Pelo menos, uma vez por ano, fala-se de Luís de Camões.
Cantar os nossos poetas sempre deu algum falar por aqui.
Em
Março de 2019, publicámos no Cais do Olhar este texto e amanha
voltaremos ainda a este tema:
«Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.
Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.
Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de
Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram
reacções diversas.
José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:
«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho
mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os
Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro
que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».
Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes
Ferreira nunca simpatizou com a ideia.
A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.
A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:
«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de
Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores
cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para
musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas
infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois
discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus
versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até
que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas
aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas
clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes
devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»
Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de
António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve
que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:
«Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

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