrita de que tanto se fala. Tenho que confessar, muito sinceramente, que escrever não me dá prazer. Pode dar-me prazer ter escrito, o que é outra coisa; agora, o chamado prazer da escrita, sinceramente não o sinto – embora também nunca tenha lido uma explicação que me diga em que consiste esse prazer. Muita gente fala do prazer da escrita, mas nunca ninguém nos disse que esse prazer se manifesta desta ou daquela maneira.«

José Saramago em  Diálogos com José Saramago de Carlos Reis, página 124

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Os Sublinhados Saramaguianos começaram com uma citação tirada do Último Caderno de Lanzarote (sobre a morte de Ilda Reis, primeira mulher de José Saramago) e ao livro volto para bater na tecla que continua por publicar a correspondência que José Saramago manteve com os seus pares e também com os seus leitores.

E enquanto esta publicação não acontecer, eu não a deixo de reclamar.

Por isso volto ao Último Caderno, à página 133:

«Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas, ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.»

domingo, 3 de outubro de 2021

VELHAS CANÇÕES


Há empresas que só fazem marcações através da aplicação da empresa.

E se eu não tiver telemóvel?

Se eu não souber o que é uma aplicação?

Se eu não quiser que as empresas tenham o meu número de telefone, ou telemóvel ou os meus dados pessoais?

A automação de serviços elementares, a robotização de atendimento tomou conta do nosso quotidiano.

Por outro lado qualquer mensagem, seja do que for, avia-se rapidamente através de um e-mail de  um SNS, ou uma qualquer laracha deixada no facebook, no raio que os parta a todos, porque tudo agora se despacha com um toma lá e não chateeis mais, coisas que deixam um sabor frio e triste.

Já ninguém escreve a ninguém.

O Coronel de um romance do Gabriel Garcia Marquez esperava ansiosamente o dia em que a data da reforma chegasse por carta, enquanto a mulher, aparvalhadamente, o enchia de minudências:

- Gostaria de plantar rosas, disse.

- Se quer plantar rosas, porque não planta?, perguntou o Coronel.

- Os porcos comem-nas todos, disse a mulher.

- Óptimo, porco engordado com rosas deve ser muito bom, disse o Coronel.

As mulheres são mesmo o diabo.

O António Alçada Baptista contava que, sempre que a mulher se punha com arrumações, lhe aparecia com listas telefónicas na mão que faço a isto, Alçada  interrompia a leitura e murmurava: Olhe: dê aos pobres!

Já ninguém escreve a ninguém.

Há uma velha canção dos Box Tops: The Letter.

Cansado dos dias solitários tenho que regressar depressa a casa e nem posso ir de comboio rápido, terei que apanhar um avião, não sei o que isso me vai custar, mas tenho de regressar a casa porque a minha miúda, numa carta, diz que não pode viver sem mim.

Já agora, a propósito, ou a despropósito, fiquem-se com uma história, lida já não sabe onde, ou contada já não sabe por quem:

Durante as actividades num campo de férias, o monitor perguntou à rapaziada, como preferiam receber, de um amigo distante, o convite para um encontro.

Dividiram-se as opiniões, uns disseram logo que seria por e-mail, outros por SMS, mas uma moça disse:

- Preferia receber por carta.

Sentiu os olhares de espanto – por carta? - e em voz lenta, mas clara, explicou:

Porque uma carta dá mais trabalho a escrever e ainda é preciso comprar um selo, metê-la no correio. E depois, se for verdadeiramente meu amigo, ainda me vai mandar qualquer coisa a acompanhar: uma pétala de flor, uma qualquer ilustração...


sexta-feira, 30 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


30 de Abril de 1974 

Amanhã será o primeiro 1º de Maio em liberdade.

Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.

Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros-de-combate-lanças-tinta-azul.

A mudança ia acontecendo, lenta, lenta, lenta, mas éramos tão poucos.

E onde estava aquele gente que, no amanhã de há 47 anos, encherá as ruas transformando-as num imenso oceano.

Os jornais de 30 de Abril de 1974, nas suas primeiras páginas, apelavam à serenidade do povo português nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Na 1ª página do República podia ler-se: Só a disciplina dos Homens Livres destrói a “disciplina” do medo!». Nas páginas centrais uma outra frase: 

«A disciplina é a arma do Povo contra a opressão.»

Na 1ª página do Diário Popular: «O 1º de Maio é teu: conquistaste-o. Não deixes que possíveis provocadores alterem o dia que será uma festa de todos!»

O Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

COMPRE HOJE O PÃO DE AMANHÃ

Diversas empresas faziam publicar anúncios de que iriam estar encerradas no 1º de Maio.



2.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

 3. 

Concretamente em Lisboa, populares continuam a perseguir os pides.

 Aparecem os primeiros desmentidos de quem estava a ser acusado de pertencer à Legião, à PIDE/DGS, ou tinham sido informadores da polícia política.

 Alguns eram acusados, por vizinhos, conhecidos, como mera vingança pessoal.

Começavam, por isso, os desmentidos.

 Este podia ler-se em A Capital:

 «O antigo “boxeur” Licinio Sena deslocou-se à nossa redacção, acompanhado do capitão Nuno Santos Silva do Movimento das Forças Armadas, do seu chefe no Tribunal de Contas, onde trabalha, e do seu filho, para nos declarar que não era agente da Pide.»

 Outros optavam pela publicação, como publicidade paga, de anúncios deste teor:




Sobre este tipo de incidentes, o Diário de Notícias, publicava, na 3ª página, uma local que titulou como: Enganos lamentáveis:

No clima de justa euforia em que actualmente se vive na nossa cidade, um dos principais alvos da população – o que, por vezes, gera alguma violência – tem sido a descoberta de elementos da extinta DGS e ainda não detidos.

Mas, se em muitos casos, se verificou que os indivíduos apanhados eram realmente daquela corporação policial, noutros ocorreram enganos que poderiam tornar-se lamentáveis, se não fosse a intervenção das forças militares.»

domingo, 13 de dezembro de 2020

COISAS SIMPLES

Todos os anos, de há muitos para cá, muitos mesmo, escreve uma carta ao venerando sacripanta de barbas e casacão vermelho, com posto de correio em Rovaniemi, lá para o Circulo Polar Árctico, plena Lapónia onde, dizem, os dias são azuis, que lhe coloque, no cantinho esquerdo da chaminé, uma garrafa de verdadeira água tónica para que ele possa beber o perfeito gin-tonic.

Não pede a lua, apenas uma garrafinha de tónica.
Ele explica o que é isso da verdadeira água tónica: é a que tem quinino. A que se vende por aí tem hidrocloreto de quinino. Faz um certa diferença...
Foi o José Duarte que lhe disse que a tónica com quinino, empresta ao gin um sabor único, um sabor de paraíso. De fazer inveja aos deuses, acrescentou.
É com isso que ele se contentava neste Natal. Sabe que não vive em Sirius, mas ficava feliz. E o Khaled, o dono do mini-mercado-de-conveniência, aqui da rua, já lhe garantiu que arranjará limões com casca amarela.
No fundo vive de coisas simples, pequenas alegrias, pequenas esperanças.

Sorri, quando lhe desejam Feliz Natal, mas sabe, também, que quando se estende uma mão, raras vezes se encontra outra.

domingo, 16 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AS CARTAS DO PACHECO

Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2016.

Legenda: pintura de William Albanese

quinta-feira, 7 de maio de 2020

QUOTIDIANOS


Caminhava pela Avenida de Paris.

À minha frente, uma mulher pergunta a um jovem se lhe sabia dizer onde poderia encontrar uma estação dos Correios.

O jovem sorriu para a mulher, mas mostrou uma cara onde se poderia ler que não sabia do que lhe estavam a falar.

Sim, os telemóveis são uma invenção preciosíssima mas estão a matar, principalmente entre os jovens, um certo mundo que hoje apenas se rodeia de melancolia.

Uma estação de correios.

Lá muito para trás:

 O carteiro da minha rua a desejar-me um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

O jovem não sabia da estação de correios, eu não sei de Whatsapp.

Cada um carregando as suas ignorâncias quotidianas, mundos trocados.

Ou como saber que nunca lemos um livro da mesma maneira: a idade em que foi lido, o desconhecimento de coisas que então tínhamos, as ilusões que se perderam.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

VAMOS PERDENDO OS AFECTOS


Decididamente a magia dos cartões de Boas-Festas acabou.
O ano passado já havia sinais, mas este ano apenas os nossos amigos que vivem no estrangeiro nos enviaram saudações de Natal e Ano Novo em cartões. O resto foi tudo mensagens via correio electrónico, ou outra qualquer aplicação, que eu nem sequer domino essas coisas.
Como é que perdemos estas coisas simples e tão bonitas?

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

QUOTIDIANOS


O nosso amigo Hans-Martin, a 2 de Setembro, enviou-nos um postal de Magdeburg.
Chegou ontem a Lisboa.
Ele diz que os correios alemães estão a trabalhar pessimamente. Dizemos o mesmo em relação aos portugueses.
Hoje, já muito pouca gente escreve cartas ou envia postais.
É triste o tempo de demora mas, apesar disso, é bonito e agradável que os amigos nos enviem postais.

Legenda: imagem da Shorpy. 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

SARAMAGUEANDO


José Saramago sempre entendeu que para que se possa conhecer melhor a obra de um escritor, é necessário publicar a correspondência trocada com os seus pares.

Saramago vai mais longe, e na longa conversa que manteve com João Céu e Silva, diz:

Tenho milhares de cartas e costumo dizer que a obra completa de um escritor só estará realmente completa publicando-se uma selecção das cartas dos leitores porque – fala-se tanto da teoria da recepção – é naquelas cartas que se vê realmente o que é a recepção. Em casa devemos ter umas duas mil cartas de leitores que é preciso classificar e ordenar.

Humberto Werneck que fez uma entrevista a José Saramago, cuja transcrição pode ser lida no ÚltimoCaderno de Lanzarote revela que «Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.»

No dia 8 de Agosto de 1998, entrada do Último Caderno de Lanzarote, Saramago volta ao assunto das correspondência que manteve com os seus leitores.

«Um dia deixei consignado nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da obra completa de um escritor deveria haver um volume ou mais com as cartas dos leitores. Fala-se, discute-se, discorre-se sobre as teorias da receção (empurrando portas abertas?), e parece que ninguém repara no inesgotável campo de trabalho que oferecem as caretas dos leitores.»

José Saramago deixou-nos há 8 anos e penso que já correu o tempo suficiente para se tivesse dado andamento a essa ideia das cartas dos seus leitores.

Também não se compreende muito bem porque ainda não existe a publicação da correspondência com os seus pares-

Olhe-se o meritório trabalho que Mécia de Sena tem feito com a correspondência que Jorge de Sena manteve com uma série de intelectuais do seu tempo.

A única correspondência de Saramago publicada, é a que manteve com José Rodrigues Miguéis durante o tempo em que foi responsável literário da editora Estúdios  Cor.

O volume publicado com a correspondência de Jorge Amado não é muito significativo na medida em que não abrange cartas e apenas reúne trocas avulsas de faxes.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O QUE SE ESCREVE QUANDO JÁ A MORTE VEM SUBINDO A ESCADA


Apanhou a carta do chão, meteu-a no sobrescrito, escondeu-a entre os livros, mas não se há-de esquecer de procurar um sítio mais seguro, um dia destes vem Lídia fazer a limpeza, dá com a carta, e depois, é certo que ela, a bem dizer, não tem quaisquer direitos, se aqui vem a casa é porque a vontade lhe puxa, não porque eu lho peça, mas oxalá não deixe de vir, que mais queria Ricardo Reis, ingrato homem, meteu-se-lhe uma mulher na cama de seu livre gosto, assim não precisa de andar por aí arriscado a apanhar uma doença, há homens com muita sorte, e este ainda queixoso só porque não recebeu de Marcenda uma carta de amor, não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor. Diante do espelho do guarda-fato, que o reflecte em seu inteiro corpo, Ricardo Reis diz, Tens razão, nunca recebi uma carta de amor, uma carta que só de amor fosse, e também nunca escrevi uma carta de amor, nem por metade dela ou minha metade, esses inúmeros que em mim vivem, escrevendo eu, assistem, então a mão me cai, inerte, enfim não escrevo.