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quarta-feira, 5 de março de 2025

OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.

Malcolm Lowry

sábado, 12 de maio de 2018

QUE MUNDO ESTE!


Que direito tinha Yvonne a dizer aquilo, justamente quando ele havia passado vinte e cinco minutos sem tocar em qualquer bebida decente por amor dela e isto para chegar à conclusão de que, aos olhos de Yvonne, estava tudo menos desembriagado! Ah, uma mulher era incapaz de reconhecer os riscos, as complicações e – sim -  a importância da vida de um bêbedo! Qual seria o inconcebível ponto de vista em que ela se estribaria para avaliar o que tinha sido a vida dele antes do seu regresso? E Yvonne não sabia nada, nada de tudo aquilo por que ele recentemente passara, como por exemplo, a queda que dera na Calle Nicarágua, o aprumo, a calma e até a valentia que ele então demonstrara por altura do uísque irlandês de Burke! Que mundo este! E o pior de tudo é que ela havia estragado aquele momento. Porque o Cônsul, agora, lembrando-se do dito de Yvonne: «Talvez tome um depois do almoço» e tudo o que aquela frase subentendia, sonhava que teria sido capaz de dizer impulsivamente (só por causa do comentário dela e arriscando até a própria salvação): «Sim, claro que havemos de ir!». Mas quem é que podia concordar com uma pessoa, senhora daquela certeza enorme de que ele se encontraria no seu estado normal daí a dois dias? Aquilo era como ignorar, segundo o conceito superficialissimo de Yvonne, o que toda gente sabia: que ninguém era capaz de descobrir quando é que ele estava bêbado.

Malcolm Lowry em Debaixo do Vulcão

Legenda: fotograma de Debaixo do Vulcão de John Huston

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Nada, no mundo, existia de mais terrível do que uma garrafa vazia! A não ser um copo vazio.

Malcolm Lowry em Debaixo do Vulcão

Legenda: pintura de Guy Péne du Bois

domingo, 23 de outubro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Debaixo do Vulcão

Malcolm Lowry
Tradução: Virgínia Motta
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 61
Livros do Brasil, Lisboa s/d

No ano anterior chovera precisamente quando não devia. E aquelas nuvens do sul indicavam tempestade. Teve a impressão de que cheirava a chuva. Pensou que nada lhe seria mais agradável do que ficar encharcado até aos ossos, caminhando, assim, por muito tempo, naquela região bravia, vestido de flanela branca, cada vez mais e mais encharcado. Pôs-se a observar as nuvens: eram como cavalos velozes, saltando pelo céu fora. Uma tempestade sinistra e extemporânea que ia estalar! Assim era o amor – pensou – o amor, quando chegava tarde de mais. Simplesmente, a esse não se sucedia a calma salutar, como quando a fragância da tarde ou a luz branda do sol e o calor voltavam à terra surpreendida! Laruelle apressou ainda mais o passo. E que semelhante amor, mudo, cego e louco, nos assalte – nem por isso o nosso destino é alterado de acordo com as precedentes comparações. Tonnere de Dieu… Não servia de nada dizer a que se assemelhava o amor quando vinha tarde de mais.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Envelhece-se mais devagar ao anoitecer. A morte enrrosca-se, faz uma trégua até que de novo amanheça. Sou um homem nocturno, a luz do dia aumenta o conhecimento da minha escassa eternidade.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.