PHILIPS - P 632.900
L - 1966
Lisboa, por esses anos 60, era uma cidade de um torpor quase provinciano.
Lembra-se de andar
pelas ruas à noite, e de Lisboa ser um sítio acolhedor, não a ditadura.
Por um Maio de 66,
mais precisamente no seu 31º dia, sem se saber muito bem como, o “TUCA - Teatro
da Universidade Católica de São Paulo” aparece em Lisboa, também foram ao
Porto, para apresentar, em espectáculos únicos, o poema de João Cabral de Melo
Neto a que, em 1965, Francisco Buarque de Hollanda emprestara música.
Em Abril tinham
ganho o Grande Prémio de Teatro Universitário de Nancy.
Mantém uma ponta de
espanto de como a ditadura proporcionou, a quem o pôde ver, este belíssimo
espectáculo. Ainda agora um pedaço de nostalgia se eleva do teclado onde
escreve. Um verdadeiro luxo para ávida sede de conhecimento de então.
Circunstâncias
pontuais, que agora não vêm ao caso, permitiram-lhe arranjar um bilhete de
imprensa para o espectáculo. Nunca soube se as bilheteiras chegaram a abrir ao
público.
Lembra-se dos
enormes magotes de gente postados em frente do teatro, à espera de um qualquer
passe de mágica que lhes permitisse assistir ao espectáculo.
Uma boa parte da
sala, a rebentar pelas costuras, era constituída por agentes da PIDE.
Um espectáculo
memorável, uma encenação simples, uma humildade de representação que fazia
realçar todo o colectivo e em que se sentia toda a força do poema, a que a
música de Chico Buarque emprestava, um viver e um sentir tão expressivos, e que
a leitura do poema não permitiu, sequer, imaginar.
Passaram todos estes
anos e nunca mais sentiu uma embriagues cultural como a daquela.
noite.
Ainda hoje não
consegue alinhar meia dúzia de linhas decentes, apenas lhe saem banalidades.
Com o espectáculo a
percorrer-lhe as veias, meteu pés por Lisboa fora, madrugada dentro, a falar
sozinho ou, como dizia o José Gomes Ferreira, a falar com os fantasmas e a sua
sombra.
Por um
Dezembro-quase-Natal, de 1967, a descer a Rua do Carmo, viu na montra da
Discoteca do Carmo, o disco de “Vida e Morte Severina”. Entrou, deparou-se com
um preço-de-nota-preta.
Contou os tostões, o
parco subsídio de Natal já tinha viajado para paragens outras, e os que pelo
bolso viajaram, ficaram como sinal. Num ápice voltaria para finalizar o
pagamento e, a certeza certa, que o resto do mês passaria a pão e água,
salsichas Izidoro, mas que se lixasse: aquele gozo já ninguém lhe tirava.
Porque há coisas de
que não podemos deixar passar ao lado.
Soube depois que o
disco na montra era exemplar único, e já há alguns dias que por ali estava, sem
ninguém nele reparar.
Por uma vez,
sentiu-se um tipo com sorte!
Espectáculo
patrocinado pelo Ministério da Educação Nacional, Ministério dos Negócios
Estrangeiros e com a colaboração da Embaixada do Brasil.
Maio de 1966
O Xico nem precisa de letristas. Faz ele próprio. Mas tem
graça que a primeira vez que o vi (tão menino ainda) a “letra” era do poeta
João Cabral de Melo Neto. Produzia-se “Morte e Vida Severina” no Teatro
Avenida. Xico, autor da música vinha integrado no TUCA (Teatro da Universitário
da Universidade Católica de S. Paulo) e também representava. João Cabral, que
acorrera propositadamente de Sevilha ou de Marselha para assistir (ver e dar
assistência…), estava sentado a meu lado. Creio que nunca tinha visto “Morte e
Vida Severina” em cena. Creio que estava a redescobrir o seu texto (pelo qual
não devia já nutrir grande admiração, perfeccionista como é…) Quando, no final,
os aplausos explodiram e começaram a chamar o autor ao palco, João, sem se
virar, cada vez mais enterrado na cadeira, ia-me dizendo apavorado: “Não olha
para mim! Não olha para mim!” Acabou por ter de ser. João Cabral foi coxia
abaixo, pôs a mão no bordo da ribalta e com agilidade saltou para o palco.
Abraços, agradecimentos ao público pela sua estrondosa ovação: João Cabral ao
seu lugar. Digo-lhe: “V. saltou com uma facilidade!” E ele, com orgulho de
rapazinho: “V. esquece que eu joguei futebol!
Alexandre O’ Neill em “Já Cá Não está Quem Falou”, Assírio & Alvim, Abril
2008.