Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.
Jorge
Luís Borges
No seu grave recanto,
os jogadores
Deslocam os peões. O tabuleiro
Tem-nos até à alva no altaneiro
Âmbito em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, alta rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.
Quando os jogadores se houverem ido,
Quando o tempo os tiver já consumido,
Nem por isso terá cessado o rito.
A leste se ateou uma tal guerra
Que hoje se propaga a toda a terra
Como o outro, este jogo é infinito.
Jorge Luís Borges
Jorge Luís Borges disse
um dia que, ao fim de tantos anos, ao fim de demasiados anos, chegara à
conclusão que só devemos escrever sobre aquilo de que gostamos.
Autor desconhecido
O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um
rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o
tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo desgraçadamente é
real; eu, desgraçadamente, sou Borges.
Jorge Luís Borges
Jorge Luís Borges
Legenda: pintura de Leonid Pasternak
Todos
os anos por Abril, Luís Alves, o dono da Livraria
Ler, junto ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, expunha, nas suas
montras, livros que foram proibidos pela PIDE, bem como os respectivos autos de
apreensão.
Luís
Alves tinha 83 anos quando morreu a 23 de Janeiro de 2015.
Durante
os consulados ditatoriais de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano terão siso
proibidos cerca de 4.000 livros de autores portugueses e estrangeiros.
«Aos serviços
de Censura pertence o encargo de corrigir o ambiente político», escrevia em
1932, o Director Geral da Censura, Major
de Artilharia Álvaro Salvação Barreto.
Manuel
António Pina:
«Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez de
ter lido os livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente
cruzar-me-ia comigo na rua e não me reconheceria.
Quando lhe perguntaram um dia quem era, Borges
respondeu que era todos os livros que lera. Todas as pessoas que amara, todos
os lugares que conhecera.»
Sabe-se que não recebeu o Prémio Nobel devido ao alinhamento
político que manteve com a ditadura argentina.
Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto
contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.
Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia
política.
«É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes
encarcerados.»
Certamente esta
história afastou-o de Borges. Leu muito pouco.
António Mega Ferreira
é um enorme admirador de Jorge Luís Borges. Em 1980 entrevistou o autor. «Borges ao Anoitecer» consta de «Retratos de Sombra»:
«É contra as ditaduras?
Uma pausa, «Contra todas não, pelo menos em abstracto. Admito que possa
haver ditaduras que sejam boas.» Outra pausa, mais longa: «Mas devo confessar
que não sei da existência de nenhuma que tenha sido positiva.»
Defende então a democracia?
Também não. Foi a democracia que conduziu ao poder demagogos como
Hitler ou Péron.
Que propõe, então?
Não sei. Sabe, eu tenho dificuldade em compreender as coisas reduzidas
às fronteiras de um país, muito menos de um partido,político. Eu não sou, nunca
fui um nacionalista. Sinto-me igualmente cidadão de Genève, Londres e Buenos
Aires. Oenso que há mais segurança no bairro chinês ou no bairro italiano de
Nova Iorque do que em muitos países onde há um governo forte. O que há ali são
formas de autoridade que escapam totalmente à lógica dos governos: uma
antiquíssima cultura ou uma Máfia organizada. Por isso sou céptico em relação
aos governos que se assumem como tal: quero im mínimo de governo, e muito
curto.
E acha que, um dia, seremos er capazes de merecer…
… que pura e simplesmente, os governos deixem de existir.»
História Universal da Infâmia
Jorge Luis Borges
Tradução: José Bento
Capa: Rui Belo/Silva
Editorial Teorema, Lisboa, Janeiro de 2009
O verdadeiro Mafoma, que redigiu o Alcorão, já não é visível para os seus adeptos. Disseram-me que no princípio mas que pretendeu dominá-los e foi exilado no Sul. Uma comunidade de muçulmanos foi instigada pelos demónios a reconhecer Mafoma como Deus. Para aplacar o distúrbio, Mafoma foi trazido dos infernos e exibiram-no. Nesta ocasião, vi-o. Parecia-se com os espíritos corpóreos que não têm percepção interior, e a sua cara era muito escura. Pôde articular as palavras: «Eu sou o vosso Mafoma» e imediatamente se sumiu.
24
de Março de 1992
Toda a gente sabe que Jorge Luís Borges
é um heterónimo de Fernando Pessoa e Pessoa um sonho de Borges.
Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II
Cá vamos indo, meninos, ouviu dizer, estamos à espera não se sabe bem o quê, da vacina-pró-covid?, cá vamos indo… cantando e rindo… bem, isso nunca mais… mas a juke box é capaz de ter o mambo italiano e dava para entreter, mas que versão? a do velho Dino? a da eterna Sophia Loren? cá vamos indo, meninos, ouviu dizer… mas até onde?... até… sabe lá… mas onde os limites? , de que falava Borges…
«Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.»
…a coisa mais
acertada que escreveu, mas tu nem sequer suportas o Borges, dito José, dito
Luís, dito cego, que, como contou Julio Cortazar sempre esteve alinhado com os
ditadores argentinos, um dia recusou assinar um manifesto contra a ditadura, alegando
que não sabia de nada, amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do
edifício da polícia política,«é
cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.»…
vamos indo… vamos indo… desgastados… desgastados…