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quarta-feira, 27 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.

Jorge Luís Borges

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

NO SEU GRAVE RECANTO

No seu grave recanto, os jogadores
Deslocam os peões. O tabuleiro
Tem-nos até à alva no altaneiro
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, alta rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Quando os jogadores se houverem ido,
Quando o tempo os tiver já consumido,
Nem por isso terá cessado o rito.

A leste se ateou uma tal guerra
Que hoje se propaga a toda a terra
Como o outro, este jogo é infinito.


Jorge Luís Borges 

sábado, 28 de dezembro de 2024

POSTAIS SEM SELO

Jorge Luís Borges disse um dia que, ao fim de tantos anos, ao fim de demasiados anos, chegara à conclusão que só devemos escrever sobre aquilo de que gostamos.

Autor desconhecido

sexta-feira, 29 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO

O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo desgraçadamente é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.

Jorge Luís Borges

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.

Jorge Luís Borges

Legenda: pintura de Leonid Pasternak

terça-feira, 25 de abril de 2023

EM ABRIL, COM O SR. ALVES E O SR. PINA



 


Todos os anos por Abril, Luís Alves, o dono da Livraria Ler, junto ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, expunha, nas suas montras, livros que foram proibidos pela PIDE, bem como os respectivos autos de apreensão.

Luís Alves tinha 83 anos quando morreu a 23 de Janeiro de 2015.

Durante os consulados ditatoriais de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano terão siso proibidos cerca de 4.000 livros de autores portugueses e estrangeiros.

 «Aos serviços de Censura pertence o encargo de corrigir o ambiente político», escrevia em 1932, o Director Geral  da Censura, Major de Artilharia Álvaro Salvação Barreto.

Manuel António Pina:

«Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez de ter lido os livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente cruzar-me-ia comigo na rua e não me reconheceria.

Quando lhe perguntaram um dia quem era, Borges respondeu que era todos os livros que lera. Todas as pessoas que amara, todos os lugares que conhecera.»

segunda-feira, 28 de março de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Em breve saberei quem sou.

Jorge Luís Borges

sexta-feira, 4 de março de 2022

OLHARES


 Não faz parte dos inúmeros e incondicionais leitores do panteão onde se louva Jorge Luís Borges.

Sabe-se que não recebeu o Prémio Nobel devido ao alinhamento político que manteve com a ditadura argentina.

Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.

Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política.

«É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.»

Certamente esta história afastou-o de Borges. Leu muito pouco.

António Mega Ferreira é um enorme admirador de Jorge Luís Borges. Em 1980 entrevistou o autor. «Borges ao Anoitecer» consta de «Retratos de Sombra»:

«É contra as ditaduras?

Uma pausa, «Contra todas não, pelo menos em abstracto. Admito que possa haver ditaduras que sejam boas.» Outra pausa, mais longa: «Mas devo confessar que não sei da existência de nenhuma que tenha sido positiva.»

Defende então a democracia?

Também não. Foi a democracia que conduziu ao poder demagogos como Hitler ou Péron.

Que propõe, então?

Não sei. Sabe, eu tenho dificuldade em compreender as coisas reduzidas às fronteiras de um país, muito menos de um partido,político. Eu não sou, nunca fui um nacionalista. Sinto-me igualmente cidadão de Genève, Londres e Buenos Aires. Oenso que há mais segurança no bairro chinês ou no bairro italiano de Nova Iorque do que em muitos países onde há um governo forte. O que há ali são formas de autoridade que escapam totalmente à lógica dos governos: uma antiquíssima cultura ou uma Máfia organizada. Por isso sou céptico em relação aos governos que se assumem como tal: quero im mínimo de governo, e muito curto.

E acha que, um dia, seremos er capazes de merecer…

… que pura e simplesmente, os governos deixem de existir.»

 

quinta-feira, 3 de março de 2022

OLHAR AS CAPAS

 


História Universal da Infâmia

Jorge Luis Borges

Tradução: José Bento

Capa: Rui Belo/Silva

Editorial Teorema, Lisboa, Janeiro de 2009

O verdadeiro Mafoma, que redigiu o Alcorão, já não é visível para os seus adeptos. Disseram-me que no princípio mas que pretendeu dominá-los e foi exilado no Sul. Uma comunidade de muçulmanos foi instigada pelos demónios a reconhecer Mafoma como Deus. Para aplacar o distúrbio, Mafoma foi trazido dos infernos e exibiram-no. Nesta ocasião, vi-o. Parecia-se com os espíritos corpóreos que não têm percepção interior, e a sua cara era muito escura. Pôde articular as palavras: «Eu sou o vosso Mafoma» e imediatamente se sumiu.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

TODA A GENTE SABE

24 de Março de 1992

Toda a gente sabe que Jorge Luís Borges é um heterónimo de Fernando Pessoa e Pessoa um sonho de Borges.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Cá vamos indo, meninos, ouviu dizer, estamos à espera não se sabe bem o quê, da vacina-pró-covid?, cá vamos indo… cantando e rindo… bem, isso nunca mais… mas a juke box é capaz de ter o mambo italiano e dava para entreter, mas que versão? a do velho Dino? a da eterna Sophia Loren? cá vamos indo, meninos, ouviu dizer… mas até onde?... até… sabe lá… mas onde os limites? , de que falava Borges…

«Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,

Há uma rua próxima vedada aos meus passos,

Há um espelho que me viu pela última vez,

Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.

Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)

Algum existirá que já não abrirei.

Este verão farei cinquenta anos;

A morte, incessantemente, vai-me desgastando.»

…a coisa mais acertada que escreveu, mas tu nem sequer suportas o Borges, dito José, dito Luís, dito cego, que, como contou Julio Cortazar sempre esteve alinhado com os ditadores argentinos, um dia recusou assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada, amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política,«é cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.»… vamos indo… vamos indo… desgastados… desgastados…

segunda-feira, 24 de abril de 2017

LIMITES


Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.

Entre os livros da minha biblioteca estou (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

Jorge Luís Borges

Legenda: fotograma de O Sétimo Selo de Ingmar Bergman

quarta-feira, 5 de abril de 2017

VOU-TE CONTAR UMA HISTÓRIA


Maria do Rosário Pedreira revelou, há dias, no seu blogue, «Horas Extraordinárias» que, andando à procura do poema «Ceguinha» de João de Deus foi ter a um blogue com uma extensa lista de obras literárias relacionados com o problema da cegueira.

Inevitavelmente, está nessa lista o Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago - «se podes olhar, vê. Se podes ver, repara» – e também A Nau de Quixibá de Alexandre Pinheiro Torres, um livro imperdível.

Curiosamente, o texto seleccionado do livro de Pinheiro Torres, é um dos muitos pedaços que do livro sublinhei.

 Um tanto longo e que aguardava disponibilidade para ser transcrito.

São páginas muito bonitas.

Aproveito a boleia do blogue «Sobre a Deficiência Visual» e transcrevo-as.

Deixo ainda uma citação de Jorge Luís Borges que um viajante do «Horas Extraordinárias» deixou na caixa de comentários:

«Para a tarefa de um artista, a cegueira não é necessariamente uma limitação. Ela pode ser um instrumento».

A blogosfera, tirando alguma – muita! – javardice que por lá campeia, oferece-nos pérolas que nos fazem sentir gente.

Esticou o braço para o seu lado esquerdo donde o pobre do sol, moribundo, ainda fulgurava nas suas barbatanas rápidas,
«Vou-te contar uma história. Havia aqui um homem quase cego desde nascença. Tanto lhe minguava a luz que, para ele, quem lhe falasse surgia-lhe como uma mancha equilibrada no alto de um varapau de palavras. Antes de o conhecer não acreditava que um cego pudesse ter confiança fosse no que fosse. Sempre dissera a mim próprio: "os cegos são as pessoas mais inseguras do mundo". com os anos descobri que me enganava. O cego de que te falo nunca tivera qualquer receio em atravessar as ruas de S. Tomé. Caramba!, sempre há algum tráfego! Mas se fosse forçado a cruzar uma das ruas da Baixa de Lisboa, caso estivesse a elas afeito, não seria por se lhe deparar mais movimento que se mostraria mais aflito. Possuía, desde o mais fundo de si, uma confiança absoluta no poder da bengala às listas brancas e negras. Um dia perguntei-lhe: "Você não tem medo dos perigos?" Voltou para mim os olhos parados (eu seria apenas mais uma mancha, apenas com voz diferente), e contestou-me: "Que perigos?" O homenzinho mostrava-se surpreendidíssimo. "Ser cego", disse-me, "também tem as suas vantagens. Não posso ter medo daquilo que não vejo." Era tão óbvia a minha incompreensão do mundo do cego que insisti: "Você não tem, por exemplo, medo das alturas?" Ele riu-se: "Oh!, meu bom senhor!, então vossemecê julga que eu vejo as alturas?" Olha, meu filho, fiquei com cara de parvo, mas, como ele não podia ver-me a cara de parvo, aguentei firme.»
Aqui foi acometido por um prolongado ataque de tosse: "mas que grande chatice!". Entrelaçou os dedos das mãos (notei que a aliança lhe estava larguíssima), e deteve-se à tona de um sorriso que realmente era só água:
«E depois?», perguntei-lhe.
Queria animá-lo a mudar de assunto: ressuscitar o sol.
«Bom. Um dia soube-se que vinha de Luanda um oftalmologista de fama passar aqui umas férias a casa de um irmão, aliás primo do Governador. Houve gente aí que aproveitou logo para consultá-lo, até eu, mas alguém falou-lhe do cego, porque o oftalmologista examinou-o e desde logo afirmou que aquele era um dos casos de fácil cura. O espanto é que o cego andava como doido. Perguntava a toda a gente: «Que vai ser de mim quando deixar de ser cego?» Um dia, encontrava-me eu na cidade, vejo-o parado à beira de um passeio. Não vinha qualquer automóvel, mas havia uma curva perto. Eu atravessei e ele ficou parado a olhar para todos os lados. Houve um momento em que pôs o pé direito na rua mas retirou-o logo: «Então você agora é que tem medo de atravessar?» Ele olhou-me e disse-me: «Reconheço-o pela voz. Já sabia que o senhor era pequeno, mas não julguei que o fosse tanto!» O cego, aliás o ex-cego, estava de boca aberta, e, nisto, diz-me uma coisa espantosa: «Oh!, meu senhor, afinal os cegos têm medo de ver. Pode surgir um carro dali da curva e eu não ter tempo de ir para o outro lado.»
«Um cego ter medo de ver», pus-me a rir. «Essa realmente é muito boa.»
O meu Pai é que não ria.
«A história que te contei é uma anedota?», perguntou-me.
«Que é então?»
Olhava-o em desafio. «Então na história que te contei, aliás verdadeira, não há nada de terrível?»
«Terrível?»
Nem tentei procurar uma justificação para o adjectivo. Terrível, porquê? Mais valia considerá-la uma história de fadas. Imagine-se!, um cego com tanta sorte que lhe aparece um oftalmologista, como que caído do céu, e que torna a ver, quando há muito já perdeu as esperanças. Então enchia-se de medo de ver. «Medo de ver?» Era de escachar a rir.
«E que tal um paralítico com medo de andar?", ripostei, folgazão. "E um surdo com medo de ouvir? E um mudo com medo de falar? E um morto com medo de viver?»
Ria, claro, para me vingar. Também precisava de o ferir. Ele não achava piada nenhuma. Só murmurou, quase inaudível: «E um cérebro com medo de pensar?» Voltou-se para mim:
«Então tu não percebes que ninguém tinha ensinado o cego a ver? Puseram-lhe uma bengala nas mãos. A bengala tornou-se-lhe artigo de fé. Mas quem cuidou de ensinar-lhe como atravessar uma rua por si só, de olhos abertos, ele que sempre atravessara todas as estradas, pontes, picadas e vaus da ilha de olhos fechados, defendido pela bengala? Ele viera de um universo que conhecia. Do seu planeta de cego. Esse era o mundo que tinha aprendido, que lhe tinham ensinado, o mundo em que acreditava, em que depositava confiança, a que sabia responder.»
Suspendeu-se. Eu também parei de rir com a certeza agora confirmada de que a história prolongava a conversa acintosa de há momentos. Meu Pai realmente era habilidoso. Não dispunha de uma mentalidade apenas meramente óbvia. Diagnóstico que se me impôs no mesmo segundo que ouvi, do cofre das lembranças, esta frase de minha Mãe: «Teu Pai foi sempre uma luz debaixo de um alqueire. Quando nós namorávamos escrevia-me as cartas mais bonitas que até hoje se escreveram. Ainda hoje sei algumas de cor.» Logo se fechara arrependida do desabafo.
Ora eis o que me desagradava no meu Pai: a urgência de contestar, de convencer, de refutar, e, por certo, a de justificar-se como falhado. Isto num tom a roçar o ostentoso, ou o teatral. Como para demonstrar a exactidão do meu diagnóstico, fez outro longo gesto para o alto. Para o sol que morria? Alçando a cabeça e olhando-me como se fosse agora dois ou três palmos mais alto do que eu, intimou-me com a espingarda apontada do dedo:
«Então vem-nos, de súbito, uma luz de uma fonte inesperada, vemos o que nunca vimos antes, ficamos a saber que há todo um mundo para aprender e obstinámo-nos com a bengala? Então descobrimos que a luz de que antes dispúnhamos até nos encerrava no conforto da cegueira, e não nos assustamos? O problema do ex-cego é que ele tinha, além do mais, todo o seu mundo-de-cego para desaprender.»
No seu inesperado entusiasmo quase se ergueu do cadeirão, de tal forma que me roubava por completo o resto do sol. E eu a gozar aquele tão minguadíssimo calor com a avareza de Diógenes. Disse-lhe:
«Oh!, meu Pai, estás-me a tirar o sol!» Reclinando-se novamente na cátedra de palha, respondeu-me com estranhíssima calma:
«Não gostaria que me tivesses vindo ver, e de tão longe, para eu, como prémio, nem sequer te proporcionar um pouco de luz.»
Houve, de novo, um longo silêncio. A ala esquerda das nuvens forçava as barbacãs do cume do Calvário. A luta parecia desigual. A bruma venceria a pedra. Mais próximo do mar, mas muito mais enterrado no algodão negro do firmamento, o pico de S. Tomé já desaparecera do campo da batalha.
Que significaria a história do cego? Que meu Pai não se encontrava de acordo com a maneira como a juventude do país era conduzida? Ora a novidade! Se não errava na moral da parábola, esta constituía mesmo um insulto disfarçado ao Portugal contemporâneo. Que poderia querer significar senão que eu, como os meus iguais, vogávamos encantados num mundo que era imperativo desaprender? Teria meu Pai acabado de se me propor como o oftalmologista de que eu, na aparência, tanto carecia?
«O cego só começou a ter dúvidas depois de lhe restituírem a vista...»


Legenda: imagem de Michael Ancher tirada de «Sobre a Deficiência Visual».

sábado, 7 de janeiro de 2017

LER PODE SER MELHOR QUE VIVER


Pode-se viver sem ler?

Pode, mas vive-se pior.

Há discursos sagrados em redor dos livros mas nada impede que Pepe Carvalho, o célebre detective de Manuel Vasquez Montalban, doente pelo Barcelona, bom garfo, amante de um bom cognac e um “puro” , também de boleros, admirador de mulheres nas “ramblas”, pusesse o detective de Manuel Vasquez Montalban, todas as noites acender a lareira com as páginas das suas leituras preferidas.

Num país de iletrados não é difícil encontrar ignorantes.

Pena é que sejam burros ao ponto de, orgulhosamente, afirmarem que nunca leram um livro, como se isso fosse uma prova de entrada no reino dos céus.

Números velhos, talvez de 2004, mostravam que 1 em cada 10 portugueses não sabe ler ou escrever. São os analfabetos absolutos. Depois há os alfabetizados (teoricamente) que não lêem (90% dos portugueses) e os que lêem, mas não sabem interpretar, nem assimilar o que lêem.

Conheço criaturas que frequentaram, ou tiraram um curso superior, sem ter um único livro em casa, mesmo do que andaram a cursar.

Como tudo isto acontece?

Diz quem andou por lá, que há estupendas “sebentas” nas nossas faculdades.

Cabe aqui a história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: “Evito!”
       
          Os nossos livros estão empoeirados
           canecas de cerveja ensinam melhor,
           a cerveja dá-nos  prazer,
           os livros só aborrecimentos.

Fia-te nos que gostam de ler, desconfia quando alguém te diz que não tem tempo para ler, dizia o meu avô, um leitor compulsivo.

Os pobres não lêem porque não têm meios e os ricos porque não querem.

É mais fácil passar o tempo a olhar para a televisão. Outros há que desviam o dinheiro que têm para outras prioridades: comprar um carro topo-de-gama, comprar uma casa na praia, férias em Punta Cana ou qualquer outro lugar exótico.

Lê-se porque sim, porque não se pode deixar de ler. 

A leitura é um hábito que, no entanto, necessita de constante exercício porque quando se perde o hábito de ler, a necessidade de ler, o prazer de ler, corre-se o risco de não se recuperar.

Não é bem como andar de bicicleta...

François Truffautt adaptou ao cinema um livro de Ray Bradbury: Farenheit  451.

Filme e livro perturbantes.

Ler é pecado, quem pensa é um fora da lei.

 Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, cantava o José Afonso,  Mao Tsé Tung  dizia que ler demasiado é prejudicial, Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito.

Escreveu Paul Valery que os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo, e o seu próprio conteúdo.

William Wrigley, milionário da pastilha elástica, ao mobilar o seu sumptuoso apartamento, em Chicago, deu ordens à secretária: Meça-me aquelas prateleiras e compre-me os livros suficientes para mas encher. Arranje-me uma data de livros de um verde e um encarnado vivos e com uma batelada de letras douradas. Quero uma vista catita.

Livros para completar a mobília, dizia o Eça de Queiroz.

Jorge Luis Borges afirmou que o paraíso, se existe, tem a forma de uma biblioteca e o poeta francês Stéphane Mallarmé sabia que tudo no mundo existe para se transformar em livro.

Nota do Editor: o título é uma frase do Jorge Silva Melo


Legenda: pintura de Di Cavalcanti

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Há sempre uma dose de mistério na vida de uma pessoa. Tal como na poesia.

Jorge Luís Borges

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PRÉMIOS, PREMIADOS, DESPREMIADOS


John Steinbeck ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1962.

Como passados cinquenta anos a Academia Sueca abre os ficheiros que contém as actas da atribuição dos prémios, ficou, agora, a saber-se que a atribuição do Nobel a Steinbeck aconteceu porque a Academia considerava não existir nada melhor.

Na lista dos finalistas desse ano encontravam-se o dramaturgo francês Jean Anouilh, a escritora dinamarquesa Karen Blixen e os britânicos Lawrence Durrell e Robert Graves.

Karen Blixen foi retirada da lista por ter morrido naquele ano, as hipóteses de Anouilh esgotavam-se porque Saint-John Perse vencera o Nobel em 1960 , quanto a Lawrence Durrell, foi considerado que não estava maduro o suficiente para receber o prémio, já para não falar do erotismo que navega na sua obra, Robert Graves era um poeta britânico e a Academia, enquanto Ezra Pound estivesse vivo, tendo em vista as suas simpatias pelo fascismo italiano, não daria o prémio a um poeta inglês.

Restava John Steinbeck que, para além de outras obras, já publicara A Um Deus Desconhecido, As Vinhas da Ira e Ratos e Homens.

Considerar que estas obras não têm o valor para atribuir um Nobel ao seu autor é, no mínimo estranho, bizarro, não dá mesmo para acreditar.

Curiosamente, Steinbeck, no discurso da entrega do prémio, manifestara as suas dúvidas se não existiam outros autores, autores que reconhecia e respeitava,  que não merec4essem ganhar o Nobel, mas isso é apenas Steinbeck numa de humildade.

Não leio livros porque os seus autores ganharam o Nobel, não vejo filmes porque os seus realizadores venceram óscars da Academia, não ouço música por lhe ter sido atribuída um qualquer prémio.

Já era, há muito, seu leitor, entusiasmado leitor, quando José Saramago recebeu o Nobel.

As razões da Academia, os estranhos critérios, na atribuição do Nobel a Steinbeck, voltam a pôr a nu as omissões que se têm verificado, as atribuições a gente que hoje ninguém sabe quem foi, ou, sequer que livros escreveram.

Jorge Luís Borges, por exemplo, não recebeu o Nobel devido ao seu alinhamento político que manteve com a ditaduras argentina.

Pode-se, discordar... mas Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.

Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política.

É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.

O meu livro preferido de Steinbeck é A Um Deus Desconhecido, mais do que As Vinhas da Ira um grande romance que originou um admirável filme realizado por John Ford.

O começo do livro mostra logo a envolvência poética que percorre todo o livro, aquela frase solta, com humildade:

A terra vai deixar de chegar, senhor pai.

E, apesar das reticências do pai, este acaba por o abençoar e ele parte em busca dessa terra, uma terra que ali não esticava.

Depressa veio o Inverno, com a neve alta, e o ar enregelou-se em agulhas. Durante um mês Joseph vagueou pela casa, custando-lhe abandonar a sua juventude e todas as fortes recordações materiais da juventude; mas a bênção paterna desligava-o de tudo. Era um estranho naquela casa e sentia que os irmãos ficariam contentes quando ele se fosse embora. Partiu antes da chegada da Primavera, e as colinas da Califórnia estavam cobertas de verde quando ele lá chegou.